Por
Fernando Brito
Ontem, cedinho,
escrevi aqui que
a simples exclusão daqueles que vieram da política e sua substituição
por “técnicos” não tinha senão um significado demagógico sob o ponto de
vista da honradez no trato do dinheiro público.
Infelizmente, nas primeiras horas da manhã, os fatos confirmaram aquilo que eu dissera.
Fábio Cleto, a nova estrela da constelação dos delatores, é um técnico, jamais teve militância política.
Eu o vi algumas vezes, a caminho das reuniões do Conselho do FGTS, onde era representante da Caixa.
Tudo o fazia “respeitável”: de pouco falar, discreto, a aparência
yuppie,
os ternos bem cortados rosto e cabelo alinhados, bem diferentes do
jeitão mal-ajambrado daqueles velhos esquerdistas aos quais os “bacanas”
torciam o nariz.
O currículo dele ainda está no
Linkedin, devidamente em inglês: bacharel pela FGV,
Master Science
pela USP. com passagens relativamente longas pelos bancos ABC Roma
(Roma não é a cidade, mas a junção das sílabas iniciais de Roberto
Marinho), Nacional, Multiplic, Brascan, Dresdner Bank, Itaú e uma
corretora, a Aquitaine.
Perfeito. Cleto não se metia em “política” nem tratava de propina.
Mas é um ladrão e era uma gazua para ladrões muito maiores.
Repassando: Cleto passava a Eduardo Cunha a lista de quem se
candidatava a empréstimos do Fundo de Investimentos do FGTS, Cunha
extorquia as empresas onde via chance de fazê-lo, passava ao “técnico” a
orientação de aprovar ou “melar” a operação, sempre “tecnicamente”,
apanhava-se o dinheiro e o rapaz recebia sua parte em contas de
offshores na Suíça e no Uruguai.
É óbvio que nem todo profissional “de mercado” é corrupto ou cúmplice
de corruptos. Conheço muitos e não me envergonho de dizer que tenho
vários amigos entre eles, aos quais considero gente correta e de
princípios, à parte diferenças ideológicas.
Mas a lógica do “mercado” é, porque é a de ganhar dinheiro aproveitando oportunidades.
Cleto aproveitou a dele e alguns milhões amealhou com isto (duvido muito que todos devolvidos à Justiça).
Vai sair disso com uma tornozeleira e uma vida bem mais folgada que a
de uma geração de militantes políticos que, se muito, chega à velhice
com um apartamento modesto e alguns cobres guardados para o hospital ou
a decrepitude, um dos dois algum dia inevitável.
O vilão – e o é, e muito – é Eduardo Cunha. O delator, nossa nova modalidade de herói midiático-judicial, é quase um herói.
O endeusamento desta modalidade de “virtude” é algo tão perigoso e
daninho quando achar que, na tecnocracia, não viceja, também, a cle(
p)tocracia.
A política, longe de ser a promotora da corrupção, é um mecanismo de
controle dos desvios próprios da natureza humana, porque os coloca sob o
crivo do julgamento coletivo e social.
Crivo que não haverá se os partidos políticos são destruídos e o que valer para a eleição for ter mais e melhores
cletos.
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