
O Nassif publicou hoje
uma análise sobre o recente ataque da Folha aos blogs, em
reportagem
de página inteira publicada ontem. Eu gostaria de complementar o texto
de Nassif com algumas observações. Talvez eu repita pontos já levantados
por Nassif, mas é que eu gostaria de ressaltar umas coisas.
Em
primeiro lugar, destaquemos a bizarrice de uma matéria sobre um
não-fato. Não há notícia. A reportagem não informa ao leitor para onde o
dinheiro de seus impostos está sendo destinado. Ele sabe que não há
mais um centavo indo para os 13 blogs pesquisados. Ok. Mas então para
onde está indo o dinheiro? Quanto foi gasto em publicidade federal de
maio até agora? Para quais veículos foram destinadas os recursos?
Não interessa! Seria cômico, não fosse trágico. É um jornalismo às avessas.
O
Cafezinho, que a grande mídia e o governo, no afã de censurá-lo, chamam
de "blog pró-PT", traz a informação sonegada pela Folha. Fizemos o que o
jornal, que recebe milhões em verbas públicas, não fez: informar ao
leitor para onde está indo o suado dinheiro de seus impostos, desde
maio, quando um novo governo assumiu o poder.
Não é tão difícil.
Fomos ao site do Secom e o consultamos. Exportei todos os contratos
pagos de maio até agosto deste ano para uma tabela excel, indexei pela
coluna de valor e a publico
aqui.
E
abaixo, uma tabelinha editada, com dados compilados, mostrando os
maiores recebedores de verbas publicitárias federais de maio até agosto
deste ano.
Esses
dados são inéditos e exclusivos do Cafezinho, e se me permitem a
deselegância de fazer autopromoção, nos ajudam também a enterrar o
argumento usado pelo governo Temer para cortar qualquer publicidade
federal aos blogs, o de que não produziríamos "conteúdo de interesse
público" (o que é, evidentemente, uma asserção profundamente
autoritária, porque omite que é impossível, numa democracia, definir o
que seja "conteúdo de interesse público", e por isso, e só por isso, é
que a liberdade de expressão e a diversidade são tão importantes).
Como
sempre, é uma realidade grotesca. A Globo, sozinha, amealha cinco vezes
mais do que seu principal concorrente. É o Estado brasileiro
colaborando para o monopólio da mídia. O PT, sempre é bom lembrar, não
fez nada para mudar essa realidade. Em 2015,
reportagens
na própria grande mídia informavam que apenas a TV Globo, sob governos
do PT, havia recebido R$ 6,2 bilhões de recursos federais. Se somássemos
o que outros veículos da Globo (jornais, portal, editora, rádio)
ganharam no período, esse valor poderia chegar perto de R$ 9 bilhões de
verba pública, ou seja, meu, seu, nosso dinheiro.
Importante
frisar que esses números não incluem as estatais, onde estão importantes
contratos de publicidade. Mas eles nos dão um sinal bastante claro
sobre a orientação do governo.
Outro ponto que devemos ter em
mente é que o governo golpista apenas conseguiu se tornar efetivo há
poucas semanas. Ainda não tiveram tempo hábil para pagar à mídia pelos
serviços prestados.
Entretanto, por mais que seja necessário
criticar o PT por não ter feito nada para combater o monopólio da mídia,
também é justo admitir que o partido agiu assim não apenas por
covardia. Ele também tinha o justificado e louvável receio de parecer
não-democrático, caso implementasse medidas que prejudicassem órgãos de
mídia identificados com a oposição. O PT sempre prezou muito a sua
imagem de esquerda moderada, democrática e republicana, e faturou
politicamente, aqui e lá fora, com essa postura. Mas o preço, como agora
se constata, foi alto.
O governo Temer e seus apoiadores na
mídia não parecem ter um pingo do mesmo escrúpulo. O próprio título da
reportagem na Folha já é uma denúncia em si de censura política.
Nem
vou comentar a calhordice de chamar contratos de publicidade de
"repasse". Repare, todavia, que, ao chamar os blogs em questão de
"pró-PT", a reportagem endossa a acusação de que o governo Temer
promoveu uma censura política. Sim, porque o governo Dilma, por exemplo,
jamais pensou em cortar verbas publicitárias da Folha ou Globo, mesmo
sendo uma unanimidade de que esses veículos sempre foram profundamente
"anti-PT" e "pró-PSDB".
Por trás dessa bizarra reportagem da
Folha, e de sua não-notícia, há uma teoria bastante original de
democracia, na qual os cidadãos de esquerda não têm mais seus direitos
políticos garantidos. Sendo assim, os blogs e sites que este setor da
sociedade gosta de ler não tem nenhum direito às verbas publicitárias
federais.
O governo Temer suspendeu a já mísera publicidade
federal para os blogs assim que assumiu o poder, ainda interinamente, em
maio. A grande imprensa
noticiou
a decisão com estardalhaço. Foi a primeira iniciativa política do
governo Temer. E ele o fez, sabidamente, para ganhar aplausos da grande
mídia. E ganhou os aplausos. A imprensa corporativa passou semanas
requentando os números fornecidos pelo governo para atacar os blogs, em
reportagens e editoriais.
A grande mídia, no entanto, deve ter
ficado decepcionada com a mediocridade dos valores publicitários pagos
aos blogs. Observe esse trecho da reportagem da Folha publicada ontem:
Agradeço
a Folha pela publicidade gratuita no jornal de maior circulação no
país, mas os valores mostrados ali provam a tese contrária vendida pela
mídia. Os governos do PT, em especial o de Dilma Rousseff, não deram
nenhum favorecimento aos blogs. Os valores, em termos de publicidade,
são irrisórios, sobretudo considerando que eles se referem a 17 meses. E
olha que, segundo a reportagem, esses foram os "mais bem pagos"! No
caso do Cafezinho, a situação é quase irônica, porque, em 13 anos de
governos petistas, esse montante foi praticamente a única coisa que
recebemos pela venda de espaço publicitário - enquanto a Globo ganhou
mais de R$ 9 bilhões...
A Folha parece ter se esquecido de uma
reportagem feita por ela mesma. Ou melhor, duas reportagens. Uma delas
informava que, num intervalo parecido de tempo ao apurado na reportagem
contra os blogs, mas entre 2014 e 2015, o governo paulista pagou R$ 1,5
milhão a revistas de João Dória, candidato do PSDB à prefeitura de São
Paulo.
Somente um contrato de publicidade, a revista Caviar
Lifestyle recebeu R$ 501.200! Isso não parece ter incomodado ninguém.
Quem foi atacado em editorial por Estadão, Folha, Veja e Globo, além do
imenso conjunto de sites e blogs subalternos à mídia, foi o... Cafezinho
e os blogs sujos.
A
segunda reportagem, também da Folha, informa que o mesmo governo Alckmin pagava R$ 70 mil ao mês a um "blogueiro antipetista".
Essas
matérias, naturalmente, não receberam destaque nenhum. E, sobretudo,
não se repetiram. A razão de ser delas me parece óbvia: briga por
dinheiro. A Folha sentiu-se traída por ver o governo Alckmin destinar a
verba pública de São Paulo a outros grupos que não ela mesma.
Tem
sido bizarro ver gigantes da mídia, grupos jornalísticos estabelecidos
no país desde priscas eras, conectados às maiores fortunas do país, e
que já receberam, nas últimas décadas, centenas de bilhões de reais em
recursos públicos, atacando com tanta violência um punhado de
blogueiros.
Lembro que me senti até lisonjeado com um
editorial do Estadão
no qual o Cafezinho é citado com ódio. Um editorial só para atacar o
Cafezinho, num dos maiores jornais do país! "Meu Deus, que sucesso!
Nunca pensei que chegaria tão longe!", eu me dizia, tentando ser
sarcástico comigo mesmo.
Mas vamos ao que interessa: a tese do
Nassif, com a qual eu concordo, de que a reportagem da Folha foi um
ensaio para violências maiores contra a liberdade de expressão no país.
Assim
como em 1964, os grupos de mídia estiveram no centro da articulação do
golpe que o Brasil sofreu em 2016. Agora eles precisam sustentá-lo até o
fim. Para isso, é preciso silenciar as vozes críticas. Como não dá para
calar as redes sociais (embora Michel Temer tenha dito que pretende
"combatê-las"), a estratégia é centrar fogo num grupo estrito de
blogueiros mais influentes.
A gente não sabe ainda, em detalhes, o
grau de organização do consórcio golpista. Sabe-se que há um alto grau
de coordenação orgânica, espontânea, como sói acontecer em todos os
golpes. Mas é claro que há uma organização própria, da qual participam
os principais agentes do golpe, basicamente articulados em três frentes:
o aparato jurídico-policial, o aparato midiático, e o aparato político.
Desses três grupos, a aliança entre os dois primeiros, a casta
burocrática e a mídia, é a mais orgânica.
Essa organização vem
caçando os blogueiros desde que as conspirações golpistas se
intensificaram. O fundador do Brasil 247, Leonardo Attuch, e o editor do
Opera Mundi, Breno Altman, já foram intimados pela Lava Jato, como
sempre envolvidos em tramoias inventivas - e sem provas - criadas pelos
procuradores.
Sergio Moro chegou a dizer, em despacho imediatamente publicizado
pelo Globo, que "o 247 recebeu propina a pedido de Vaccari". Não há prova nenhuma, mas sobram, como sempre, convicções.
Altman,
que só não foi conduzido coercitivamente porque não estava em São
Paulo, foi intimado a depor na Lava Jato, diante de Sergio Moro, porque
emprestou dinheiro a um amigo.
No relatório da PF contra José
Dirceu, na Lava Jato, o delegado faz referências constantes às
estratégias de comunicação do ex-ministro, que teria contratado uma
"esquadra de jornalistas". É uma mentira, como sempre. Dirceu não pagava
jornalista nenhum, nem tinha recursos para tal. Dirceu tinha um blog,
com um ou dois editores/redatores, e só.
No mundinho paranoico e
golpista dos meganhas da Lava Jato, Dirceu deixa de ser um militante
político e se torna apenas um criminoso comum tentando "polir sua
imagem". Apaga-se da história que Dirceu, independentemente das
acusações que a polícia faz a ele, sempre foi um quadro político
importante. Sem respeito nenhum pela privacidade do ex-ministro, o
relatório da PF publiciza mensagens privadas de Dirceu a seus amigos,
interpretadas sempre de maneira a criminalizá-las. Mencionando uma
mensagem de celular ou email, em que Dirceu pede para um conhecido
enviar determinado artigo para ele, Dirceu, publicar em seu blog, o
delegado diz que isso era a prova de que "Dirceu ainda possui grande
poder de articulação política e de influência, inclusive através dos
meios de comunicação de massa”. Não chamo de palhaçada para não ofender
os palhaços.
Segundo o Nassif, a reportagem na Folha sinaliza que
o golpe decidiu se voltar, de maneira mais organizada, contra a
liberdade de expressão no país, vista como uma ameaça a seus planos. Eu
concordo e acrescento alguns elementos não listados na análise do
Nassif:
1 - O governo Temer contratou, publicamente, o MBL para
cuidar de suas redes sociais. O MBL é uma das organizações que
articularam, nas redes sociais e, em seguida, nas ruas, a construção do
discurso golpista. É uma organização extremamente agressiva contra a
esquerda. Seu perfil apartidário era apenas uma conversa para enganar
coxinhas inocentes, porque o movimento entrou de cabeça nas eleições
desse ano, associando-se a vários partidos da direita.
2 - Uma
semana após Temer contratar o MBL, aparece essa matéria requentada da
Folha, feita para alimentar justamente as redes sociais antipetistas,
desviando o debate público das medidas tomadas ou defendidas pelo
governo para os... blogs. A matéria da Folha, apesar de requentada, e
não trazer nenhuma novidade, imediatamente se tornou post na
página do MBL, no
blog do Reinaldo Azevedo,
na página do PSDB
e em toda vasta rede de blogs de direita que, sim, sempre existiram no
país. Os blogs de direita nunca ganharam muita notoriedade porque o
público de direita já se dá por satisfeito com a leitura dos grandes
jornais.
3 - Em mais um sinal de que o ataque aos blogs foi
coordenado, o Antagonista, um dos porta-vozes mais estridentes do golpe,
também atacou os blogs no dia de ontem (29/09),
num post engraçado,
em que diz que os blogs "petistas" sempre foram "ridiculamente
nanicos", e que agora teriam caído no ranking do Alexa. É de se
perguntar a razão de blogs tão "nanicos" receberem tantos ataques, de
maneira tão coordenada e organizada.
4 - Há uma semana, o blog
Implicante, que integra a rede golpista, e cujo autor recebe no mínimo
R$ 70 mil por mês do governo Alckmin (e sem transparência nenhuma, sem
precisar sequer veicular publicidade do governo), publicou
um post
um pouco mais agressivo do que o habitual, dizendo que governo Temer
precisa enfrentar a "narrativa petista". Quer dizer, é pior, o post
encerra dizendo que "Ou o Brasil enfrenta as narrativas petistas, ou não
sairá do lugar", numa associação bem sinistra e totalitária entre o
governo Temer e o "Brasil".
5 - Também há uma semana, a Folha publicou outra
estranha reportagem,
na qual se autoelogiava dizendo que o jornal "fazia cobertura crítica
do governo Temer". Ora, se realmente faz cobertura crítica, para que
dizer isso? Na verdade, a Folha deve ter identificado, entre seus
próprios leitores, o incômodo com o súbito chapa-branquismo do jornal, e
considerado que isso é um perigo para os planos de receber vultosas
verbas federais. Possivelmente, a Secom promoverá uma forte concentração
das verbas publicitárias nos veículos tradicionais, como se dava na era
tucana e, portanto, é preciso vender à opinião pública que o jornal é
"crítico" ao governo. O medo da mídia tradicional é que os blogs herdem,
como já estão herdando, aquele sentimento antigoverno que é sempre
forte em qualquer regime liberal.
A guerra aos blogs é um passo
natural na escalada do arbítrio que temos assistido. A narrativa
golpista tem enfrentado enormes dificuldades para construir o consenso
social de que todo regime ilegítimo sente tanta necessidade, porque a
ilegitimidade gera insegurança. Essas dificuldades existem justamente
por causa dos blogs, que fazem um contraponto diário, sistemático,
combativo, à grande mídia. Nada mais natural que os blogs entrem na
lista negra dos que devem ser eliminados, silenciados, constrangidos.
Quem diria, há cinco anos, que viveríamos uma situação tão sinistra?
No
entanto, é importante que os internautas não se deixem intimidar. Todas
essas agressões às liberdades, mesmo que aparentemente bem sucedidas,
constituem na verdade vergonhosas derrotas para os golpistas. Afinal, o
que eles pretendem? Transformar o Brasil numa Coreia do Norte de
direita, onde as informações são controladas por três corporações de
mídia: Globo, Abril e Folha?
Não conseguirão. Serão derrotados
uma hora ou outra, e eles sabem disso. Sua pressa, seu desespero, é para
vender o país o mais rápido possível, obtendo as gordas comissões de
praxe. Quando forem derrotados, pensam eles, já terão suas contas
bancárias asseguradas, de preferência em bancos no exterior.