quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Nº 25.196 - "Como mostra o JN de hoje, Globo vai poupar Bolsonaro em nome da reforma da Previdência. Por Joaquim de Carvalho"

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21/02/2019


Como mostra o JN de hoje, Globo vai poupar Bolsonaro em nome da reforma da Previdência. Por Joaquim de Carvalho

Do DCM - 20/02/2019


 
William Bonner e Renata Vasconcelos no JN de 20/02/2019: a reforma é deles

por Joaquim de Carvalho

Joaquim de CarvalhoQuem esperava pela continuidade dos ataques da Globo a Bolsonaro ficou frustrado ao ver o Jornal Nacional desta quarta-feira.

O noticiário da Globo dedicou a maior parte do tempo à cobertura da Reforma da Previdência, com um viés positivo.

E aí é que Bolsonaro e Globo dão as mãos: ambos estão comprometidos com a mudança radical nos sistemas de aposentadoria.

Por isso, quem viu a Globo ficou sem saber que a conta dessa reforma será paga pelos mais pobres.

O jornal até cita algumas dessas mudanças, mas sem explicá-las.

Algumas nem são mencionadas, como é o caso do fim da multa de 40% sobre o o saldo do FGTS quando o trabalhador já estiver aposentado.

Também existe a possibilidade de não recolher o FGTS para aposentados que continuarem trabalhando.

O que o recolhimento do FGTS e a multa sobre o saldo do FGTS têm a ver com o alegado déficit nas contas da Previdência?

Em princípio, nada.

Parece muito mais um contrabando para fazer uma alteração que depende de reforma da Constituição.

Entra tudo na conta da Previdência.

E vai gerar uma situação confusa.

Haverá, na mesma empresa, desempenhando as mesmas funções, trabalhador que recebe FGTS e outros que não.

Será um incentivo para que os aposentados continuem trabalhando, o que dificultará o ingressos dos mais jovens no mercado de trabalho.

Também sinaliza a mudança trabalhista que está sendo gestada, como já anunciou a equipe econômica de Paulo Guedes.

O governo quer criar a carteira verde e amarela, como alternativa à tradicional carteira azul. Quem aceitar a carteira nova abrirá mão de direitos para ter emprego — o FGTS seria um deles.

O que acontecerá?

Quem não aceitar a carteira verde e amarela não terá emprego. Será um opção compulsória, como ocorreu na ditadura militar em relação à estabilidade no emprego.

No final da década de 60, a estabilidade foi substituída pelo FGTS. Com a mesma estratégia, agora poderá ser sepultado o FGTS.

São interesses que unem Globo e Bolsonaro neste momento.

Nem tudo, portanto, é guerra nesta relação conflituosa.

De fato, não se gostam.

Mas vão se tolerar, e a Globo se manterá neste morde e assopra pelo menos até que os trabalhadores sejam tratados como, historicamente, ela sempre quis: sem direitos.

Em 1962, o jornal do grupo publicou em manchete: “Considerado desastroso para o país um 13o. mês de salário.

Não foi, mas a emissora, com o jornalismo contaminado pela posição dos donos da empresa, continua rejeitando benefícios legais a trabalhadores que vivem num país que tem a maior concentração de renda do mundo.

Depois da reforma, Bolsonaro corre riscos.

Mas só depois dela.

Em 1992, Fernando Collor caiu depois que seu ministro da Economia, Marcílio Marques Moreira, bateu o martelo da renegociação da dívida externa, com um acordo muito elogiado pela banca internacional.

Bolsonaro não será alvo de campanha para cair até que a tal Nova Previdência esteja vigorando e o trabalhador comece a pagar a conta.

Joaquim de CarvalhoJornalista, com passagem pela Veja, Jornal Nacional, entre outros. joaquimgilfilho@gmail.com

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Nº 25.195 - "Servidores públicos tentarão derrubar pontos da proposta de reforma da Previdência"



21/02/2019

Servidores públicos tentarão derrubar pontos da proposta de reforma da Previdência

Do Blog da Cidadania - 21/02/2019


As novas regras da Previdência deverão gerar questionamentos jurídicos no Legislativo e ações na Justiça, ainda que com pouca chance de alteração de pontos defendidos pelo governo, dizem advogados.

Na Justiça pode haver demanda por parte de servidores públicos, de acordo com Otávio Pinto e Silva, sócio do Siqueira Castro.

Os funcionários públicos provavelmente dirão nos tribunais que fizeram concurso para carreiras que contavam com um regime de aposentadoria que foi alterado depois.”

A reforma prevê aumento de idade mínima para aposentadoria dos servidores que ingressaram após 2003 e alta de alíquota de contribuição, que vai convergir com a dos trabalhadores do setor privado.

Há a possibilidade de uma corrida para a prestação de serviços em formato de pessoa jurídica entre as faixas mais altas de remuneração, afirma Jorge Boucinhas, professor da FGV.

O desconto na fonte de salários mais altos é de 11% pela regra atual, mas vai subir de maneira progressiva. “É um incentivo para que se busquem outras relações de trabalho, o que representa um risco jurídico para as empresas.”

Na tramitação, pode-se alegar que as diferenças de idade de aposentadoria para homens e mulheres ferem o princípio de igualdade da Constituição, segundo André Fittipaldi, sócio do TozziniFreire.

“As mulheres estão no mercado de trabalho há menos tempo, mas ainda assim deve haver discussão sobre a legalidade da proposta.”

Da FSP

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Nº 25.194 - "PRESO, PAULO PRETO AMEAÇA DELATAR SÓCIOS TUCANOS EM SUAS CONTAS NA SUÍÇA"

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21/02/2019

PRESO, PAULO PRETO AMEAÇA DELATAR SÓCIOS TUCANOS EM SUAS CONTAS NA SUÍÇA

Do Brasil 247 - 21/02/2019


Preso pela terceira vez e sem a possibilidade de receber o habeas corpus de Gilmar Mendes (pois o relator dos casos ligados à Lava Jato é o ministro Edson Fachin), o operador do PSDB Paulo Preto faz ameaças graves e inéditas à cúpula tucana e promete entregar nomes graúdos à Justiça; Preto diz ter uma informação bombástica para revelar: a de que a conta da Suíça com saldo de R$ 132 milhões, em valores atuais, não era só dele; o operador do PSDB diz que a conta era o que ele chamava de "conta ônibus", ou seja, de vários titulares, todos cardeais tucanos, como Aloysio Nunes Ferreira e José Serra, e o próprio PSDB

247 - Preso pela terceira vez e sem a possibilidade de receber o habeas corpus de Gilmar Mendes (pois o relator dos casos ligados à Lava Jato é o ministro Edson Fachin), o operador do PSDB Paulo Preto faz ameaças graves e inéditas à cúpula tucana e promete entregar nomes graúdos à Justiça. Preto diz ter uma informação bombástica para revelar: a de que a conta da Suíça com saldo de R$ 132 milhões, em valores atuais, não era só dele. O operador do PSDB diz que a conta era o que ele chamava de "conta ônibus", ou seja, de vários titulares, todos cardeais tucanos, como Aloysio Nunes Ferreira e José Serra, e o próprio PSDB.

Segundo a reportagem do jornal Folha de S. Paulo, "a informação da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba de que Aloysio recebeu um cartão de crédito ligado à conta de Paulo Preto aponta, na visão de procuradores, que os recados do ex-diretor da Dersa podem não ser apenas ameaças."

O recado - de acordo com o jornal - tinha um tom óbvio de chantagem, com um subtexto que dizia "ou vocês me salvam ou entrego todo mundo".

Após a pressão de Paulo Preto, Aloysio Nunes trocou de advogado: saiu Daniel Bialski e entrou José Roberto Santoro, que já cuidava da defesa de Aloysio e que conseguiu soltar Paulo Preto com um habeas corpus de Gilmar Mendes. 

A matéria ainda destaca que "não era a primeira vez que Paulo Preto mandava recados intimidatórios para a cúpula do PSDB. Na campanha presidencial de 2010, quando ele se tornou uma figura central nos debates entre Dilma Rousseff e José Serra, Paulo Preto pronunciou aquela que se tornaria a sua frase mais famosa. 'Não se abandona um líder ferido na beira da estrada', afirmou logo depois de o então candidato tucano à Presidência ter dito num evento de campanha em Goiânia (GO) que não conhecia o ex-diretor da Dersa."

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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Nº 25.193 - "Laranjal"

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20/02/2019


Laranjal
Do Brasil 247 - 20/02/2019


Marcos Corrêa/PR


por Leandro Fortes


Leandro Fortes
Nada.

Ainda não houve um único dia de governo.

Nem uma obra anunciada, nem um programa implantado, nem uma decisão política de relevância.

Nada, 50 dias de vácuo, escândalos, mentira e infâmia.

Da ala de super ministros, só platitudes: uma reforma previdenciária montada por agentes do mercado, contra os trabalhadores; um pacote anticrime criminoso, que dá a policiais licença para matar e exclui o caixa 2 para beneficiar os amigos.

Da ala de ministros dementes, vergonha alheia e vexames públicos e internacionais, diariamente.

Da ala verde-oliva, conivência e cumplicidade.

O escândalo do Laranjão já é suficiente para cassar o mandado dessa besta quadrada cercada de filhos inúteis, todos eleitos no rastro da fraude de fake news e de lavagem de dinheiro do Fundo Partidário.

Precisamos de novas eleições, com urgência.


LEANDRO FORTES. Jornalista e integrante da Rede de Jornalistas pela Democracia

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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Nº 25.192 - "Áudios mostram que Bebianno não mentiu sobre falar com Bolsonaro e desmentem presidente"

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19/02/2019

Áudios mostram que Bebianno não mentiu sobre falar com Bolsonaro e desmentem presidente


por Érico Firmo


Exonerado da Secretaria Geral da Presidência da República após ser chamado de mentiroso por Carlos Bolsonaro (PSL), Gustavo Bebianno não mentiu sobre ter conversado com o presidente Jair Bolsonaro (PSL), conforme revelam áudios divulgados nesta tarde pela revista Veja. . Confira os audios


Bolsonaro-presidente-eleito
.....Bolsonaro trocou de fato mensagens com o ex-ministro. (Foto: Sergio Lima / AFP)

Bebianno disse que teve três conversas com o presidente na última terça-feira, 12. O relato era uma tentativa de mostrar que não havia mal-estar envolvendo acusações de pagamentos a laranjas pelo PSL.

Na quarta-feira, 13, o vereador Carlos Bolsonaro (PSL), filho do presidente, foi ao Twitter dizer que Bebianno havia mentido.

Ontem estive 24h do dia ao lado do meu pai e afirmo: “É uma mentira absoluta de Gustavo Bebbiano que ontem teria falado 3 vezes com Jair Bolsonaro para tratar do assunto citado pelo Globo e retransmitido pelo Antagonista.” pic.twitter.com/AqzZ0YPNOO

— Carlos Bolsonaro (@CarlosBolsonaro) 13 de fevereiro de 2019

O presidente Bolsonaro compartilhou a mensagem do filho, num sinal de aval.

Porém, os áudios mostram que, de fato, Bebianno recebeu três mensagens do presidente.

Confira o teor:
A primeira trata da reunião do então ministro com o vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Globo, Paulo Tonet Camargo.

Bolsonaro: “Gustavo, o que eu acho desse cara da Globo dentro do Palácio do Planalto: eu não quero ele aí dentro. Qual a mensagem que vai dar para as outras emissoras? Que nós estamos se aproximando da Globo. Então não dá para ter esse tipo de relacionamento. Agora… Inimigo passivo, sim. Agora… Trazer o inimigo para dentro de casa é outra história. Pô, cê tem que ter essa visão, pelo amor de Deus, cara. Fica complicado a gente ter um relacionamento legal dessa forma porque cê tá trazendo o maior cara que me ferrou – antes, durante, agora e após a campanha – para dentro de casa. Me desculpa. Como presidente da República: cancela, não quero esse cara aí dentro, ponto final. Um abraço aí”.

Na segunda mensagem, Bolsonaro responde a mensagem de Bebianno sobre a viagem que ele e outros ministros fariam ao Pará.

Bolsonaro: “Gustavo, uma pergunta: ‘Jair Bolsonaro decidiu enviar para a Amazônia’? Não tô entendendo. Quem tá patrocinando essa ida para a Amazônia? Quem tá sendo o cabeça dessa viagem à Amazônia? Um abraço aí, Gustavo, até mais.”

Depois, Bolsonaro volta ao assunto, aparentemente após falar com os outros ministros:

Bolsonaro: “Ô, Bebianno. Essa missão não vai ser realizada. Conversei com o Ricardo Salles. Ele tava chateado que tinha muita coisa para fazer e está entendendo como missão minha. Conversei com a Damares. A mesma coisa. Agora: eu não quero que vocês viajem porque… Vocês criam a expectativa de uma obra. Daí vai ficar o povo todo me cobrando. Isso pode ser feito quando nós acharmos que vai ter recurso, o orçamento é nosso, vai ser aprovado etc. Então essa viagem não se realizará, tá OK? Um abraço aí, Gustavo!”.

No quarto áudio, Bolsonaro nega que tenha falado com o agora ex-ministro:

Bolsonaro: “O caso incitando a saída é mais uma mentira. Você conhece muito bem a imprensa, melhor do que eu. Agora: você não falou comigo nenhuma vez no dia de ontem. Ele esteve comigo 24 horas por dia. Então não está mentindo, nada, nem está perseguindo ninguém”.

Também em áudio, Bebianno argumenta que eles se falaram sim, por áudios.

Bebianno: “Há várias formas de se falar. Nós trocamos mensagens ontem três vezes ao longo do dia, capitão. Falamos da questão do institucional do Globo. Falamos da questão da viagem. Falamos por escrito, capitão. Qual a relevância disso, capitão? Capitão, as coisas precisam ser analisadas de outra forma. Tira isso do lado pessoal. Ele não pode atacar um ministro dessa forma. Nem a mim nem a ninguém, capitão. Isso está errado. Por que esse ódio? Qual a relevância disso? Vir a público me chamar de mentiroso? Eu só fiz o bem, capitão. Eu só fiz o bem até aqui. Eu só estive do seu lado, você sabe disso. Será que você vai permitir que o senhor seja agredido dessa forma? Isso não está certo, não, capitão. Desculpe”.

Bebianno diz, em outro áudio:

Bebianno: “Eu só prego a paz, o tempo inteiro. O tempo inteiro eu peço para a gente parar de bater nas pessoas. O tempo inteiro eu tento estabelecer uma boa relação com todo mundo. Minha relação é maravilhosa com todos os generais. O senhor se lembra que, no início, eu não poderia participar das reuniões de quarta-feira, porque os generais teriam restrições contra mim? Eu não entendia que restrições eram aquelas, se eles nem me conheciam. O senhor hoje pergunte para eles qual o conceito que eles têm a meu respeito, sabe, capitão? Eu sou uma pessoa limpa, correta. Infelizmente não sou eu que faço esse rebuliço, que crio essa crise. Eu não falo nada em público. Muito menos agrido ninguém em público, sabe, capitão? Então quando eu recebo esse tipo de coisa, depois de um post desse, é realmente muito desagradável. Inverta. Imagine se eu chamasse alguém de mentiroso em público. Eu não sou mentiroso. Ontem eu falei com o senhor três vezes, sim. Falamos pelo WhatsApp. O que é que tem demais? Não falamos nada demais. A relevância disso… Tanto assunto grave para a gente tratar. Tantos problemas. Eu tento proteger o senhor o tempo inteiro. Por esse tipo de ataque? Por que esse ódio? O que é que eu fiz de errado, meu Deus?”.

Bolsonaro, por sua vez, nega que a troca de mensagens signifique que eles conversaram:

Bolsonaro: “Ô, Gustavo, usar da… Que usou do Whatsapp para falar três vezes comigo, aí é demais da tua parte, aí é demais, e eu não vou mais responder a você. Outra coisa, eu sei que você manda lá no Antagonista, a nota (sobre Bolsonaro não atender Bebianno) foi pregada lá. Dias antes, você pregou uma nota que tentou falar comigo e não conseguiu no domingo. Eu sabia qual era a intenção, era exatamente dizer que conversou comigo e que está tudo muito bem, então faz o favor, ou você restabelece a verdade ou não tem conversa a partir daqui pra frente”.

Bolsonaro reclama ainda que Bebianno estaria tentando envolver o presidente no caso da laranja:

“Querer empurrar essa batata quente desse dinheiro lá pra candidata em Pernambuco pro meu colo, aí não vai dar certo. Aí é desonestidade e falta de caráter. Agora, todas as notas pregadas nesse sentido foram nesse sentido exatamente, então a Polícia Federal vai entrar no circuito, já entrou no circuito, pra apurar a verdade. Tudo bem, vamos ver daí… Quem deve paga, tá certo? Eu sei que você é dessa linha minha aí. Um abraço”.

O bate-boca por áudios prossegue em torno de informação que Bebianno teria “plantado” na imprensa:

Bebianno diz: “Capitão, a nota do Antagonista que o senhor tá me acusando de ter plantado… Se o senhor olhar bem, eu localizei aqui e mandei pro senhor. Eu não plantei nada. Ela replica o que a Folha falou. Está escrito aqui: “segundo aFolha, segundo a Folha, o ministro Gustavo Bebianno tentou ligar para Jair Bolsonaro neste domingo para explicar o caso, mas o presidente não atendeu”. Quem mencionou isso não foi o Antagonista, foi a Folha. O Antagonista simplesmente replicou. Então, capitão, eu não plantei nada em lugar nenhum, tá? Abraço”.

Bolsonaro responde: “Bebianno, olha como você entra em contradição. Que seja a Folha. Se foi uma tentativa tua pra mim e eu não atendi… Eu não liguei pra Folha, eu não ligo pra imprensa nenhuma. Quem ligou foi você, quem vazou foi você. Dá pra você entender o caminho que você está indo? E você tem que fazer uma reflexão para voltar à normalidade. Deu pra entender? Vou repetir: se você tentou falar comigo, um pra um, se alguém vazou pra Folha, não fui eu, só pode ser você. Tá ok?”.

Bebianno retruca: “Não, capitão, não é isso, não. Eu não tentei ligar pro senhor, eu não falei, não vazei nada pra ninguém. Eu nem tentei ligar pro senhor. O senhor mandou um recado que era pra eu não ir ao hospital. Não fui e não liguei pro senhor nenhuma vez. Deixei o senhor em paz. É… Se eu tentei ligar uma ou duas vezes, também não me lembro pelo motivo que foi, é… Não é isso, não, capitão, tá? Eu não vazei nada pra lugar nenhum, muito menos pra Folha, com quem eu praticamente não falo. Abraço, capitão”.

Bebianno completa: “Em relação a isso, capitão, também acho que a coisa está… Não está clara. A minha tarefa como presidente interino nacional foi cuidar da sua campanha. A prestação de contas que me competia foi aprovada com louvor, é… Agora, cada Estado fez a sua chapa. Em nenhum partido, capitão, a nacional é responsável pelas chapas estaduais. O senhor sabe disso melhor do que eu. E, no nosso caso, quando eu assumi o PSL, houve uma grande dificuldade na escolha dos presidentes de cada Estado, porque nós não sabíamos quem era quem. É… Cada chapa foi montada pela sua estadual. No caso de Pernambuco, pelo Bivar, logicamente. Se o Bivar escolheu candidata laranja, é um problema dele, político. E é um problema legal dela explicar o que ela fez com o dinheiro. Da minha parte, eu só repassei o dinheiro que me foi solicitado por escrito. Eu tenho tudo registrado por escrito. Então é ótimo que a Polícia Federal esteja, é ótimo que investigue, é ótimo que apure, é ótimo que puna os responsáveis. Eu não tenho nada a ver com isso. É… Depois a gente conversa pessoalmente, capitão, tá? Eu tô vendo que o senhor está bem envenenado. Mas tudo bem, a minha consciência está tranquila, o meu papel foi limpo, continua sendo. E tomara que a polícia chegue mesmo à constatação do que foi feito, mas eu não tenho nada a ver com isso. O Luciano Bivar que é responsável lá pela chapa dele. Abraço, capitão”.

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Nº 25.191 - "BOLSONARO A BEBIANNO: A GLOBO É INIMIGA"


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19/02/2019


BOLSONARO A BEBIANNO: A GLOBO É INIMIGA

Do Brasil 247 - 19/02/2019


Em um dos áudios publicados pela Veja, que revelam conversa entre Jair Bolsonaro e Gustavo Bebianno, fica comprovada a hipótese de que o então ministro foi exonerado também porque marcou uma reunião com um dirigente da Globo, tratada pelo presidente como "inimiga"; "Fica complicado a gente ter um relacionamento legal dessa forma porque cê tá trazendo o maior cara que me ferrou – antes, durante, agora e após a campanha – para dentro de casa. Me desculpa. Como presidente da República: cancela, não quero esse cara aí dentro, ponto final. Um abraço aí", disse Bolsonaro


247 - Nos áudios publicados pela Veja nesta terça-feira 19, que revelam conversas entre o ex-ministro Gustavo Bebianno e o presidente Jair Bolsonaro, a Globo é tratada como "inimiga" pelo presidente. O diálogo comprova também que uma das hipóteses que circularam para a demissão, a de que Bebianno teria sido exonerado porque marcou reunião com um dirigente da emissora, é verdadeira.

Há uma semana, "Bolsonaro encaminhou a Bebianno uma mensagem contendo a agenda do ministro. Nela, constava que Bebianno receberia na terça-feira, às 16h, o vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Globo, Paulo Tonet Camargo. Ao receber mensagem do presidente, a quem trata apenas por "capitão", Bebianno respondeu de imediato: 'Algo contra, capitão?'", relata a Veja.

Depois de enviar algumas mensagens de texto a Bolsonaro, Bebianno recebeu um áudio em que o presidente declara que a Globo é uma inimiga do governo e que, ao fazer contatos com a emissora, o colocaria em posição delicada com "as outras emissoras":

"Gustavo, o que eu acho desse cara da Globo dentro do Palácio do Planalto: eu não quero ele aí dentro. Qual a mensagem que vai dar para as outras emissoras? Que nós estamos se aproximando da Globo. Então não dá para ter esse tipo de relacionamento. Agora... Inimigo passivo, sim. Agora... Trazer o inimigo para dentro de casa é outra história. Pô, cê tem que ter essa visão, pelo amor de Deus, cara", disse Bolsonaro.

"Fica complicado a gente ter um relacionamento legal dessa forma porque cê tá trazendo o maior cara que me ferrou – antes, durante, agora e após a campanha – para dentro de casa. Me desculpa. Como presidente da república: cancela, não quero esse cara aí dentro, ponto final. Um abraço aí", disse ainda.

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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Nº 25.190 - "A idiotização da sociedade como estratégia de dominação"



18/02/2019

A idiotização da sociedade como estratégia de dominação





Artigo escrito por Fernando Navarro do site La Haine

Por Fernando Navarro

As pessoas estão tão imbuídas no sistema estabelecido que não conseguem conceber alternativas aos critérios impostos pelo poder.

Para conseguir isso, o poder usa o entretenimento vazio, com o objetivo de aumentar nossa sensibilidade social e se acostumar a ver a vulgaridade e a estupidez como as coisas mais normais do mundo, incapacitando-nos de alcançar uma consciência crítica da realidade.

No entretenimento vazio, explora-se ao máximo a mesmice de conteúdos sem nexo, como se pode ver constantemente na televisão ou na exploração massiva de shows musicais com “cantores” pre fabricados para esses fins. O futebol também serve como objeto de alienação, sendo assim, através deste, uma maneira eficaz que tem o sistema estabelecido para abortar a sociedade.

Nesta subcultura do entretenimento vazio, o que é promovido é um sistema baseado nos valores do individualismo possessivo, no qual a solidariedade e o apoio mútuo são considerados algo ingênuo.

No entretenimento vazio, tudo é projetado de modo que o indivíduo suporte estoicamente o sistema estabelecido sem questionar. A história não existe, o futuro não existe; apenas o presente e a satisfação imediata que o entretenimento vazio procura.

Por isso, não é estranho que proliferem os livros de auto-ajuda, o autêntico slop psicológico, ou o misticismo de Coelho, ou variantes infinitas do clássico “como se tornar um milionário sem esforço”.

Em última análise, o que está envolvido no entretenimento vazio é a ideia de nos convencer de que nada pode ser feito: que o mundo é como é e é impossível mudá-lo, e que o capitalismo e o poder opressor do Estado são tão naturais e necessários como a força da gravidade em si. É por isso que é comum ouvir: “É algo muito triste, é verdade, mas sempre houve oprimidos pobres e ricos opressores e sempre haverá. Não há nada que possa ser feito “.

O entretenimento vazio alcançou a extraordinária façanha de tornar os valores do capitalismo também os valores daqueles que são escravizados por ele. Isso não é algo recente, La Boétie, no longínquo século 16, viu isso claramente, expressando seu estupor em seu pequeno tratado Sobre a servidão voluntária, em que ele afirma que a maioria dos tiranos perdura apenas devido à aquiescência de próprio tiranizado.

O sistema estabelecido é muito sutil, com suas estupidências forja nossas estruturas mentais e, para isso, usa o púlpito que todos temos em nossos lares: a televisão. Nela não há nada que seja inocente, em todos os programas, em todos os filmes, em todas as notícias, sempre exala os valores do sistema estabelecido, e sem perceber, acreditando que a vida real é assim, eles introduzem seus valores em nossas mentes.

Entretenimento vazio existe para esconder a relação óbvia entre o sistema econômico capitalista e as catástrofes que assolam o mundo. É por isso que há a necessidade de um espetáculo vazio: de modo que enquanto o indivíduo se recusa a chafurdar no lixo que o alimenta na televisão, ele não vê o óbvio, não protesta e continua a permitir que os ricos e poderosos aumentem seu poder e riqueza. enquanto os oprimidos do mundo continuam sofrendo e morrendo em meio a existências miseráveis.

Se continuarmos permitindo que o entretenimento vazio continue modelando nossas consciências e, portanto, o mundo à vontade, isso acabará nos destruindo. Porque o seu objetivo não é outro senão criar uma sociedade de homens e mulheres que abandonam os ideais e aspirações que os tornam rebeldes, para se contentarem com a satisfação de necessidades induzidas pelos interesses das elites dominantes. Assim, os seres humanos são despojados de toda a personalidade, transformados em animais vegetativos, sendo completamente desativados a velha ideia de lutar contra a opressão, atomizada em um enxame egoísta desenfreado, deixando as pessoas sozinhas e desligadas umas das outras mais do que nunca, absorvidas a exaltação de si mesmas.

Assim, dessa forma, os indivíduos não têm mais energia, para mudar as estruturas opressivas (que não são percebidas como tal), não têm mais força ou coesão social para lutar por um novo mundo.

No entanto, se quisermos reverter essa situação de alienação a que estamos sujeitos, apenas à luta permanece como sempre, só podemos nos opor a outros valores diametralmente opostos aos do vazio, para que surja uma nova sociedade. Uma sociedade em que a vida dominada pelo absurdo do entretenimento vazio é apenas uma lembrança dos tempos estúpidos em que os seres humanos permitiam que suas vidas fossem manipuladas de maneira tão obscena.


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sábado, 9 de fevereiro de 2019

Nº 25.189 - "Lula, um líder político sequestrado pela Lava Jato"

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08/02/2019

Lula, um líder político sequestrado pela Lava Jato


Do Brasil 247 - 08/02/2019

Ricardo Stuckert

por JEFERSON MIOLA

Jeferson MiolaLula não é apenas um preso político. Lula é um líder político sequestrado; é um refém de transcendental importância para a continuidade e o aprofundamento do regime de exceção.

Lula foi caçado e sequestrado por Sérgio Moro e Deltan Dallagnol e trancafiado no cativeiro da Lava Jato para não estorvar a implantação do projeto de poder da extrema-direita no Brasil.

A farsa jurídica ampliada no tribunal de exceção da Lava Jato [TRF4] em 24/1/2018 ficou conhecida como uma das maiores atrocidades jurídicas contemporâneas.

O arbítrio contra Lula é equiparável ao processo farsesco que condenou ilegalmente o oficial judeu do exército francês Alfred Dreyfus no final do século 19. Aquela injustiça fundamentou a obra As origens do totalitarismo, de Hannah Arendt, assim como os trabalhos da pensadora alemã sobre antissemitismo e nazismo.

Dreyfus inspirou também o manifesto "Eu acuso", a carta-denúncia ao presidente da França publicada no jornal Aurora em janeiro de 1898, na qual Émile Zola pedia a anulação da condenação ilegal de Dreyfus e uma investigação justa e limpa.

Uma vez depositado no cativeiro da Lava Jato, Lula foi vendo progressivamente destituídos seus direitos civis, políticos e, inclusive, os direitos que, como ser humano, ele é portador.

Lula teve surrupiado o direito de votar. Para evitar sua eleição tida como certa para presidente do Brasil, o regime de exceção afrontou a ordem do Comitê de DH da ONU e surrupiou-lhe, também, o direito de ser escolhido pela maioria do povo brasileiro em outubro de 2018.

Cassaram a voz do Lula, a liberdade de expressão e de livre manifestação para não deixarem ele se comunicar com o povo e tampouco conceder entrevista à imprensa.

A inumanidade da Lava Jato não tem limites. Além de proibir visitas de religiosos e decidir quais defensores podem assisti-lo, o juízo de exceção impediu Lula de sepultar o irmão Vavá. Uma crueldade bárbara e castigo inumano que nem a ditadura foi capaz de impor a ele.

Em 1980, Lula teve permissão para sair do cárcere político para velar e sepultar a mãe, a Dona Lindu. Esta restrição cruel imposta ao Lula não é imposta à população carcerária do país. Em 2018, dezenas de milhares de apenados do sistema penitenciário tiveram autorização de saída em situações de óbito ou de doença grave de familiar.

A nova condenação farsesca proferida neste 6 de fevereiro pela juíza substituta do Moro seguiu o roteiro fascista da perseguição penal que levou à primeira condenação do Lula e ao encarceramento ilegal dele em 7 de abril de 2018.

No afã de condenar Lula para garantir sua celebrização na galeria de bestas-feras antes de passar a titularidade da 13ª Vara Federal ao juiz que assumirá o posto nos próximos dias, a jovem juíza Gabriela Hardt cometeu erros grosseiros, como [1] condenar Lula por corrupção passiva sem que ele exercesse cargo público na época dos fatos; [2] tratar Léo Pinheiro e José Aldemário como se fossem 2 pessoas diferentes, quando na realidade as 2 designações se referem à mesma e única pessoa, o empresário, criminoso confesso e delator José Aldemário Pinheiro Filho; e [3] condenar Lula por corrupção na PETROBRÁS num caso que não tem nenhuma conexão com os desvios na estatal.

Lula está sendo processado em pelo menos outros 6 processos fraudulentos montados pelos perseguidores da Lava Jato. Cada processo é escandalosamente mais fraudulento que o outro. Um deles, por exemplo, é relativo ao programa tecnológico dos caças Gripen, implementado depois do seu mandato.

A Lava Jato tem medo do Lula. Eles sabem que em liberdade, Lula exerce extraordinário poder político e simbólico que pode desestabilizar o pacto de dominação oligárquica e o regime de exceção. Por isso precisam manter Lula incomunicável e isolado no cativeiro.

Esta segunda condenação confirma o padrão do arbítrio judicial contra Lula e mostra a clara tendência de novas condenações ilegais nos demais processos, para empilhar décadas de condenação que significarão a prisão perpétua do Lula.

O ódio da classe dominante contra Lula alcançou o ápice. A burguesia já não esconde seu desejo de ver Lula terminar seus dias no cativeiro.

A candidatura do Lula ao Nobel da Paz, em vista desta realidade dramática, adquire especial relevância.

É preciso fazer da defesa do Nobel ao Lula a plataforma duma campanha mundial de denúncia da sua condição de líder político sequestrado e mantido no cativeiro da Lava Jato, onde a cada dia vê seus direitos civis, políticos e direitos humanos destruídos.

JEFERSON MIOLA. Integrante do Instituto de Debates, Estudos e Alternativas de Porto Alegre (Idea), foi coordenador-executivo do 5º Fórum Social Mundial.
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Nº 25.188 - "COM PRISÃO PERPÉTUA DE LULA, MORO ENTREGA ÚLTIMA FATURA E BOLSONAROS COMEMORAM"

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07/02/2019


COM PRISÃO PERPÉTUA DE LULA, MORO ENTREGA ÚLTIMA FATURA E BOLSONAROS COMEMORAM

Do Balailo do Kotscho - 07/02/2019  

por Ricardo Kotscho

Aos 73 anos, já condenado a 25, e com outros processos ainda em andamento, é muito difícil Lula sair vivo da prisão.

Teria 98 ao final das penas já impostas, se não providenciarem novas condenações.

O objetivo era esse mesmo, desde o início da Lava Jato: condenar Lula à prisão perpétua para evitar que ele volte a ser presidente.

Ainda durante a campanha, Jair Bolsonaro já tinha anunciado na avenida Paulista que, com a sua vitória, o ex-presidente iria “apodrecer na cadeia”, lembram-se?

Nesta quarta-feira, o ex-juiz Sergio Moro entregou a última fatura da sua empreitada para eliminar Lula da política brasileira.

Quem assinou a sentença foi a sua substituta, Gabriela Hardt, mas Moro já tinha deixado tudo preparado para a nova condenação a 12 anos e 11 meses em regime fechado.

Os bolsonaros e seus seguidores comemoraram nas redes sociais como se essa fosse uma grande conquista do governo.

Para eles, a campanha eleitoral ainda não acabou, até porque não sabem fazer outra coisa na vida além de cultivar o antipetismo de palanque que os levou à vitória em outubro.

Ato contínuo, do seu leito hospitalar, Bolsonaro pai compartilhou a notícia no Twitter.

Na Câmara, o filho Eduardo simplesmente pregou a extinção do PT e foi para cima do petista gaúcho Henrique Fontana, que ousou defender Lula:

“O deputado falou da tribuna, mas hoje é um dia triste para ele. Lula acaba de ser condenado a 12 anos de cadeia. Lavagem de dinheiro e corrupção! O Lula tá preso, babaca!”.

No mesmo dia, outro filho, Flávio, ganhou a terceira secretaria do Senado, com direito a uma verba de R$ 456,7 mil para contratar funcionários sem concurso público.

Dá para montar um exército de Queiroz, o motorista e operador financeiro da família que providencialmente sumiu do mapa.

Lula voltou e Flávio Bolsonaro sumiu das manchetes, mas a Procuradoria Regional Eleitoral continua investigando o senador sob suspeita de falsificação de documento público à Justiça, por conta de seus atípicos negócios imobiliários. No inquérito, há menção sobre possível lavagem de dinheiro.

Em Curitiba, a juíza Gabriela Hardt estava com tanta presa para exarar logo a sentença que se referiu a dois delatores, Leo Pinheiro e José Aldemário, da OAS, como se não fossem a mesma pessoa, além de cometer erros de português e de digitação.

Moro e Hardt só não conseguiram provar qual a relação entre o sítio de Atibaia e a Petrobras, o alvo da investigação da Lava Jato, como constatou Mario Cesar Carvalho, na Folha:

“Isso pode parecer um detalhe bizantino, mas, se o caso não tem relação com a Petrobras, todo o processo deveria ser anulado, porque o Supremo Tribunal Federal já decidiu que Curitiba só deve julgar os casos relacionados a corrupção na estatal petroleira”.

Como diria o ex-juiz, isso não vem ao caso. Outro delator, Marcelo Odebrecht, já tinha declarado em interrogatório de novembro de 2018:

“Eu não fiz nenhuma tratativa, direta ou indireta, com o presidente Lula envolvendo contratos da Petrobras”.

Mas o que importa isso agora? A defesa de Lula mais uma vez vai recorrer da sentença em todas as instâncias, cumprindo o ritual cujo desfecho já é conhecido.

Com o presidente Bolsonaro ainda no hospital e o vice fazendo papel de ombudsman, em meio a trapalhadas generalizadas desse ministério de fancaria, a condenação de Lula foi a unica notícia boa para o governo nestes 37 dias em que o país foi virado de pernas para o ar.

Ainda não há previsão de alta para Bolsonaro deixar o hospital Albert Einstein onde está internado há 10 dias.


Vida que segue.
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Nº 25.187 - "Novo cenário político brasileiro: para onde o país pode ir?"

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07/02/2019

Novo cenário político brasileiro: para onde o país pode ir?

Do Brasil 247-  07/02/2019



por ROBSON SÁVIO REIS SOUZA


Robson Sávio Reis SouzaO grande embate político contemporâneo se resume na seguinte questão: se ainda há democracia no Brasil, ela pode conviver com um ultraliberalismo populista, moralista e autoritário a partir da eleição e da posse de Bolsonaro, Witzel, Doria, Zema, entre outros e de um Congresso majoritariamente moralista e conservador?

Dois projetos de sociedade estão no centro da disputa política e econômica. De um lado, articularam-se partidos políticos identificados com grupos, movimentos e as lutas políticas emancipatórias, cujos programas focam na continuidade do processo de construção de uma sociedade mais democrática, inclusiva e igualitária, cujo marco histórico foi a Constituição Federal de 1988.

Doutro, partidos e políticos (vitaminados pela mídia empresarial) que participam de um amplo espectro ideológico conservador, a representarem os interesses do poder econômico, em sua fase rentista e especulativa, e que defendem um estado mínimo, garantidor de privilégios para as elites (e parcelas da classe média conservadora), a contenção e o controle penal para a classe trabalhadora e os pobres e a volta uma moralidade de base religiosa que implica da negação das diversidades.

Uma rápida visão histórica torna-se imprescindível nessa análise. Em sociedades verdadeiramente democráticas, os governos estão a serviço dos interesses públicos e coletivos, atuando para o provimento e a consolidação de políticas públicas capazes de mitigar os efeitos avassaladores de uma economia que, cada vez mais, precede e domina a política.

Historicamente, o Brasil nunca foi um país inteiramente democrático. A violência multifacetada - gerada pela exclusão social, pela justiça seletiva, por uma elite de mentalidade escravocrata e pelo patriarcalismo indutor de múltiplas formas de opressão - sempre impediu a efetivação de direitos para todos, por um lado e, por outro, desequilibra as disputas sociopolíticas à medida que a maioria do povo é sistematicamente esmagada por essa ordem social elitista.

As relações de mando e obediência, características da hierarquização da sociedade brasileira, estão presentes no cotidiano das famílias, das igrejas, das relações de trabalho, nas escolas e em quase todos os espaços da vida, a definir uma cidadania marcada por privilégios de uns pouco e uma subcidadania - caracterizada pela não efetivação dos direitos - à maioria da população.

A criação e efetivação de direitos é recente, no Brasil. A Constituição Federal de 1988 e os governos seguintes deram alguns passos importantes para a construção de uma sociedade minimamente igualitária e justa. Mas, quando estávamos no caminho civilizatório, a sair de uma democracia meramente formal e de baixíssima intensidade para uma democracia de fato veio, mais uma vez, de forma violenta e avassaladora, uma ruptura institucional, em 2016, com o processo de impeachment de Dilma Rousseff que consolidou um período de assunção de demandas conservadoras e elitistas iniciadas mais explicitamente com as chamadas jornadas de junho de 2013.

Os históricos segmentos refratários e violentos da sociedade brasileira (as elites econômicas do empresariado, dos bancos e do agronegócio; os setores retrógrados da classe média, representados no Congresso pela bancada da Bala, da Bíblia e do Boi no Congresso; a mídia empresarial antidemocrática e segmentos privilegiados do sistema de justiça) se uniram para golpear a trajetória de construção gradual de uma sociedade verdadeiramente democrática. Isso no contexto de uma gravíssima crise econômica que se abateu sobre o país, fragilizando ainda mais o governo central - já desgastado pelo processo eleitoral belicoso de 2014, as jornadas de junho de 2013 e as várias operações policiais-judiciais seletivas que traziam à baila processos endêmicos de corrupção política no Brasil.

O importante é perceber que por trás do conjunto de atores sociais e políticos conservadores que comandaram o processo de impeachmentestão os interesses do poder econômico. Para aniquilar a democracia de fato, o poder econômico atua com esses segmentos, na sociedade e na política, a criarem condições para um modelo de governança que retira do povo a soberania e a transfere para o deus-mercado.

O quadro mundial também deve ser considerado. A subalternidade da política à economia, característica do neoliberalismo, ajuda a explicar a crise de legitimidade das instituições públicas, a centralidade do deus-mercado e a guerra midiático-judicial contra os governos populares.

Assim, podemos falar de um estado de exceção - uma exigência do neoliberalismo -, que reconfigura as estruturas do poder e do Estado a partir de uma lógica de exceção, corroendo até mesmo os pressupostos da democracia liberal.

Trata-se de um estado de exceção porque convivemos com uma democracia sem povo, a serviço do mercado, e sustentada por medidas autoritárias dos três poderes amalgamados num só sistema contra o povo e a Nação.

Portanto, a ruptura havida em 2016 se baseou numa ideologia segundo a qual o poder público, portanto o Estado, deve ser administrado como uma empresa. O Estado é pensado a partir de interesses privados; deixa de ter como base fundante o interesse público, respaldado na soberania popular, para se preocupar e garantir os interesses de uns poucos. O político, nesses termos, deixa de ser um representante eleito a mediar os vários e legítimos interesses e conflitos sociais, políticos e econômicos e passa a ser um mero gestor, ocupado e preocupado com a eficiência de toda uma estrutura pública que, no neoliberalismo, é direcionada a maximizar os interesses econômicos e financeiros dos detentores do poder econômico em detrimento dos direitos da maioria dos cidadãos.

No estado neoliberal, o espaço privado dos interesses dos poderosos é alargado e, ao mesmo tempo, o espaço público dos direitos dos cidadãos é encolhido. Nos termos do neoliberalismo é impossível uma democracia de fato. Só serve uma democracia tutelada pelos donos do capital ou por seus prepostos nos poderes do Estado.

Com as eleições de 2018 encerrou-se m ciclo de ampliação de direitos e tentativa de consolidação de um estado de bem-estar social no Brasil, inaugurado com a Constituição Federal de 1988 e abriu-se um novo ciclo, que será marcado pela voracidade no desmonte do estado social, restrição de direitos, controle e perseguição a movimentos e lideranças sociais, eclesiais e culturais e implementação de políticas que visarão o incremento da "economia que mata", nos dizeres do Papa Francisco.

Três grupos do governo Bolsonaro se encarregarão dessas pautas: no plano econômico, o grupo ultraliberal, liderado por Paulo Guedes, que conta com a empatia do vice-presidente Mourão; no plano legal, o grupo punitivista, liderado por Sérgio Moro, que, paradoxalmente, é a "cereja do bolo" do presidente e seu clã; e no plano dos costumes, o grupo moralista e conservador de base religiosa, liderado por Damares Alves, Ricardo Velez e pelo chanceler Ernesto Araújo, inspirados no ex-astrólogo Olavo de Carvalho, o guru do governo de plantão.

É preciso registrar que o governo Bolsonaro surge, também, como uma ameaça totalitária. Além de Bolsonaro personificar, em certa medida, os estereótipos que lembram um ditador (que se comunica diretamente com o povo, desprezando a institucionalidade e se impondo como dono da verdade), o mais assustador é que o núcleo do totalitarismo está nas instituições sociais e políticas quando (elas) se tornam homogêneas. E o alinhamento dos demais poderes da República a ideais autoritários do novo presidente, como se percebe no atual Congresso e em parte do Judiciário, podem indicar a tenebrosa perspectiva totalitária.

Registre-se, também, que as políticas anunciadas pelo governo Bolsonaro no âmbito da economia são ultraliberais e o ultraliberalismo é uma forma contemporânea do totalitarismo: tudo é pensado como se fosse uma empresa privada, inclusive o Estado. Elegem-se gestores como governantes e prima-se pela meritocracia. Ora, se o Estado e as instituições públicas são empresas, como será possível lidar com os conflitos, a diversidade e a exclusão social, por exemplo?

Interessante observar o "novo" governo e suas disputas no campo religioso. De maneira bastante breve, é preciso anotar que os segmentos neopentecostais dentro do protestantismo e do catolicismo continuam ativos e usam sem constrangimento a estratégia de guerrilha para a defesa de uma cosmovisão fundamentada em valores conservadores e reacionários. Continuarão atacando os segmentos identificados com ações sociopolíticas transformadoras e disputarão, cada vez mais, as narrativas sobre o significado do cristianismo em tempo de adensamento da exclusão, das fakes News, dos discursos de ódio e da violência - em nome da moral e dos bons costumes da família tradicional cristã. São visões de mundo e valores que não podem ser desprezados, porque significam, para esses segmentos, o fundamento de sua fé.

Por fim, no espectro político-institucional há imensos desafios para o campo democrático e popular pela frente. Entre os principais, a formação de uma ampla aliança de centro-esquerda democrática; a reaproximação dos partidos de inspiração socialdemocrata e socialista com as bases da sociedade e a refundação das esquerdas para enfrentarem, com uma oposição consistente, um governo de viés nitidamente autoritário.

A curto prazo, o Brasil caminha a passos largos para a desconstrução das políticas de bem-estar social advindas com a Constituição Federal de 1988, a começar pela chamada "reforma da previdência". Medidas punitivistas e de recrudescimento de um estado penal seletivo foram escancaradas no "pacote anticrime" de Moro. No plano moral e de costumes, as investidas do ministro Velez e da ministra Damares não deixam dúvidas da pauta moralista e conservadora que se espraiará sobre múltiplos setores da sociedade. E no plano das relações internacionais o chanceler Araújo, apesar de tutelado por militares das Forças Armadas, continua acreditando que Trump é o salvador da civilização ocidental, a sinalizar que conflitos de múltiplas ordens poderão isolar o país da concertação internacional.

Isso sem contabilizar as disputas viscerais intragoverno: do presidente e seu clã com o vice; dos grupos que querem se sobressair, liderados por Paulo Guedes, Moro, Onix, entre outros; da política rasteira que se inaugura nas duas casas do Congresso e na ação ou inação do sistema de justiça diante de acusações gravíssimas que pesam sobre o clã presidencial, ministros de seu governo e aloprados com se comportam como donos do poder. Noves fora a participação (ação, conivência e/ou omissão) das Forças Armadas nessa verdadeira maionese.

Aguardemos...


ROBSON SÁVIO REIS SOUZA. Doutor em Ciências Sociais, professor universitário e membro da Comissão da Verdade de MG.
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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Nº 25.186 - "HOSPITAL ALBERT EINSTEIN DECIDE NÃO FIXAR ALTA DE BOLSONARO"



05/02/2019

HOSPITAL ALBERT EINSTEIN DECIDE NÃO FIXAR ALTA DE BOLSONARO

Do Brasil 247 -05/02/2019

Divulgação

A alta do presidente Jair Bolsonaro, que estava prevista para esta quarta-feira e ontem foi adiada para a próxima segunda-feira, dia 11, agora não tem mais data fixa; de acordo com boletim do Hospital Albert Einstein, divulgado hoje, novos exames serão feitos antes de qualquer definição. Na noite de domingo, o presidente teve elevação de temperatura (37,3ºC) e alteração de alguns exames laboratoriais, basicamente um aumento de leucócitos, o que levou ao início de um tratamento com antibióticos e adiamento da alta hospitalar para não antes da próxima segunda-feira

247 – A alta do presidente Jair Bolsonaro, que estava prevista para esta quarta-feira e ontem foi adiada para a próxima segunda-feira, dia 11, agora não tem mais data fixa; de acordo com boletim do Hospital Albert Einstein, divulgado hoje, novos exames serão feitos antes de qualquer definição. Na noite de domingo, o presidente teve elevação de temperatura (37,3ºC) e alteração de alguns exames laboratoriais, basicamente um aumento de leucócitos, o que levou ao início de um tratamento com antibióticos e adiamento da alta hospitalar para não antes da próxima segunda-feira. Abaixo, reportagem da Reuters:

SÃO PAULO (Reuters) - O estado de saúde do presidente Jair Bolsonaro melhorou nas últimas 24 horas, segundo boletim desta terça-feira do hospital Albert Einstein, onde ele está internado, mas a equipe médica ainda não definiu a data da alta do presidente, disse o porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros.

"Bolsonaro permanece internado na unidade semi-intensiva", diz o boletim médico. "Houve melhora do seu estado de saúde nas últimas 24 horas, evoluindo sem dor, afebril e com redução da coleção líquida no abdome."

Segundo o boletim, o presidente "apresentou aumento da movimentação intestinal, o que possibilitou o início de ingestão de líquidos por via oral em associação à nutrição parenteral".

"Os exames laboratoriais apresentam melhora. O paciente segue com antibióticos e dreno no abdome", acrescenta o boletim.

Na noite de domingo, o presidente teve elevação de temperatura (37,3ºC) e alteração de alguns exames laboratoriais, basicamente um aumento de leucócitos, o que levou ao início de um tratamento com antibióticos e adiamento da alta hospitalar para não antes da próxima segunda-feira, informou o porta-voz.

Bolsonaro passou por uma cirurgia para a retirada da bolsa de colostomia no dia 28 de janeiro, e a previsão inicial era de uma internação de 10 dias.

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Nº 25.185 - "Bolsonaro leva o Brasil à beira do abismo"

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05/02/2019

Bolsonaro leva o Brasil à beira do abismo

Do Brasil 247 - 05/02/2019


Adriano Machado - Reuters

por Pepe Escobar*

Pepe EscobarEnquanto avulta a especulação sobre até quando Jair Bolsonaro resistirá, seu governo de extrema-direita está realizando um trabalho subterrâneo para a tomada de grandes parcelas da floresta virgem amazônica pelos grupos mais empenhados do agronegócio.

Um espectro assombra as elites brasileiras. Ele se chama Lula – o ex-presidente e, nos últimos nove meses, um dos prisioneiros políticos mais notórios do mundo, dada sua enorme popularidade e a controvérsia sobre sua condenação e encarceramento.

O Brasil, que até recentemente era um dos líderes do Sul Global, membro dos BRICS e oitava maior economia do mundo, dança perigosamente sobre o abismo: À performance altamente criticada do presidente Bolsonaro em Davos, vêm acrescentar-se detalhes dramáticos sobre as ligações perigosas entre o clã Bolsonaro e um dos mais notórios sindicatos do crime no Rio, sem mencionar o veto da Arábia Saudita às importações brasileiras de carne, resultado direto da promessa do novo presidente de transferir a Embaixada brasileira para Jerusalém.

Tudo isso volta os holofotes para o autocrata que está à espera; o vice-presidente e general aposentado Hamilton Mourão.

Para os financistas e o poderoso lobby do agronegócio que desempenharam um papel fundamental em sua eleição, Bolsonaro traz embaraços e torna-se dispensável. Mourão já disse que Ernesto Araujo, o novo ministro das Relações Exteriores, - um medíocre diplomata de baixo escalão, subserviente a um dos filhos de Bolsonaro - não foi capaz de formular a complexa política externa brasileira.

Como se não bastasse, o embaixador alemão Georg Witschel, em uma visita a Mourão, fez questão de salientar que não apenas Berlim, mas também as autoridades da União Européia em Bruxelas, ficaram chateadas ao ver o Brasil liderado por alguém com tão pouco respeito pelos direitos humanos, e isso bem no meio das negociações para um Pacto de Livre Comércio entre o Bloco Comercial Sul-Americano Mercosul e a UE.

Em São Paulo - capital financeira da América Latina – propaga-se o rumor de que um "golpe brando" em câmera lenta poderia estar em andamento para remover o novo presidente. Um documentário explosivo está prestes a ser transmitido pela poderosa Rede Globo mostrando, com a ajuda de especialistas americanos, que o “esfaqueamento” sofrido por Bolsonaro em setembro passado, durante sua campanha presidencial, foi, na verdade, um ardil publicitário.

Tudo parece desaguar em um caminho já trilhado: A eterna negociação entre militares e o império midiático da Globo, que, ao lado de Washington, apoiou ferozmente o golpe de 1964, resultando em uma ditadura militar de 21 anos. Isso levou à especulação sobre a possível emergência de Mourão como presidente.

Nessa hipótese, a pacificação das massas em benefício da reconciliação nacional pode até envolver a libertação de Lula para alguma forma de prisão domiciliar. Mas tudo isso ocorre em meio a conversas sobre mais privatização de empresas estatais.

Mas como chegamos a isso?

Expulsar os “comunistas”

O pai do general Mourão foi um ator importante do golpe de 1964 e seu filho, Hamilton Mourão sempre foi um adversário ferrenho dos dois presidentes, Lula e Dilma Roussef. Em 2017, ele disse que chegara o momento de mais um golpe militar. Imediatamente após a vitória de Bolsonaro-Mourão, ele jurou que o Presidente Nicolas Maduro seria derrubado e que o Brasil iria enviar uma força de “paz”. Bolsonaro fora até obrigado a frisar que Brasília não cogitava uma guerra contra Caracas.

As forças armadas brasileiras devem ser analisadas pelo ângulo do “terrorismo nunca mais”. O site Ternuma explica como os "comunistas", após o fim da ditadura militar em 1985, de "criminosos" tornaram-se "heróis" e de "terroristas" viraram "idealistas políticos", sempre saudados pela mídia. A “democracia” brasileira por ser tida como imposta, é desprezada, refém da “falsa política dos direitos humanos” e os sem-teto e os sem-terra são devidamente criminalizados.

Este ódio a todas as vertentes da esquerda combina-se com o lema “O Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” - que não por acaso foi reapropriado da Brigada de Paraquedistas do Exército e tornou-se o mantra de campanha de Bolsonaro. Tanto Bolsonaro quanto Mourão são ex-paraquedistas.

Um coronel, Claudio Casali, explicou como o lema - ressurgido nos últimos anos - foi cunhado em 1968 por um grupo de paraquedistas nacionalistas, enquanto a ditadura militar estrangulava a cultura e a mídia.

O lema fez combustão nos quartéis militares, mais uma vez, durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff que, em uma tentativa de apagar o incêndio político, foi forçada a nomear Celso Amorim, o ex-ministro de Relações Exteriores de Lula - recentemente entrevistado pelo Asia Times - como ministro da Defesa.

Antes mesmo da reeleição de Dilma no final de 2014, Bolsonaro visitou a elite da Academia Militar das Agulhas Negras, prometendo “consertar” o Brasil. Toda a cadeia de comando militar apoiou-o entusiasticamente.

Foco na Floresta Amazônica

O que os militares brasileiros realmente pensam está claramente exposto em seu site, estritamente ligado a um poderoso grupo de generais - entre eles Augusto Heleno, Eduardo Villas-Boas, Sergio Etchegoyen e Mourão. O atual comandante das forças terrestres brasileiras é o padrinho de Etchegoyen. Essa elite militar medita sobre a melhor via de promoção do Exército brasileiro sob o governo de Bolsonaro e até mesmo consegue inverter a Teoria da Guerra Híbrida, analisando as formas pelas quais os "comunistas" se aproveitaram de suas técnicas.

O que aconteceu foi que o “golpe” por etapas de 2016/18 no Brasil revelou-se ser a forma mais sofisticada de Guerra Híbrida já implantada pelo poder judiciário-policial-militar e seus aliados financeiros, empresariais e midiáticos, levando ao impeachment da Presidente Dilma por meio de acusações inconsistentes e à prisão de Lula sem evidências concretas de corrupção.

Previsivelmente, o debate intelectual nas academias militares brasileiras reflete o dos Estados Unidos, incluindo a reapropriação da MOUT - Operações Militares em Ambiente Urbano, concebida pela Rand Corporation - e aplicada pelo exército da OTAN do Presidente Macron contra as manifestações dos Gilet Jaunes ou Coletes Amarelos na França.

Podemos estar entrando agora em uma nova e perigosa fase da Guerra Híbrida - como os militares brasileiros a interpretam. Discuti isso extensivamente com um dos principais especialistas brasileiros, o antropólogo de guerra Piero Leirner, professor da Universidade Federal de São Carlos. Leirner me contou como as forças armadas realmente acreditam que devem “militarizar” os fazendeiros para combater uma suposta aliança guerrilheira do Partido dos Trabalhadores com o PCC, sindicato do crime organizado - uma noção absolutamente espúria.

A latitude a partir da qual se deve observar o Brasil é uma região saída diretamente do Coração das Trevas de Joseph Conrad, situada ao redor de São Gabriel da Cachoeira, na margem norte do Rio Negro, o terceiro maior município do Brasil, e o segundo maior no imenso Estado do Amazonas.

Imagine uma imponente torre de vigilância coberta por densas florestas tropicais a não menos de 1.100 km de Manaus, capital do Estado. Não por acaso, a região do Alto Rio Negro está muito próxima das fronteiras colombiana e venezuelana. Há uma Brigada do Exército solitária no local; não é exatamente o que se precisa para uma "invasão" da Venezuela. Além disso, a selva é implacável – somente um desembarque aéreo é viável.

E, no entanto, para os militares, essa fronteira extrema e erma pode ser transformada em um dos Bálcãs brasileiros. Por quê? Porque poderia desembocar em confrontos de terras na floresta estimulando provavelmente conflitos com os indígenas Yanomami.

Em sintonia com as promessas de campanha de Bolsonaro de abrir a Amazônia ao agronegócio - pesadelo dos ambientalistas do mundo inteiro - Leirner diz que as forças armadas parecem estar preparando o terreno para a ocupação dessas florestas virgens por poderosos fazendeiros gaúchos do sul profundo do país. As grandes gestoras de ativos, BlackRock, State Street e Vanguard, são as principais acionistas dos cinco maiores agronegócios já em operação na Amazônia.

Coturnos prontos para agir

Além da Amazônia, os militares brasileiros continuarão projetando poder em sua esfera de influência geopolítica do Atlântico Sul; nos Andes, na África e no Caribe. O general Heleno foi enviado ao Haiti como comandante das forças de paz da ONU. Ele também foi o maior comandante da floresta amazônica.

Os mais graduados generais têm cargos ministeriais importantes no governo Bolsonaro. Segundo Leirner, nada menos que 20% do escalão superior está agora totalmente empregado. Nesta quarta-feira, o general Villas-Boas foi nomeado conselheiro especial de Heleno, o Ministro do Gabinete de Segurança Institucional, conhecido por sua sigla GSI. O GSI é o braço da inteligência do governo federal. Heleno é o estrategista chefe de Bolsonaro.

Bolsonaro nunca teve vergonha de defender os crimes da ditadura militar, e muito menos de exaltar torturadores notórios no Congresso. Sua popularidade e habilidade em manejar as redes sociais causaram grande impressão dentre os principais generais - que o identificaram como o homem perfeito para trazê-los de volta ao poder.

Eles sabiam que Bolsonaro sofria de várias imperfeições e que estar de volta ao controle total seria apenas uma questão de tempo. No entanto, problemas podem surgir do fato de que, como Leirner enfatiza, Mourão é apenas um técnico e carece do apelo carismático de Bolsonaro.

Embora os militares brasileiros exibam diferentes graus de nacionalismo, todos se aliam em torno de um forte corporativismo. A questão é se eles serão capazes de superar a marca registrada do país, a saber, a alienação e a mentalidade subimperial de uma antiga colônia esclavagista que ainda não atingiu a consciência hegemônica de sua grandeza como parte de um mundo multipolar emergente.


PEPE ESCOBAR é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais.

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