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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Contraponto 5949 - "Onde estava você no golpe militar"

08/08/2011

Onde estava você no golpe militar

Do Blog do Emir - 08/08/2011

Os países costumam ter momentos fundamentais, em que se decidem os seus destinos. Nesses momentos cada pessoa, cada força política, cada meio de comunicação, todos, revelam suas posições profundas, os interesses que defendem, de que lado estão. O golpe militar de 1964 foi esse momento decisivo na história do Brasil, quando a democracia foi questionada e finalmente derrubada e destruída por uma ditadura militar.

Daí que faz todo sentido perguntar para cada um: Onde estava você no golpe militar?

Havia dois discursos, antagônicos. Um, o da defesa da democracia e extensão das suas conquistas, com a incorporação de setores cada vez mais amplos aos seus direitos fundamentais. A favor da extensão da democratização do Brasil – da sociedade e do seu Estado.

O outro, assumido por toda a mídia, junto com os partidos de oposição e o governo dos EUA, era de que os riscos à democracia que representaria o governo de Jango, justificariam um golpe militar preventivo. Argumento típico da guerra fria, que mobilizou forças contra a democracia, promovendo golpes militares em muitos países do continente. Foi exatamente o que aconteceu no Brasil.

“Nas palavras do presidente (sic) Castello Branco proferidas na solenidade de posse há uma nítida convocação para que a obra de reconstrução se faça com a colaboração indistinta de todas as classes, das produtoras e das trabalhadoras, das armadas e das civis, das eventualmente saudosistas do antigo regime e das que se regozijaram com a sua deposição.” O ditador é tratado, no título do editorial, como: “O Presidente de todos”, pelo jornal dos otavinhos. A manchete do dia do golpe – primeiro de abril – foi: “Ademar: 6 estados sublevam-se para derrubar Goulart.” Nenhuma menção à palavra golpe, menos ainda a ditadura e à intervenção dos militares, aliados com o grande empresariado, com os partidos de oposição, com a hierarquia da Igreja Católica e com o governo dos EUA.

Nesse momento crucial da nossa história, que mudou a nossa história de forma tão radical na direção da ditadura contra a democracia, de um modelo econômico excludente contra a inclusão social, pela aliança subordinada com os EUA contra a soberania nacional – nesse momento, cada um mostrou sua cara, disse de que lado está. Do lado da democracia ou da ditadura, dos interesses nacionais ou do entreguismo, da inclusão social ou da exclusão social.

É fácil, depois que a resistência popular derrubou a ditadura, tergiversar com a palavra democracia, esconder o passado, tentar embaralhas as coisas, para buscar impedir que se recorde onde estava cada um no dia primeiro de abril. Mas tudo está consignado pela história. O editorial mencionado acima é apenas um dessa empresa e de todas as outras – à exceção da Última Hora, que por isso mesmo não sobreviveu -, de apoio e incentivo ao golpe e à instauração da ditadura militar. Que venham a publico desmentir ou se arrependerem, se consideram que cometeram o pior erro que se pode cometer, de atentado grave e reiterado á democracia.

Todos os que estivemos do lado de cá, de defesa da democracia, não temos nada a esconder, nos orgulhamos disso e seguimos coerentes com essa luta. Estávamos, no primeiro de abril, e seguimos estando, do lado da democracia, dos interesses populares e nacionais.

Emir Sader. Sociólogo e cientísta político

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terça-feira, 12 de abril de 2011

Contraponto 5179 - "O Golpe Militar de Sarkozy na Costa do Marfim"

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12/04/2011

O Golpe militar de Sarkozy na Costa do Marfim

Do Viomundo -
11 de abril de 2011 às 21:59

por Luiz Carlos Azenha

Por motivos óbvios, a melhor fonte para entender as sacanagens geopolíticas dos franceses são os diários ingleses.

Esta é do jornal britânico Guardian:

Sarkozy’s micro-managed intervention in Ivory Coast could win votes [Intervenção micro-gerenciada de Sarkozy na Costa do Marfim pode ganhar votos]

O presidente francês evitou acusações de neocolonialismo em suas cuidadosas campanhas de caubói na África

por Kim Willsher, em Paris, no guardian.co.uk, Monday 11 April 2011 21.13 BST

Momentos depois da captura de Laurent Gbagbo, o presidente Nicolas Sarkozy telefonou ao rival de Gbagbo, Alassane Ouattara, o internacionalmente reconhecido vencedor das eleições do ano passado.

Notícias iniciais sugeriam que tropas francesas tinham capturado Gbagbo, mas foram prontamente negadas por Paris: as tropas francesas não tinham prendido Gbagbo, ele tinha sido entregue a elas pela própria guarda presidencial.

Então, novas notícias: as forças de Ouattara tinham prendido Gbagbo. E finalmente: as forças francesas ajudaram os rebeldes, mas nenhum soldado francês tinha colocado nem mesmo uma bota no jardim da casa de Gbagbo.

Na versão contada por Paris, os forças da França e das Nações Unidas tinham cercado a residência de Gbagbo e reduzido parte do prédio a escombros com mísseis disparados por tanques e helicópteros para destruir “armamento pesado”.

Então elas pararam e esperaram que as forças de Ouattara entrassem na residência. Este cenário, se verdadeiro, é o melhor pelo qual Sarkozy pode esperar: os franceses ganharam o dia, mas não deram o golpe final, o que poderia causar acusações de neocolonialismo.

Em semanas recentes, Sarkozy milagrosamente se recuperou de desastres diplomáticos franceses no Norte da África. A política externa dele tinha sido declarada “sem coragem” depois que Paris inicialmente se ofereceu para esmagar a revolta da Tunísia.

Com uma eleição presidencial dentro de um ano — e os índices de popularidade em baixa recorde — Sarkozy precisava fazer alguma coisa. Primeiro ele liderou o ataque à Líbia, empurrando nas Nações Unidas uma resolução que deixaria livres os caças franceses e faria todos os outros — com exceção de David Cameron — parecerem indecisos.

Entusiasmada, a França obteve uma resolução similar da ONU autorizando as forças da Operação Licorne na Costa do Marfim a agirem “em defesa dos civis”, o que na prática significava apoio a Ouattara.

A Licorne foi reforçada para ter 1.400 soldados, que imediatamente assumiram controle do aeroporto de Abidjan e começaram a patrulhar a cidade enquanto “operadores de inteligência” franceses, segundo rumores, atuavam no país.

Sarkozy, se diz, estava em contato regular com Ouattara — o presidente francês oficiou o casamento de Ouattara quando era prefeito de Neuilly — e alegadamente gerenciou o conflito na Costa do Marfim nos mínimos detalhes. Foi Sarkozy quem aconselhou Ouattara a evitar um ataque a Gbagbo para que ele não se tornasse um mártir, e foi Sarkozy quem se negou a permitir que as forças francesas assumissem o controle das pontes de Abidjan, ainda que isso facilitasse o resgate de civis. Fotos da bandeira francesa hasteada sobre a ponte Charles de Gaulle, no coração da ex-capital colonial, ele decidiu, não mandariam a mensagem certa para o resto da África.

A cada passo, Paris insistiu que a ação militar fosse precedida por um pedido formal das Nações Unidas para que as forças francesas agissem, e tanto a França quanto a ONU insistiram que seu objetivo não era derrubar Gbagbo. Mas na noite passada a grande questão sobre a prisão de Gbagbo continuava, como o Le Monde perguntou: “Quando é que as forças francesas agiram?”.

O embaixador francês em Abidjan, Jean-Marc Simon, insistiu que “em nenhum momento” qualquer tropa francesa entrou “nos jardins da residência presidencial”. O jornal citou uma fonte do ministério da Defesa dizendo que forças da França e da ONU tinham “apoiado a operação” para prender o presidente Gbagbo, de 65 anos de idade.

A questão sobre quem prendeu Gbagbo pode parecer pedante, mas Sarkozy tem se equilibrado sobre uma linha fina, correndo o risco de ser acusado de intervenção — de neocolonialismo e de uma tentativa de melhorar sua popularidade em casa com sucessos no campo de batalha — ou acusado de relaxar e não fazer nada. Falta de ação não é a posição-padrão de Sarkozy — particularmente na Costa do Marfim, onde moram 15 mil cidadãos franceses.

O [jornal] Le Figaro sugeriu que as aventuras militares de Sarkozy poderiam de fato ser garantidoras de votos: “O presidente da República pensa que os franceses sentem um certo orgulho de ver que seu país joga um papel importante no cenário mundial e que este papel é reconhecido fora de nossas fronteiras. É bom para a moral”, o jornal disse.

PS do Viomundo: A França tem fortes interesses econômicos na Costa do Marfim. Imaginar que o poder predador europeu, que cometeu diversos e variados crimes na África, vá agir no continente por algo que não seja a defesa de seus próprios interesses, é o mesmo que imaginar que Abdul, o amigo imaginário do atirador Wellington Menezes de Oliveira, pertence à célula do bin Laden.

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