terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Contraponto 18.355 - "A insistência golpista de FHC"

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09/02/2016
 

A insistência golpista de FHC


Blog do Miro  - terça-feira, 9 de fevereiro de 2016


Editorial do site Vermelho:


A direita tenta - e tentará, ao longo do ano - a todo custo marcar Luiz Inácio Lula da Silva com a pecha da imoralidade e da ilegalidade, no esforço de impedir sua candidatura à presidência em 2018.

Esta direita já não tem porta-vozes do porte daqueles que teve faz mais de 50 anos, e hoje precisa contentar-se com o ex-príncipe dos sociólogos Fernando Henrique Cardoso, que está longe de ter a clareza e, porque não dizer, o estilo do jornalista Carlos Lacerda, que foi o porta-voz do atraso nas décadas de 1950 e 1960.

Os dois artigos mensais que FHC publicou em 2016 são notáveis pela falta de clareza e pelos vaticínios contraditórios cometidos pelo ex-presidente convertido em comandante e ideólogo da direita tupiniquim.

O primeiro, publicado em 03/01/2016 ("Sinais de preocupação e esperança"), voltou-se contra o demônio que assombra os políticos ligados à elite: o “populismo” que tradicionalmente condenam.

FHC apostou, naquele artigo, que Dilma Rousseff não completará seu mandato. Escreveu que contra ela vale tudo - "renúncia, retomada da liderança presidencial em novas bases ou, sendo inevitável, impeachment ou nulidade das eleições".

Um mês depois, em pleno Carnaval, ele volta à carga e, em "O certo e o errado”, publicado domingo (7), renova o chamamento ao impeachment. O pretexto, agora, é a troca dos ministros da Fazenda, na qual vê o abandono do ajuste fiscal à Joaquim Levy (o “certo”) e o retorno dos incentivos ao crescimento da economia sob Nelson Barbosa (o “errado”).

Sua pretensão de análise tenta contrapor o que considera “moderno” (isto é, os neoliberais, que pensam como ele) ao que condena como “atraso” (os desenvolvimentistas reunidos em torno do governo da presidenta Dilma Rousseff).

E tergiversa a respeito da luta que realmente está em curso no país – entre os interesses populares e do setor produtivo, em confronto com a direita que representa o rentismo e a especulação financeira da qual Fernando Henrique Cardoso é o porta-voz mais vistoso.

Ele demonstra saber, e lamentar, que a contraposição política em curso opõe os trabalhadores e empresários da produção contra a ganância financeira e rentista. Investe contra a ideia de “pobres versus ricos” - que, teme, “pode funcionar”. Funciona por que descreve, de maneira que o povo entende, a contraposição de classe fundamental que ocorre no país, por mais que ele lamente!

Seu artigo recente termina com uma convocação ao impeachment, como não podia deixar de ser. "Há forças capazes de corrigir os desatinos cometidos”, afirma. “Para isso, é preciso que lideranças não comprometidas com o lulopetismo, apoiadas pelos grupos sociais que nunca se deixaram ou não se deixam mais seduzir pelo seu falso encanto, assumam a sua responsabilidade histórica, dentro da Constituição, para fazer o certo".

Na torre de marfim onde se esconde da realidade concreta do pais e da luta do povo (realidade que ele despreza) FHC navega por águas turvas e turbulentas.

Contra Getúlio Vargas (contra o mesmo “populismo” alvo de FHC), em 1954, o desenlace da crise e do golpismo foi um tsunami popular que devastou a elite e seus representantes (e mesmo os equívocos de “esquerda” contaminados pelas “denúncias” contra Vargas).

Na época, a reação popular foi capaz de atrasar, por uma década, o golpe da direita, que se concretizou em 1964.

Hoje, meio século depois, a situação é outra, e não é confortável para a direita e a classe dominante conservadora beneficiária do rentismo e da especulação.

Luciana Santos, presidenta nacional do PCdoB, já havia alertado, no auge da crise, em dezembro passado, para a possibilidade de uma forte resistência popular contra o golpismo. Ela tinha razão; deputada e líder política ligada ao povo e aos trabalhadores, ela sabe interpretar o sentimento das ruas, que traduziu naquele alerta.

A presidenta do PCdoB não está sozinha ao constatar a possibilidade de uma reação popular de envergadura. O decano dos criminalistas de São Paulo, Paulo Sérgio Leite Fernandes, acaba de fazer alerta semelhante. Dizendo que o objetivo final da operação Lava Jato é prender o ex-presidente Lula (que é o “troféu de caça" ambicionado pela direita), ele chama a atenção para as consequências: "Se chegar a prender Lula”, disse, “há a possibilidade de uma reação enorme da sociedade civil".

Ele tem razão. O objetivo da investida da direita contra Lula é alcançar a esquerda, os progressistas e aqueles que defendem o país. E derrotar todo esforço por um desenvolvimento nacional soberano que beneficie o povo e os brasileiros e liquide privilégios inaceitáveis que beneficiam setores da classe dominante brasileira desde o passado colonial.

Este é o sentido da luta contemporânea: derrotar o atraso e o anacronismo dos neoliberais e colocar em seu lugar a modernidade autêntica e avançada de um sistema social e político que beneficie a nação e os brasileiros.
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Contraponto 18.354 - "Os inimigos de Lula e os milhões de Silvas"


 

09/02/2016 

 

Os inimigos de Lula e os milhões de Silvas

 

Brasil 247 - 09/02/2016 

 

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Jaime Amparo Alves

"Não parece razoável o que estão fazendo com o Lula". A frase do tucano Luís Carlos Bresser-Pereira poderia ser o sinal da tão esperada distensão politica, mas não é por um único motivo: Lula não é adversário, é inimigo. Ao adversário se estende a mão, reconhece-se a sua dignidade humana e se respeita as regras do jogo. Lula nunca foi aceito. Desde o primeiro dia do primeiro mandato, Lula tem sido submetido a um ataque sistemático. A Folha de S. Paulo investigou uma tal propensão genética da família Silva ao álcool, a Revista Veja já celebrou o 'câncer do presidente' e o Globo já apresentou Lula como presidiário em suas charges. Tudo isso sem falar na violência sanitarizada dos telejornais da Globo com seus apresentadores cinicamente consternados com a corrupção no país, enquanto o nome emissora (agora a RBS) aparece em mais um escândalo fiscal. Na ausência absoluta de padrões éticos jornalísticos, nos resta perguntar se a raiva irracional de William Waack contra Lula, Hugo Chaves e Cristina Kirchner, por exemplo, não seria o caso de tratamento psiquiátrico.

No fundo no fundo, até os incendiários Aécio Neves e Carlos Sampaio sabem que "não é razoável" como a imprensa trata o ex-presidente Lula. Mas Lula da Silva foi longe demais em sua loucura política de desafiar o establishment; e olhe que para aqueles de nós frustrados com o PT, Lula fez muitas concessões e perdeu a oportunidade de fazer as mudanças radicais que o Brasil tanto precisa; entre elas a urgente e cara ley dos médios, a reforma agrária, e a justiça tributária. Inútil chorar o leite derramado aqui porque ele segue derramando. O governo Dilma Rousseff continua implacável no mesmo script, com o agravante de que em sua tecnicidade Dilma nega a politica, se afasta do povo e afasta de vez a esperança na tão sonhada virada de mesa do primeiro governo, do segundo, do terceiro, do quarto.

Ainda que Lula tenha alimentado os seus próprios predadores na esperança inútil de que fazendo concessões estratégicas a elite permitiria um governo popular, ir 'as ruas defendê-lo é um dever de todos aqueles com um mínimo de educação politica e de perspectiva histórica. A perseguição implacável que sofre é um indicativo das suas virtudes não dos seus defeitos. Lula não é atacado porque fez menos do que o Brasil precisa, mas sim porque ousou arranhar a centenária estrutura hierárquica do país trazendo os pobres para o debate nacional. A não ser que as forças políticas de esquerda corroborem com o moralismo dirigido do conglomerado policial-midiático segundo o qual o PT é o partido mais corrupto da historia, a perseguição implacável a Lula deveria despertar uma solidariedade política estratégica. A mensagem é clara aqui: se Lula, com suas concessões pragmáticas, se converteu em inimigo mortal, imagine a maquina de guerra que seria montada contra um hipotético governo muito mais 'a esquerda? Talvez o tratamento editorial da Globo ao presidente venezuelano Hugo Chaves – o sorriso mal disfarçado dos apresentadores da Globo News com a sua morte - nos dê uma milésima dimensão de como seria o terror midiático a um projeto político radical que as forças mais a' esquerda do PT defendem e que o Brasil urgentemente precisa.

Que a imprensa trate Lula como inimigo é explicável e deveria até fazer bem ao ego do ex-presidente. Ter a mídia como inimiga é um termômetro importante. O que não é razoável é o silencio das esquerdas com a violência politica da qual o ex-presidente é vitima, como se os movimentos sociais e os partidos neste espectro políticos não fossem os próximos da fila. Eles virão por nós!

Não é uma incongruência defender o legado de Lula da Silva e criticar o pragmatismo político que nos trouxe ao momento atual. Tampouco se trata de relativização moral porque o que está em questão aqui não é provar sua inocência. Tarefa inútil. Há neste momento toda uma estrutura estatal, incrivelmente sob o comando do ministro da Justiça do PT, para encontrar um 'crime' praticado pelo ex-presidente. Perguntar não ofende: quem de nós sobreviveria a tamanha cruzada policial-midiática? Não me refiro a uma checagem de antecedentes criminais ou a uma varredura em contas no exterior, mas a todo um aparelho policial estatal orientado a encontrar um crime, um arranhão na biografia, um desvio na conduta dos filhos, dos vizinhos, dos amigos.

Não há tempo a perder. Se há alguma lição a se aprender do julgamento do 'mensalão' é que a defesa de Lula da Silva deve acontecer nas ruas e nas mídias sociais porque é perda de tempo lamentar a inimputabilidade tucana sob a plutocracia judiciária. Juízes, promotores e delegados têm alma, classe social e partido político. Senão, como explicar as aberrações jurídicas com assento na suprema corte e com suas retóricas anti-petistas nos e fora dos autos? Leigos nos assuntos legais, eu e meu sobrinho de sete anos sabemos que "não é razoável" que um juiz falastrão utilize suas prerrogativas (e o nosso dinheiro!) para militância político-partidária e que seja endossado pelo silencio ensurdecedor dos seus pares. Mania de perseguição? Nas mãos petistas um cartão corporativo, uma tapioca, uma canoa de lata ou o empréstimo de um sitio em Atibaia têm mais peso policial-midiático do que um apartamento na Avenida Foch, no centro de Paris, um helicóptero com meia tonelada de cocaína, as fraudes do metro paulistano, ou cinco milhões de dólares em bancos suíços.

A tentativa de assassinato da biografia da figura mais marcante da vida política nacional contemporânea tem um outro significado importante. Com o assassinato politico de Lula abre-se caminho para o desmonte da política soberana do pré-sal e para o retrocesso nas conquistas sociais como o Bolsa Família e as cotas raciais nas universidades publicas. É o que está por trás da violência contra Lula da Silva e é o que deveria nos unir em sua defesa.

A história haverá de colocar em seus devidos lugares dois presidentes, em dois brasis e com duas trajetórias distintas. Um, (o presidente-sociólogo, poliglota, membro da Academia Brasileira de Letras, descendente de imigrantes portugueses, frequentador dos círculos acadêmicos norte-americanos) levou a cabo um criminoso programa de privatizações do patrimônio público e alienação da soberania nacional. O outro, (o presidente nordestino, metalúrgico, sem formação superior, e sem etiquetas no falar) resgatou a esperança de milhões de brasileiros submetidos à humilhação da fome e da seca. Nossos netos lerão nos livros de história sobre um presidente semi-analfabeto, que abriu as portas do ensino superior para milhões de jovens condenados por um presidente-sociólogo a repetir os passos dos seus pais envelhecendo fora das universidades. A história não poderá apagar o nome do presidente nordestino que, não sendo poliglota como o presidente-sociólogo, inseriu o Brasil como país soberano na cena politica mundial. Talvez quem hoje tenha 20 anos de idade ou nasceu sob o governo do PT não tenha um parâmetro para comparar o que era a vida dos mais pobres uma década. Eu tenho. Como jovem e membro da Pastoral da Criança, durante os últimos resquícios da teologia da libertação no interior da Bahia, eu conheci de perto a fome, a desnutrição e a morte. Pesávamos crianças raquíticas, de pais raquíticos, com salários raquíticos. Era morte produzida pelas politicas sociais do presidente sociólogo e sua turma. Agora eles perseguem a capa do jornal matutino com Lula da Silva algemado. Talvez ganhem a foto, mas perderão o sono.

Somos Lula! #‎LulaEuConfio‬‬‬‬‬

 
Jaime Amparo Alves.
Doutor em Antropologia Social pela Universidade do Texas em Austin e professor de sociologia e antropologia da City University of New York (CUNY/CSI)
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Contraponto 18.353 - "Lula: espetacularização, perseguição e inconveniências, por Aldo Fornazieri"

Lula: espetacularização, perseguição e inconveniências, por Aldo Fornazieri

 

Lula: espetacularização, perseguição e inconveniências

 

por Aldo Fornazieri



De tudo o que foi investigado e revelado em relação tríplex do Guarujá e ao sítio de Atibaia não há nenhuma evidência de que Lula tenha cometido algum crime. Nos dois casos, o que se evidencia é uma clara espetacularização e perseguição por parte do Ministério Público, da Polícia Federal e por setores da mídia. Não que os dois casos não pudessem ser investigados ou que o próprio Lula não possa ser investigado. Mas, desde o início, há poucas evidências de que haja qualquer conduta dolosa por parte de Lula. Assim, requer-se o comedimento e a cautela necessárias que o agente público e a boa investigação devem ostentar.

No caso do tríplex, está claro que a família de Lula tinha uma quota e que decidiu não consumar a compra do imóvel. Não caso do sítio, comprovadamente, pertence a terceiros, amigos da família Lula, que o disponibilizaram para uso do ex-presidente. Para além disso, o que se pode discutir são atitudes politicamente inconvenientes de Lula, mas não atos criminosos. Não é tarefa nem do Ministério Público, nem da Polícia Federal e nem da operação Lava Jato investigar atitudes politicamente inconvenientes de um ex-presidente da República.

A perseguição e a espetacularização das ações do Ministério Público e da Polícia Federal andam juntas. Elas se expressam desde a escolha do nome das operações e se confiram nos seus desdobramentos. A operação Triplo X da semana passada teve um claro viés político visando atingir a figura de Lula desde a escolha do nome. É questionável até mesmo que as prisões e condutas coercitivas da operação fossem necessárias. Todos os detidos foram soltos.

Fica cada vez mais evidente que atos desnecessários, ilações indevidas e espetacularizações de ações e informações emanadas e praticadas pela PF, pelo Ministério Público e pelo juiz Sérgio Moro adquirem cada vez mais um caráter persecutório contra Lula. A espetacularização promovida por esses agentes públicos e reforçada por setores da mídia visa criar cenas e estados emocionais sensacionalistas com claro objetivo de destruir a figura política e moral de Lula.

A mídia pode até ter interesses comerciais na reprodução da espetacularização. Mas os agentes públicos têm claros objetivos políticos, incompatíveis com as funções que exercem. Os políticos de oposição, cujo único programa consiste na destruição do PT e do governo, também passaram a teatralizar as denúncias emanadas na operação Lava Jato.

Tudo ocorre como se os vazamentos seletivos fossem verdades incontestáveis, como se os denunciados por delações premiadas fossem criminosos indefensáveis. Todo o movimento consiste na construção de uma condenação prévia por parte da opinião pública. A espetacularização tem um viés totalitário: bloqueia a discussão pública como forma de  busca e construção da verdade. Fabrica uma verdade prévia que é imposta à opinião pública, quando não, aos próprios juízes.

Parcialidade e inconveniências

A parcialidade do Ministério Público, da Polícia Federal e do juiz Moro são a cada dia mais indisfarçáveis. Há uma evidente determinação de criminalizar o PT e de inculpá-lo exclusivamente pela corrupção no Brasil. Há uma grave omissão na investigação de denúncias de corrupção que atingem políticos do PSDB. O caso do Ministério Público de São Paulo chega a ser escandaloso: omitiu-se vergonhosamente na investigação do escândalo do Metrô e promove uma espetacularização absurda, mesmo sem provas, no caso do tríplex do Guarujá.

Recentemente, Aécio Neves foi acusado por um delator de receber um terço das propinas provenientes da corrupção de Furnas. Nenhuma ação do Ministério Público, nenhuma ação espetacular da Política Federal, nenhuma providência do juiz Moro, nenhuma manchete sensacional da mídia. Mas não é apenas a Lava Jato que é parcial. A operação Zelotes descambou para o mesmo viés perigoso: de operação para investigar grandes sonegadores fiscais, tornou-se instrumento exclusivo de investigação do filho de Lula e da suposta compra de MPs. Registre-se que a grande sonegação causa um prejuízo quatro a cinco vezes maior aos cofres públicos em relação a aquele causado pela corrupção.

Se Lula pode ser acusado de alguma coisa nessas duas histórias é a de conduta politicamente inconveniente, o que, em si, não é crime, mas causa danos políticos. Todo petista tem o direito de querer ser rico, de ter uma vida confortável e luxuosa e de se relacionar com grandes empreiteiros e grandes empresários. Mas existe uma inconveniência política e uma contradição ética nessa pretensão e nessa conduta.

O projeto ético do PT é, ou ao menos era, construir altos padrões de igualdade e de inclusão social num país extremamente desigual. A ética diz respeito aos fins do bem comum e também aos meios e condutas. A construção dos fins éticos requer agentes políticos virtuosos, praticantes das virtudes republicanas. As virtudes republicanas, além da sempre necessária prudência, se expressam na frugalidade, na simplicidade, no despojamento, na parcimônia e na busca da igualdade e da liberdade. O luxo, a ostentação, a corrupção são práticas antirrepublicanas.

Pepe Mujica tinha um sitio simples antes de ser presidente do Uruguai. Não consta que tenha feito nenhuma reforma durante o exercício da presidência ou depois de deixa-la. Eis aí um exemplo contemporâneo de coerência entre a luta por fins éticos e uma conduta moral pautada pelas virtudes.
Se quisermos resgatar um exemplo histórico de virtude republicana, podemos lembrar Lúcio Quíncio Cincinato. Depois de exercer o consulado, poder máximo na República de Roma, ele voltou à vida pastoril simples, trabalhando a sua própria terra. Sendo Roma atacada e ameaçada por invasão estrangeira no ano de 458 a. C., Cincinato foi buscado em seu sítio e investido pelo poder absoluto de ditador para salvar a República. Afastado o perigo, ele deixou o poder para retornar à atividade de agricultor.


Tanto o historiador Tito Lívio, quanto Maquiavel, recomendam que os líderes prudentes devem estudar e imitar a vida dos grandes homens virtuosos. O despojamento e a frugalidade de Cincinato o tornaram exemplo de liderança excepcional, de modéstia, de virtude cívica republicana em prol do bem comum. Pepe Mujica, em outras circunstâncias históricas, deve ser valorizado pelas mesmas qualidades. Embora o projeto dos líderes petistas, de promover a igualdade e a inclusão social tenha um valor ético inquestionável, parece que eles se perderam na conduta pessoal.


Aldo Fornazieri Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Contraponto 18.352 - "O que Sanders tem a dizer ao PT e à classe média brasileira?"

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08/02/2016 

 

O que Sanders tem a dizer ao PT e à classe média brasileira?

Um desequilíbrio estrutural empareda agora a vida dos filhos das camadas médias no mesmo torniquete de impossibilidades que espreme os jovens nas periferias

 

Carta Maior - 08/02/2016
 


Paul Morigi



por: Saul Leblon

Nada é mais central na luta política brasileira nesse momento do que posicionar-se em relação ao massacre do qual Lula é o alvo explícito.

Está longe de ser o único, porém.

Enganam-se tragicamente os que pensarem assim.

Lula é uma ponte simbólica  -- e estratégica.Sua densidade histórica deriva do último grande ciclo de ascensão de massas no Brasil, iniciado com os levantes operários do ABC paulista, no final dos anos 70, seguido da campanha das Diretas, da Constituinte Cidadã e de quatro vitórias presidenciais progressistas na sétima maior economia do mundo.

Nas quatro letras que formam o seu nome junta-se o denso caudal da esperança na construção de um Brasil socialmente convergente e  libertário, a erigir uma democracia social no coração da América Latina, em pleno século 21.

Desnecessário sublinhar a irradiação contagiante que um marco bem sucedido dessa natureza traria à luta pelo desenvolvimento nos quatro cantos do planeta.

Desnecessário reiterar a ferocidade dos interesses contrariados por essa possibilidade.

A singularidade  da trajetória do ex-metalúrgico, o alcance de sua palavra, a credibilidade que carrega condensam, assim, um potencial transformador inestimável, e ao mesmo tempo, temido.

No momento em que a mais longa crise mundial do capitalismo desde 1929  impõe a repactuação das bases do desenvolvimento, a exigir um novo degrau de democratização da economia e da sociedade, é preciso lixiviar  a possibilidade de que esse potencial, (na verdade nunca  inteiramente exercido), estabeleça um novo estirão progressista na história brasileira.

Tudo isso que Lula traz grudado na pele, a irradiar perigosa mistura de precedente, otimismo e encorajamento social é o alvo efetivo da mira  conservadora que o picota diuturnamente.

Vive-se uma contagem regressiva golpista.

O que se espera agora é que um personagem do rodapé da história se apresente ao desfrute conservador, de avental e machado na mão, a fremir nas ventas a disposição de desfechar o gesto final.

São esses burros de carga das encomendas superiores que cuidam também das manchetes sulfurosas nesse momento.

Suspeitos canteiros de acelga, canoas e pedalinhos de cisne em pesqueiro frequentado por Lula, em Atibaia, compõem o cerne de sua passagem pela história.

Que um jornalista como Clóvis Rossi, da Folha, tenha dado ao ‘complexo de Atibaia’ o epíteto de ‘um luxo’, evidencia a cooptação feroz dos espíritos pelo cuore conservador.

Com suas contradições de carne e osso, Lula é a costela de pirarucu atravessada na garganta conservadora brasileira. Trata-se da ponte  mais  extensa  a conectar o rico e diversificado campo progressista às camadas mais amplas e sofridas da população.

Não é preciso endossar cada passo e ato do ciclo que elevou em 70% o poder de compra do salário mínimo e retirou 40 milhões de brasileiros da miséria para entender o porquê da convergência que agora avança inescrupulosamente para desloca-lo do imaginário social para um prontuário policial.

Consumada a operação, a restauração neoliberal está contratada para 2018, não importa quem seja o seu portador. Até um material político da qualidade de um José Serra torna-se competitivo nessas condições.

Exatamente por estar em disputa uma nova hegemonia e não uma simples dança das cadeiras dentro de uma mesma época histórica, a defesa daquilo que Lula representa não pode mais ser apenas retrospectiva.

É   preciso dizer o que o seu potencial político tem a propor ao passo seguinte do país.

Dize-lo, sobretudo, à base social que o sustenta.

Mas não só.

Entre outras lacunas políticas na trajetória recente da esquerda brasileira, há uma que cobra cada vez mais alto uma resposta desassombrada, que de certa forma condicionará a eficácia das demais.

O que o campo progressista tem a dizer ao segmento  mais numeroso da classe média, hoje, como sempre, o principal substrato do preconceito, da desinformação e da incerteza, manipulados para servir de base à agenda do golpismo neoliberal?

O sucesso ou o fracasso dessa resposta condicionará em grande medida o desfecho do braço de ferro que, inicialmente, o conservadorismo  tentou resolver com o impeachment; e agora admite decidir nas urnas de 2018, desde que consiga trancar  Lula fora da cédula.

Não existe ‘uma classe média única’.

Sob esse guarda-chuva sociológico reúne-se uma vasta gama de renda intermediária, da qual faz parte também uma elite integralmente identificada com os interesses dominantes da sociedade.

Não é desse pedaço do Brasil que se trata aqui.

Mas dos anseios de um amplo contingente de assalariados, profissionais liberais e  funcionários públicos, cevados com doses maciças de medo e incerteza pela cooptação conservadora.

Inclui-se aí um pedaço significativo da juventude que vivencia  na rua e no bolso o estreitamento do espaço de ascensão que seus pais desfrutaram --ou imaginaram desfrutar um dia, mas que o capitalismo rentista não mais propiciará.

Não é um gargalo criado pelo ‘lulopetismo’, como diz a propaganda das falanges dentro e fora da mídia.

É um estreitamento estrutural dos canais de mobilidade no capitalismo globalizado.

Nele, o emprego estável, de qualidade e bem remunerado sucumbiu, desde a base industrial minguante, até o setor de serviços expandido, configurando-se um novo normal de vagas abastardadas pela provisoriedade,  a supressão de direitos e o achatamento real dos salários.

Um dado resume todos os demais: a modalidade atual de emprego que mais cresce na Inglaterra sob o domínio conservador é a que reduz o trabalhador a um insumo igual a qualquer matéria-prima. Só requisitada do ‘depósito’ (o mercado) quando a demanda assim o exige, ela receberá apenas e somente o equivalente ao tempo durante o qual seu cérebro e músculos forem diretamente consumidos pela engrenagem produtiva.

Isso não impede, na verdade guarda estreita funcionalidade com o fastígio da riqueza na ponta financeira do sistema.

Quase 2,5 milhões de crianças vivendo na antessala da pobreza absoluta na terceira maior economia europeia, compõe a síntese desse paradoxo semeado por Pinochet e Thatcher desde os anos 70/80, cuja essência consiste em libertar o capitalismo de seus contrapesos regulatórios de natureza econômica, política e social.

Deu-se o que se traduz nesse momento em um desconcertante avanço da desigualdade em escala global.

Um de seus vórtices foi exaustivamente documentado  por Thomas Piketty: a riqueza financeira não apenas cresce sempre à frente, mas em contraposição à expansão real da renda per capita.

Em sua cristalização mais recente, a gosma inutilizou o sonho sistêmico do way of life  na qual a classe média saboreou  waffles com creme de mobilidade social, do pós-guerra até meados dos anos 70.

O protocolo da meritocracia perdeu sentido.

Nenhum critério uniforme de avaliação é justo quando a igualdade de oportunidades inexiste.

Um desequilíbrio estrutural empareda agora a vida dos filhos das camadas de renda média no mesmo torniquete de impossibilidades que espreme a existência dos jovens nas periferias conflagradas.

Questões básicas como o atendimento à saúde, a qualidade do ensino, a segurança e a moradia, o emprego, o custo de criar um filho sem sistemas públicos eficientes, o amparo à velhice dos pais mas também o anseio por dignidade, reconhecimento e convivência pública, assumem o peso crescente de uma centralidade política carente de respostas.

Nenhum agrupamento progressista logrou de fato traduzir esse mal-estar social do capitalismo financeiro em um projeto capaz de transformar os desfavorecidos de toda a sociedade em um novo sujeito histórico.

A extrema direita navega com razoável sucesso e competência nesse vácuo, como mostra os Le Pen, na França, o Tea Party, nos EUA, e uma ampla gama de fascistas em ascensão  nos países nórdicos e do leste europeu.

A radicalização conservadora da classe média brasileira –localmente temperada pelo fermento golpista— reflete em certa medida esse mesmo caldo de cultura.

O fantasma da espiral descendente é o seu leme.

Escola pública de qualidade, transporte barato e eficiente, moradias sociais, saúde pública de reconhecida competência formaram no pós-guerra europeu um substrato de estabilidade, capaz de afastar assalariados e classe média das tentações totalitárias que a incerteza atual enseja.

O ganho de produtividade subtraído aos salários em nome da eficiência industrial era compensado pela rede de proteção coletiva, ancorada em uma tributação mais justa de todo espectro da riqueza.

A inexistência desse horizonte empurra o subconsciente da classe média a uma disjuntiva: aderir ao apartheid explícito ou regredir.

Sem falar a essa encruzilhada dos setores de renda média, será cada vez mais difícil a uma sigla progressista romper o cerco ideológico que a impede de ser ouvida pelo conjunto da sociedade.

O crescimento contagiante da candidatura do social democrata Bernie Sanders, nos EUA, que disputa com Hillary Clinton a indicação dos democratas à corrida presidencial, traz um sopro de esperança a essa equação.

O fenômeno Sanders consiste em falar aos ‘desiguais’ com uma mesma proposta: uma sociedade de serviços públicos dignos e eficientes para todos.

Os mais pobres, naturalmente.

Cerca de 47 milhões de pessoas encontram-se nessa categoria nos EUA -- uma em cada cinco crianças, no país mais rico da terra.

Mas não só a eles.

A classe média espremida pela hipoteca, o desemprego, a descrença no futuro, o desamparo diante da velhice, a humilhação familiar e individual passou também a prestar atenção as suas palavras.

Sobretudo, os seus filhos.

Nas prévias dos democratas em Iowa, Sanders teve nada menos que 84% dos votos na faixa dos eleitores entre 17 e 29 anos.

Um ponto fora da curva?

Tudo indica que não.

A juventude ‘apática’, ‘apolítica’, ‘desligada dos partidos’, ‘indiferente aos velhos paradigmas de direita e esquerda’, como diz a sociologia conveniente de Marina Silva & FHC,  que se atirou agora de corpo e alma na campanha de Sanders, é irmã histórica daquela que no ano passado, com igual entusiasmo, deu o comando do trabalhismo britânico a um velho socialista, Jeremy Corbyn

Todo o planeta pulsa a saturação da mais lenta, errática e incerta recuperação de todas as crises vividas pelo capitalismo do século XX até agora.

Desafios econômicos, sociais, ambientais e sanitários – a exemplo do aquecimento global e do zika vírus agora no Brasil— cobrarão cada vez mais respostas cuja eficácia técnica terá que repousar na repactuação política das formas de viver e de produzir, e contar com indispensável mobilização da sociedade.

Nada mais distante disso do que o fermento de preconceito, ódio de classe e desmonte do aparato público com o qual a restauração neoliberal pretende pavimentar a sua volta ao poder no Brasil.

O medo egoísta da classe média é o seu veículo.


Quem acha que não há nada a fazer sob o domínio do capitalismo desregulado do século 21, e pretende insistir no celofane da indiferenciação  programática, abraçando reformas que o mercado exige, deveria atentar para o discurso  simples e ao mesmo tempo empolgante de um sexagenário social-democrata norte-americano.

Bernie Sanders – tema do Especial de carnaval de Carta Maior--  tem algo a dizer à encruzilhada do PT, de Lula; e à do Brasil, de Dilma.
 
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Contraponto 18.351 - "Ombudsman confirma: Folha ama Aécio! "


 

08/02/2016

 

Ombudsman confirma: Folha ama Aécio!

 
 Por Altamiro Borges  
 
 
Nesta quarta-feira (3), o lobista Fernando Moura, em depoimento ao juiz Sergio Moro, confirmou a existência da sempre negada Lista de Furnas e foi didático ao explicar a distribuição da propina: “É um terço para São Paulo, um terço nacional e um terço do Aécio”. 
 
A bombástica delação, prestada no curso da midiática Operação Lava-Jato, causou uma overdose no cambaleante tucano e desnorteou a própria mídia venal. Num primeiro momento, ela não teve como acionar a sua “operação-abafa”. 
 
Até o Jornal Nacional da TV Globo abordou, a contragosto, o assunto. Na sequência, porém, a blindagem voltou a funcionar e a delação sumiu do noticiário – que segue com sua obsessão para “matar” Lula.

O "terço" do santo Aécio Neves não foi capa da 'Veja', 'Época' e 'IstoÉ', que jogaram a sua combalida credibilidade no esgoto. Ele também não foi motivo de comentários hidrófobos dos "calunistas" das emissoras de rádio e televisão, que adoram satanizar os petistas e endeusar os tucanos – sabe-se lá a que preço. Nos jornalões, a bombástica delação até foi pautada, mas sempre dando destaque ao "outro lado", dos tucanos, e tentando desqualificar o delator, "o lobista do PT". A manipulação neste caso – como em tantos outros – ficou tão evidente que até a ombudsman da Folha, Vera Guimarães Martins, não teve como conter as críticas, sempre "fraternais". Vale conferir sua coluna deste domingo (7): 


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Triângulo mineiro


Vera Guimarães Martins

Merecia mais destaque a menção de delator a suposto esquema dos tucanos em Furnas

O lobista Fernando Moura declarou em depoimento à Justiça Federal na quarta-feira (3) que Furnas Centrais Elétricas mantinha um esquema de propina semelhante ao da Petrobras. Na área comandada pelo diretor Dimas Toledo, o usufruto era do PSDB. A divisão era "um terço São Paulo, um terço nacional e um terço Aécio". O delator disse ter sido informado disso em 2002, pelo próprio Dimas, cujo nome era indicação do senador Aécio Neves.

A citação ao tucano apareceu com maior ou menor destaque na capa dos grandes diários, mas não deu as caras na "Primeira Página" da Folha. A reportagem tinha bom tamanho, mas ficou espremida em uma só coluna ao lado de um anúncio. Foi pouco. Apontei na crítica interna que a notícia merecia abre de página e chamada na capa.

A Direção de Redação concorda com a avaliação nos dois casos, mas Fábio Zanini, editor de "Poder", tem opinião diferente. O espaço interno levou em conta a baixa credibilidade do delator, diz. "Ele mudou de versão em declarações sobre José Dirceu: primeiro acusou, depois recuou em vários pontos e, por fim, ameaçado de ter seus benefícios cassados, voltou à narrativa original."

Moura não é realmente um delator confiável (supondo que essa figura exista), mas, se confiabilidade fosse condição "sine qua non" para publicar notícias da Lava Jato, os jornais teriam engavetado dezenas de reportagens e manchetes nos últimos dois anos. Basta lembrar de Alberto Youssef, que fez acordo de delação em 2004, no caso Banestado, e cujas traficâncias ressurgiram maiores no escândalo da Petrobras.

A menção a Aécio Neves merecia visibilidade por um trio de razões. O senador tucano é o maior líder da oposição, e nessa condição tem sido crítico contundente do governo petista a cada revelação trazida pelas investigações – muitas delas obtidas nas mesmas condições em que seu nome foi mencionado, com réus confessos e disse me disse.

Aqui cabe uma ressalva para evitar mal-entendidos. É comum receber contestação de leitores que, em nome de um suposto equilíbrio no noticiário, cobram tratamento igual para notícias de pesos desiguais: se o jornal publicou algo sobre Lula, defendem o mesmo destaque a qualquer nota sobre FHC ou tucanos em geral. Não é assim que funciona. Cada notícia tem peso próprio, dependendo de variáveis como impacto da revelação, importância do personagem, cardápio de notícias do dia, grau de interesse do leitorado.

Nesta semana, um leitor criticou o destaque concedido a suspeitas que envolvem o ex-presidente Lula e citou como exemplo de parcialidade o jornal não ter publicado na manchete a condenação do ex-governador Eduardo Azeredo no chamado mensalão mineiro.

Ponderei que não via razão para isso. Azeredo é figura secundária na política nacional, sua carreira não ultrapassou os limites regionais. Nem no jogo político ele estava mais em dezembro de 2015, quando foi condenado (em primeira instância): após renunciar ao mandato, virou consultor da Federação das Indústrias de Minas Gerais. Por que mereceria o título principal de um jornal com leitorado nacional?

Não é o caso de Aécio, que ganhou projeção nacional com a candidatura à Presidência da República em 2014. Há ainda outros fatores de peso para o depoimento de Fernando Moura merecer atenção. Furnas tem um histórico recheado de denúncias de desvio de recursos. Dimas Toledo (que nega qualquer acusação) era diretor da empresa desde o governo FHC e perdeu o cargo em 2005, no escândalo do mensalão, depois que o deputado Roberto Jefferson declarou à Folha que soube por ele do esquema de caixa dois que vigorava na empresa.

Por fim, é preciso levar em conta as mudanças no país. Toda vez que um delator levanta história com alguma raiz conhecida, a reação dos contrariados é dizer que se trata de notícia requentada com interesses políticos, para prejudicar esse ou aquele. Pode até ser, mas os tempos agora são outros.
 

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Algumas contribuições "fraternais" às críticas corajosas da ombudsman da Folha:
1- De fato, Fernando Moura tem "baixa credibilidade" – assim como todos os mafiosos que tentam se safar da cadeia com suas "delações premiadas" e premeditas. Mas a Folha e outros veículos tucanos nunca tiveram essa cautela quando o mesmo lobista acusou o ex-ministro José Dirceu. Ele foi capa dos jornais e destaque nas emissoras de tevê, sendo paparicado pelos moralistas sem moral. Antes ele serviu aos intentos da mídia golpista; agora, ao delatar Aécio Neves, ele é um "delator não confiável".
2- Quanto à famosa Lista de Furnas, que envolve o ex-governador mineiro e outros tucanos graúdos, até hoje a mídia não acionou seu time de "jornalistas investigativos" para apurar a sua autenticidade. Pelo contrário. Ela sempre tentou negá-la e desqualificá-la, repetindo as desculpas esfarrapadas dos caciques do PSDB. Será que agora, com as novas delações, a imprensa vai cumprir o seu papel? A ombudsman da Folha ganharia mais alguns pontos se fizesse esta justa cobrança!
3- Quanto ao tucano Eduardo Azeredo, ele realmente é "uma figura secundária" – tanto pelo que fez quando governador de Minas Gerais, como por sua atuação parlamentar como senador da República e deputado federal do PSDB. Mas, concordando com o "leitorado" da Folha, não dá para omitir o seu papel na política brasileira. Afinal, ele foi presidente nacional do PSDB e coordenador da frustrada campanha de Aécio Neves. Petistas sem maior projeção já ganharam manchetes na Folha. Não deixa de ser uma injustiça com Eduardo Azeredo, que já escapou dos holofotes no "mensalão tucano" – que a mídia venal batizou carinhosamente de "mensalão mineiro".
4- Por último, aproveitando as cobranças da ombudsman da Folha, uma pequena lista de temas que o jornal da famiglia Frias sempre esquece: a) o helicóptero apreendido com 450 quilos de cocaína que pertence ao apadrinhado de Aécio Neves; b) o aeroporto construído com dinheiro público na fazendo do tio-avô do ex-governador de Minas Gerais; c) as centenas de voos dos amigos do senador mineiro-carioca, inclusive de barões da mídia e estrelas globais, em aeronaves do governo mineiro; d) a grana em publicidade oficial concedida as emissoras de rádio da família do grão-tucano...
Peço ao "leitorado" deste blog para acrescentar outros temas nesta longa lista da blindagem da mídia! 
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Leia também:
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Contraponto 18.350 - "Projeto tucano ameaça patrimônio de R$ 4,5 tri "


Najla Passos, da Carta Maior

O Brasil possui hoje, só no âmbito federal, 140 empresas estatais que empregam 538.436 trabalhadores e têm seus ativos totais avaliados em R$4,5 trilhões, conforme os últimos dados consolidados pelo Ministério do Planejamento (MP), em dezembro de 2014. Só o patrimônio líquido dessas estatais é de R$ 611,7 milhões. Um patrimônio do povo brasileiro ameaçado pela cobiça do mercado.

São estatais de porte, atuação e até imagem consolidada diversas. Entre elas está a Petrobrás, gigante do petróleo mundial envolvida em escândalos de corrupção, mas também está a conceituada Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), referência internacional no desenvolvimento de tecnologia para a produção de alimentos saudáveis.
Estão também agentes consolidados do sistema financeiro, como o Banco do Brasil (BB), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Banco da Amazônia (Basa) e a Caixa Econômica Federal (CEF). E, ainda, empresas de atuação em outras áreas de importância estratégica para o país, como Eletrobrás, Telebrás e Correios.

Essas estatais também têm natureza jurídica diferentes. Há empresas públicas, cujo controle é todo do estado, mas também há as empresas de capital aberto, cuja parcela minoritárias das ações já está nas mãos de investidores privados. No entanto, estas últimas ainda são minoria. Das 140, apenas nove negociam ações em bolsas: Petrobrás, BB, BB Seguridade, Basa, Bndespar, Eletrobrás, Eletropar, BNB e Telebrás.
É justamente essa realidade que o Projeto de Lei (PL) 555/2015 quer mudar. De autoria do senador Tarso Jereissati (PSDB-CE), a proposta visa entregar ao mercado, em uma só tacada, parcela significativa de todas as estatais brasileiras, o que inclui não só essas 140 empresas administradas pelo governo federal, mas também às dos estados, municípios e do Distrito Federal.

Conforme o texto do projeto, as estatais deverão manter em circulação no mercado pelo menos 25% das suas ações ordinárias. Pelo menos. O projeto, portanto, propõe uma retomada da política entreguista executada pelo governo Fernando Henrique Cardoso nos anos 1990, que vendeu ao capital internacional – a preço de banana, como denunciava à época o jornalista Antônio Biondi – valiosos patrimônios brasileiros, como a Companhia Vale do Rio Doce.

Mas é uma retomada com nova roupagem, dado o evidente insucesso da política anterior que, de tão escrachada, naufragou ao propor, por exemplo, que a Petrobrás fosse rebatizada de ‘Petrobrax’ para agradar o mercado internacional. O discurso que justifica tamanho disparate, hoje, está amparado na luta contra a corrupção, usado em larga escala, inclusive, por quem mais se beneficia dela.

Ao mercado, tudo!

E não é só isso. O projeto também condiciona a direção das estatais brasileiras a um pequeno grupo de executivos com formação, visão e experiência de mercado. Proíbe, por exemplo, que ministros e ocupantes de altos cargos públicos, sindicalistas ou cidadãos com filiação partidária (em um país que se diz democrático) ocupem cadeiras nos conselhos das empresas. Pela proposta, esses cargos ficam reservados exclusivamente a pessoas com comprovação de 10 anos de mercado, o que acaba por excluir também acadêmicos e intelectuais de notório saber.

Dentre todas as mudanças propostas pelo projeto, a mais grave é a que altera a função social das estatais, hoje definida a partir de uma atuação em prol do bem-estar da população brasileira. Pelo projeto tucano, a atuação das estatais deve ser balizada única e exclusivamente pelos interesses do mercado. Se aquela agência-barco da CEF que percorre a Amazônia não dá lucro, que seja fechada. Danem-se os ribeirinhos que a têm como a única opção de acesso ao sistema financeiro!

O cordão da direita

Embora o texto do projeto tenha sido gestado em ninho tucano, com a contribuição pública do senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o apadrinhamento do senador José Serra (PSDB-SP), ele também agrada aos setores do PMDB mais capturadas pelo mercado – que, é sempre bom lembrar, não são poucos. Incluído na Agenda Brasil proposta pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), também caiu nas graças do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

A dupla de peemedebistas investigada pela Operação Lava jato aprovou uma comissão especial mista, formada por membros das duas casas, para avaliar o projeto em tempo recorde e, em menos de três meses, disponibilizá-lo para votação. Com isso, o projeto não tramitou pelas comissões usuais do Senado e da Câmara e o debate público em torno do tema ficou totalmente comprometido.

Agora, servidores dessas estatais e as centrais sindicais de luta do país se mobilizam para tentar barra-lo. Mas a luta é inglória. O presidente do Senado já anunciou que colocará o projeto em votação na terça (16), imediatamente após o retorno da casa do carnaval. Fragilizado pelas crises política e econômica, o governo não tem empreendido os esforços mínimos necessários para derrotá-lo. Ao contrário. Há grupos do próprio governo que apoiam o PL-555/2015.


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PITACO DO ContrapontoPIG 

 
Privataria II ou guerra civil? 
 
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Contraponto 18.349 - "O delírio do 'peguem o Lula' perdeu qualquer restinho de sanidade"

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08/02/2016 

 

O delírio do “peguem o Lula” perdeu qualquer restinho de sanidade


Do Tijolaço · 07/02/2016

piramide

Por
 
A Folha, no clima de “vale tudo, hoje é Carnaval”, lança hoje mais uma surpresa, destas que nos tempos da minha avó a gente poderia atribuir aos efeitos dos lança-perfume.
“Uma lei assinada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva em maio de 2010 estimulou uma nova linha de negócios de um dos donos do sítio frequentado pelo petista em Atibaia (SP)”

Aí você descobre que  a tal lei (o jornal não especifica, mas a gente faz isso aqui: é a Lei 12.244/10), que obrigava, num prazo de dez anos, todas as escolas públicas a terem – vejam que absurdo! – uma bi-bli-o-te-ca!

A lei, formalmente proposta em 2003, pelo deputado tucano Lobbe Neto, teria um “gato” para beneficiar Jonas Leite  Suassuna Filho, que tem negócios com um dos filhos de Lula: a inclusão da expressão ” “em qualquer suporte” para a contagem, ao lado de livros e vídeos, do número de títulos por aluno, que deveria o índice “estratosférico” de um por aluno matriculado!

A suposta “novidade” seria para beneficiar Jonas, que publica livros físicos e também em plataformas virtuais. E, aliás, é um dos principais fornecedores da Fundação Roberto Marinho, das Organizações Globo! E não consta que outros editores não estejam entrando ou não possam entrar num tipo de atividade que até o Cego Aderaldo vê que vai crescer.

Bem, isso não vem ao caso.

Voltemos, portanto, ao específico, para ver que o texto da Folha é um amontoado de sandices.

O relator do projeto no Senado, última etapa de sua aprovação, é quem acata ou rejeita emendas e era ninguém menos que Cristóvam Buarque, que até as pedras sabem ser ferrenho opositor de Lula, desde que foi demitido do Ministério da Educação.

E Cristóvam reclamou apenas de duas coisas no projeto: da demora em ser aprovado e do prazo de dez anos para o cumprimento da exigência.

A matéria é um delírio.

Basta uma consulta ao projeto original do deputado tucano para ver que lá já se previa como integrantes das bibliotecas, “coleção de livros, materiais videográficos e documentos congêneres destinados a estudo, consulta ou leitura recreativa”. Livro virtual é documento congênere, pois não?

Aliás, se não houvesse a expressão “qualquer suporte”, não valeriam os livros infantis em CD ou DVD, preferidos pela criançada e muito mais adequados para as atividades coletivas de leitura e interpretação, por desobrigar de ter um exemplar para cada aluno.

E as enciclopédias teriam de ser em papel, como as minhas pobres Delta-Larrousse e Barsa, que preservo naquelas altíssimas prateleiras do guarda-roupas, porque me falta estante para a casa e casa para as estantes….

Aliás, bastaria o uso do bom-senso para lembrar que, em 2003, o acesso e o uso da internet não era 10% do que já se fazia em 2010 e muitos de nós ainda ouvíamos aquele barulhinho esquisito da conexão sendo estabelecida por linha discada, recordam? A Folha deve ter esquecido do “detalhe”.

Pior ainda: a possibilidade de negócios editoriais aberta pela lei não foi ampliada pelas modificações do projeto, mas  reduzida. É que o projeto original tucano previa quatro títulos por aluno e não apenas um, como ficou no texto final.  Pouco, porque na justificação, Lobbe Neto argumenta que a “proporção proposta pela Associação Americana de Bibliotecas (USA), é de dez livros por aluno”.

Por fim, a malícia de dizer que a lei foi “assinada” por Lula. O que deveria fazer o então presidente, vetá-la depois de aprovada pelo Congresso?

O furor acusatório contra Lula chegou às raias da loucura: canoa, pedalinho e, agora, bibliotecas escolares.

O que essa Lava Jato lavou mesmo, parece, foram as cabeças: lavagem cerebral coletiva, em escala nacional.

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Contraponto 18.348 - " O Lula e o Dirceu 'já tinham a Globo' ! "

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08/02/2016

 

O Lula e o Dirceu "já tinham a Globo"!

Para que uma TV Pública forte?

 
Conversa Afiada - publicado 08/02/2016
 
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O Conversa Afiada reproduz entrevista do senador Roberto Requião - incansável defensor do Lula contra as garras da PF do e das arbitrariedades do Moro.

Requião critica o PMDB e o Lula e José Dirceu que cairam, no início do primeiro Governo Lula, na esparrela clássica -  a Globo ia repetir com o PT a "estratégia" dos oito anos do FHC: me dá a grana que eu te apoio ...

Esqueceram do "ódio de classe", como diz o Mino.

"Há uma ausência total de projeto nacional", critica o senador Roberto Requião

 

Por Eduardo Sá | Via Fazendo Media


Embora seja um quadro respeitado no PMDB, o senador e ex-governador do Paraná, Roberto Requião, não poupa críticas ao seu partido e ao governo. Mesmo sendo da base aliada do PT, aponta a ausência de diálogo com a sociedade e a falta de democratização dos meios de comunicação como alguns dos erros cometidos pelos que estão no poder. Para ele, falta um norte estratégico para o futuro do país.

Conversamos com o senador durante o Fórum Social Mundial Temático, realizado em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Na entrevista, ele atribui à crise no país algo mais amplo e mundial, cujos sintomas também são vistos na Europa. Acredita ainda que a Dilma não deixará a presidência, e mudanças como a ascensão da direita no poder na Argentina pode ser pedagógica e movimentar a esquerda da região. Crise também é sinônimo de oportunidades e transformações, destacou Requião.

Vivemos uma crise política no país, na qual o pedido de impeachment é capitaneado por um integrante do seu partido que é base aliada do governo. Como você vê esse processo?

A crise do PMDB é uma crise econômica. É a proposta do capital de destruição do estado social. Implica na precarização do executivo, que se transforma num simples gendarme cuidando da segurança pública. Na precarização do parlamento pelo financiamento de campanhas eleitorais, e na precarização do trabalho com o fim das garantias trabalhistas. Essa é a crise que está por trás disso tudo. É a mesma que atinge a Europa, destrói a Grécia, Portugal e Espanha. Essa é a essência do processo, e o resto deriva desse embate da destruição do estado social. É o capital vadio, improdutivo, financeiro, tentando dominar o mundo. Querem suprimir o poder do executivo substituindo por um banco central ligado ao capital financeiro. E liquidar o legislativo, que se transforma num mandalete dos financiadores. Por fim, as garantias trabalhistas conquistadas após a derrota do nazismo na Europa. Tudo mais é consequência disso.

Não tem uma questão política em relação à disputa de poder no país? O PMDB depois de muitos anos possivelmente virá nas próximas eleições com uma chapa única, por exemplo.

Todo partido tem como objetivo final da sua existência é ter uma chapa, e compõe quando não pode ter uma chapa hegemônica. Mas não vejo na crítica e na guerra que vocês chamam de política ninguém contestando as medidas tomadas pelo governo, quando elas são pela direita. Você não vê ninguém reclamar da mudança da previdência, ninguém reclamando no Congresso Nacional e nos partidos na elevação de juros, ou da modificação da política trabalhista. Então é uma luta política pelo poder, mas na verdade é uma luta pelo estabelecimento da hegemonia do capital no concerto do Estado.

Você foi governador do Paraná: quais os principais entraves quando se busca transformações por dentro do Estado brasileiro, do ponto de vista institucional?

Os principais entraves são mais ou menos os mesmos que existem no governo federal. É o poder do capital, o poder dos juros no aumento do financiamento público, a necessidade da rolagem dos juros, e a mídia trabalhando sempre contra qualquer política social que você estabeleça.

Quais são as principais pautas que estão tramitando no Senado atualmente, que podem apontar para algum avanço?

Fiz aprovar, por exemplo, o direito de resposta que já é um avanço razoável. Qualquer pessoa pode pedir o mesmo espaço na mídia televisiva, radiofônica ou escrita para sua resposta. É o direito ao contraditório, que acaba de certa forma com o domínio absoluto da opinião. Mas esse é o primeiro passo, depois temos que ter a quebra do monopólio comercial das empresas de comunicação.

Enquanto o Franklin Martins esteve no ministério das comunicações houve um processo com conferências públicas municipais e estaduais, que culminou numa nacional. A sociedade participou de forma expressiva, mas as propostas acabaram engavetadas. E hoje (26/01) o Lula publicou um vídeo metendo pau na mídia no canal do seu instituto...

O Lula não deu atenção a essa questão da democratização dos meios de comunicação. Talvez ele esteja começando a entender que não fez o que devia ter feito. O governo não assumiu esse movimento de democratização da mídia. No governo do Paraná reforcei uma televisão pública, a TV Educativa, e quando propus isso ao Lula me disseram que não precisavam porque já tinham a Globo. Quem me disse isso foi o José Dirceu, eles achavam que a Globo se submeteria à pressão com a possibilidade de subsídio econômico do governo. Isso não aconteceu, foi um erro. Achavam que dominavam a comunicação, e no primeiro momento dominaram mas logo depois ela abriu e está até hoje combatendo qualquer política e medida social e nacional.

Íntegra em:

http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/blog/2016/02/05/ha-uma-ausencia-total-de-projeto-nacional-critica-o-senador-roberto-requiao/

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Contraponto 18.347 - "Rosas para Lula, por Ion de Andrade"


Por Ion de Andrade

Lula é um grande problema para a oposição!

Não se trata de uma pessoa física, é uma Lenda. No plano pessoal é a figura que conseguiu percorrer um itinerário de privações e dificuldades de toda ordem e ter êxito. Ninguém encarnaria a meritocracia burguesa com maior desenvoltura do que ele. Lula, porém, foi além da hipnose meritocrática que impede a percepção do sucesso como o resultado de um esforço coletivo. A ilusão desse “mérito” produz apenas a desidentificação do sujeito com a sua  origem social, adesão aos de cima e desprezo pelos que lá ficaram. Mas com Lula isso não aconteceu. Cedo ele entendeu o vínculo entre sucesso individual e esforço coletivo e que a sua emancipação só poderia servir a guiar outras como a dele. Em lugar de ser mais um boi no pasto, foi o boi que arrombou a cerca para a passagem da boiada, a alavanca que permitiu a emancipação da miséria de 40 milhões de brasileiros.

A história do Brasil dará a Lula papel mais relevante do que o que reserva hoje a Getúlio ou Juscelino. Lula é ícone mundial, como Gandi ou como Martin Luther King. Essa condição independe do que quer que o judiciário brasileiro venha a fazer com ele. Ao contrário, tais Lendas, só fazem ganhar, ganham quando ganham e ganham também quando parecem perder.

Na verdade, Lula é que será o parâmetro para julgar quem foi e quem não foi canalha na atual quadra da história desse pobre país.

Mas as forças que o combatem são intranscendentes, no sentido de que não se importam com o futuro. A sua cosmologia é pobremente formada por um eterno hoje e apenas com ele se preocupam. Esse hoje, pobre e intranscendente os leva a querer “pegar Lula”.

Essa intranscendência os impede de perceber e de se inquietar com o significado último do que fazem. Não sabem o que fazem... O que importa é enxovalhar o homem, não percebem que não podendo enxovalhar a Lenda são eles que serão tidos como culpados. O que fará o dono da vinha?

Quem será mais forte em 2018? O Lula líder ou o Lula mártir? Preso injustamente numa carceragem de Curitiba ou de São Paulo por um apartamento no Guarujá e uma canoa? ou livre nas ruas? Eis a questão que está muito além da compreensão de alguns detratores.

A oposição não entendeu, mas é pedir demais, reconheço, que nessa Lenda universal; que tem versões em todas as culturas, e que conta a história de um líder que saiu do povo e o redimiu; o protagonista sempre vence.

Lula vence livre, pois será líder, vence preso, pois será mártir e dará origem a um movimento, o Lulismo, que será imbatível por gerações, mais forte, mais capilarizado e mais profundo do que o Peronismo na Argentina. O Lulismo de hoje, com Lula entre nós, não é nada se compararmos com aquele Lulismo que um dia nascerá. Esse Lulismo futuro será herdeiro e sucessor do próprio Lula, será multipartidário, e não somente petista, e continuará cobrando à direita tudo o que já lhe dá dor de cabeça hoje. O Lulismo será a plataforma que decidirá o segundo turno das eleições no Brasil por décadas. Setenta anos depois o Gaullismo, conservador, é força viva na França...

A oposição não se interessa pelo futuro, mas ele nos verá da seguinte forma:


I Por um lado a) um judiciário parcialíssimo, para quem o que incrimina o PSDB não interessa, b) uma polícia que deixa passar o tráfico por helicóptero de meia tonelada de cocaína, (poucas coisas poderiam ser mais graves), não prende os proprietários, solta o piloto e devolve a aeronave, (pertencente a uma família de apoiadores de Aécio Neves), e c) uma oposição chefiada por um personagem inimputável quatro vezes delatado na mesma Operação que, no entanto prendeu o Almirante Othon, pai da energia nuclear brasileira.

II Por outro o personagem que encarna a Lenda que redimiu 40 milhões de miseráveis e que sobreviverá a nós é tratado como um criminoso a priori, humilhado juntamente com a sua esposa e filhos, faltando-lhe apenas o crime, nunca definido, mas que quando encontrado o levará ao judiciário, (convertido num cadafalso), onde será, finalmente, julgado e enforcado ao amanhecer.

Intranscendentes as forças que pretendem solapar a sua imagem não percebem que já perderam. Não interessa se conseguirão vê-lo preso. É tarde demais para quem queria “pegar o Lula”.

Lula é líder ou será mártir e a ele se seguirá um portentoso e invencível Lulismo que durará gerações.
Como na Parábola dos Lavradores Maus, (de grande atualidade), Lula é a “pedra rejeitada que se tornou pedra angular”. Tarde demais, ele já se tornou a pedra angular. Por isto o jogo já está perdido para aqueles que querem humilhá-lo ou destruí-lo.

Os que somam com ele venceram. Toda a questão agora é a sua proteção enquanto ser humano, sua família, sua privacidade, as pessoas que ama e que por isto se tornaram alvo de covardes e canalhas.

Devem ser alvo do carinho e do amor do seu povo. Temos, aliás, que ser muito expressivos na manifestação desse carinho que mostra muitíssimo mais que a solidariedade política.

O homem é frágil e estaremos com ele e com os que ele ama. Mas a Lenda, bem, a Lenda venceu, é imorredoura, e é ela que nos alimenta e que guiará e galvanizará o Brasil a ser um país mais justo, mais democrático e mais humano.

Se estivesse em São Paulo no dia da vergonha levaria uma rosa, ou um cartão de agradecimento, ou o desenho de uma criança e deixaria para Lula na frente do pelourinho em que converteram a justiça e o ministério público. Aquele dia da vergonha talvez venha a ser a primeira estação da Via Crucis que atravessará.

Deixar esse Pelourinho coberto da nossa expressão de carinho seria forte, seria fortíssimo.

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Contraponto 18.346 - "Nassif: Janot vai investigar a Globo?"

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07/02/2016

 

Nassif: Janot vai investigar a Globo?

Nunca!


 
Conversa Afiada - publicado 07/02/2016
 
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De Luis Nassif, no GGN:

 

A cooperação internacional e o negócio da Globo

 

Há tempos vimos alertando sobre o papel econômico e geopolítico da cooperação internacional - os tratados de cooperação entre Ministérios Públicos e Polícias Federais de vários países. Os Estados Unidos são um país no qual o conceito de interesse nacional está estreitamente associado às estratégias de suas multinacionais.

Passaram a ser o ponto central da cooperação e a exercer uma espécie de jurisdição internacional, utilizando o instrumento como estratégia de guerra comercial.

No Brasil, a cooperação já vitimou empreiteiras que se internacionalizavam, a Eletronuclear e a Petrobras. Sua próxima vítima serão os grupos de mídia nacional, graças ao desmantelamento das organizações criminosas que orbitavam em torno do futebol.

Para entender melhor.

Na grande expansão das multi norte-americanas no pós-guerra, houve tentativas de internacionalizar os grupos de mídia, mas que sempre esbarraram nas legislações nacionais, obrigando-os a se associar ou ocupar papel secundário na relação com os parceiros nativos.

Veja o caso Globo-Time/Life. Os americanos bancaram o investimento, o know how, forneceram a tecnologia e os quadros técnicos e acabaram tendo de abrir mão da sociedade devido à reação política interna – que, sendo aparentemente contra o acordo, acabou beneficiando Roberto Marinho.

Com a Internet e a popularização da TV a cabo, as barreiras legais foram superadas. Os grupos tiraram do baú seus projetos internacionais  e passaram a montar estratégias visando conquistar audiência nos países-alvo.

Aí entra o futebol. Desde as históricas lutas de Jack Dempsey, nos anos 20, eventos esportivos sempre foram o carro chefe das audiências das emissoras. E, fora dos Estados Unidos, o futebol sempre o esporte por excelência.

Ao longo das décadas, os eventos futebolísticos tornaram-se a grande mina de ouro. Em torno dos contratos de patrocínios às transmissões de futebol  montou-se uma tentacular cadeia tendo como epicentro a FIFA e como braços os grupos de mídia hegemônicos em cada país, influenciando governos e ajudando a consolidar a influência das confederações filiadas.

Se dependesse das estruturas nacionais de combate ao crime organizado, seria  mais fácil um elefante voando do que a o Ministério Público Federal ou da Polícia Federal investigando para valer as ligações da Globo com FIFA, CBF e os clubes esportivos. Essa mesma dificuldade deve ocorrer em outros países politicamente frágeis.

Usando a cooperação internacional como alavanca, os Estados Unidos lograram desbaratar a quadrilha que atuava na FIFA e, por tabela, os esquemas viciados de compras de transmissões de campeonatos nacionais.

O quadro midiático tornou-se tão demolidor que a própria Globosat foi obrigada a aceitar transmitir os canais concorrentes.

A cada dia que passa, maior é o peso da Globosat nos resultados gerais das Organizações Globo, na mesma medida em que há queda nas receitas dos demais veículos. Essa a razão da própria Globosat ter admitido incluir os canais concorrentes em sua programação.

E aí se tem o grande paradoxo.

O Ministério Público Federal, um órgão do Estado brasileiro, mandou uma missão aos Estados Unidos, chefiada pelo próprio Procurador Geral da República, levando informações contra a Petrobras, que é uma empresa de controle estatal, que deverão ser utilizadas nas ações empreendidas contra a empresa.

A mesma equipe voltou dos EUA com informações contra a Eletronuclear, outra empresa pública, em outro setor-chave para os interesses setoriais norte-americanos.

E, no entanto, não se tem informação sobre a contrapartida brasileira na cooperação internacional contra a máfia das transmissões esportivas e, especificamente, investigando os contratos da Globo com a CBF.
Em tempo: esse Bessinha ... Incorrigivel ! ... - PHA

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sábado, 6 de fevereiro de 2016

Contraponto 18.345 - "O que falta para Janot prender Aecím? "

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06/02/2015

O que falta para Janot prender Aecím?

Nada!



Conversa Afiada - publicado 06/02/2016
 
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(Imagem: Maria Das Graças Piccolo)

Como se sabe, um subordinado do Janot no Ministério Tucano Público Federal quer prender o Lula na Zelotes, aquela "operação sem RBS",  daquele delegado que corre a prova de 100m rasos com o Moro e o Procurador do Ministerio Tucano Publico de Sao Paulo.

No texto do DCM  se verá que o Aecim só não está preso porque ainda não perdeu a serventia: perder para o Lula em 2018, como demonstra o Marcos Coimbra, na Carta.

O que falta para a Procuradoria Geral da República autorizar a PF a investigar Aécio Neves? Por Joaquim de Carvalho 

 

Quando estive em Bauru, interior de São Paulo, para levantar o perfil da empresa que entregava dinheiro desviado de Furnas ao senador Aécio Neves, segundo denúncia do doleiro delator Alberto Youssef, encontrei um vizinho do fundador da aviação Bauruense que explicava sem dificuldade a razão do enriquecimento de Airton Daré, o dono da empresa.

“Aí tem muito dinheiro de Furnas e da Cesp”, disse. Se até o vizinho sabia das ligações da empresa com as duas estatais, por que ninguém nunca investigou Aécio Neves, o político que dava as cartas na empresa, apadrinhando o diretor Dimas Toledo, mesmo nos primeiros anos do governo Lula? Evidências não faltam:

   1 Em 2005, o lobista Nílton Monteiro entregou a lista com nome de 156 políticos que receberam dinheiro desviado de Furnas, através de 91 empresas. A lista tinha sido elaborada e assinada pelo então diretor de Planejamento, Engenharia e Construção de Furnas, Dimas Toledo, como instrumento para pressionar políticos a negociaram com o presidente Lula a permanência dele na diretoria da estatal. A data da lista é novembro de 2002, logo após a primeira eleição de Lula a presidente. Todos os políticos que aparecem na lista eram todos da base aliada de Fernando Henrique Cardoso. Dimas foi mantido na diretoria de Planejamento, Engenharia e Construção nos primeiros anos do governo Lula.
    
2 Ao prestar depoimento na CPI do Mensalão, em 2005, o então deputado Roberto Jefferson disse que tentou indicar um nome do PTB para o lugar de Dimas Toledo, mas não conseguiu. Segundo ele, o então chefe da Casa Civil, José Dirceu, disse: “Tem pressão do Aécio, tem pressão do Aécio.”

 3   A lista foi contestada pela maioria dos políticos que aparecem na relação, que diziam se tratar de falsificação.  Dimas Toledo também contestou a lista e disse que a assinatura não era dele. Como se tratava de cópia, era impossível de ser periciada. Mas, dois meses depois, o lobista Nílton Monteiro entregou a lista original, e a perícia da Polícia Federal concluiu que era autêntica, não havia nenhum indício de montagem ou falsificação. Para os peritos, não restava dúvida de que Dimas assinou a lista.

   4 A Polícia Federal encaminhou à Procuradoria Geral da República solicitação para investigar os políticos com foro privilegiado, que nunca foi dada. Mas quem não tinha foro privilegiado foi investigado, e em janeiro de 2012 a procuradora da república Andréia Bayão denunciou 11 pessoas por corrupção passiva , corrupção passiva e lavagem de dinheiro, entre eles Dimas Toledo e o empresário dono da Bauruense, Airton Daré;

  5 O ex-deputado Roberto Jefferson confirmou em depoimento à Polícia Federal que recebeu R$ 75 mil (R$ 188 mil em valores corrigidos pelo IGP-M até janeiro) do caixa 2 de Furnas, exatamente como aparece na lista assinada por Dimas Toledo.

   6 O ex-presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, Antônio Júlio, também confirmou que recebeu R$ 150 mil (376 mil em valores atualizados) do caixa 2 de Furnas, exatamente como aparece na lista de Dimas.

  7  Em delação premiada recente, o doleiro Alberto Youssef contou ao juiz Sérgio Moro que ouviu do dono da Bauruense a informação de que parte da propina arrecadada em Furnas não poderia ser entregue a seu cliente, o deputado José Janene, porque já tinha sido entregue a uma irmã de Aécio Neves. Segundo Youssef,  Janene lhe confirmou que Aécio tinha participação no caixa 2 de Furnas.

 8  Na Lista de Furnas, Aécio aparece como destinatário de R$ 5,5 milhões (13,8 milhões em valores corrigidos pelo IPC-M).

   9 O nome de Aécio é mencionado na lista como autor da “autorização” para o repasse de R$ 350 mil (R$ 880 mil, em valores atualizados) para o candidato a senador Zezé Perrella, o do Helicoca.

    10 A Lista de Furnas também registra “valor avulso repassado para Andréa Neves, irmã de Aécio Neves, para os comitês e prefeitos do interior do Estado” – R$ 695 mil (R$ 1,74 milhão em valores corrigidos pelo IGP-M até janeiro de 2016).

    11 A família de Aécio Neves tem vinculações com Furnas desde sua fundação, no fim da década de 50. Até estourar o escândalo da Lista, o pai de Aécio, ex-deputado federal e membro da Comissão de Energia da Câmara dos Deputados, era membro do Conselho de Administração da de Furnas.

    12 No governo Lula, dois nomes da antiga administração (período de Fernando Henrique Cardoso) foram mantidos na estatal – Dimas Toledo e Aécio Cunha, pai do senador, ambos ligados politicamente a Aécio.

    13 Até se candidatar a presidente, Aécio tinha excelentes relações com Lula e outros líderes nacionais do PT.  Em 2006, em Minas Geais, houve até comitês informais de apoio a Aécio governador e Lula presidente, na defesa do voto Lulécio. Em 2010, o voto era Dilmasia – Dilma presidente, Anastasia governador. Em Minas Gerais, políticos dizem que essa aliança interessava aos dois lados, pois isolava um adversário comum: José Serra.

   14 Nesta semana, foi divulgado o depoimento em que o lobista Fernando Horneaux de Moura diz ao juiz Sérgio Mouro que Aécio Neves participava do rateio da propina em Furnas, juntamente com as direções do PT nacional e do PT do Estado de São Paulo.


O que falta acontecer para a Procuradoria Geral da República autorizar a Polícia Federal a investigar Aécio Neves?

Ontem, 4 de fevereiro, o lobista Nílton Monteiro me disse que tem munição para revelar todo o porão de Furnas no período em que Aécio reinava ali. Nílton foi operador de Dimas Toledo e é denunciado por corrupção ativa na peça da Andréia Bayão que, estranhamente, foi rejeitada pela Justiça Federal no Rio de Janeiro e hoje dorme nos escaninhos de uma delegacia na cidade. A Justiça Federal decidiu que o caso de Furnas era estadual, não federal, e por isso remeteu tudo para lá. Depois de fazer a denúncia, Andréia Bayão foi promovida a procuradora regional e transferida para Brasília.

Ninguém recorreu da decisão que estadualizou a investigação de Furnas.

Há duas semanas, depois de reiteradas cobranças, a Procuradoria Geral da República me informou que há um núcleo de procuradores, lotados no gabinete de Rodrigo Janot, que está a investigando a Lista de Furnas. Pedi para entrevistar um desses procuradores ou o próprio Janot, e ainda aguardo retorno.

Se quer mesmo investigar a Lista de Furnas, a Procuradoria Geral da República poderia começar interrogando Nílton Monteiro. Ele topa falar, mas não para a polícia do Rio de Janeiro ou para o aparato judicial em Minas Gerais.

Preso sem condenação no Estado, ele diz ter sido torturado por policiais mineiros no tempo em que Antônio Anastasia era governador. “Se a investigação de Furnas for federalizada, eu falo. Mas para a polícia que me torturou, não”, afirma.

Depois que divulgou a Lista de Furnas, Nílton foi apontado como um dos maiores estelionatários do Brasil, com atividades até de negociação de títulos falsos da dívida externa. Não houve nenhuma condenação definitiva contra ele, que já tem algumas absolvições.

Seus depoimentos, acompanhados de entrega de documentos, já produziram estragos no meio político.

Em 2000, Nílton Monteiro denunciou o envolvimento da Samarco no pagamento de propina a políticos do Espírito Santo, e os fatos foram comprovados, com a prisão do presidente da Assembleia Legislativa.

Depois, Nílton Monteiro denunciou o Mensalão de Minas Gerais, e suas revelações fundamentaram a recente condenação do ex-governador Eduardo Azeredo a 20 anos e dez meses de prisão.

Por que não ouvi-lo agora no caso da Lista de Furnas?
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