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sábado, 9 de julho de 2011

Contraponto 5735 - "Wikileaks, Wimbledon e a guerra"

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09/07/2011
Wikileaks, Wimbledon e a guerra

Da Carta Maior - 08/07/2011

Os telegramas do Departamento de Estado estão sendo publicados pouco a pouco, gerando uma fonte permanente de vergonha para o governo dos EUA e inspirando indignação e protestos em nível mundial, já que as mensagens revelam as operações secretas e cínicas da diplomacia estadunidense.

Amy Goodman*

Publicado originalmente em Democracy Now

O sábado passado foi um dia ensolarado em Londres e multidões se dirigiram em massa a Wimbledon e à regata anual Henley. Enquanto isso, Julian Assange, o fundador do site Wikileaks.org, dirigia-se de trem de sua prisão domiciliar em Norfolk, a três horas da capital, até o auditório Troxi de Londres, para reunir-se comigo e o filósofo esloveno Slavoj Zizek para participar de uma conferência pública acerca de Wikileaks, o poder da informação e a importância da transparência no sistema democrático. O evento foi organizado pelo Frontline Club, uma organização fundada por correspondentes de guerra, em parte como homenagem aos muitos companheiros mortos enquanto realizavam seu trabalho na frente de batalha. O co-fundador do Frontline Club, Vaughan Smith, olhou o pouco usual céu aberto com inquietude e disse: “os londrinos nunca vão a um evento em um lugar fechado em um dia como este”. Apesar de anos de experiência brindando informação certeira em coberturas no Afeganistão ou no Kosovo, desta vez a avaliação de Smith foi equivocada.

Cerca de 1.800 pessoas assistiram ao evento, prova do enorme impacto do Wikileaks desde que denunciou a tortura e a corrupção utilizadas para derrubar governos.

Assange está na Inglaterra á espera de uma audiência judicial que será realizada dia 12 de julho, na qual se tratará de sua possível extradição a Suécia, o que é requerido por esse país para ser interrogado sobre um suposto caso de abuso sexual. Apesar de não terem sido apresentadas acusações formais contra ele, Assange encontra-se sob prisão domiciliar há mais de seis meses, carrega uma tornozeleira eletrônica e deve apresentar-se diariamente na delegacia de polícia de Norfolk.

Wikileaks foi oficialmente lançado em 2007 e tem como objetivo receber informação secreta vazada mor informantes, utilizando a última tecnologia para proteger a identidade das fontes. A organização vem obtendo um reconhecimento mundial cada vez maior com a sucessiva publicação de grandes quantidades de documentos confidenciais do governo dos Estados Unidos vinculados às guerras do Iraque e Afeganistão, e milhares de telegramas das embaixadas dos EUA em todo o mundo.

Das partes confidenciais de ambas as guerras, Assange disse que “proporcionaram uma ideia da sordidez da guerra: desde as crianças assassinadas nos postos de controle nas estradas até as milhares de pessoas entregues à polícia iraquiana para serem torturadas, passando pelo que realmente significa o chamado “Apoio aéreo próximo” (CAS, em sua sigla em inglês) e como se realiza o combate militar moderno, e a vinculação disso com outra informação como esse vídeo que descobrimos dos homens que se rendem e são igualmente atacados”.

Os telegramas do Departamento de Estado estão sendo publicados pouco a pouco, gerando uma fonte permanente de vergonha para o governo dos Estados Unidos e inspirando indignação e protestos em nível mundial, já que os telegramas confidenciais revelam as operações secretas e cínicas da diplomacia estadunidense. O “Cablegate”, como foi denominada a maior revelação pública dos documentos do Departamento de Estado na história dos EUA, foi uma das faíscas que incendiou a Primavera Árabe. Os tunisianos e iemenitas que viviam sob regimes repressivos na Tunísia e no Yemen, por exemplo, sabiam que seus governos eram corruptos e cruéis. Mas ler os detalhes e ver até que ponto o governo dos EUA apoia esses ditadores ajudou a iniciar a revolta.

De maneira similar, os milhares de telegramas vinculados ao Haiti analisados pelo jornal independente Haiti Liberté e pela revista The Nation revelaram a ampla manipulação estadunidense da política e da economia desse país. (Esta coluna foi mencionada em um dos telegramas sobre o Haiti, no qual se fazia referência a nosso informe sobre aqueles que criticavam a atitude do governo Obama de negar após o terremoto os vistos de 70 mil haitianos que já tinham sido aprovados). Uma série de telegramas detalha as tentativas estadunidenses de obstaculizar o envio de petróleo subsidiado da Venezuela para proteger os interesses comerciais da Chevron e ExxonMobil. Outros telegramas mostram a pressão realizada pelos EUA para evitar um aumento do salário mínimo no Haiti a pedido de fabricantes de roupas dos EUA. Estamos falando do país mais pobre do Hemisfério Ocidental.

Como consequência do papel desempenhado como redator chefe do Wikileaks, Assange recebeu reiteradas ameaças, inclusive ameaças de morte. O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, qualificou-o como “terrorista de alta tecnologia”, enquanto que Newt Gingrich disse: “Julian Assange está envolvido no terrorismo. Deveria ser tratado como um combatente inimigo e Wikileaks deveria ser fechado de forma definitiva”.

De fato, as tentativas realizadas até o momento de fechar o Wikileaks fracassaram. O Bank of America teria contratado várias empresas privadas de inteligência para coordenar um ataque contra a organização que, segundo se diz, teria uma grande quantidade de documentos que revelariam atividades potencialmente fraudulentas do banco. O Wikileaks também acaba de ingressar na Justiça contra a MasterCard e a Visa, que deixaram de registrar as doações realizadas com cartões de crédito por meio de suas páginas web.

O processo de extradição coloca uma ameaça ainda maior para Assange: ele teme que a Suécia o extradite logo para os Estados Unidos. Levando em conta o tratamento recebido pelo soldado Bradley Manning, acusado de vazar muitos documentos secretos para Wikileaks, Assange tem motivos razoáveis para temer. Manning esteve fechado em isolamento durante quase um ano, em condições que, segundo muitos afirmam, são similares à tortura.

No evento em Londres, o apoio ao Wikileaks foi impressionante. Mas Julian Assange não podia ficar para conversar uma vez terminada a conferência. Tinha apenas o tempo suficiente para regressar a Norkfolk e retornar à sua detenção domiciliar. Independentemente do que ocorra a Assange, Wikileaks mudou o mundo para sempre.

(*) Denis Moynihan colaborou com a produção jornalística dessa coluna.

Tradução: Katarina Peixoto

*Amy Goodman é apresentadora de "Democracy Now!" um noticiário internacional diário, nos EUA, de uma hora de duração que emite para mais de 550 emissoras de rádio e televisão em inglês e em 200 emissoras em Espanhol. Em 2008 foi distinguida com o "Right Livelihood Award" também conhecido como o "Premio Nobel Alternativo", outorgado no Parlamento Sueco em Dezembro.

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quarta-feira, 9 de março de 2011

Contraponto 4920 - "Serra acenou para os EUA com "relações carnais", mas gringos o consideraram completamente desinformado"

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09/03/2011


WikiLeaks: Serra acenou para os EUA com "relações carnais", mas gringos o consideraram completamente desinformado


Do Amigos do Presidente Lula - porZé Augusto -quarta-feira, 9 de março de 2011

No fim de 2009, José Serra (PSDB/SP) ainda era governador de São Paulo e candidato informal tucano à presidência.

O subsecretário para assuntos do hemisfério ocidental do governo americano, Arturo Valenzuela, visitou países do Cone Sul e na volta aproveitou para fazer uma escala em São Paulo onde realizou uma série de encontros extra-oficiais.

Um dos encontros extra-oficiais foi com o então governador José Serra.

Durante 90 minutos no palácio do governo paulista, o demo-tucano insinuou troca de apoio com os estadunidenses: caso ele viesse a ser presidente do Brasil, faria uma política externa alinhada com os EUA (insinuando que seria interessante aos estadunidenses engajarem-se em sua candidatura).

O fato lembra a frase do ex-presidente argentino Carlos Menen (colega de FHC e Serra no neoliberalismo e nas quebradeiras internacionais), quando disse que mantinha "relações carnais" com os EUA.

Conspirando com os gringos contra os interesses brasileiros

No encontro, segundo os telegramas vazados, Serra criticou a participação do presidente Lula na crise de Honduras, responsabilizando o governo brasileiro e o presidente hondurenho deposto Manuel Zelaya por resistirem ao golpe de estado.

Nada como um dia após o outro. Recentemente, em outro telegrama, vazado do wikileaks, descobriu-se que o embaixador estadunidense em Honduras, Hugo Llorens, avaliou que a destituição do ex-presidente do país Manuel Zelaya foi “ilegal” e “inconstitucional”.

Em outro trecho da conversa, Serra resmungou e "aconselhou" os EUA a não elogiar Lula: “Ele também avisou que as referências do governo americano a uma ‘relação especial’ com o presidente Lula não agradam a todos os segmentos do Brasil e que poderiam ser manipuladas pelo PT”, diz o telegrama.

O demo-tucano também repetiu o discurso tosco, simplório e fascista do PIG (Partido da Imprensa Golpista), como se fosse um fantasma de um líder da UDN falando a um senador macarthista dos anos 50, acusando o "perigo vermelho" crescente no governo do PT, onde, segundo o demo-tucano, a radicalização e a corrupção estarima crescentes.

Para não dizer que Serra não falou nada que preste, ele criticou a tarifa americana sobre o álcool brasileiro, mas não se sabe o que ofereceu em troca. Em outro telegrama, fala nas conversas do demo-tucano para entrega do pré-sal com uma executiva da Chevron (Petroleira estadunidense).

Completamente desinformado

No telegrama, Valenzuela achou Serra focado demais na política interna brasileira sem prestar a devida atenção aos vizinhos na América do Sul.

O demo-tucano, tentou aplicar o discurso do medo no estadunidense, chamando de "perigo" a eleição de Dilma: “A presidente Kirchner é esperta e cordial. Se o populismo na Argentina preocupa aos EUA, então Dilma causará preocupação maior”.

Mas a avaliação do estadunidense sobre a visão de Serra foram devastadoras:

“Serra pareceu completamente desinformado de acontecimentos recentes no Cone Sul, incluindo a situação política do presidente paraguaio Lugo”, comentou o telegrama fazendo menção à série de reconhecimentos de paternidade atribuídas ao ex-bispo.

Medo da derrota

José Serra deu a entender a Arturo Valenzuela não estar “firmemente confiante” que fosse ganhar as eleições de 2010. Segundo o tucano, o embate entre os esforços do PT em montar uma base política sólida e o fraco aparato do PSDB justificavam tal descrença.

Vexame

Por fim, deu vexame ao destacar "seu engajamento com o então governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger", nas questões climáticas como uma das oportunidades de cooperação. Isso a partir de um breve encontro de poucos minutos com o astro do "Exterminador do futuro", nos corredores da conferência do clima na Dinamarca, ocorrida poucos dias antes. Só faltou destacar como "exemplo de cooperação" o encontro com a cantora Madonna. (Carta Capital WikiLeaks)
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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Contraponto 4666 - Wikileaks: a vez dos paraísos fiscais?

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08/02/2011

Wikileaks: a vez dos paraísos fiscais?


Do Blog do Miro - segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Reproduzo artigo de Antonio Martins, publicado no sítio Outras Palavras::

“O homem comum precisa saber como funciona o sistema [que permite aos ricos e às grandes empresas livrar-se do pagamento de impostos]. Sei como ele funciona. Estive ali e conheço o dia a dia do negócio”. Com estas palavras, o suíço Rudolf Elmer, ex-diretor do banco Julius Balmer, entregou a Julian Assange um vasto acervo arquivos eletrônicos que podem comprometer autoridades e grandes empresas.

O ato, celebrado no Front Club de Londres e aberto à imprensa, pode recolocar em foco um dos aspectos mais sombrios da globalização: os paraísos fiscais, territórios utilizados pelo grande capital e por grupos criminosos para ocultar operações ilegais e sonegar tributos. Elmer atuou num destes pontos. Entre 1995 e 2002 ele foi o responsável pelas operações do Balmer nas Ilhas Caiman.

Desde então, procura debater com governos, universidades e centros de estudos econômicos maneiras de enfrentar tais “paraísos”. Criou um site pessoal dedicado ao tema. Mas enfrenta enormes obstáculos. Em 2005, a justiça suíça obrigou-o a cumprir 30 dias de cárcere, por revelar segredos bancários. No final do mês, deverá voltar a uma corte em seu país, sob idêntica acusação.

Elmer enxergou no Wikileaks uma forma de dialogar diretamente com a opinião pública. Embora o site de que Assange é referência tenha se notabilizado em 2010 por revelar relatórios diplomáticos norte-americanos, ele não se limita a isso. É uma plataforma protegida, na qual detentores de sigilos que incomodam o poder podem fazer revelações. Antes de publicadas, as informações são verificadas exaustivamente, por uma equipe de redatores e um batalhão de voluntários. Por isso, Assange não quis adiantar nada, ontem, sobre o conteúdo dos arquivos que recebeu.

Os paraísos fiscais caracterizam-se por cobrar impostos reduzidíssimos sobre as operações financeiras lá realizadas; e por protegê-las de investigações. Existem há décadas, mais multiplicaram-se com a globalização financeira. Como são territórios minúsculos, com populações muito pequenas, mantêm padrão de vida elevado, mesmo tributando muito pouco.

A luta contra eles cresceu em todo o mundo ao longo da última década. Movimentos como o ATTAC e o Tax Justice International passaram a questionar o motivo de as sociedades permitirem sua existência, quando sabe-se que suas finalidades básicas são acobertar atos ilegais. Na Biblioteca Diplô há um dossiê sobre eles.

Postado por Miro
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domingo, 6 de fevereiro de 2011

Contraponto 4639 - "Documentário expõe segredos do WikiLeaks Julian Assange"

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06/02/2011


Documentário expõe segredos do WikiLeaks Julian Assange



Do Vermelho - 6 de Fevereiro de 2011 - 0h00

O documentário WikiRebels, produzido pela TV sueca SVT, agora legendado em português, conta em detalhes segredos da história do WikiLeaks – o maior vazamento de documentos confidenciais de governos e de empresas, não só, mas principalmente, norte-americanos, de toda a História da humanidade. Entre outras revelações, como era o jovem Julian Assange antes da organização e como ela ficou depois de sua libertação após a prisão em Londres. Vale à pena ver até o fim.


Leia mais:
-WikiLeaks: EUA pressionaram China a desistir de corrida espacial
-Natalia Viana: O futuro do WikiLeaks
-Parlamentar norueguês indica Wikilealks ao prêmio Nobel
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domingo, 30 de janeiro de 2011

Contraponto 4577 - "Wikileaks revelam sabotagem contra Brasil tecnológico"

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30/01/2011

Wikileaks revelam sabotagem contra Brasil tecnológico

Da Carta Maior - 30/01/2011

Os telegramas da diplomacia dos EUA revelados pelo Wikileaks revelaram que a Casa Branca toma ações concretas para impedi dificultar e sabotar o desenvolvimento tecnológico brasileiro em duas áreas estratégicas: energia nuclear e tecnologia espacial. Em ambos os casos, observa-se o papel anti-nacional da grande mídia brasileira, bem como escancara-se, também sem surpresa, a função desempenhada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, colhido em uma exuberante sintonia com os interesses estratégicos fo Departamento de Estado dos EUA, ao tempo em que exibe problemática posição em relação à independência tecnológica brasileira. O artigo é de Beto Almeida.

O primeiro dos telegramas divulgados, datado de 2009, conta que o governo dos EUA pressionou autoridades ucranianas para emperrar o desenvolvimento do projeto conjunto Brasil-Ucrânia de implantação da plataforma de lançamento dos foguetes Cyclone-4 - de fabricação ucraniana - no Centro de Lançamentos de Alcântara , no Maranhão.

Veto imperial
O telegrama do diplomata americano no Brasil, Clifford Sobel, enviado aos EUA em fevereiro daquele ano, relata que os representantes ucranianos, através de sua embaixada no Brasil, fizeram gestões para que o governo americano revisse a posição de boicote ao uso de Alcântara para o lançamento de qualquer satélite fabricado nos EUA. A resposta americana foi clara. A missão em Brasília deveria comunicar ao embaixador ucraniano, Volodymyr Lakomov, que os EUA “não quer” nenhuma transferência de tecnologia espacial para o Brasil.

“Queremos lembrar às autoridades ucranianas que os EUA não se opõem ao estabelecimento de uma plataforma de lançamentos em Alcântara, contanto que tal atividade não resulte na transferência de tecnologias de foguetes ao Brasil”, diz um trecho do telegrama.

Em outra parte do documento, o representante americano é ainda mais explícito com Lokomov: “Embora os EUA estejam preparados para apoiar o projeto conjunto ucraniano-brasileiro, uma vez que o TSA (acordo de salvaguardas Brasil-EUA) entre em vigor, não apoiamos o programa nativo dos veículos de lançamento espacial do Brasil”.

Guinada na política externa
O Acordo de Salvaguardas Brasil-EUA (TSA) foi firmado em 2000 por Fernando Henrique Cardoso, mas foi rejeitado pelo Senado Brasileiro após a chegada de Lula ao Planalto e a guinada registrada na política externa brasileira, a mesma que muito contribuiu para enterrar a ALCA. Na sua rejeição o parlamento brasileiro considerou que seus termos constituíam uma “afronta à Soberania Nacional”. Pelo documento, o Brasil cederia áreas de Alcântara para uso exclusivo dos EUA sem permitir nenhum acesso de brasileiros. Além da ocupação da área e da proibição de qualquer engenheiro ou técnico brasileiro nas áreas de lançamento, o tratado previa inspeções americanas à base sem aviso prévio.

Os telegramas diplomáticos divulgados pelo Wikileaks falam do veto norte-americano ao desenvolvimento de tecnologia brasileira para foguetes, bem como indicam a cândida esperança mantida ainda pela Casa Branca, de que o TSA seja ,finalmente, implementado como pretendia o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas, não apenas a Casa Branca e o antigo mandatário esforçaram-se pela grave limitação do Programa Espacial Brasileiro, pois neste esforço algumas ONGs, normalmente financiadas por programas internacionais dirigidos por mentalidade colonizadora, atuaram para travar o indispensável salto tecnológico brasileiro para entrar no seleto e fechadíssimo clube dos países com capacidade para a exploração econômica do espaço sideral e para o lançamento de satélites. Junte-se a eles, a mídia nacional que não destacou a gravíssima confissão de sabotagem norte-americana contra o Brasil, provavelmente porque tal atitude contraria sua linha editorial historicamente refratária aos esforços nacionais para a conquista de independência tecnológica, em qualquer área que seja. Especialmente naquelas em que mais desagradam as metrópoles.

Bomba! Bomba!
O outro telegrama da diplomacia norte-americana divulgado pelo Wikileaks recentemente e que também revela intenções de veto e ações contra o desenvolvimento tecnológico brasileiro veio a tona de forma torta pela Revista Veja, e fala da preocupação gringa sobre o trabalho de um físico brasileiro, o cearense Dalton Girão Barroso, do Instituto Militar de Engenharia, do Exército. Giráo publicou um livro com simulações por ele mesmo desenvolvidas, que teriam decifrado os mecanismos da mais potente bomba nuclear dos EUA, a W87, cuja tecnologia é guardada a 7 chaves.

A primeira suspeita revelada nos telegramas diplomáticos era de espionagem. E também, face à precisão dos cálculos de Girão, de que haveria no Brasil um programa nuclear secreto, contrariando, segundo a ótica dos EUA, endossada pela revista, o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, firmado pelo Brasil em 1998, Tal como o Acordo de Salvaguardas Brasil-EUA, sobre o uso da Base de Alcântara, o TNP foi firmado por Fernando Henrique. Baseado apenas em uma imperial desconfiança de que as fórmulas usadas pelo cientista brasileiro poderiam ser utilizadas por terroristas , os EUA, pressionaram a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) que exigiu explicações do governo Brasil , chegando mesmo a propor o recolhimento-censura do livro “A física dos explosivos nucleares”. Exigência considerada pelas autoridades militares brasileiras como “intromissão indevida da AIEA em atividades acadêmicas de uma instituição subordinada ao Exército Brasileiro”.

Como é conhecido, o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, vocalizando posição do setor militar contrária a ingerências indevidas, opõe-se a assinatura do protocolo adicional do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, que daria à AIEA, controlada pelas potências nucleares, o direito de acesso irrestrito às instalações nucleares brasileiras. Acesso que não permitem às suas próprias instalações, mesmo sendo claro o descumprimento, há anos, de uma meta central do TNP, que não determina apenas a não proliferação, mas também o desarmamento nuclear dos países que estão armados, o que não está ocorrendo.

Desarmamento unilateral
A revista publica providencial declaração do físico José Goldemberg, obviamente, em sustentação à sua linha editorial de desarmamento unilateral e de renúncia ao desenvolvimento tecnológico nuclear soberano, tal como vem sendo alcançado por outros países, entre eles Israel, jamais alvo de sanções por parte da AIEA ou da ONU, como se faz contra o Irã. Segundo Goldemberg, que já foi secretário de ciência e tecnologia, é quase impossível que o Brasil não tenha em andamento algum projeto que poderia ser facilmente direcionado para a produção de uma bomba atômica. Tudo o que os EUA querem ouvir para reforçar a linha de vetos e constrangimentos tecnológicos ao Brasil, como mostram os telegramas divulgados pelo Wikileaks. Por outro lado, tudo o que os EUA querem esconder do mundo é a proposta que Mahmud Ajmadinejad , presidente do Irà, apresentou à Assembléia Geral da ONU, para que fosse levada a debate e implementação: “Energia nuclear para todos, armas nucleares para ninguém”. Até agora, rigorosamente sonegada à opinião pública mundial.

Intervencionismo crescente
O semanário também publica franca e reveladora declaração do ex-presidente Cardoso : “Não havendo inimigos externos nuclearizados, nem o Brasil pretendendo assumir uma política regional belicosa, para que a bomba?” Com o tesouro energético que possui no fundo do mar, ou na biodiversidade, com os minerais estratégicos abundantes que possui no subsolo e diante do crescimento dos orçamentos bélicos das grandes potências, seguido do intervencionismo imperial em várias partes do mundo, desconhecendo leis ou fronteiras, a declaração do ex-presidente é, digamos, de um candura formidável.

São conhecidas as sintonias entre a política externa da década anterior e a linha editorial da grande mídia em sustentação às diretrizes emanadas pela Casa Branca. Por isso esses pólos midiáticos do unilateralismo em processo de desencanto e crise se encontram tão embaraçados diante da nova política externa brasileira que adquire, a cada dia, forte dose de justeza e razoabilidade quanto mais telegramas da diplomacia imperial como os acima mencionados são divulgados pelo Wikilieks.

(*) Beto Almeida é jornalista
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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Contraponto 4281 - "PETRÓLEO - Lições para o setor petróleo graças ao WikiLeaks."

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22/12/2010


PETRÓLEO - Lições para o setor petróleo graças ao WikiLeaks.

BLOG DE UM SEM MIDIA - terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Paulo Metri – conselheiro da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros

Até que se prove algo em contrário, o WikiLeaks veio para diminuir o número de anjos na sociedade mundial. As lições que se tiram do vazamento relativo ao setor de petróleo do Brasil são muitas. Para os interessados, que ainda não se atualizaram, vamos listá-las sem ordem de importância.

É incrível, mas algumas pessoas ainda se surpreendem com o fato de a embaixada dos Estados Unidos estar envolvida em assuntos internos do Brasil, buscando interferir a favor dos interesses das suas empresas. Além disso, a importância que o pré-sal tem para as petrolíferas americanas e os Estados Unidos foi desnudada. Inclusive, é mostrado como eles atuaram no nosso Congresso para que o contrato de partilha proposto pelo governo Lula não fosse aprovado, o que faria com que a lei das concessões da era FHC permanecesse em vigor. Por isso, a conclusão rápida que se pode tirar é que o contrato de partilha deve ser melhor para a sociedade brasileira que as concessões. José Serra seria favorável à lei das concessões, que muitos congressistas do seu partido defendem, abertamente. Com os vazamentos, ficou claro que, apesar da diminuição de lucro e poder que o contrato de partilha acarreta, as petrolíferas estrangeiras não querem sair do Brasil, inclusive porque não há muitos lugares no mundo para onde elas possam ir, atualmente (O GRIFO EM VERDE NEGRITADO É DO CONTRAPONTOPIG).

As empresas estrangeiras de petróleo só querem comprar de seus fornecedores no exterior, o que seria facilmente constatado, se as compras delas, em comparação com as da Petrobrás, fossem verificadas nestes 13 anos de existência da lei das concessões. Não é por outra razão que elas se opunham, como mostra o WikiLeaks, à Petrobrás ser a operadora única do pré-sal.

A afirmação "as regras sempre podem mudar depois" dita por um executivo de uma petrolífera estrangeira chega a ser um acinte contra a soberania nacional, o que consta ter sido repetido pelo candidato do PSDB à presidência. A constância do capitalismo internacional em querer usurpar as riquezas onde elas estiverem, além de danosa para os proprietários das riquezas, revela a característica de saqueadores inveterados. WikiLeaks revelou que as entidades Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP) e Organização Nacional da Indústria do Petróleo (ONIP) são brasileira e nacional só no nome. A boa notícia é que os estrangeiros têm medo que a sociedade brasileira saiba de toda a tramóia deles e se indigne. Então, como a sociedade está agora começando a saber, deveremos ter boas notícias brevemente.

Finalizando, todos aqueles que acusaram a Associação de Engenheiros da Petrobrás (AEPET) e seu presidente, engenheiro Fernando Siqueira, de adeptos da "Teoria da Conspiração" deveriam reconhecer que eles estavam certos. A conspiração existia e era extremamente danosa para a sociedade brasileira.

Fonte: AEPET.
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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Contraponto 4260 - "El Pais: O que de verdade os governos ocultam"

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20/12/2010

El Pais: O que de verdade os governos ocultam

Viomundo 19/12/2010

Javier Moreno, El Pais – Editorial

Traduzido por Geraldo Honório Oliveira Neto

O interesse global provocado pelos papeis de Wikileaks se explica principalmente por uma razão muito simples, mas ao mesmo tempo poderosa: revelam, de forma exaustiva, como certamente nunca havia acontecido, até que grau as classes políticas nas democracias ocidentais avançadas estiveram enganando seus cidadãos. EL PAÍS assumiu desde o início o desafio de revelar o que o poder oculta e cumprir a obrigação profissional de informar seus leitores.

» 1. O vazamento e suas conseqüências. Quando numa sexta feira pela tarde, no mês de novembro, Julian Assange fez uma ligação para o meu celular, quase não podia ouvi-lo. Entrecortada pela bagunça habitual do fim de semana no aeroporto de Roma, onde me encontrava aquele dia ao regressar a Madrid, a conversa foi estranhamente breve. Assange fala devagar, mede com extremo cuidado cada palavra que pronuncia e sua voz grave, como de barítono, tende a tornar-se inaudível ao final da frase, característica que não facilita nada a compreensão. Momentos antes os carabinieri haviam mostrado um interesse especial por minha escassa bagagem e, nesse preciso momento, se ocupavam de analisar os traços químicos de um trapinho branco com o qual haviam perscrutado todas as superfícies do meu iPad, sem que eu nunca soubesse se em busca de explosivos, de drogas ou das duas coisas.

Trata-se de una situação que geralmente me intranqüiliza, mas à qual neste dia quase não prestei atenção. Assange, segundo entendi, estava disposto a disponibilizar a EL PAÍS 250.000 comunicações entre o Departamento de Estado y as embaixadas dos Estados Unidos em três dezenas de países, o que indicava ser realmente o maior vazamento de documentos secretos da história. Acordamos prosseguir a conversa em momento mais propício e logo nos despedimos.

Quando retomamos o diálogo dois dias depois, desta vez com profundidade, começou a perfilar-se com uma clareza inusitada a gigantesca estrutura do projeto que logo foi conhecido como o cablegate. Paralelamente fui dando conta, com maior precisão, se cabe, das importantes conseqüências que derivariam de tudo isto para a maquinaria diplomática dos EUA, para a reputação do seu Governo, a de seus aliados, a de seus adversários, para o futuro do jornalismo e ainda para o debate sobre as liberdades nas democracias ocidentais.

Hoje, três semanas depois que The Guardian, The New York Times, Le Monde, Der Spiegel e EL PAÍS começamos a publicar as informações que agora todo o mundo conhece, me atreveria a afirmar que já se pode extrair de todo esse assunto uma primeira conclusão que, ainda provisória, é muito importante, como tratarei de explicar a seguir. Mais que um agudo estado de crise de segurança supranacional, como antecipou alguns, o que verdadeiramente se instalou entre as elites políticas em Washington e na Europa é una espessa atmosfera de irritação e de embaraçosa contrariedade que resulta extremamente reveladora do alcance e do significado real dos papéis de Wikileaks.

Não foram esses precisamente os augúrios. Bem o contrario. Desde antes de publicar-se a primeira linha se sucederam as mais diversas admoestações, tanto públicas como privadas. Porta-vozes em Washington advertiram sobre a irresponsabilidade do empenho. Os diretores dos jornais responsáveis pelo projeto também fomos devidamente advertidos de que a publicação do material que já tínhamos em nosso poder – tanto as crônicas elaboradas por nossas redações como os despachos em que aquelas se baseavam – poria em perigo dezenas de vidas, arruinaria nobres esforços diplomáticos vitais para cimentar a luta contra o terrorismo mundial, e debilitaria de forma irremediável a coalizão internacional encabeçada pelos Estados Unidos, ao expor seus sócios a situações tão embaraçosas que dificultariam ou impediriam a colaboração entre eles.

Pois não me surpreendeu que o presidente Barack Obama qualificasse os vazamentos de atos deploráveis. Tampouco que a secretaria de Estado Hillary Clinton utilizasse esses argumentos, quase com essas mesmas palavras, durante seu primeiro comparecimento diante da imprensa em Washington, para condenar as ações de Wikileaks e lamentar a decisão que finalmente tomamos, os cinco jornais que tiveram acesso ao material vazado, de não atender aos rogos de sua Administração.

O que começou a revelar-se em seguida certamente tornou pequenos os piores pesadelos do Departamento de Estado, e motivou queixas amargas de diplomatas em todo o mundo. Não só estavam descobertas algumas de suas manobras e ordens menos confessáveis, como também acumulavam-se provas do duplo discurso dos aliados de Washington sobre os mais diversos assuntos – muitos deles em âmbito estritamente nacional –, que viam com estupefação como a publicação dos despachos lhes deixava em evidencia, ora frente a países vizinhos e aliados, ora frente a seus concidadãos, que descobriam, com compreensível irritação, opiniões, declarações ou ações de seus lideres que lhes foram convenientemente ocultadas.

» 2. América, fazendo o seu trabalho. Neste momento não disponho de informação precisa, mas resulta evidente, para qualquer observador, que a Administração norte-americana chegou bem rápido à conclusão de que sua estratégia inicial de condenar os vazamentos, deplorar sua difusão y profetizar um apocalipse diplomático como conseqüência imediata de sua publicação, não surtiria o efeito desejado. Por isso logo se articulou outra muito distinta que encontrou com rapidez seu caminho em fartos editoriais e artigos de opinião em importantes jornais, revistas y televisões dos Estados Unidos e de outros países.

Mais que mentiras ou enganos, os telegramas mostrariam as habilidades dos diplomatas dos EUA, segundo esta nova interpretação apoiada sobretudo pelos meios conservadores. Mais que seus fracassos, a informação que se ia conhecendo ressaltaria como a maquinaria de Washington se conduz, in situ e privadamente, segundo os mesmos altos princípios proclamados em público desde os púlpitos oficiais do Capitólio. E em toda ocasião a América demonstraria professar mais atenção aos interesses da segurança internacional que aos seus próprios.

Como quase sempre, para a desgraça dos espanhóis, se deu também uma versão castiça das desculpas mencionadas, que vieram como adorno nacional quando os próprios jornais sustentaram, sem rubor, que a maior parte dos conteúdos dos telegramas vazados, e ainda o conjunto deles, em sua totalidade, não passava da categoria de fofocas ou maledicência sem valor algum para os cidadãos em general e para seus leitores em particular, aos quais conseqüentemente se furtou a informação. Não poucos comentaristas e debatedores na Espanha seguiram essa tosca argumentação, por preguiça mental ou por outras motivações igualmente condenáveis, ignorando assim de forma vergonhosa a onda de interesse público que a publicação dos papéis de Wikileaks suscitou em todo o planeta.

» 3. Mentindo aos cidadãos. Nada do anterior é correto, naturalmente, como a estas alturas podem comprovar por si mesmos os milhões de leitores que seguiram com avidez a informação em jornais, webs, blogs e demais meios em todo o mundo. Seria vã a tarefa de dedicar maior esforço para refutar-lo. Pelo contrario, tenho comigo que o interesse global provocado pelos papéis de Wikileaks explica-se principalmente por uma razão muito simples, mas ao mesmo tempo muito poderosa: revelam, de forma exaustiva, como seguramente jamais aconteceu, até que grau as classes políticas nas democracias avançadas do Ocidente estiveram enganando seus cidadãos.

O mesmo, aliás, caberia predicar dos governos com menor pedigree democrático em outras zonas do mundo, o que resulta menos surpreendente e, si se quer, poderia constituir matéria de outro ensaio. Baste resenhar aqui o júbilo inicial da ditadura cubana, que celebrou com alvoroço os apuros pelos quais previsivelmente ia passar Washington nos dias seguintes. Júbilo que se transformou primeiro em incômodo, ao surgir os relatos sobre o grau de implicação de seus agentes secretos na Venezuela e outros países latino-americanos, assim como o nível de deterioração de sua economia, e que acabou logo em insultos a este jornal e ao seu grupo editorial.

A lista de argúcias que os papéis de Wikileaks deixam descobertas é extensa, e não pretendo aqui realizar uma relação exaustiva. A enumeração de algumas delas, entretanto, é imprescindível para a argumentação deste esboço, pois a maioria afeta aos fundamentos democráticos de nossas sociedades, assim como ao seu correlato moral em tempos de crescente cepticismo dos cidadãos a respeito de seus governantes.

Dezenas de milhares de soldados livram no Afeganistão uma guerra que seus respectivos primeiro ministros ou presidentes consideram impossível de ganhar. Dezenas de milhares de soldados sustentam com seus esforços um Governo cuja corrupção é conhecida e tolerada por aqueles que lhes enviaram para a luta. Segundo revelam os despachos de Wikileaks, nenhuma das principais potências ocidentais envolvidas crê firmemente na possibilidade de que o país seja viável em médio prazo, para não falar já de seu altamente hipotético ingresso no clube das democracias, objetivo declarado dos combatentes. Assim, não deveria surpreender a ninguém o fato de que o vice-presidente afegão transfira ao exterior milhões de dólares em maletas com o consentimento de seus patronos, a fim de manter a fachada de que o país asiático conta com um Governo, se não decente, ao menos semi-solvente.

O Paquistão se afoga na corrupção e mantém um arsenal nuclear em tão lamentável estado que cabe razoavelmente temer pela sua segurança e a ajuda a grupos terroristas que se empregam com afinco contra a Índia e em países do Ocidente. Dinheiro em abundância, proveniente de doadores da Arábia Saudita ou dos emirados do Golfo, financia também o terrorismo de grupos sunitas, sem que os Estados Unidos denuncie seus firmes aliados na região como potencias do mal ante as tribunas internacionais. Clinton ou algum de seus subordinados mais diretos ordenou espionar na ONU não só um grupinho de países estranhos – suspeitos ha tempos por sua excentricidade na geopolítica global e cuja necessidade de ser espionados parece ser consensual entre os mais desenvoltos –, senão o próprio secretario geral da organização, sem que este, pelo que se sabe, tenha exigido alguma explicação para tal violação de seu estatuto internacional.

Pareceria agora, no dizer daqueles que sustentam que os papéis das embaixadas não contêm novidades de envergadura, que os cidadãos estavam já conscientes de todo o exposto, assim como do resto de furos impactantes que inundaram as primeiras páginas dos jornais de todo o mundo durante duas semanas. Não vou insistir mais na falácia de tal asseveração. Interessa-me mais assinalar que a publicação dos telegramas secretos revela, ademais, que, coletivamente, a classe política no Ocidente era consciente da situação no Afeganistão, das turvas maquinações do Paquistão ou das ambigüidades dos países árabes aliados de Washington, para limitar-me unicamente aos exemplos antes citados, num exercício de dupla moral sem muitos precedentes conhecidos. Sabiam, mas ocultavam. E os destinatários de semelhante impostura eram seus eleitores, as sociedades com cujo esforço em soldados e em impostos se sustenta a guerra no Afeganistão. Já não me parece exagerada a comparação de agudos observadores, como John Naugthon, quando assinalam que o regime de Karzai resulta igualmente corrupto e incompetente como o do Vietnam do Sul, sustentado pelos Estados Unidos nos anos setenta. E que Washington e a OTAN se afundam em um pântano, o afegão, cada vez mais parecido ao que sofreram os Estados Unidos com o regime de Saigon há quarenta anos.

» 4. A incompetência das elites políticas. Sem dúvida os mais cínicos argumentarão que nada disso resulta alheio à forma como tradicionalmente se conduziu a alta política internacional, e que o correlato objetivo do oficio consiste precisamente na manutenção dos segredos diplomáticos, sem os quais o mundo resultaria mais ingovernável, se é possível, e por tanto mais perigoso para todos. As classes políticas de ambos os lados do Atlântico vêm com isso transmitir uma mensagem tão simples como vantajosa: confiem em nós; não tentem desvelar nossos segredos; em contrapartida lhes oferecemos segurança.

Mas quanta segurança oferecem realmente em troco de aceitar tamanha chantagem moral? Pouca ou nenhuma, pois se da o triste paradoxo de que se trata da mesma classe política que se mostrou incapaz de supervisionar adequadamente o sistema financeiro internacional, cuja explosão provocou a maior crise desde 1929, arruinou países inteiros ou condenou ao desemprego e à depauperação a milhões de trabalhadores. Os mesmos responsáveis pela deterioração dos níveis de vida e de riqueza de seus concidadãos, pelo incerto destino do euro, pela falta de um projeto europeu de futuro e enfim, pela crise de governança global que aflige o mundo nos últimos anos e à qual não são alheias as elites no poder em Washington e Bruxelas. Não estou seguro de que manter ocultos os segredos das embaixadas nos garanta uma melhor diplomacia ou um desenlace mais benigno às encruzilhadas atuais.

As incompetências dos Governos ocidentais a respeito da crise econômica, as mudanças climáticas, a corrupção ou a agressão militar ilegal no Iraque e outros países, ficaram abundantemente expostas ante a opinião pública nos últimos anos. Agora sabemos, ademais, graças aos papéis de Wikileaks, que todos eles são conscientes de sua desafortunada falibilidade, e que só a inércia das maquinarias oficiais e o poder de manter os segredos evitam que tenham que prestar contas aos cidadãos, a razão última numa democracia.

Esse poder imenso, o de evitar que a verdade aflore, o de manter secretos os segredos, é o que agora, ao menos de forma parcial, limitada, aleatória, as revelações que nos ocupam vieram quebrar.

Compreendo bem que diante de semelhantes destroços de suas reputações, tanto para o Governo dos Estados Unidos como, em um tom menor, para seus aliados ocidentais, resulte irresistível centrar a culpa em Julian Assange. Aí crêem ter um alvo fácil. Quais são suas motivações? Que inconfessáveis procedimentos emprega? Por que e sob quais condições cinco grandes meios de prestigio internacional concordaram em colaborar com ele e com sua organização? Não são perguntas ilícitas, naturalmente, e foram respondidas satisfatoriamente nos últimos dias pelos diretores dos cinco jornais que levamos adiante este projeto, pese o martelar oficial – ou ainda pior, o martelo sicário que se embosca em certos jornais e televisões – insista uma e outra vez em dizer o contrario.

» 5. Assange e os procedimentos. A pesar de que o vice-diretor de EL PAÍS, Vicente Jiménez, e o subdiretor Jan Martínez Ahrens mantivessem várias reuniões com ele na Suíça, eu só conheço Assange de um encontro presencial em Londres que durou muitas horas e do par de conversas telefônicas que relatei no inicio deste texto. Insuficiente mesmo para pretender esboçar aqui um perfil com imprescindível rigor jornalístico. Mas sim o bastante para testemunhar que o único discutido em todos os encontros foi a conveniência de pactuar um calendário comum de publicação e a exigência de proteger nomes, fontes ou dados que pudessem por em risco a vida de pessoas em países em que a pena de morte segue vigente; ou nos que não rege o Estado de direito como se desfruta no Ocidente.

Não houve pedido de contraprestação econômica alguma de sua parte, nem EL PAÍS aceitaria. Os papéis, em si, oferecem uma fiabilidade inquestionável e ninguém, nem sequer nas filas dos adversários de sua publicação, começando pela Administração dos EUA, duvidou de sua autenticidade.

Tanta obsessão em centrar a atenção em Assange e seus métodos, tanto interesse de escrutar suas motivações, tantas manobras para destruir sua reputação pessoal, contrastam, entretanto, com a colossal falta de respeito, pelo menos, que os diplomatas dos EUA demonstram pelo corpo normativo, normas e procedimentos dos países em que exercem seu oficio, começando pela Espanha, a julgar pelos telegramas publicados.

O mais importante das revelações de Wikileaks é sem sombra de dúvidas as próprias revelações, a pesar que grande parte da cobertura mediática sobre Assange haja preferido futucar supostos pactos inconfessáveis com os jornais que difundimos as informações, o financiamento de sua organização, sua pretensa opacidade, ou umas acusações de agressão sexual cuja debilidade, a despeito do que finalmente determine a justiça sueca si ocorre a extradição, não deixa de resultar inquietante.

E pese o fascinante debate aberto sobre o futuro do jornalismo e as novas tecnologias na era do Wikileaks, tampouco deveria este centrar agora todo o interesse dos jornalistas. Resulta imprescindível sobretudo insistir que nos encontramos diante de noticias de cuja importância só fingem duvidar aqueles interessados em ocultar os danos que causaram às nossas democracias.

Fora o que determinam as leis, depois de quinze dias de revelações ficou meridianamente claro que a Embaixada dos Estados Unidos em Madri pressionou, conspirou e fez o possível e o impossível para conseguir aquilo que, em público, nenhum embaixador se atreveria a sequer sugerir, não digamos exigir.

Todos os casos são graves, e não é o caso de aqui e agora estender-se em cada um deles. Mas a nenhum observador atento escapa o fato de que as manobras para conseguir o arquivamento dos três casos na Audiencia Nacional [órgão judicial], que de uma maneira ou de outra afetavam os Estados Unidos, assim como as gestões para forçar bancos e empresas espanholas a abandonar os negócios que de acordo com a legislação internacional realizavam no Irã, têm em comum uma mesma característica: o desprezo pela legislação espanhola e ainda pela internacional.

Que os juízes espanhóis sejam ferozmente independentes, como recordou à embaixada em mais de uma ocasião o fiscal general [procurador geral] ou algum ministro, ou que nenhum dos bancos ou empresas com negócios no Irã descumprisse alguma norma, nem a espanhola, nem a internacional, não foi óbice para o exercício das pressões mais obscenas sobre as quais publicamos até os últimos detalhes.

» 6. Os danos morais. Desconheço sobre de quem partiu a ordem. Não sei si foi uma ordem recebida de Washington ou o produto do espírito empreendedor do próprio chefe da delegação. Mas a determinação em ambos os assuntos, pelo que conhecemos do relato detalhado dos fatos, foi rotunda: encerrar os casos da Audiencia Nacional de qualquer maneira e impedir os negócios das empresas espanholas com o Irã.

Para isso não houve dúvida quanto ao emprego de qualquer método, sem reparar os custos. E os custos foram altos. À expensas de cometer algum delito tipificado no Código Penal, o que seria conveniente esclarecer devidamente, do imbróglio na Audiencia Nacional ficou na retina dos espanhóis a excessiva promiscuidade de ministros e promotores com a embaixada, a sensação do duplo discurso, da dupla moral, da paisagem demolidora para a saúde democrática deste país.

De forma similar, os diplomatas dos EUA em Berlím advertiram o Executivo alemão das graves conseqüências de prosseguir com o procedimento legal contra os agentes da CIA acusados de sequestrar Khaled El-Masri, cidadão alemão, e levá-lo ao Afeganistão para ser interrogado sob tortura. El-Masri foi posteriormente abandonado na Albânia quando os agentes descobriram que haviam seqüestrado a pessoa errada. O seqüestro e a tortura são delitos graves. Nenhum Governo, tampouco o dos Estados Unidos, deveria contemplar-los com a indulgência que transpiram os documentos secretos. Pressionar um Governo aliado para evitar que os acusados sejam investigados resulta inaceitável e, francamente, encaixa com dificuldade na idéia de que os papéis de Wikileaks mostram tão somente diplomatas estadunidenses fazendo mais ou menos o seu trabalho.

Outro tanto cabe comentar sobre o caso das empresas e bancos espanhóis no Irã. Para encerrar seus magros negócios no país dos aiatolás, e seus minúsculos escritórios de representação, se recorreu, no caso dos bancos, à obtenção de informações do Banco de España, o que seu próprio subdiretor, nomeadamente José Viñals, se encarregou de reunir e fazer chegar à Embaixada. Li com interesse as explicações dos porta-vozes do banco central. Não me tranqüilizaram. E posso imaginar que a mesma sensação que tive, de que a Embaixada estadunidense dispõe de um poder excessivo sobre os principais organismos deste país, é compartilhada por muitos cidadãos conscientes da importância da independência e da dignidade das instituições em uma sociedade democrática.

A diferença entre os objetivos e os meios empregados para alcançar-los é de uma desproporção assustadora. O caso Couso segue aberto, um resultado que em ultima análise honra e salva o sistema judiciário espanhol. Os raquíticos intercâmbios comerciais e financeiros das empresas e bancos espanhóis afetados pouco serviam para apoiar a causa dos aiatolás, certamente inquietante. Mas a troco de conseguir tão esquálido resultado não se duvidou de violar todos os procedimentos. Uma democracia se compõe dos mais diversos elementos, instituições e normas: eleições regulares, juízes independentes e imprensa livre, entre muitos outros. Na base encontram-se os procedimentos. Quando se atropelam estes últimos, se põe em risco todo o demais.

Isto é o que no final das contas mostram os papéis de Wikileaks: um desprezo constante pelos procedimentos, incompatível não só com o funcionamento das instituições de um país senão também, ou, especialmente, com a melhor tradição legal e democrática dos Estados Unidos. De passagem, em seu destroçar, causa mais dano que qualquer reparação possível a imagem de tantos Governos que mostram, à luz do revelado até agora, uma necessidade de acomodar-se e uma triste nudez moral que resulta patética aos olhos dos cidadãos.

É justo aceitar que existe uma distinção fundamental entre o Governo eleito pelos cidadãos de um país, sempre temporário em seu exercício do poder, e o aparato militar, burocrático ou diplomático no qual aquele se sustenta, mas nem sempre controla, ou o faz de forma superficial, de modo que em numerosas ocasiões este funciona à margem e quase sempre com um deficiente grau de responsabilidade. Esta idéia antiga, formulada já faz cem anos por Theodore Roosevelt em sua plataforma progressista de 1912, é o que as revelações contidas nos papéis vazados tristemente certificam.

Não digo que Obama ou Clinton não devam oferecer explicações. Limito-me a constatar que quase tudo o que conhecemos pelos telegramas ocorreu à margem e independentemente de quem ocupava a cúpula do poder em Washington. O que, seguramente, ocorria de forma similar antes da posse da atual Administração democrata e provavelmente continuará acontecendo quando esta tenha abandonado a Casa Branca.

» 7. As obrigações dos jornais. O poder detesta a verdade revelada, escrevia sir Simon Jenkins no The Guardian a respeito de Wikileaks. Eu acrescentaria que sobretudo o poder teme a verdade quando a verdade não coincide com seu discurso. Aquela sexta feira em que recebi a primeira chamada telefônica de Assange soube imediatamente que EL PAÍS tinha entre as mãos uma grande historia e que nosso dever era publicar.

Vieram logo as conversas com o resto dos diários, a avaliação dos prós e contras, o cuidadoso sopesar das conseqüências, os dias e as noites, e de novo os dias de ponderação. Mas houve algo que nunca, nenhum dos que participamos em todo o processo jamais pôs em dúvida: o verdadeiramente responsável, o legal e o importante para as sociedades democráticas às quais nos dirigimos – e com cujo avanço e progresso nos sentimos comprometidos – era dar a historia ao conhecimento. Revelar o oculto constitui a pedra de toque definitiva do jornalismo engajado, e nossa raison d’être última.

Publicar informações confidenciais, reservadas, ou cujas conseqüências políticas, econômicas ou sociais excedem o comum, implica sempre um dilema, sobretudo si se trata de documentos sobre os quais os Governos podem aduzir, com ou sem razão, que ameaçam a segurança nacional ou a vida de determinadas pessoas. Levar ao conhecimento essas informações põe a prova alguns limites morais. Sem dúvida também roça os contornos de determinadas normas legais. Alguma vez pode ser uma irresponsabilidade. E sempre é incômodo.

Os papéis do Departamento de Estado não foram uma exceção. E na verdade não costumam ser tantas: em meus quase cinco anos como diretor deste jornal, a situação não se produziu em mais de uma dezena de ocasiões. Posso entender as objeções oficiais a tornar públicos certos detalhes, operações ainda em marcha, nomes e lugares, devido ao alto risco que sua publicação comporta. Para evitar-lo, os jornalistas de EL PAÍS aplicaram toda sua capacidade profissional, que é grande, assim como proveram do contexto necessário a informação que isoladamente poderia resultar excessivamente prolixa e difícil de compreender em todas as suas conseqüências.

Não concordo, naturalmente, com outras objeções. Sobretudo aquelas que visam manter ocultos os fatos que não põem em risco mais que a carreira política ou a estatura moral de quem emitiu opiniões francas, em demasiadas ocasiões contrárias àquelas que sustenta em público, convencido de que seu jogo duplo não corria algum risco de acabar nas primeiras páginas de cinco jornais com alcance internacional.

Sou consciente de que publicar esta informação a pesar das objeções dos Governos supôs assumir determinados riscos. Mas também sei que de qualquer ponto de vista para nós resultava impensável esconder dos leitores de EL PAÍS, em ambos os lados do Atlântico, o relato detalhado do que nossos Governos, assim como o dos Estados Unidos, fazem em seu nome, convencidos de que, no final, a informação redundará sempre em um cidadão mais comprometido com a democracia.

É tarefa dos Governos, não da imprensa, manter os segredos em quanto possam, e não serei eu quem discuta seu direito, certamente legítimo, de assim fazê-lo sempre que não encubra fatos danosos ou que enganem os cidadãos.

Mas o principal dos deveres de um diário consiste em publicar aquilo que averiguou, e em buscar as noticias lá onde as possa conseguir. Como já disse em um chat com os leitores de EL PAÍS, os jornais têm muitas obrigações em uma sociedade democrática: a responsabilidade, a veracidade, o equilíbrio e o compromisso com os cidadãos. Entre elas não se encontra a de proteger os governos, e o poder em geral, de revelações embaraçosas

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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Contraponto 4223 - "Quem tem medo do Wikileaks?"

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14/12/2010
Quem tem medo do Wikileaks?

Carta Maior - Terça-Feira, 14 de Dezembro de 2010

“Uma organização de comunicação livre, assentada no trabalho voluntário de jornalistas e tecnólogos, como depositária e transmissora daqueles que querem revelar anonimamente os segredos de um mundo podre, enfrenta aqueles que não se envergonham das atrocidades que cometem, mas se alarmam com o fato de que suas maldades sejam conhecidas por aqueles que elegemos e pagamos”, escreve o sociólogo Manuel Castells em artigo para o jornal espanhol La Vanguardia.


Manuel Castells - La Vanguardia

Texto em português publicado originalmente no IHU-Online - Publicado no La Vanguardia em 30/10/2010

Tinha que acontecer. Há tempo os governos estão preocupados com sua perda de controle da informação no mundo da internet. Já estavam incomodados com a liberdade de imprensa. Mas haviam aprendido a conviver com os meios de comunicação tradicionais. Ao contrário, o ciberespaço, povoado de fontes autônomas de informação, é uma ameaça decisiva a essa capacidade de silenciar sobre a qual a dominação sempre se fundou. Se não sabemos o que está acontecendo, mesmo que teimamos, os governantes têm as mãos livres para roubar e anistiar-se mutuamente, como na França ou na Itália, ou para massacrar milhares de civis e dar livre curso à tortura, como fizeram os Estados Unidos no Iraque ou no Afeganistão.

Os ataques contra o Wikileaks não questionam sua veracidade, mas criticam o fato de sua divulgação com o pretexto de que colocam em perigo a segurança das tropas e cidadãos. Por isso o alarma das elites políticas e midiáticas diante da publicação de centenas de milhares de documentos originais incriminatórios para os poderes fáticos nos Estados Unidos e em muitos outros países por parte do Wikileaks. Trata-se de um meio de comunicação pela internet, criado em 2007, publicado pela fundação sem fins lucrativos registrada legalmente na Alemanha, mas que opera a partir da Suécia. Conta com cinco empregados permanentes, cerca de 800 colaboradores ocasionais e centenas de voluntários distribuídos por todo o mundo: jornalistas, informáticos, engenheiros e advogados, muitos advogados para preparar sua defesa contra o que sabiam que lhes aconteceria.

Seu orçamento anual é de cerca de 300 milhões de euros, fruto de doações, cada vez mais confidenciais, mesmo que algumas sejam de fontes como a Associated Press. Foi iniciado por parte de dissidentes chineses com apoios em empresas de internet de Taiwan, mas pouco a pouco recebeu o impulso de ativistas de internet e defensores da comunicação livre unidos em uma mesma causa global: obter e divulgar a informação mais secreta que governos, corporações e, às vezes, meios de comunicação ocultam dos cidadãos. Recebem a maior parte da informação pela internet, mediante o uso de mensagens encriptadas com uma avançadíssima tecnologia de encriptação cujo uso é facilitado àqueles que querem enviar a informação seguindo seus conselhos, ou seja, desde cibercafés ou pontos quentes de Wi-Fi, o mais longe possível de seus lugares habituais. Aconselham não escrever a nenhum endereço que tenha a palavra wiki, mas utilizar outras que disponibilizam regularmente (tal como http://destiny.mooo.com). Apesar do assédio que receberam desde a sua origem, foram denunciando corrupção, abusos, tortura e matanças em todo o mundo, desde o presidente do Quênia até a lavagem de dinheiro na Suíça ou as atrocidades nas guerras dos Estados Unidos.

Receberam numerosos prêmios internacionais de reconhecimento pelo seu trabalho, incluindo os do The Economist e da Anistia Internacional. É precisamente esse crescente prestígio de profissionalismo que preocupa nas alturas. Porque a linha de defesa contra as webs autônomas na internet é negar-lhes credibilidade. Mas os 70.000 documentos publicados em julho sobre a guerra do Afeganistão ou os 400.000 sobre o Iraque divulgados agora, são documentos originais, a maioria procedentes de soldados norte-americanos ou de relatórios militares confidenciais. Em alguns casos, filtrados por soldados e agentes de segurança norte-americanos, três dos quais estão presos. O Wikileaks tem um sistema de verificação que inclui o envio de repórteres seus ao Iraque, onde entrevistam sobreviventes e consultam arquivos.

Essa é a tática midiática mais antiga: para que se esqueçam da mensagem: atacar o mensageiro. De fato, os ataques contra o Wikileaks não questionam sua veracidade, mas criticam o fato de sua divulgação, sob o pretexto de que colocam em perigo a segurança das tropas e de cidadãos. A resposta do Wikileaks: os nomes e outros sinais de identificação são apagados e são divulgados documentos sobre fatos passados, de modo que é improvável que possam colocar em perigo operações atuais. Mesmo assim, Hillary Clinton condenou a publicação sem comentar a ocultação de milhares de mortos civis e as práticas de tortura revelados pelos documentos. Nick Clegg, o vice-primeiro-ministro britânico, ao menos censurou o método, mas pediu uma investigação sobre os fatos.

Mas o mais extraordinário é que alguns meios de comunicação estão colaborando com o ataque que os serviços de inteligência lançaram contra Julian Assange, diretor do Wikileaks. Um comentário editorial da Fox News chega inclusive a cogitar o seu assassinato. E mesmo sem ir tão longe, John Burns, no The New York Times, procura mesclar tudo num nevoeiro sobre o personagem de Assange. É irônico que isso seja feito por este jornalista, bom colega de Judy Miller, a repórter do The Times que informou, consciente de que era mentira, a descoberta de armas de destruição em massa (veja-se o filme A zona verde).

É o Partido Pirata da Suécia que está protegendo o Wikileaks, disponibilizando-lhe o seu servidor central fechado em um refúgio subterrâneo à prova de qualquer interferência. Essa é a tática midiática mais antiga: para que se esqueçam da mensagem, atacar o mensageiro. Nixon fez isso em 1971 com Daniel Ellsberg, que publicou os famosos papéis do Pentágono que expuseram os crimes no Vietnã e mudaram a opinião pública sobre a guerra. Por isso Ellsberg aparece em entrevistas coletivas ao lado de Assange.

Personagem de novela, o australiano Assange passou boa parte de seus 39 anos mudando de lugar desde criança e, usando seus dotes matemáticos, fazendo ativismo hacker para causas políticas e de denúncia. Agora está mais do que nunca na semiclandestinidade, movendo-se de um país para outro, vivendo em aeroportos e evitando países onde se procuram pretextos para prendê-lo. Por isso, foi aberto na Suécia, onde se encontra mais livre, um processo contra ele por violação, que logo foi negado pela juíza (releiam o começo do romance de Stieg Larsson e verão uma estranha coincidência). É o Partido Pirata da Suécia (10% dos votos nas eleições europeias) que está protegendo o Wikileaks, deixando seu servido central trancado em um refúgio subterrâneo à prova de qualquer interferência.

O drama apenas começou. Uma organização de comunicação livre, assentada no trabalho voluntário de jornalistas e tecnólogos, como depositária e transmissora daqueles que querem revelar anonimamente os segredos de um mundo podre, enfrenta aqueles que não se envergonham das atrocidades que cometem, mas se alarmam com o fato de que suas maldades sejam conhecidas por aqueles que elegemos e pagamos. Continuará.

Tradução: Cepat (Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores)
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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Contraponto 4164 - "Um império em guerra contra a verdade e a liberdade de imprensa"

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08/12/2010


Um império em guerra contra a verdade e a liberdade de imprensa


Wikileaks evidencia interesses que
orientam a diplomacia dos EUA

Do Vermelho - 8 de Dezembro de 2010 - 13h04

Autoridades estadunidenses não escondem o alívio e a alegria com a prisão do fundador do Wikileaks, o australiano Julian Assange, ocorrida terça-feira (7) em Londres. “É uma boa notícia”, comemorou o secretário de Defesa dos EUA, Roberts Gates, em visita ao Afeganistão, palco de mais uma guerra insana desencadeada pelo império com o apoio das potências europeias.

Por Umberto Martins
O ódio despertado na maior potência capitalista do planeta pelas verdades inconvenientes reveladas pelo Wikileaks lembra o macartismo dos anos 1950, ao mesmo tempo em que sinaliza o avanço político das forças conservadores e de extrema-direita no país. A ex-governadora do Alasca e candidata a vice-presidente pelo Partido Republicano nas últimas eleições presidenciais, Sarah Palin, comparou Assange a Obama Bin Laden. Colunistas como Jonah Goldberg, da National Review, entre outros, apelam ao assassinato puro e simples do jornalista. “Por que Assange não foi estrangulado no seu quarto de hotel anos atrás?”, indagou em artigo reproduzido recentemente numa rede de jornais.

Leia também


* Julian Assange: Wikileaks merece proteção, não ameaças e ataques

* Assange: Procurado pelo império, morto ou vivo


Hipocrisia

Os documentos secretos divulgados pelo Wikileaks até o momento não contêm grandes novidades nem informações que pudessem comprometer a segurança dos Estados Unidos, como reconheceu o próprio secretário de Defesa em carta encaminhada ao congresso. Isto não significa que sejam irrelevantes, pois sem dúvidas colaboram para evidenciar os reais motivos e interesses que orientam a diplomacia imperial, cada vez mais agressiva e belicosa.

Respaldados por um poderoso aparato mediático, que compreende a cumplicidade da mídia golpista da América Latina, os imperialistas americanos gostam de mascarar sua política reacionária com falsos sermões sobre defesa da democracia, bem como da liberdade de imprensa e expressão. A raivosa ofensiva contra o Wikileaks mostra a hipocrisia dos ideólogos e políticos ianques.

O alvo não é apenas Assange, perseguido de forma implacável a pretexto de práticas sexuais ilegais, acusado por uma “dissidente” cubana de 31 anos e caçado inclusive por supostamente ter mantido relações sem camisinha. Com apoio no imperialismo europeu, colocaram até a Interpol no encalço do fundador do site rebelde. Mas não ficaram nisto. Tentaram inviabilizar por todos os meios o próprio Wikileaks, pressionando o Amazon a retirá-lo do seu servidor e chantageando financiadores, entre outros meios.

Um império de mentiras

Deplorável é a forma com que nossa mídia hegemônica, que Paulo Henrique Amorim prefere chamar de Partido da Imprensa Golpista (PIG), reage ao golpe contra a liberdade de imprensa que os EUA e outras potências capitalistas ocidentais estão perpetrando. O tema não frequenta os editoriais nem desperta indignação no PIB, tão zeloso e radical na defesa da mídia venezuelana, que esteve envolvida até o pescoço no fracassado golpe de abril de 2002 em Caracas, ou do jornal argentino Clarín, cujos proprietários cresceram à sombra de uma ditadura que deixou pelo menos 25 mil mortos e desaparecidos. Não se tem notícia de nenhuma palavra da chamada Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) em defesa da liberdade de imprensa vilipendiada pelos EUA. Prevalece um vergonhoso servilismo.

O bordão (defesa da democracia e da liberdade de imprensa) funciona quando é do interesse do império e da mídia hegemônica. Quando o alvo é Cuba, Venezuela, Argentina ou Irã. No momento em que os segredos e os crimes do Estado imperialista são expostos a ordem é perseguir e calar quem divulga verdades inconvenientes. A diplomacia dos EUA é movida a mentiras (as armas de destruição em massa no Iraque são um exemplo entre outros), tortura (Guantânamo, Abu Ghraib) e assassinatos. É hostil à verdade, incompatível com a liberdade de imprensa e, tal como um vampiro, não resiste à luz do dia.
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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Contraponto 4111 - Amorim diz que percepção de diplomatas dos EUA não lhe interessam

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01/12/2010


Amorim diz que percepção de diplomatas dos EUA não lhe interessam

Do Vermelho - 1 de Dezembro de 2010 - 12h34

Questionado sobre os documentos divulgados pelo site Wikileaks envolvendo a política externa brasileira, o chanceler Celso Amorim reagiu de maneira contundente ontem (30) dizendo que as percepções de diplomatas norte-americanos não lhe interessavam. Em evento do qual participa em Washington, Amorim declarou aos jornalistas não estar “tão emocionado como a maioria de vocês” sobre o conteúdo divulgado, uma vez que "a maior parte do que li eu já conhecia ou é pouco relevante".

"Não vou discutir percepções de agentes
diplomáticos americanos", diz amorim


As declarações de Celso Amorim foram feitas no mesmo dia em que a revista Foreign Policy, uma das realizadoras do evento, o reconheceu como um dos 100 pensadores globais de 2010.

Ao continuar tratando dos documentos divulgados pelo Wikileaks, o chanceler enfatizou: “Não vou discutir percepções de agentes diplomáticos americanos. Sinceramente, o tom que um agente diplomático americano utiliza para fazer suas avaliações é algo que não me interessa".

Ao ser perguntado sobre a preocupação dos Estados Unidos com a negativa de Brasília de qualificar certos grupos como terroristas, ou sua "sensibilidade" diante de insinuações de que estes grupos poderiam manter atividades no Brasil, disparou: "Você acredita em tudo o que dizem nos telegramas?".

Segundo ele, “o Brasil combate o terrorismo, mas tem uma visão diferente: não tendemos a associar todo crime ao terrorismo". "O fato é que o Brasil não é palco de atos terroristas".

Sobre o fato de alguns desses documentos apontarem que diversos países do Oriente Médio, em particular a Arábia Saudita, estavam temerosos quanto ao programa nuclear iraniano e pediam que os Estados Unidos interviessem, Amorim colocou: "Me preocupa que o Irã, os Estados Unidos ou qualquer outro país que tenha um programa nuclear o use (para fins bélicos)".

Amorim defendeu o pacto nuclear assinado entre Brasil, Turquia e Irã, em 17 de maio, dizendo que "entrará para a história como a inauguração de um mundo multipolar". De acordo com o chanceler, o Irã concordou em negociar com Brasil e Turquia um acordo de troca de urânio enriquecido por combustível nuclear porque via os dois países como bons garantidores. Outros países, segundo Amorim, não tinham esse grau de credibilidade, do ponto de vista de Teerã.

Com relação aos apontamentos dos norte-americanos de que o presidente Hugo Chavez contribuiria para “desestabilizar” o continente, o chanceler rebateu: "O Brasil não tem nada esconder. O presidente Chavez é nosso amigo e temos uma relação intensa de cooperação. Queremos fortalecer a América do Sul", afirmou o chanceler.

Celso Amorim está em Washington para participar do evento "The New Geopolitics: Emerging Powers and the Challenges of a Multipolar World (A Nova Geopolítica: Potências Emergentes e os Desafios de um Mundo Multipolarizado)", promovido pela Carnegie Endowment for International Peace e pela revista Foreign Policy.

Da redação, com agências
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Contraponto 4106 - "Wikileaks: até agora o vexame é estadunidense"


01/12/2010

Wikileaks: até agora o vexame é estadunidense

Amigos do Presidente - Zé Augusto - quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Os relatórios confidenciais do governo estadunidense vazados na internet pelo Wikileaks até agora não trouxe nenhuma grande novidade sobre o Brasil. Ainda há muito a vazar.

São relatórios de análise, feitos por embaixadores e outros diplomatas sobre o Brasil, que trazem impressões, comentários e fofocas às vezes constrangedoras, mas até agora, praticamente nada que já não tivesse saído nos jornais, salvo algum factóide sem maior importância.

Nada do que foi vazado até agora se aproxima sequer, daquela declaração grosseira do ex-secretário de Comércio dos EUA, Robert Zoellick, quando disse publicamente, sem qualquer confidencialidade, que "se o Brasil não aceitasse a ALCA teria que vender seus produtos na Antártida".

Das críticas da embaixada dos EUA, é evidente que o Brasil não faria uma lei de excessão anti-terror nos moldes da "guerra ao terror" de Bush, e esse debate chegou ao público na época. Também é evidente que as relações de paz do Brasil com árabes e persas é muito diferente daquela de guerra que os EUA mantém, e o Brasil não iria tratar arábes e descendentes que vivem no Brasil com presunção de culpa.

Também é evidente que o Brasil colabora com a captura de quaisquer criminosos, de qualquer país, pois integra a Interpol.

Também é clara a diferença de relações entre o Brasil e os EUA, com vizinhos como Venezuela e Bolívia.

Enfim, esperar o quê de relatórios confidenciais escritos pela embaixada dos EUA? É sabido que os EUA se guiam por seus interesses, e os relatórios já divulgados não contém surpresa nenhuma.

Saia justa ficou o ministro da Defesa, Nelson Jobim, ao receber alguns elogios indesejáveis, e ainda ser retratado como um tanto quanto "linguarudo". Mas, ao contrário do que muitos viram e independente dos defeitos de Jobim, não vi, até o momento, na leitura do relatório nada que comprometa naquilo que importa: os relatos dão conta de que ele desencorajou o lobby dos EUA na compra de caças, que seguiu a orientação do governo brasileiro ao manifestar contrariedade com a política militar dos EUA na Colômbia, e refutou a pretensão dos EUA de isolar Hugo Chavez.

Quem lê o relatório, vê Jobim como ele é. Aliás, é justamente por isso que o presidente Lula o colocou no ministério, e que Dilma o está mantendo. Não é por suas semelhanças com o presidente e com a presidenta eleita. É por suas diferenças. É parte da cota de conservadorismo necessária à governabilidade, e a evitar crises. O presidente Lula é um hábil negociador e conciliador, e essa história dos EUA verem Jobim "como uma contraposição ao Itamaraty", parece bastante conveniente e interessante para o governo Lula.

No final das contas, vexame fez os EUA. Imaginem se um país latino-americano deixasse vazar a comunicação entre a diplomacia com conversas confidenciais, expondo diplomatas e autoridades de outros países?
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