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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Contraponto 5683 - “América do Sul deve construir uma aliança estratégica”

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04/07/2011

“América do Sul deve construir uma aliança estratégica”



Da Carta Maior - 03/07/2011


Em entrevista ao jornal Página/12, o presidente da Bolívia, Evo Morales, fala sobre sua experiência como presidente, sobre os programas sociais que está implantando para beneficiar a população mais pobre e defende uma aliança estratégica entre os países da América do Sul. “Devemos fazer uma aliança estratégica com toda a América do Sul para a tecnologia. Porque a América do Sul já é a mãe de todos os recursos estratégicos do mundo. Temos a Amazônia, água doce...É uma esperança para o mundo. É preciso desenvolver uma nova tese. A tese da vida, da humanidade”.

O jogo da noite entre Argentina e Bolívia e o gasoduto para trazer gás ao norte argentino eram os grandes temas da visita de Evo Morales a Argentina até que surgiu o protesto da comunidade judaica pela viagem do ministro de Defesa iraniano a La Paz. São 11 horas da manhã e Evo acaba de se despedir dos dirigentes da DAIA (Delegação de Associações Israelitas Argentinas). Saíram sorridentes. Talvez contagiados pela tranquilidade que emana hoje desse presidente aymara e ex-dirigente sindical que, no último dia 22 de janeiro, completou cinco anos no Palácio Queimado.

- Nunca sonhei em seu presidente – diz Evo. Nunca pensei que iria ser presidente.

- Nunca?

- Até 2002, jamais. Jamais. Eu, de tão baixo. Quando meus companheiros me propuseram ser candidato à presidência, em 1997, pensei que estavam gozando com minha cara.

- Mas o elegeram deputado.

- Sim. Fui candidato a presidente em 2002, e a candidatura surpreendeu a mim mesmo. Eu candidato? Foi uma satisfação. E depois, em 2005, ganhamos, mas temos muito que seguir aprendendo no novo sentido da política boliviana: antes o povo era escravo do governo. Agora o governo é escravo do povo. Está a serviço do povo.

- Os bolivianos votaram várias vezes em eleições presidenciais e para a reforma da Constituição. Como faz um presidente para avaliar o sentimento popular a cada dia?

- As reuniões com os movimentos sociais permitem saber como servir ao povo. Os resultados de gestão não só satisfazem como causam orgulho quando o povo se sente atendido em suas demandas. Nem sempre é suficiente, claro, por que os recursos são limitados. Mas sempre escutamos.

- Os dirigentes da DAIA que tiveram a entrevista com você comentaram isso: que os escutou, que admitiu ter cometido um erro e que eles acreditaram.

- Houve problemas e nós os reconhecemos. Melhor aprender errando. Melhor não ocultar as coisas. Assim a vida é melhor. Essa é minha experiência na família, no sindicalismo e no governo.

- Admitir um erro não pode ser tomado como sintoma de debilidade?

- Para mim não. Alguém sempre pergunta por que eu reconheço isso. Quem não comete erros? Lamentamos coisas que não estavam em nossos planos e expressamos nosso reconhecimento.

- Qual é o interesse nacional boliviano com o gasoduto que começou a ser negociado com a Argentina em 2006 e do conversou com a presidenta (Cristina Fernandez Kirchner)?

- A Bolívia, lamentavelmente em boa parte, viveu de seus recursos naturais. Em um primeiro momento a borracha, depois o estanho e, mais tarde, o gás. As relações que iniciamos com o presidente Néstor Kirchner tiveram continuidade com os acordos com a companheira Cristina e com a construção do gasoduto Juana Azurduy, tão importante para os dois povos, um que será abastecido de gás e o outro que se beneficiará disso. Ao mesmo tempo, estamos melhorando a economia da Bolívia e prestando um serviço ao povo argentino. Falei muito sobre isso com a companheira Cristina. Ela conhece o tema. Não parece advogada, mas sim uma petroleira. Garantir energia frente à crise do mundo, no marco da complementariedade, é importante. Nós necessitamos do povo argentino e de seu governo e se eles precisam de nós, aqui estamos. Eu nunca esqueço que, quando nos faltou trigo e farinha para o pão, a Argentina nos socorreu. Não sei como fez, mas o trigo ajudou a nossa felicidade.

- A nova Constituição estabelece um Estado plurinacional. Como está funcionando a construção?

- Nossa história mostra tantos irmãos assassinados, enforcados, esquartejados, discriminados, marginalizados...Houve rebeliões com resultados nefastos, mas nessas rebeliões nossos antepassados defenderam a identidade e os recursos naturais. Agora estamos em uma revolução. Não com balas; Com o voto. O Estado plurinacional se constrói também via um processo de descolonização. Três etapas: Rebelião, revolução, descolonização. Esta etapa não é fácil. Podemos mudar normas e procedimentos pelas quais um funcionário público se converterá em um servidor público. Mas é mais difícil mudar a mentalidade.

- A do funcionário?

- Sim. Por sorte, na Bolívia o povo começa a pensar diferente sobre a política. No passado, o político era visto como delinquente, como um meliante, um ladrão, um farsante. Estamos mudando isso. Agora, ser político é prestar serviço ao povo por tempo determinado.

O que significa por tempo determinado?

- Que depende dos tempos da democracia, dos mandatos, do voto. Antes ser político era dizer: “Isso é meu. Aproveitarei”. Terminamos com isso na Bolívia. O povo era escravo do governo. Em meu gabinete há intelectuais e profissionais que poderiam estar ganhando melhor em outro trabalho. Mas se somam a esse trabalho para prestar um serviço por tempo determinado. E descolonizar também é a busca da soberania com igualdade de todos os bolivianos. Não pode haver uns vivendo no luxo e outros que morrem de fome. Não podem existir essas diferenças de família para família e tampouco de país para país, ou de continente para continente. Esse milênio não deve ser o das oligarquias, hierarquias e monarquias. Olhemos as reações que temos nestes dias em outros continentes. Na Europa, por exemplo. Antes eles olhavam para a América Latina. E o que viam? Os golpes militares, as ditaduras, crises, convulsões, mortos. A Bolívia, antes de eu chegar à presidência, teve cinco presidentes em cinco anos.

- Nós ganhamos: cinco em uma semana.

- Sim. E eu não posso acreditar: entrei no sexto ano da presidência. Isso quer dizer que estamos mudando.

- Bom, e pelo Honoris Causa da Universidade de Córdoba já é o doutor Evo Morales.

-E sou doutor, sim. Mas o que vale é o que estamos mudando no plano estrutural, no econômico e financeiro. Estamos nos libertando financeiramente. O próximo passo é tecnológico e científico. Devemos fazer uma aliança estratégica com toda a América do Sul para a tecnologia. Porque a América do Sul já é a mãe de todos os recursos estratégicos do mundo. Temos a Amazônia, água doce...É uma esperança para o mundo. É preciso desenvolver uma nova tese. A tese da vida, da humanidade. Falamos muito sobre isso com o companheiro Néstor Kirchner.

- Vocês se conheceram antes da presidência.

- Sim. Néstor foi muito prático em suas recomendações e sugestões. Para mim segue sendo um pai político. Quando comecei como presidente, lá estava Néstor, lá estava Lula, lá estava Chávez para suas sugestões e recomendações.

- Qual foi a recomendação mais importante?

- O serviço ao povo. E lembro a ajuda que me deu em Tarija. Ele me disse: “Se perceber que as empresas não querem investir, pega o telefone e me liga que a Argentina vai investir”. Talvez possa ser entendida como uma mensagem simbólica. Mas foi muito importante. Nós, presidentes, devemos nos ajudar também em temas de investimento.

- Qual é, no plano mundial, a novidade boliviana em termos de identidade e desenvolvimento dos povos originários?

- Programas, por exemplo. Para os setores mais pobres das comunidades indígenas o governo está garantindo 70% do investimento para empreendimentos produtivos. Os beneficiados contribuem com os outros 30%. O Banco Mundial está exportando este programa para a África. Outro programa: a criança que termina o ano escolar recebe um pequeno bônus de 200 bolivianos ao ano. O segredo deste bônus é evitar que haja novos analfabetos. Estamos conseguindo diminuir a evasão escolar, especialmente nas áreas rurais do altiplano e nos bairros periféricos das cidades. Baixamos a evasão de 6 para 2% e temos que impedir que surjam novos analfabetos. Outro programa ainda: os mais pobres, os abandonados, os que trabalharam durante toda a vida, recebem cerca de 200 bolivianos por mês. Não é muito, mas é alguma coisa. Nas áreas rurais, o idoso que recebe sua renda resolve seu problema de água e de luz. E estamos entregando terra, ainda que alguns sejam muito ambiciosos.

- O que querem?

- Em lugar de 50 hectares, querem 150. Não é possível. Alguns dizem: “Aproveito a presidência do companheiro Evo, do irmão Evo, porque depois não haverá essa chance”.

- Como é o estado atual da unidade da Bolívia, sobretudo em relação a Santa Cruz de la Sierra? Os enfrentamentos de 2008 são coisa do passado?

- Antes se falava da meia lua. Isso acabou. Agora é a lua inteira. Nosso movimento se baseia na política do bem viver, não do viver melhor. Seu você quer viver melhor, tem que roubar, saquear os recursos, explorar. Isso nós podemos garantir porque meu partido, o dos mais pobres, dos camponeses indígenas originários, tem dois terços da Câmara de Deputados e dois terços da Câmara de Senadores. Isso nunca aconteceu na história da Bolívia. Há um sentimento popular que simpatiza com as mudanças profundas. E isso apesar das corridas aos bancos, que fracassaram. Ou do boicote para que falte açúcar ou azeite e para que joguem a culpa em cima de mim. Mas estamos sempre preparados para aprender errando, errando.

- Mauricio Macri disse que um dos problemas da Argentina, e repetiu isso, é o que chamou de “imigração descontrolada”. Como reagiu ao ouvi-lo?

- Respeitamos as opiniões de todos. Cada um tem direito a expressar o que pensa e o que sente. Mas somos todos latino-americanos. Todos somos sulamericanos. Temos a obrigação de compartilhar. Mas não só na Bolívia, também na Europa, na Espanha e em outros países o boliviano é visto como honesto e trabalhador. Veio aqui buscar melhores condições de vida. Mas também contribui para o desenvolvimento da Argentina. Assim ocorre sempre com as migrações. As externas e as internas. Na Bolívia vemos o que ocorre com os que chegam a Cochabamba, ou com os que vão de Potosi ou Oruro para Santa Cruz. Por isso, em Santa Cruz se encontra gente de origens tão diferentes. Vão trabalhar. Assim ajudam o desenvolvimento. Na América Latina ocorre o mesmo. Nos complementamos para viver juntos.

Tradução: Katarina Peixoto

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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Contraponto 5649 - "A Redução da pobreza extrema na Bolívia"

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Esta é para os "Chjicago Kids" aqui do portal:

Bolívia consegue reduzir número de pessoas na pobreza extrema, diz FMI

30/6/2011 4:35,

Renata Giraldi
Repórter da Agência Brasil

Brasília – Mais de 1 milhão de bolivianos deixaram a faixa de pobreza extrema no período de 2007 a 2009, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). A informação foi divulgada ontem (29) pelo chefe da missão do FMI em La Paz, Gabriel Lopetegui. Segundo ele, 37% da população na Bolívia viviam com menos de US$ 1 dólar por dia até 2007 e, em 2009, esses números caíram para 26%.

De acordo com o chefe do FMI, os esforços devem ser mantidos. "O desafio é continuar nesse caminho e essa é a tendência para consolidar ainda mais o combate à pobreza no país", disse ele. "A implementação de políticas sociais é fundamental para atender às necessidades básicas, a saúde e a educação", acrescentou. Ele alertou, porém, que apesar dos progressos, 26 de cada 100 bolivianos ainda sobrevivem com menos de US$ 1 dólar por dia.

Lopetegui disse ainda que 11% da população da Bolívia, cerca 1,1 milhão dos 10 milhões de habitantes, saíram da linha de extrema pobreza de 2007 a 2009. Segundo ele, uma das razões dessa mudança foi a adoção de um programa de transferência de renda que beneficia os bolivianos com mais de 60 anos – cerca de 800 mil adultos.

O chefe do FMI na Bolívia disse ainda que houve melhora também nos números referentes às crianças e aos adolescentes em idade escolar. Um dos principais problemas no país era a elevada taxa de abandono. Segundo ele, a ajuda financeira para as famílias que têm estudantes conseguiu reverter a tendência.

Porém, as taxas de analfabetismo no país, conforme dados de 2006, mostram que 27 dos 100 bolivianos e um em cada dois alunos do ensino médio devem ser apontados como analfabetos funcionais, pois não compreendem o que leem. Em 1996, houve registros de que vários alunos repetiram até 13 vezes as primeiras séries primárias.

De acordo com dados do FMI e das agências multilaterais de financiamento, o número de pessoas no mundo que vivem com menos de US$ 1 dólar por dia deve chegar a 880 milhões em 2015. As informações são da agência estatal de notícias da Bolívia, a ABI.

Edição: Graça Adjuto

http://correiodobrasil.com.br/bolivia-consegue-reduzir-numero-de-pessoas...

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PITACO DO ContrapontoPIG.

Quem, afinal, está na contramão da história: Grécia ou Bolívia? UE ou AL ?

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domingo, 30 de maio de 2010

Contraponto 2361- Serra, Dilma e a Bolívia

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30/05/2010
Tratamentos diferentes

Serra culpou o governo da Bolívia pelo consumo de drogas no Brasil



Dilma usa outros métodos para encarar o problema...




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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Contraponto 917 - "Bolívia rumo ao século XXI"

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08/12/2009
Bolívia rumo ao século XXI


Carta Maior - 08/12/2009

A vitória de Evo Morales na eleição passada, com maioria no Parlamento Nacional, pode significar a definitiva arrancada do país para fora do aprisco de sua pesada herança colonial de 500 anos, rumo ao século XXI.

Flávio Aguiar*

A vitória de Evo Morales na eleição passada, com maioria no Parlamento Nacional, pode significar a definitiva arrancada do país para fora do aprisco de sua pesada herança colonial de 500 anos, rumo ao século XXI. Agora terá o presidente boliviano, com o movimento que o apóia, a oportunidade de construir, no país andino, a arrojada experiência cultural, social, política e, não menos importante, de um estado plurinacional.

O conceito de “estado plurinacional” não é novo; e com uma certa largueza de vistas, ele pode ser aplicado a realidades tão distintas como as do Reino Unido e Índia, passando pelo Canadá, Bélgica, Espanha, Suíça, muitos países do antigo Leste europeu e da África, Timor Leste, além de outros casos. O Paraguai está na fronteira dessa realidade; é, em todo caso, assim como o Peru, um estado plurilingüístico (bilíngüe na versão oficial).

É claro que agora, como se trata da Bolívia, a agenda conservadora do nosso país vai levantar a clava forte da “ameaça de regressão histórica” a poucos metros da nossa fronteira. Muitos dos agentes desse mesmo pensamento não hesitaram em apoiar as sublevações reacionárias das elites de Santa Cruz de la Sierra e de outras províncias contra o governo de Morales, mesmo que isso representasse o risco de uma guerra civil a esses poucos metros da nossa fronteira. Assim como não hesitaram em apoiar, veladamente ou não, o golpe de estado em Honduras, porque isso, enfim, era “contra Hugo Chavez” e logo depois “contra o Lula”.

A construção de um estado plurinacional é a única maneira de manter a unidade administrativa da Bolívia, e aberta a participação dos movimentos populares que se impuseram nos últimos anos e abriram caminho para o governo de Morales. Sem esse reconhecimento, que restaura no plano do Direito e da Cultura Política, comunidades inteiras que foram simplesmente tornadas “invisíveis” ao longo da dominação secular a que foram submetidas, é impossível pensar em reconciliação nacional, integração, e desenvolvimento de fato para os bolivianos.

É claro que esse estado não é nenhuma fórmula mágica aplicável a toda e qualquer situação. A nossa Constituição de 1988 reconheceu a realidade multicultural e multilinguística do país, ao mesmo tempo em que reconhecia/impunha a “unidade nacional”. Talvez, pelas condições presentes, essa seja a nossa conquista e o nosso limite. Mas isso também não é nenhuma fórmula a ser carimbada pelo continente a fora.

Se a Bolívia conseguir consolidar uma política de integração e convívio culturais, no plano das instituições sociais e políticas do país, terá dado um passo enorme no sentido de deixar de ser simplesmente o país estatisticamente mais pobre da América do Sul, para se transformar na sede de uma arrojada experiência histórica.

E lembremos que esse país, agora passível de acusação por estar, supostamente, em “regressão histórica”, tem o certificado da Unesco de eliminação do analfabetismo, coisa que o nosso não tem.

*Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior.
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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Contraponto 721 - "Saúde para dar, não para vender"


16/11/2009
Saúde para dar, não para vender

Patria latina - 16/09/2009
Mesmo diante do pesado embargo econômico e da oposição boliviana, Cuba dá exemplo de solidariedade com cooperação médica no país governado por Evo Morales

Vinicius Mansur
correspondente em La Paz (Bolívia)
Brasil de Fato
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Mais de 30 milhões de atendimentos médicos. Mais de 25 mil vidas salvas. Mais de 15 mil partos realizados. Mais de 3 milhões de exames de laboratório. Mais de 45 mil operações cirúrgicas, sem contar as quase 450 mil operações oftalmológicas, feitas através da chamada Operação Milagre. Esse é o saldo, até setembro deste ano, da atuação da Brigada Médica Cubana na Bolívia.

Os números, divulgados pela Embaixada de Cuba em terras bolivianas, são resultado do trabalho médico começado em fevereiro de 2006, mas frutos da boa relação política mantida pelo presidente da Bolívia, Evo Morales, e Fidel Castro, comandante da Revolução Cubana e ex-presidente da ilha caribenha.

Em dezembro de 2005, antes mesmo de Morales tomar posse, os presidentes dos dois países selaram um amplo acordo de cooperação. Diante de uma inundação provocada por fortes chuvas nos primeiros meses de 2006, a cooperação médica teve seu início antecipado, com os primeiros profissionais cubanos chegando à Bolívia em fevereiro.

Infraestrutura avançada

De lá para cá, essa brigada cresceu, chegando hoje a mais de 1,6 mil profissionais da saúde, sendo aproximadamente 1,1 mil médicos. De acordo com o embaixador cubano na Bolívia, Rafael Dausá, 43 hospitais de segundo nível já existentes – aqueles considerados de médio porte pelos órgãos de saúde bolivianos, localizados, sobretudo, em zonas rurais – foram completamente equipados por Cuba e contam, por exemplo, com salas de cirurgia e de terapia intensiva completas, equipamentos de raios-x móveis e fixos, serviços de endoscopia e ultra-som. Toda essa infraestrutura e recursos humanos são bancados por Cuba, em uma prova de solidariedade que surpreende os próprios bolivianos.

A dona de casa Sandra González, de 39 anos, por exemplo, se diz encantada com o atendimento recebido: “Eu até agradeço o seu jornal por ser nosso porta-voz e nos permitir agradecer a esses anjos que caíram do céu. Eles nos tratam com tanto carinho que parecem ser mais bolivianos do que nós”.

González conta que conheceu os médicos cubanos em 2007, quando buscava uma alternativa para operar a vesícula, procedimento que, na medicina privada, lhe custaria 1,3 mil pesos bolivianos (cerca de R$ 350), fora remédios e consultas pós-operatórias. Chegando ao Hospital Geral Chacaltaya, na cidade de El Alto, a dona de casa descobriu que não precisava operar, e foi curada por um tratamento que durou um ano e que não lhe custou um centavo.

“Quando cheguei aqui, desconfiei da qualidade, porque quando é de graça, a gente desconfia. Mas eu não paguei uma consulta, nem os remédios e hoje estou bem melhor. Já trouxe minha filha e minha cunhada para serem atendidas aqui e já comecei outro tratamento porque quero ser mãe outra vez”, revelou.

Barreiras da oposição

De acordo com o coordenador departamental (estadual) da Brigada Médica Cubana de La Paz, Eudisel Spinoza, sua equipe encontrou muitas dificuldades para atuar na Bolívia, como a barreira linguística nos locais que falavam aimara, quéchua e outras línguas originárias, e as barreiras geográficas e climáticas.

“Em um Estado plurinacional, as dificuldades também são plurinacionais. Em nosso país é verão quase todo o ano, aqui as temperaturas chegam a 40 graus nas terras baixas e no altiplano estão abaixo de zero”, afirma. Porém, o coordenador destaca que o caso de Sandra González é emblemático para exemplificar a barreira mais cruel que encontraram: a cultura da medicina privada.

Segundo Spinoza, o atendimento médico e a distribuição de remédios de forma gratuita chocava, e ainda choca parte da população, “acostumada a não ver com bons olhos o que lhes chega de graça e desacostumada a ver a saúde como um direito”. As dificuldades encontradas pelos médicos cubanos foram agravadas porque essa cultura predominante foi utilizada pela oposição à Evo Morales e por setores conservadores da Bolívia.

Recorrendo a lógica do “o que é bom não chega de graça”, os opositores ao governo criticaram a presença dos médicos cubanos, afirmando que, na verdade, isso significava a infiltração de “enviados de Fidel Castro” para “tornar a Bolívia comunista”.

A fundadora do Movimento de Solidariedade com Cuba na Bolívia, Tereza Quiroga, recorda que esse discurso foi incorporado pela classe médica boliviana e reformulado na forma de corporativismo pelo Colégio Médico do país, que assumiu, então, o posto de principal opositor à atuação cubana.

“Eles foram à televisão e às rádios diariamente para denunciar que os cubanos não eram médicos, mas estudantes, que vieram fazer política e que tiravam trabalho dos bolivianos. Diziam que o Evo deveria pagar aos bolivianos desempregados, mas na verdade o dinheiro é todo de Cuba”, recorda.

A violência conservadora foi forte a ponto de artefatos explosivos serem detonados perto dos locais de trabalho e moradia dos médicos cubanos, além de ocorrerem agressões físicas registradas no departamento de Santa Cruz, por parte da União Juvenil Crucenhista, entidade aliada à oposição regional que costuma realizar ações violentas contra o governo Evo.

A resposta

Quiroga, que também é médica, liderou um movimento em defesa dos cubanos e, por isso, esteve à beira de ser expulsa de sua entidade representativa. “Durante uma semana buscamos quem já havia sido operado da vista, e já eram centenas, nos locais onde era feito o controle pós-operatório. Dizíamos que médicos bolivianos egoístas queriam expulsar os cubanos porque tiveram seus bolsos afetados e que não podíamos ficar calados. Assim, organizamos uma marcha com mais de 500 pessoas, que passou pelo Colégio Médico e pelo Ministério da Saúde”, lembra. Segundo ela, com a polarização do conflito, a população começou a comparar os serviços médicos, fazendo com que o Colégio Médico, claramente pior avaliado, desistisse de fomentar a polêmica.

O embaixador cubano Rafael Dausá também destacou o trabalho cubano como fator fundamental para neutralizar as críticas: “Nos vinculamos aos programas de saúde mais importantes do país, como o programa de Atendimento às Gestantes, o programa Desnutrição Zero, o combate à dengue e ao vírus AH1N1. E os bolivianos entenderam que nosso interesse era levar saúde àqueles esquecidos durante séculos, não ingerir nos assuntos internos da Bolívia”.

Spinoza, coordenador da brigada em La Paz, também ressalta a importância da ação médica cubana, que vai diretamente à casa dos bolivianos: “É um tipo de ação preventiva, que é a nossa prioridade, porque se gasta mais e se expõe mais a vida do paciente quando se espera que ele adoeça. Essa ação foi difícil, porque a cultura aqui, às vezes, não permite que um estranho entre em sua casa, mas, dividindo os problemas com a população, ganhamos terreno e pouco a pouco eles entenderam que têm o direito de ser atendidos”.
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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Contraponto 474 - A elite racista da Bolívia


14/10/2009
Sapatos ou sandálias

Blog do Emir. Por Emir Sader 13/09/2009

“Melhor um mafioso de sapato que um ignorante de sandália.” O comentário preconceituoso foi feito por uma mulher branca, no vôo de Santa Cruz de la Sierra a Cochabamba. Dá uma idéia do sentimento dessa minoria branca, que sempre governou a Bolívia, durante séculos, ao sentir que o país lhes tinha sido expropriado pelas mãos da grande maioria de povos indígenas – 64% da população se reconhecem como de origem indígena – aymaras, quéchuas, guaranis ou de outras nacionalidades -, mas nunca tinham governo o país.

Na época da campanha eleitoral havia uma charge em um jornal boliviano, em que quatro mulheres brancas jogavam baralho, quando uma delas pergunta:

- Mas um índio pode ser presidente?

Ao que respondeu uma outra:

- Sim, da Índia.

A forma usual de se dirigir a Evo Morales, presidente da república, é chamá-lo de “esse índio de merda”. No ano passado, na praça central de Cochabamba, estudantes brancos submeteram índios e índios a vexames públicos, violentamente. O racismo da direita, da imprensa e dos governos da região oriental é extremado.

Esse sentimento se aguçou quando as pesquisas eleitorais confirmam o que as eleições do ano passado já haviam revelado: o governo de Evo Morales goza de ampla maioria no país e desta vez deve conseguir não apenas a reeleição e repetir a maioria na Câmara de Deputados, mas conquistar a maioria do Senado, talvez até com 2/3 dos parlamentares. A oposição, derrotada politicamente, concorre com vários candidatos, sempre muito atrás – mesmo somados – da votação prevista para Evo.

Um deles, candidato também nas eleições passadas, Samuel Doria, é quem detêm a marca da Burger King na Bolívia. Seu lema, pintado nas paredes daqui de Cochabamba: “Fazer Bolívia voltar a trabalhar”. Expressa outro preconceito: o de que a região ocidental do país, em que está La Paz e os estados de maioria esmagadora de indígenas, vivem do Estado, de políticas sociais, de subsídios, etc., enquanto o dinamismo e o trabalho ficariam por conta da região majoritariamente branca – a região oriental.

Depois de tentativas de deslegitimação do governo, promovendo projetos autonômicos nas províncias, de forma violenta, a direita se viu derrotada na consulta sobre confirmação de mandatos em agosto do ano passado. Diante dos resultados, promoveu atos violentos de ocupação de prédios do governo federal, agressão a fucnionarios públicos, até que um dos governadores da região oriental, do estado de Pando -, reprimiu uma mobilização de camponeses, matando a vários deles. Isso por si só já gerou seu isolamento, mas o governo passou a atuar, com a prisão do governador e uma grande mobilização de 100 mil pessoas dirigidas por Evo Morales em La Paz. A oposição passou à defensiva, derrotada politicamente. Um dos reflexos dessa derrota é não ter conseguido se unificar e lançar vários candidatos.

A vitória de Evo Morales, com maioria – com a possibilidade de chegar a 2/3 no Senado – permitirá que todo o processo, recém iniciado, de refundação do Estado boliviano, com todo o novo embasamento legal que isso requer, poderá ser feito conforme as orientações do governo. A direita ainda não está derrotada economicamente, dispõe de grande poder econômico – ainda que enfraquecido – e do poder midiático, graças ao monopólio que exerce, tal como acontece nos outros países do continente.

Mas, a três anos e meio da sua primeira eleição, o governo boliviano caminha, seguro, para a sua consolidação. Elabora neste momento uma lei de gestão pública do novo Estado multinacional e autonômico, avançando no projeto de refundação do Estado boliviano. O ex-presidente Sanchez de Losada, refugiado nos EUA, com pedido de extradição pelo governo boliviano para responder na Justiça pelas dezenas de mortes de responsabilidade do seu governo, quando tentava evitar sua queda, representa bem o “mafioso com sapato”. Evo, de sandálias, a saberia indígena, camponesa, popular, que para os preconceitos racistas aparece como “ignorância”.
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