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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Contraponto 6348 - "Dilma presidenta"

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.26/09/2011
Dilma presidenta
Da Carta Maior - 26/09/2011

Muito mais significativo diante do profundo conservadorismo brasileiro do que ser governado por uma mulher é ter uma presidente que conheceu, por dentro e na pele, a violência e o arbítrio da ditadura militar. A característica mais marcante da presidente é sua longa trajetória como militante radical de esquerda.

Maria Rita Kehl*

(*) Artigo publicado no Blog de Maria Rita Kehl

Que diferença representa para o Brasil a eleição, pela primeira vez na nossa história, de uma presidente mulher? No plano simbólico, é evidente que a escolha de Dilma Roussef revela a ausência, ou pelo menos a irrelevância dos preconceitos sexistas na determinação do voto de grande parte dos brasileiros. Também não houve, em público, manifestações machistas em reação aos primeiros problemas enfrentados pela presidente. Passados quase oito meses desde a posse, os recentes escândalos em alguns ministérios, os primeiros sinais de inflação e o risco de desaceleração econômica provocaram uma queda de oito pontos na aprovação da presidente, que ainda assim continua mais alta do que a de todos os seus antecessores em início de governo, desde a volta das eleições diretas.

Grosso modo, a escolha de Dilma parece ter sido mais pautada por razões políticas e interesses de classe do que pelo imaginário de gênero. Se assim foi, o mérito é todo dela. Durante os oito anos de seus dois governos, o presidente Lula perdeu grandes oportunidades de politizar os eleitores ao definir a relação necessariamente conflituosa entre a sociedade e seus governantes a partir de metáforas ligadas à vida familiar. Fiel ao seu estilo de homem cordial, na acepção de Ribeiro Couto/ Sérgio Buarque de Hollanda, Lula desde o início se apresentou como pai dos brasileiros. Antes da campanha de 2010, já apresentava sua futura candidata como a “mãe do PAC”. Dilma comprou o rótulo por conveniência, mas teve o mérito de não encarnar o estereótipo maternal que faria par com o estilo carismático e paternalista de Lula.

Quanto à identificação de Dilma com as causas feministas, vale lembrar que a presidente, em toda sua longa trajetória política – se contarmos desde os anos de militância no grupo Var-Palmares, na década de 1970 – nunca foi uma típica militante feminista. Como outras raras mulheres independentes de sua geração, as opções políticas da jovem Dilma Roussef pautaram-se antes por causas universais – liberdade, igualdade, socialismo – do que pelas lutas de gênero que, no Brasil, só se tornaram mais expressivas depois da derrota da luta armada. Quando as pioneiras das causas feministas começavam a levantar suas bandeiras, por aqui, a militante “Wanda” estava na cadeia.

Os preconceitos sexistas mais pesados contra ela surgiram durante a campanha, não por parte de eleitores, mas dos adversários políticos. O modo violento como a campanha de José Serra tentou explorar a polêmica sobre o aborto, a meu ver, não teria sido o mesmo com um candidato homem. Ao tentar caracterizar a possível simpatia de Dilma pela legalização do aborto como um grave de delito de opinião, Serra apostou na convicção popular de que a mulher que não criminaliza o aborto é um monstro que mata criancinhas. Dilma não enfrentou a polêmica com a seriedade que o caso exigia, mas pelo menos não desceu tão baixo. Em todo caso, nunca saberemos até onde a oposição teria chegado se a notícia de um suposto aborto de Mônica Serra não tivesse vindo à baila.

Outro preconceito que se manifestou durante a campanha foi o de que sendo mulher, a candidata não teria pulso firme para segurar os “radicais do PT”. Que saudades do tempo em que o PT contava com alguns radicais a incomodar a geléia geral do Congresso. No atual estado da arte, o governo Dilma corre mais risco de se descaracterizar em função do excesso de aliados ao centro e à direita do que pela pressão de supostos radicais à esquerda. Além do onipresente PMDB, com sua prática de toma-lá-dá-cá que já se incorporou ao folclore político do jeitinho brasileiro, a barca do governo terá que acolher agora os interesses do novo PSD, criado pelo prefeito de São Paulo para abocanhar cargos e supremacias junto ao governo Federal.

Será mais difícil a uma mulher defender-se da sedução e da chantagem de tais aliados? Não parece. Dilma já sabe que, com amigos assim, ninguém precisa de inimigos. A recente faxina (trabalho de mulher?...) executada pela presidente no Ministério dos Transportes, seguida do embate com a “banda podre” do PMDB a fim de eliminar os cabides de emprego na Agricultura e a corrupção no Turismo, provocaram, como sempre, ameaças de perda de apoio por parte da base dita “aliada”. A forma mais dura com que a primeira mulher presidente do Brasil tem se posicionado frente à chantagem de tais aliados também pode ser explicada pela consciência da desvantagem de seu estilo pessoal em comparação com o carisma popular que permitiu ao presidente Lula ser leniente com a corrupção sem perder prestígio entre eleitores, nem (conseqüentemente) apoio entre a classe política.

Na via oposta, penso que os preconceitos favoráveis a uma candidata mulher também não ajudam a politizar o debate. Seria uma presidenta mais apta a “cuidar com zelo materno” de seu povo? Escolho ao acaso exemplos brasileiros que contrariam tal premissa. Entre as poucas governadoras brasileiras, temos Roseana Sarney, filha de cacique político que governa o Estado com o pior IDH do país. No sul, ex- governadora Ieda Crusis, em 2009, colocou o aparato militar da PM do Estado para intimidar os participantes da festa dos 25 anos do MST. Maternais? Protetoras dos fracos e oprimidos? No Senado, basta mencionar o estilo fálico de Catia Abreu, ativa defensora dos direitos do agro negócio contra os ambientalistas que tentam preservar o que restou das florestas do Mato Grosso e em parte da Amazônia legal.

A própria Dilma, se fosse mais “maternal”, teria defendido com maior firmeza a qualidade de vida dos operários da Usina de Jirau, submetidos a condições sub humanas no canteiro de obras da Camargo Correia. Ou tentaria conciliar a brutal agenda desenvolvimentista com medidas efetivas de preservação da natureza, em prol da saúde das próximas gerações. O compromisso com as causas feministas poderia levar Dilma Roussef a se manifestar de maneira mais clara no debate sobre a descriminalização do aborto, mas parece que o escândalo que se promoveu em torno do assunto, durante a campanha, contribuiu para transformar o aborto numa espécie de tabu político para a atual gestão.

Outras questões relativas à saúde das mulheres, no entanto, ainda podem ser contempladas no governo Dilma. Os casos mais óbvios seriam novas políticas de proteção à maternidade, com ênfase no amparo às mães adolescentes. Além disso, toda e qualquer melhoria no atendimento à saúde de maneira geral beneficiaria as mulheres, acostumadas a cuidar não apenas da saúde dos filhos, mas também de pais, sogros e maridos. Ainda há tempo para esperar da primeira mulher presidente do Brasil medidas que diminuam a desigualdade de gênero no país, sobretudo nas classes mais baixas.

Essa esperança deve-se ao fato de Dilma, em sua trajetória pessoal e política, ter escolhido as alternativas progressistas que se apresentaram à sua geração. Afinal, a característica mais marcante da presidente é sua longa trajetória como militante radical de esquerda. Este segundo aspecto de sua biografia coloca o país diante de um fato espantoso, bem menos alardeado na imprensa: o de que há menos de quatro décadas, a atual chefe das Forças Armadas estava pendurada no pau de arara em uma dependência clandestina desse mesmo Exército, seminua, a levar choques elétricos, pancadas e socos até o limite da exaustão, em conseqüência de sua participação na luta contra a ditadura. Ali, segundo entrevista concedida em 2009 para o blog do Luis Nassif, a militante “Wanda” aprendeu a “mentir adoidado” para defender os companheiros que ainda estavam em liberdade. Ali, freqüentemente perdeu a noção de tempo entre uma sessão e outra, jogada sem roupas no chão de um banheiro frio para refletir melhor se não seria o caso de “tomar juízo” e delatar alguém. O pior da vida no presídio, disse Dilma na entrevista, eram os períodos de espera, sem saber quando e como seria o próximo round com os torturadores.

Por conta deste episódio, Dilma Roussef conhece o valor inestimável da solidariedade entre companheiras de prisão, homenageadas por ela em um dos momentos mais emocionantes da festa da posse. “Devo grande parte de ter superado (...) e agüentado (a tortura) às minhas companheiras de cela”, declarou Dilma a Luis Nassif na entrevista de 2009, ao mencionar o recurso inteligente e corajoso inventado por elas para “dessolenizar” o medo da tortura através do humor. Cada vez que uma prisioneira era levada para o interrogatório, as outras piscavam um olho cúmplice e ironizavam: “não se preocupe, companheira. Se você for torturada a gente denuncia...”

Graças ao que aprendeu com essa experiência, se é que se pode escrever “graças” num caso assim, Dilma teria desenvolvido a capacidade de manter sangue frio diante do torturador, a calcular o que podia ser dito porque já era sabido e o que deveria ser calado com falsa tranqüilidade, sem nunca afrontar o inimigo para não aumentar sua fúria. Por ironia, não do destino, mas da política, é possível que o exercício democrático do poder venha a exigir que a presidente recorra, no presente, aos mesmos recursos de resistência que soube desenvolver em sua sinistra temporada nos porões da ditadura. Astúcia e sangue frio podem lhe valer mais do que a força, nas inúmeras vezes em que for encostada contra a parede pelos aliados do governo, caso decida permanecer menos leniente com a corrupção e com o cinismo palaciano do que seu antecessor cordial.

Muito mais significativo diante do profundo conservadorismo brasileiro do que ser governado por uma mulher é ter uma presidente que conheceu, por dentro e na pele, a violência e o arbítrio da ditadura militar. Nesse quesito, a posição tíbia dos sucessivos governos brasileiros frente à ala conservadora do Exército envergonha o país diante do mundo, em particular a América Latina. De Dilma, que afinal decidiu-se a substituir o sinistro Nelson Jobim no Ministério da Defesa, espera-se uma posição decisiva a favor da abertura da investigação sobre os desaparecidos políticos do governo militar, assim como o apoio claro à decisão de tornar públicos os nomes dos assassinos e torturadores, praticantes de crimes de Estado não contemplados pela Lei da Anistia.

Ao fazer valer o direito das famílias dos militantes assassinados e desaparecidos, a presidente alcançaria também o efeito de prevenir a perpetuação dos assassinatos de jovens das periferias brasileiras por policiais militares a quem, até hoje, nenhum governante disse com firmeza que tais práticas não seriam mais admitidas por aqui. O Brasil foi o único país da América Latina que encerrou uma ditadura sem julgar publicamente nem punir seus torturadores. Indiretamente, os termos em que se negociou a lei da Anistia por aqui funcionaram como um aval para a perpetuação da violência do Estado. No livro O que resta da ditadura (org. Edson Telles e Vladimir Safatle, Ed. Boitempo) a procuradora Flavia Piovesan cita pesquisa feita pela norte-americana Kathryn Sikkink onde se revela que o julgamento dos crimes contra direitos humanos serve para fortalecer, e não para enfraquecer o Estado de Direito. Ainda segundo a pesquisa, depois do fim do período militar no Brasil, a violência policial tornou-se maior do que a praticada na Argentina durante a ditadura. De uma presidente que foi presa política por ter lutado em favor das liberdades democráticas se espera que atue decisivamente para condenar, no passado, e eliminar no presente, a violência dos agentes do Estado que a sociedade, envergonhada, acostumou-se a considerar como um traço indelével da “cultura” brasileira.

*Maria Rita Kehl é psicanalista, ensaísta e poeta, é autora do livro "A mínima diferença - o masculino e o feminino na cultura".
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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Contraponto 6309 - "Após discursar na abertura da Assembleia Geral da ONU, presidenta afirma que foi um momento especial"


21/09/2011

Após discursar na abertura da Assembleia Geral da ONU, presidenta afirma que foi um momento especial


Do Blog do Planalto - Quarta-feira, 21 de setembro de 2011 às 13:14 (Última atualização: 21/09/2011 às 15:58:47)

ONU

“Vou levar a lembrança do seguinte: foi um momento especial, eu acho que para mim, para o Brasil e para as mulheres, vou levar essa lembrança”, afirmou a presidenta Dilma Rousseff nesta quarta-feira (21/9), após discursar na abertura da 66ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Dilma Rousseff foi a primeira mulher a abrir o Debate Geral, tarefa que cabe tradicionalmente ao Brasil desde a primeira Assembleia Geral, que aconteceu em 1947.

Em uma rápida entrevista à Rádio ONU na saída do evento, a presidenta ressaltou, ainda, a presença calorosa das mulheres que acompanharam seu discurso no Plenário da Assembleia Geral. “Também foi uma coisa importante; interagiu comigo”, completou.


Segunda entrevista - Ao chegar ao Waldorf Astoria Hotel, a presidenta Dilma conversou rapidamente com a imprensa. Ela reiterou a emoção que sentiu por ser a primeira mulher a abrir a Assembleia Geral da ONU. “Eu gostei de falar, acho que é importante para o Brasil, para as mulheres, foi muito bom”, declarou.


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terça-feira, 12 de outubro de 2010

Contraponto 3556 - "O depoimento do companheiro de Dilma"

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12/10/2010

O depoimento do companheiro de Dilma

Enviado por luisnassif, ter, 12/10/2010 - 13:51

Às vezes surgem sopros de jornalismo na velha mídia que, por unusuais, acabam passando despercebidos. Hoje me chamaram a atenção para essa entrevista de O Globo com Carlos Araújo, que por trinta anos foi marido de Dilma Rousseff e pai de sua única filha. Saiu na mesma edição de domingo sobre o aborto, uma reportagem que lembrou o velho O Globo de anos atrás.

Uma bela entrevista, com perguntas secas, respostas objetivas e tocantes.

Doente, com enfizema, Carlos tem a companhia da ex-sogra dona Dilma Jane, mãe de Dilma. Quando Dilma teve câncer, passou dez dias com ela.

De O Globo

'Em casa nunca teve murro na mesa'

O advogado Carlos Araújo, de 72 anos, é só elogios à ex-mulher, Dilma Rousseff; inclusive sobre seu temperamento forte

ENTREVISTA Carlos Araújo

casarão às margens do lago Guaíba, em Porto Alegre, as únicas reminiscências dos tempos de militância e da luta armada do casal Vanda e Max são quadros na parede com fotos do comunista Mao Tsé-Tung. A casa foi dividida pelos dois por 30 anos. Hoje, está tomada por fotos da filha dos dois, Paula, e pilhas de cartazes de propaganda da campanha da agora ex-mulher de Max, que, na verdade, se chama Carlos Araújo: Dilma Rousseff, a Vanda.

A rotina do advogado de 72 anos, que se levanta às 3h para ir ao escritório, onde defende causas de operários, em nada se parece com o glamour da vida de Dilma em Brasília. De hábitos simples, Carlos sofre de enfisema.

Vive acompanhado de dois cachorros e, atualmente, da ex-sogra, dona Dilma Jane, e de uma tia da candidata, dona Arilda. Apesar do tubo de oxigênio na sala e da proibição de fumar, não foi desautorizado pelos médicos a tomar uma cervejinha diária, “não muito gelada”.

Há dez dias, ele relembrou sua história com a ex-mulher, que acompanha da sala com dois telões de LCD — um para o noticiário e outro para os jogos de futebol.

Carlos diz que não ajuda na campanha por causa da doença, que o impede de suportar o clima seco de Brasília. A última vez que visitou a ex-mulher foi quando ela teve câncer, no ano passado. Ficou com ela uns 10 dias no início do tratamento. Em setembro, voltaram a se encontrar, quando ela esteve no Rio Grande do Sul: — Não faço nada na campanha. Gostaria muito de estar em Brasília, na retaguarda, ajudando em algo. Mas não posso.

Após a separação, no fim da década de 90, Dilma comprou um apartamento no mesmo bairro para que os dois continuassem próximos, por causa de Paula. Dilma não se casou novamente.

Carlos tem uma namorada, que diz dar-se muito bem com Dilma.

— Presidente tem essa coisa da primeira-dama. Se um dia a Dilma precisar, estarei a seu lado — diz Carlos.

Viveram 30 anos juntos e até hoje Carlos tem admiração inequívoca pela ex-mulher. O temperamento forte dela não é negado por ele. Mas “aqui em casa nunca teve esse negócio de dar murro na mesa”, diz ele sobre a fama da ex-ministra em Brasília. Em entrevista ao GLOBO, Carlos relembra o passado e diz acreditar na vitória de Dilma.

Maria Lima* e João Guedes
PORTO ALEGRE

O GLOBO: Quando e onde o senhor conheceu Dilma?

CARLOS ARAÚJO: Em 1969, no Rio, numa reunião. Ela era da Colina, e meu grupo não tinha nome. Com a fusão, virou o Var-Palmares. Ela tinha 19 anos e eu, 30. Na segunda reunião, já estava apaixonado. Um mês após, estávamos morando juntos.

Ela era linda, um espetáculo! Esse negócio que falam de amor à primeira vista, né?

O que mais chamou sua atenção em Dilma?

CARLOS: Ela ser tão jovem e tão entregue à luta política.

Uma inteligência muito forte e pujante. E sua beleza.

Que música marcou a relação?

CARLOS: Rita, do Chico Buarque.

Namorávamos, às vezes, no apartamento em que a gente ia, mas a gente não podia ficar por questão de segurança. Namorávamos em praças, bairros mais retirados. De vez em quando ali por Ipanema, Jardim de Alá.

Mas ela já era casada (com Claudio Galeno Linhares)...

CARLOS: Mas só formalmente, o casamento já estava se desfazendo, não conviviam mais, viviam foragidos.

Quando nos conhecemos, ela falou para o marido que íamos viver juntos. Eu e o marido dela ficamos amigos, militamos juntos. Ele foi para o exterior, se casou, teve filhos. Em 76, voltou e veio morar na minha casa. Eu o abriguei por um bom tempo.

Moraram os três nesta casa?

CARLOS: Eu e Dilma morávamos aqui. Ele veio com a mulher e os filhos.

Não tinha ciúmes?

CARLOS: Podia ter ciúmes de outra situação, não dele, cada um já tinha seu rumo. Sou um bom ex-marido. Falo bem da Dilma, não é? Não falo mal.

Nesses 30 anos de convivência, em que momentos ela era mais brava e mais delicada?

CARLOS: Não existe pessoa mais ou menos brava. Dilma sempre teve temperamento forte, é da personalidade dela. O que tirava ela do sério era deslealdade, falta de companheirismo, a pessoa não ter palavra, dar bola nas costas. Não sei como ela faz lá (em Brasília). Aqui em casa nunca teve esse negócio de dar murro na mesa.

Quem mandava na casa?

CARLOS: Nossos parâmetros não eram esses, de quem manda, não manda. Éramos companheiros.

Não era nosso estilo um mandar no outro. Foi uma bela convivência. Tivemos uma vida boa juntos, tenho recordação boa, não é saudade.

Como foram as prisões?

CARLOS: A dela foi em São Paulo.

Ela foi presa sete meses antes de mim. Eu estava no Rio.

Como ficou sabendo?

CARLOS: Quando ela foi presa, a primeira coisa que fiquei sabendo foi seu nome verdadeiro, que não sabia durante o ano que vivemos juntos. Naquele tempo, eles publicavam o nome, de onde era, filho de quem, logo em seguida. Soube que ela se chamava Dilma porque vi lá: filha de fulano, mineira. Até então, a única coisa que sabia dela era que era mineira. Pela regra de segurança, ninguém sabia nada de ninguém. Ela também não, sabia que eu era Carlos.

Se encontraram na prisão?

CARLOS: Fui para São Paulo.

Antes, ficamos incomunicáveis.

Era uma loucura! Tinha cartazes nas ruas, aeroportos, rodoviárias, com nossos nomes e foto escrito “procurados”. Depois que fui preso, passei por um lugar por onde ela já tinha passado, na Rua Tutoia, na tortura.

Depois fui para o Dops e para o presídio. Ela já estava no presídio, mas não nos vimos. Três meses depois, ia ser transferido para o Rio, me botaram num camburão e eu vi, de longe, que ela estava no outro camburão.

Íamos ser ouvidos no Rio e fomos para a frente do juiz. Nos abraçamos rapidamente e logo nos separaram. E só fomos nos ver de novo um ano depois, no presídio de Tiradentes, em São Paulo, onde tínhamos direito a receber visita da família juntos.

Três anos depois ela foi solta e o senhor não...

CARLOS: Sim. Ela foi a Minas, visitar os pais e veio morar nesta casa, com meus pais. Depois que fui solto, moramos juntos 30 anos.

O senhor foi para o presídio da Ilha da Pólvora...

CARLOS: Eu ficava na prisão e ela aqui. Não dava para fugir de lá, era uma ilha pequena. A gente não ficava na casa da pólvora. Só à noite. A prisão era a ilha.

Naquele momento, achava que ela ia chegar tão longe?

CARLOS: Ninguém achava, né? Não fazia parte dos projetos: ah, quero ser presidente! Não tinha ambição nenhuma. Ela queria se formar em economia e fazer política.

(Quando Lula a escolheu) Acho que ela estava no lugar certo na hora certa. E o Lula escolheu muito bem. Que presidente pode contar com uma pessoa como a Dilma, confiar cegamente que não vai ter bola nas costas? Ela tem o sentimento profundo da lealdade.

Foi difícil para ela passar por essa transformação? Plástica, cabelo, voz...

CARLOS: Não foi nenhum sacrifício.

Fui até enfermeiro dela quando fez a plástica. Dilma nunca se preparou para ser presidente e teve que encarar. A plástica foi bem, não foi aquela coisa exagerada, ela assimilou bem, acho que gostou.

E o guarda-roupa, o senhor acha que melhorou?

CARLOS: Está bom. Melhorou.

Antigamente, a Dilma era como eu. Sou atirado nas cordas. Ela também era meio atiradona mas, depois de um certo momento, ela tomou gosto. Gostou de se pintar. Gostou de se arrumar bem, de ir no cabeleireiro toda a semana, fazer as unhas.

O senhor é confidente dela?

CARLOS: Não. Sou amigo. Minha vida com a Dilma é uma vida não-política. Quando o Lula acenou para ela, ela veio conversar comigo e Paula. O que vocês acham? Ela não tinha dúvida, queria conversar. Disse que estava em condições, que ia se preparar da melhor forma possível.

Não titubeou, nem tinha receio.

Pelo menos, não revelou.

Aí veio a doença...

CARLOS: Nos pegou desprevenidos.

Quando ela falou a primeira vez, ficamos muito emocionados, sensibilizados, preocupados.

Mas ela disse: tudo indica que é benigno. Ela disse que tudo indicava que não era maligno, mas sentia energia de enfrentar a situação mesmo que fosse o pior. A gente só pensou em dar carinho e ser solidário.

Temeram pela campanha?

CARLOS: Não. Mesmo porque quando vieram os resultados, que era benigno, que era curável rapidamente, com equipe de bons médicos... Não era maligno.

Ela fez quimioterapia para cortar aquele quisto, para não se tornar maligno.

O que o senhor sente ao ver na internet que a Dilma é uma perigosa ex-terrorista?

CARLOS: É a baixaria dos que apoiavam a ditadura para prejudicá-la, para ganhar no tapetão.

O que ela tem de perigosa? A Dilma nunca pegou em armas.

Não era o setor dela.

E qual era o setor dela?

CARLOS: Era o mais político, de organizar movimentos, preparar o pessoal, fazer propaganda.

Desde quando pegar em armas é terrorismo? A gente tem orgulho do que viveu, era uma jovem corajosa, desprendida, entregando sua juventude, sua dor. Foi para a luta achando que ia morrer.

Muita coisa que fizemos foi equivocado politicamente, tudo bem. Mas isso é outra coisa.

* Enviada especial
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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Contraponto 3540 - "Sem orgulho e cabeça erguida, não há vitória em combate"

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11/10/2010


Sem orgulho e cabeça erguida, não há vitória em combate



Tijolaço - 11/10/2010

Brizola Neto

Demorei a escrever sobre o debate porque queria arrumar bem as idéias e não me deixar levar pelo entusiasmo de quem viu Dilma Rousseff reagir como só as pessoas de bem podem reagir à indignidade.

Não quis tomar os outros por mim e deixar que minha satisfação política com a combatividade de minha candidata contaminasse o raciocínio que, embora frio, todos temos de ter sobre a relação custo x benefício de cada atitude, neste trecho decisivo da disputa eleitoral.
Hoje, porém, pude refletir mais friamente.

O debate de ontem, embora numa televisão aberta, foi voltado para um público que “já tinha candidato”. Mais ainda, para os que se consideram simpatizantes de uma candidatura e assumem uma posição ativa na disputa eleitoral.
Não é possível pensar algo diferente de um debate com audiência restrita a 4% dos telespectadores.

Mas que audiência! Uma audiência capaz de ser ativa, de assumir uma bandeira, uma causa, um combate.

Do nosso lado – e vocês podem ver nos comentários postados ao longo da semana – havia certo nervosismo, uma ansiedade e até um inconformismo de ficarmos na posição de presas de uma campanha de calúnias e de baixarias.

Do lado adversário, a empolgação de quem contava – e, aliás, com farta propaganda disso nos jornais “amigos” – com uma adversária abatida, desanimada, na defensiva diante de tantos e tão baixos ataques.
O que se viu, porém, foi uma Dilma cheia de energia e coragem. Que não se intimidou e, a cada agressão, devolvia o golpe sem sorrisinhos falsos, mas com a dureza que corresponde àquilo que está em jogo.
Lembrei-me de um trecho bíblico, no livro de Mateus, quando Cristo expulsa do templo os fariseus.

Ai de vocês, mestres da Lei e fariseus, hipócritas! Pois vocês dão a Deus a décima parte até mesmo da hortelã, da erva-doce e do cominho, mas não obedecem aos mandamentos mais importantes da Lei, que são: o de serem justos com os outros, o de serem bondosos e o de serem honestos. Mas são justamente essas coisas que vocês devem fazer, sem deixar de lado as outras.
Guias cegos! Coam um mosquito, mas engolem um camelo!
Ai de vocês, mestres da Lei e fariseus, hipócritas! Pois vocês lavam o copo e o prato por fora, mas por dentro estes estão cheios de coisas que vocês conseguiram pela violência e pela ganância.

Sim, porque este país é sagrado e sagrados são os direitos do seu povo, e é isso que está foi mercadejado e se pretende mercadejar outra vez.

É preciso que cada um de nós tenha esta convicção, que cada um de nós se absorva deste entendimento, que tenha orgulho da causa pela qual lutamos, que vai muito além de um Governo ou de cargos nele.

Eleição não é concurso de miss e de boas maneiras. Política envolve paixão e indignação. Dilma bateu forte em Serra e o colou o tempo todo ao governo de Fernando Henrique Cardoso, que é a antítese do governo Lula.

O povo brasileiro sabe o que significaram os oitos anos de FHC e é importante que seja lembrado do papel relevante de Serra naquele governo, principalmente na venda do patrimônio público brasileiro. A insistência de Dilma incomodou Serra, que chegou a pensar sobre o que perguntaria a ela em determinado momento, pois sentia que estava nas cordas.

Dilma deixou claro que o interesse deles é o de vender o nosso petróleo, entregar o pré-sal.

Faltou apenas uma palavra: entreguista. Esta é a marca, o estigma de Caim que a traição lhe estampou à testa.

De qualquer forma, publico aí em cima os trechos editados pela campanha e peço que todos revejam – ou assistam, os que não puderam ver - e se abeberem do valor de nossa causa, do orgulho de lutarmos pelo que lutamos, do sentido que há em amar e defender esta país e, com isso, amar e defender nossos irmãos, não apenas da mentira e da mistificação, mas do que elas encobrem: a escravização e a miséria para o nosso povo.

Agora, espero que Lula, o comendante deste combate, desembainhe a espada e lidere o povo brasileiro. Vimos, ontem, que ele escolheu bem, muito bem, a energia de quem, em nome desta nação, liderará a luta de que ele se tornou um símbolo diante dos olhos da população.

Mas ainda volto ainda ao debate, para outros comentários.
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Contraponto 3538 - Que Dilma é essa ? A Dilma

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11/10/2010
Que Dilma é essa ?
A Dilma

A presidenta da Ley dos Medios

Conversa Afiada - Publicado em 11/10/2010

Convenhamos, amigo navegante, que, dos jornais do PiG , o Globo é o mais eficaz dos Golpistas – disparado.

Os outros dois, flores provinciais, carecem da agudeza do Globo.

Uma questão de tradição, talvez.

O Roberto Marinho foi um Golpista sempre mais competente que o “seu” Frias ou qualquer dos Mesquita.

Ou porque a Globo tem mais, muito mais a perder.

Ontem, domingo, por exemplo, a certa altura, o Faustão estava em terceiro lugar no IBOPE (que também é Globope – não fosse, onde estaria o Faustão …).

Só o Serra salva a Globo.

A Globo sabe disso.

(E a Dilma também.)

Na pág. 3 de hoje, o Globo se pergunta, angustiado: “Que Dilma é essa ?”.

E responde: “ … petista parte para o ataque direto a Serra, que revida (só se for no debate da Globo, porque ontem não foi – PHA).

Ele não revidou nem quando a Dilma atacou a mulher dele.

Pois é, amigo navegante, a Dilma é a Dilma de sempre.

A sorte do Globo, do PiG e do Serra – é tudo uma coisa só – é que o debate da Band não deve ter muito efeito eleitoral.

A audiência da Band chegou a cair para 2 pontos.

É a velha Band de sempre.

Mas, deve ter efeito sobre o comportamento dos dois – Serra e Dilma – daqui para frente.

Dilma vai para cima do Serra.

Aquele modelito que o Serra tentou construir – ela não passa de uma marionete do Lula – não cabe mais.

A outra consequência será inibir a baixaria.

A aborteira que come criancinha, a guerrilheira furiosa, o satanás de saias – tudo o que a baixaria do Serra construir – ele e aquela amiga da D. Ruth, no horário eleitoral, com aquele adorável sotaque paulissstísssimo – tudo o que ele tentar contra a Dilma terá resposta.

Ficou claro que a Dilma vai para cima: nos debates e no horário eleitoral.

O que vai sobrar para o Serra ?

Mais baixaria.

Produzida pelo PiG (*), nas trevas.

E vai sobrar também o Fernando Henrique, com quem o Serra vai se afundar, um amarrado no outro.

E re-fundar a UDN de São Paulo.

(Da qual o Aécio não fará parte.)

E mais.

A Dilma sabe do que fala.

Aquela história de marionete …

A Dilma prova que participou do Governo Lula de dentro, fez o dever de casa, botou as coisas para funcionar.

Ela tem segurança porque domina os números, os temas – Luz para Todos, Minha Casa, ProUni, PAC, PAC 2 …

E mais: a baixaria agora vai ser exposta sob os holofotes dos debates.

Todo mundo vai ver.

Dilma vai trazer a Veja, a Folha, o Estadão e a Globo para o debate.

O PiG, os marqueteiros do Serra, os colonistas bradam em coro: isso vai ser prejudicial.

O marqueteiro do Serra, outra deidade provincial, disse que a Dilma falou para a militância e, não, para o eleitorado.

Como o PT é o partido mais bem avaliado, só aí ela ganha o jogo.

O problema é o Serra, que, desde 2002, tem 30% dos votos: não tem eleitorado nem militância.

Clique aqui para ler “Dilma trucidou o Serra. Ele é o homem de mil caras”.

Veja também os principais trechos do debate e constate: “ele não defendeu a mulher dele; como vai defender a mulher dos outros ?”

Que Dilma é essa ?

A presidenta que vai fazer a Ley dos Medios.

Paulo Henrique Amorim

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