domingo, 4 de dezembro de 2011

Contraponto 6917 - "Bye Bye. Chevron"


04/12/2011

Bye, Bye, Chevron

Do Tijolaço - 03/12/2011

Postado por Fernando Brito

O ministro Edison Lobão não é, propriamente, uma fera.

Quando ele diz hoje que, se não cumprir com a reparações devidas ao país pelo vazamento de óleo no campo do Frade, no Rio de Janeiro, a petroleira americana “será expulsa do Brasil” é porque já sabe que a batata da Chevron já assou.

Não é preciso ser nenhum clarividente para perceber isso.

Porque há dez dias Lobão falava que “o vazamento não era tão grave assim”.

A esta altura, a ANP e o Governo brasileiro já sabem o que causou o vazamento, até porque o que a empresa fez está em total desacordo com o que se comprometeu a fazer durante a perfuração dos poços.

Houve, é verdade, uma pressão inesperada, maior do que a prevista, em formações que a empresa julgava que não a produziriam.

E que, por isso, a encorajou a eliminar etapas técnicas na perfuração.

Etapas que faziam parte de seu plano de perfuração, registrado e aprovado, e que foi descumprido.
E por economia.
A punição exemplar que a Chevron receberá é o maior plano antipoluição que a indústria do petróleo poderia receber.

Quebrou o contrato, ao fraudar seus planos de exploração e aproveitar-se da escuridão abissal do mar para enganar o governo brasileiro.

E servirá como exemplo desencorajador para outros, que o desejem fazer acreditando que aqui tudo acaba em samba.

Não haverá reação internacional, porque, como já afirmei, não é uma medida ideológica.

É o castigo a uma empresa fraudadora e poluidora.

Por mais que a mídia brasileira se omita, a verdade virá à tona e, como ocorreu com a mancha de óleo, será impossível escondê-la.

Quando Edison Lobão fala deste jeito, não pode haver mais dúvida do que está para acontecer.

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Contraponto 6916 - Charges on line do Bessinha

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04/12/2011
Charges do Bessinha - (504 a 506)


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sábado, 3 de dezembro de 2011

Contraponto 6915 - " 'É Pentágono/OTAN versus BRICS' "

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03/12/2011
'É Pentágono/OTAN versus BRICS'

Da Carta Maior - 03/12/2011



A decisão dos BRICS sobre o Oriente Médio é um terremoto geopolítico. A diplomacia russa coordenou, com os outros países BRICS, um murro tectônico na mesa: não admitiremos qualquer tipo de nova intervenção dos EUA – seja “humanitária” ou a que for – no Oriente Médio. Agora, é Pentágono/OTAN versus os BRICS. Brasil, Índia e China estão acompanhando tão de perto quanto a Rússia, os movimentos de França e Turquia que estariam incentivando a eclosão de uma guerra civil na Síria. O artigo é de Pepe Escobar.

Poucos prestaram atenção, quando, semana passada, a porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Victoria Nuland anunciou, em linguagem cifrada, que Washington “deixará de atender a alguns dos dispositivos do Tratado das Forças Militares Convencionais na Europa, no que tenha a ver com Rússia”.

Tradução: Washington deixará de informar a Rússia sobre deslocamentos de sua armada global. A estratégia de “reposicionamento” planetário do Pentágono virou segredo.

É preciso atualizar algumas informações de fundo. Esse tratado, CFE, foi assinado nos anos 1990 – quando o Pacto de Varsóvia ainda era vigente, e cabia à OTAN defender o ocidente “livre” contra o que então estava sendo pintado como um muito ameaçador Exército Vermelho.

Na Parte I, esse Tratado CFE estabelecia significativa redução no número de tanques, artilharia pesadíssima, jatos e helicópteros de guerra, e dizia também, aos dois lados, que todos teriam de nunca parar de falar do Tratado CFE.

A Parte II do Tratado CFE foi assinada em 1999, no mundo pós-URSS. A Rússia transferiu grande parte de seu arsenal para trás dos Montes Urais, e a OTAN nunca parou de avançar diretamente contra as fronteiras russas –movimento que aberta e descaradamente descumpria a promessa que George Bush-Pai fizera, pessoalmente, a Mikhail Gorbachev.

Em 2007, entra Vladimir Putin, que decide suspender a participação da Rússia no Tratado CFE, até que EUA e OTAN ratifiquem a Parte II do CFE. Washington nada fez, nada de nada; e passou quatro anos pensando sobre o que fazer. Agora, decidiu que nem falar falará (“Washington deixará de atender”, etc. etc.).

"Não se metam na Síria"
Moscou sempre soube, há anos, o que o Pentágono quer: Polônia, República Checa, Hungria, Lituânia. Mas o sonho da OTAN é completamente diferente: já delineado num encontro em Lisboa há um ano, o sonho da OTAN é converter o Mediterrâneo em “um lago da OTAN”.

Em Bruxelas, diplomatas da União Europeia confirmam, off the record, que a OTAN discutirá, numa reunião chave no início de dezembro, o que fazer para fixar uma cabeça-de-praia muito próxima da fronteira sul da Rússia, para dali turbinar a desestabilização da Síria.

Para a Rússia, qualquer intervenção ocidental na Síria é caso resolvido de "não-e-não-e-não" absoluto. A única base naval russa em todo o Mediterrâneo Ocidental está instalada no porto (sírio) de Tartus.

Não por acaso, a Rússia instalou seu sistema de mísseis de defesa aérea S-300 – dos melhores do mundo, comparável ao Patriot, dos EUA – em Tartus. E é iminente a atualização para sistema ainda mais sofisticado, o S-400.

Mais importante: pelo menos 20% do complexo industrial militar russo enfrentaria crise profunda, no caso de perder seus assíduos clientes sírios.

Em resumo, seria suicídio, para a OTAN – para nem falar em Israel – tentar atacar a Síria por mar. A inteligência russa trabalha hoje sobre a hipótese de o ataque vir via Arábia Saudita. E vários outros países também sabem, com riqueza de detalhes, dessa estratégia de “Líbia remix”, da OTAN.

Vejam o caso, por exemplo, da reunião da semana passada, em Moscou, dos vice-ministros de Relações Exteriores dos países do grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Os BRICS não poderiam ter sido mais claros: esqueçam qualquer tipo de intervenção externa na Síria; disseram, exatamente que “não se deverá considerar qualquer interferência externa nos negócios da Síria, que não esteja perfeitamente conforme o que determina a Carta das Nações Unidas”. Os BRICS também condenam as sanções extras contra o Irã (são “contraproducentes”) e qualquer possibilidade de algum ataque. A única solução – para os dois casos, Síria e Irã – é negociações e diálogo. Esqueçam a conversa de um voto da Liga Árabe levar a nova resolução, do Conselho de Segurança da ONU, de “responsabilidade de proteger” (responsibility to protect - R2P). Esqueçam.

O que temos aí é um terremoto geopolítico. A diplomacia russa coordenou, com outros países BRICS, um murro tectônico na mesa: não admitiremos qualquer tipo de nova intervenção dos EUA – seja “humanitária” ou a que for – no Oriente Médio. Agora, é Pentágono/OTAN versus os BRICS.

Brasil, Índia e China estão acompanhando tão de perto quanto a Rússia, o que a França – sob o comando do neonapolêonico Libertador da Líbia, Nicolas Sarkozy – e a Turquia, os dois países membros da OTAN, estão empenhados e fazer hoje, sem qualquer limite ou contenção, contrabandeando armas e apostando em uma guerra civil na Síria, ao mesmo tempo em que tudo fazem para impedir qualquer tipo de diálogo entre o governo de Assad e a oposição síria, essa, em frangalhos.

Alerta máximo nos gargalos
Tampouco é segredo dos BRICS que a estratégia de “reposicionamento” do Pentágono implica mal disfarçada tentativa de impor, no longo prazo, uma “negativa de acesso” à marinha chinesa expedicionária [capaz de operar em alto mar], em acelerada expansão.

Agora, o “reposicionamento” na África e na Ásia tem a ver, diretamente, com os gargalos. Não surpreende que três dos gargalos mais cruciais do mapa do mundo é questão de alta segurança nacional para a China, em termos do fluxo do suprimento de petróleo.

O Estreito de Ormuz é gargalo global crucial (por ali passam 16 milhões de barris de petróleo por dia, 17% de todo o petróleo negociado no planeta, mais de 75% do petróleo exportado para a Ásia).

O Estreito de Malacca é elo crucial entre o Oceano Índico e o Mar do Sul da China e o Oceano Pacífico, a rota mais curta entre o Golfo Persa e a Ásia, com fluxo de cerca de 14 milhões de barris de petróleo/dia.

E o Bab el-Mandab, entre o Chifre da África e o Oriente Médio, passagem estratégica entre o Mediterrâneo e o Oceano Índico, com fluxo de cerca de 4 milhões de barris/dia.

Thomas Donilon, conselheiro de segurança nacional do governo Obama tem repetido, insistentemente, que os EUA têm de “reequilibrar” a ênfase estratégica – do Oriente Médio, para a Ásia.

Assim se explica boa parte do movimento de Obama, de mandar Marines para Darwin, no norte da Austrália, movimento já analisado em outro artigo para Al Jazeera. Darwin é cidade bem próxima de outro gargalo – Jolo/Sulu, sudoeste das Filipinas.

O primeiro secretário-geral da OTAN, Lord “Pug” Ismay, cunhou o famoso mantra segundo o qual a aliança Atlântica deveria “manter os russos fora, os americanos dentro e os alemães abaixo.” Hoje, o mantra da OTAN parece ser “manter os chineses fora e os russos abaixo”.

Mas o que os movimentos do Pentágono/OTAN – todos inscritos na doutrina da Dominação de Pleno Espectro [Full Spectrum Dominance] – estão realmente fazendo é manter Rússia e China cada vez mais próximas –não apenas dentro dos BRICS mas, sobretudo, dentro da Organização de Cooperação de Xangai expandida , que rapidamente se vai convertendo, não só em bloco econômico mas, também, em bloco militar.

A doutrina da Dominação de Pleno Espectro implica centenas de bases militares e agora também de sistemas de mísseis de defesa (ainda não testados). O que também implica, crucialmente, a ameaça mãe de todas as ameaças: capacidade para lançar o primeiro ataque.

Pequim, pelo menos por hora, não tomou a expansão do Comando dos EUA na África, Africom, como ataque aos seus interesses comerciais, nem tomou o posicionamento de Marines na Austrália como ato de guerra.

Mas a Rússia – tanto no caso da expansão dos mísseis de defesa posicionados contra Europa e Turquia, como na atitude de “sem conversas” sobre o Tratado CFE, e posicionada já contra os planos da OTAN para a Síria – está-se tornando bem mais incisiva.

Esqueçam a conversa de Rússia e China, “competidores estratégicos” dos EUA, serem tímidos na defesa da própria soberania, ou dados a pôr em risco a própria segurança nacional. Alguém aí tem de avisar aqueles generais no Pentágono: Rússia e China não são, não, de modo algum, Iraque e Líbia.

Tradução: Vila Vudu

Fonte: Al- Jazeera

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Contraponto 6914 - "O papel didático dos líderes"

03/12/2011

O papel didático dos líderes


Do Tijolaço - 03/12/2011

Postado por Fernando Brito - 03/12/2011

Peço perdão por escrever na primeira pessoa, mas é necessário.

Em 2005, quando estive na Venezuela, tinha – e o confesso – uma certa reserva em relação a Hugo Chávez.

Embora o considerasse um líder popular de grande valor, não conhecia suas qualidades intelectuais e, com preconceito, achava que não eram grandes.

Mas,coincidentemente, eu estava vendo televisão no dia da Independência. Intrigou-me o insólito, para quem acompanha os nossos desfiles aqui, de ver soldados do Exército vestidos com uniformes de quase dois séculos, executando grandes coreografias das batalhas que levaram à independência do país, com cargas, recuos e uma representação dos revezes e vitórias daqueles combates.

Pouco mais tarde, assisti também Chávez falar na cerimônia do das “actas de la independencia” , onde se registraram as decisões de livrar o país do jugo espanhol.

Falou por quase duas horas. E, confesso, nunca tive a oportunidade de aprender tanto sobre a relação das guerras napoleônicas, no início do século 19, na Europa e os movimentos de libertação na América Latina – e olhem que a nossa, em 1822, tem também nelas a sua raiz.

A fala era simples, mas com momentos de arroubos e metáforas.

Naquela ocasião, um mês depois da morte de Brizola, fiquei pensando: porque certos líderes falam tanto, de maneira tão original e tão presos a contar a história de seus países e vidas?

Muitas vezes penso nisso, quando vejo a objetividade marqueteira que tomou conta de nosso discurso político, o desaprendizado de nossa história, a pobreza intelectual fantasiada em termos pedantes ou sofisticados que tomou conta da vida pública – e nisso não estão apenas os partidos e os governos, mas a imprensa, a intelectualidade, os “profissionais” e o “politicamente correto”.

Sábados chuvosos são propícios a dores nas juntas e a reflexões aparentemente descabidas como esta.

Mas, como nos sobra algum tempo, achei que devia reproduzir o vídeo acima, que reproduz o diálogo entre Hugo Chávez e Cristina Kirchner, num encontro entre ambos esta semana, durante a cúpula da América Latina e do Caribe, em Caracas, capital venezuelana.

Faria Duda Mendonça e Nizan Guanaes, os nossos papas da marquetagem política ter uma síncope ver dois presidentes conversando assim, diante das câmaras de televisão.

Mas é, para quem tem capacidade para ouvir algo diferente do som oco da política, uma aula, não só de história, mas também do papel didático que os líderes populares devem ter: o de ajudar seu povo a compreender sua história, a entender-se com parte de uma grande marcha humana e a eles, líderes, não como indivíduos apenas, mas como personagens de um processo social que cruza o tempo, ora evidente e agitado, ora subterâneo e silencioso.

Se puder, assista. O castelhano é, com um pouco de esforço, compreensível. Uma ou outra referência histórica que nos falte é insignificante. O sentido geral da liberdade e da afirmação dos povos está ali, nítido, evidente, sonoro. A simplicidade que marca os grandes, também.

No próximo post a gente devaneia menos e volta à objetividade…perdoem.

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Contraponto 6913 - "A REY MUERTO, REY PUESTO. O ENTERRO DA “IBEROAMERICA” E O BATISMO DA CELAC. "

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03/12/2011

A REY MUERTO, REY PUESTO. O ENTERRO
DA “IBEROAMERICA” E O BATISMO DA CELAC.

Do Blog do Mauro Santayana - 01/12/2011

Mauro Santayana

Não faz mais de um mês, em Assunção, no Paraguai, foi sepultado, sem choro e sem velas, o projeto neocolonial que embalou os sonhos da Espanha, nos anos 90, de voltar a exercer, com a ajuda de conhecidos neoliberais de plantão, algum poder real na América Latina.


Naqueles anos nefastos, de submissão e desnacionalização da economia, os espanhóis, do alto da ilusão conquistada pelo dinheiro recebido a fundo perdido dos países mais ricos da Comunidade Européia - e graças aos baixos juros cobrados pelos bancos europeus, quando comparados com o preço do dinheiro na América Latina - compraram dezenas de nossas empresas, e tentaram institucionalizar o termo “iberoamérica” para referir-se a este pedaço do planeta. Acreditavam que eram a oitava economia do mundo e que iriam sentar-se à mesa do G-7.

Hoje, o G-7, substituído de fato pelo G-20 - clube do qual a Espanha não faz parte - é uma ficção estratégica. O grupo do qual mais se fala, na mídia internacional, atende pelo nome de BRICS. Consolidaram-se, na América do Sul, o Mercosul, a UNASUL e o Conselho de Defesa Sulamericano. A Espanha está a dois passos de falir, com uma dívida externa de 165% do PIB e mais de 22% de desemprego.


Foi nessa situação, de duro aprendizado histórico, que os espanhóis insistiram em organizar, nos últimos dias de outubro, na capital paraguaia, mais uma cúpula “iberoamericana”.

Para a reunião, trouxeram o então primeiro-ministro José Luis Zapatero, e o Rei Don Juan Carlos, que ficaram – como bons navegantes – a ver navios, já que os presidentes da Argentina, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Cuba, El Salvador, Honduras, Nicarágua, República Dominicana, Uruguai e Venezuela não compareceram.

Trinta dias depois, o Presidente Hugo Chaves (a quem o Rei da Espanha ousou lançar, com arrogância, a ofensa de um por que no te callas ? ) exercita, com prazer, a oportunidade de colocar - com um belíssimo tapa de luvas - sua majestade em seu devido lugar, recebendo, com pompa e circunstância, entre hoje e terça-feira, 32 Presidentes e Chefes de Estado de países ao sul do Rio Grande, para a reunião de fundação, em Caracas, na Venezuela, da CELAC - Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe.

A organização da CELAC mostra que no início deste século XXI, nós já estamos maduros para discutir nossos próprios assuntos e forjar, com base na cooperação e no respeito mútuo, nosso destino, sem a presença incômoda, quando não constrangedora, dos Estados Unidos, de Portugal e da Espanha.

O slogan da cúpula de Caracas já diz tudo: CELAC - El camino de nuestros Libertadores. O sonho de Simon Bolivar e do brasileiro Abreu e Lima, que foi seu general na gesta libertadora por uma América Latina livre e mais unida, estará, a partir da próxima semana, mais perto de se realizar.
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Contraponto 6912 - "Entrevista coletiva da presidenta Dilma em Caracas"

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Contraponto 6911 - " 'Reforma política será resultado de uma luta política e social' "

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03/12/2011


'Reforma política será resultado de uma luta política e social'

Da Carta Maior - 02/12/2011

Em entrevista à Carta Maior, o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, propõe um amplo acordo entre os partidos democráticos, da esquerda ao centro, para viabilizar a reforma. Em acordo, não em consenso. "Uma reforma política num país como o nosso não será consensual, porque por dentro dela estará a estruturação de como vai se dar a luta de interesses, a luta de classes, as lutas regionais e de vocações regionais sobre o futuro do país," defende Tarso.


Maria Inês Nassif



As políticas de inclusão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006 e 2007-2010) trouxeram para a sociedade de consumo grande contingente de pobres, e elevaram a condução de outros tantos, hoje designados como "a nova classe média". O desafio que está colocado agora é incluir politicamente essa multidão que também estava apartada da democracia. Segundo o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT), que ocupou o Ministério das Relações Institucionais no governo passado e, posteriormente, o Ministério da Justiça, esta é uma equação que envolve, de um lado, neutralizar o cerco à política, em especial ao Congresso, que vem sendo feito pela mídia tradicional - e que têm um componente de disputa por poder político com o governo - e de outro, promover as reformas necessárias para erradicar a corrupção estrutural da política brasileira. "A reforma política é fundamental nesse momento", afirmou o governador, em entrevista exclusiva à Carta Maior.

Genro propõe um amplo acordo entre os partidos democráticos, da esquerda ao centro, para viabilizar a reforma. Em acordo, não em consenso. "Uma reforma política num país como o nosso não será consensual, porque por dentro dela estará a estruturação de como vai se dar a luta de interesses, a luta de classes, as lutas regionais e de vocações regionais sobre o futuro do país.", disse o governador. E esse debate tem que ir além do Congresso, cujos interesses eleitorais dos parlamentares estão em jogo, mas não pode excluí-lo.

O novo sistema político, se for devidamente articulado pelos partidos - que devem se preparar para a incorporação dos novos atores políticos no cenário nacional - podem vir na forma de uma Câmara específica para decidir as mudanças, ou uma constituinte exclusiva. " Acho que quem tem uma aposta na conformação de um estado de direito com efetividade de direitos e com controle público da sociedade sobre o Estado, com a expansão cada vez mais importante do mercado interno, com a inclusão educacional, ou seja, com uma revolução verdadeiramente democrática no país, tem a obrigação de ter uma pauta política para o futuro imediato, sob pena de esse processo se esgotar, afirmou. Abaixo, a íntegra da entrevista.

CARTA MAIOR: A constante pressão contra o governo de Dilma Rousseff, que tem derrubado vários ministros, inviabiliza o seu governo? Isso é uma fatalidade do presidencialismo de coalizão?

TARSO GENRO: Os governos de coalizão presidencialista no Brasil não são novos. O novo é governantes de esquerda - o presidente Lula e a presidenta Dilma - serem obrigados, pela conjuntura política e pelo sistema legal e partidário do país, a usar esse expediente. A coalizão presidencialista é um expediente político. O que nós temos que responder, em última análise, é se ele é legítimo ou não. Não resta a menor dúvida de que é um expediente, pois essa é a única forma de governar democraticamente - portanto, de governar em maioria.

O outro aspecto que ressalto é uma grande novidade teórica, doutrinária, que a direita vem vertendo pela grande mídia, de que a coalizão favorece a corrupção. Isso é de uma falsidade brutal, porque a corrupção - na sociedade, nos partidos e na política brasileira - é histórica, não conjuntural. E, ao contrário do que ocorre nos governos de coalizão em que a direita está no centro, o problema da corrupção está recebendo um tratamento transparente; foi feita uma organização de controles como jamais o Estado brasileiro teve; a Polícia Federal faz um combate sistemático à corrupção, quando em outros governos era orientada a tratar esses assuntos com luvas de pelica, ou não fazer.

Portanto, nós vivemos num momento histórico em que a coalizão serve à estabilidade da esquerda para governar e vem sendo combatida pela direita, que quer instabilizar politicamente o governo. Então, o que nós temos tratar é do seguinte: quais as reformas que devem ser feitas para que o sistema político se modernize, para que as coalizões presidencialistas não sejam mais necessárias, ou para que sejam mais autênticas, mais programáticas e mais nacionais - mais fundadas em princípios, portanto, e não somente em contextos políticos específicos, como vem ocorrendo hoje?

CARTA MAIOR: Como se coloca essa discussão para a sociedade com esse quase veto dos grandes veículos de comunicação e da oposição a esse debate?

TARSO GENRO: Isso também não é uma coisa nova. Nós, que temos um pouco mais de idade e memória da história recente do país, podemos perceber que o Parlamento brasileiro sempre foi cercado e agredido pela imprensa, assim como os presidente com sentido reformista, popular e democrático. Antes de 1964, não era diferente. O problema não é criticar a oposição, parlamentares ou partidos, mas desmoralizar a instituição, estabelecendo uma relação obrigatória entre corrupção, Legislativo e partidos. O que está sendo feito hoje, como antes de 1964, é o uso permanente desse expediente político pela direita e pelas oligarquias.

Ocorre, todavia, que a eficácia política desses expedientes se dá de forma diferente. O presidente Lula conseguiu implementar uma série de reformas que gerou uma base social ampla e democrática para a esquerda em geral, e conseguiu colocar no terreno da políitica contingentes sociais que eram alheios à política e à questão do Estado, como a chamada nova classe média. Nesse caso, o processo de desmoralização tende a ser mais radical.

O ataque não se faz apenas aos partidos e à política em geral, mas se faz um ataque mais profundo, à própria democracia. E, se for retirada a legitimidade e a densidade de se governar em coalizão, resta um governo isolado e impotente, seja ele um governo de centro, de esquerda ou de direita.

CARTA MAIOR: O governo Dilma é governável? Os ataques constantes, as quedas sucessivas de ministros, estão cumprindo o objetivo de desestabilizar o governo?

TARSO GENRO: Um governo que tem pretensões de estabilidade política e de governar dentro de uma democracia tem que fazer concessões para as pressões da imprensa, porque essas concessões podem promover uma dialética de esclarecimento e de informação. Todas as pautas que foram propostas pela imprensa foram eficazes, pois o governo teve que substituir ministros - e alguns provavelmente teriam que ser substituídos, mas se chegou a um limite. Hoje, a ampla maioria da sociedade entende que essa pressão, que é sucessiva, contra um mininistro escolhido a dedo para um ataque frontal, um cerco, ela está se tornando menos eficaz. Está sendo diluída no processo político.

É impossível não compreender as pressões da imprensa como uma pressão política, com determinados objetivos estratégicos. E nessa compreensão, evidentemente, o governo tem que saber propor a sua pauta, colocar os seus limites e reverter a situação. Acho que todas as medidas econômicas e políticas que a presidenta tomou a nível internacional e no plano interno permitiram que o governo, mesmo sob esse cerco, aumentasse o seu grau de legitimidade perante a sociedade brasileira.

CARTA MAIOR: Percebe-se, no caso do Lupi, parece um caso especial, pois ele estava em rota de colisão com a CUT e com o PT. Esse é um caso mais complicado?

TARSO GENRO: Eu acho que, quando a gente critica a sistemática de cerco aos ministros, isso não quer dizer que todos eles sejam absolutamente transparentes e não tenham cometido erros ou irregularidades. Nós sabemos que isso ocorre. O que se discute, do ponto de vista democrático, são as sucessivas pautas rebaixadas que o cerco midiático propõe. Todos esses ministros, se cometeram efetivamente ilegalidades, poderiam responder e ser demitidos. Mas sem que isso seja a agenda principal do país. E, nesse sentido, eu acho que a presidenta Dilma foi magistral. Ela não transformou isso aí na pauta do pa[is. Embora atendendo a pressões e fazendo demissões, ela está tomando medidas estratégicas para o desenvolvimento que tornam a pauta midiática secundária.

No caso concreto do Luppi, não creio que sua situação seja especial. Acho que está sendo tratado pela presidenta Dilma da forma como deveria ser, reunindo informações e verificando a veracidade. Eu, pelo que conheço pessoalmente de Luppi, me custa acreditar que ele tenha acordado com irregularidades dessa natureza. Mas também não excluo a possibilidade de que, na estrutura do ministério, tenha ocorrido falta de lisura e até falta de legalidade de determinados atos. Isso eu não excluo porque conheço bem o Estado brasileiro.

CARTA MAIOR: O senhor considera que a reforma política foi enterrada?

TARSO GENRO: Acho que a insistência em colocar a reforma política na agenda é fundamental para o país. O presidente Lula me autorizou a formular, quando eu era ministro da Justiça, e depois mandou para o Congresso Nacional, uma reforma política muito ousada, que está tramitando até hoje. O projeto abordava todos os pontos fundamentais, desde a verticalidade das alianças até a não transferência de tempo de televisão dos micropartidos que se associam a outros em alianças regionais, passando pelo financiamento público de campanha. Essa é uma agenda recorrente.

Existe hoje, em escala mundial, uma crise de efetividade do Estado democrático, não só em relação a grandes decisões que o governo deve tomar sobre pautas econômicas e sociais, como também de um crescente distanciamento entre Estado e sociedade e a grande concentração de poder de decisão nas mãos dos bancos centrais. Isso reduz o poder do Parlamento e reduz a eficácia política dos partidos. Reduz também o poder do próprio Executivo. Existe uma crise da democracia, um déficit democrático em escala global. Aqui no país, esse déficit é menos ameaçador que o da Europa, porque nós estamos num processo de crescimento econômico, de distribuição de renda, de inclusão social, educacional e produtiva de vastos setores da sociedade.

Nós estamos num momento propício de fazer a reforma política. A reforma política é muito mais difícil de fazer na Europa hoje, pois seria muito mais à direita e autoritária, do que aqui no nosso país. Portanto, na minha opinião, os partidos democráticos, de esquerda, progressistas de centro, deveriam radicalizar uma pauta de reforma política para romper com a asfixia que essa nova realidade econômica tende a levar para o plano da política.

CARTA MAIOR: Como corresponder a esse novo momento?

TARSO GENRO: Vou dar um exemplo concreto. Qual um tipo de representação parlamentar, que tipo de projeto vai estar na cabeça de 50% dos brasileiros que, ou melhoraram a situação social em que se encontravam, ou entraram na chamada nova classe média? Qual a identidade que esses setores vão ter com os partidos atuais? Como eles estão recebendo as mensagens de decomposição da política que é transitada diariamente pela grande mídia? São enigmas que têm de ser respondidos.

Se os partidos não responderem com propostas de transparência, de qualificação da vida pública e política, esses setores serão cooptados qualquer pessoa, qualquer grupo, qualquer visão. Seja pela visão de extrema-direita, fascistóide da ordem, pela higienização do Estado, pelo falso combate à corrupção, seja pela extrema esquerda aventureira, que vai pretensamente repropor ao Brasil um surto revolucionário como se houvesse alguma possibilidade de se processar aqui na América Latina alguma mudança revolucionária de médio prazo, de curto prazo. Acho que quem tem uma aposta na conformação de um estado de direito com efetividade de direitos e com controle público da sociedade sobre o Estado, com a expansão cada vez mais importante do mercado interno, com a inclusão educacional, ou seja, com uma revolução verdadeiramente democrática no país, tem a obrigação de ter uma pauta política para o futuro imediato, sob pena de esse processo se esgotar.

CARTA MAIOR: O senhor está propondo que os partidos de centro e esquerda assumam as diferenças em relação ao resto, na questão da reforma política? Uma reforma política acordada está fora de questão?

TARSO GENRO: Acordada, sim, é possível; consensual, não. Acho que tem que se gerar um grande acordo político que promova nos distintos partidos um compromisso de reforma em determinado sentido. Uma reforma política num país como o nosso não será consensual, porque por dentro dela estará a estruturação de como vai se dar a luta de interesses, a luta de classes, as lutas regionais e de vocações regionais sobre o futuro do país.

Quem defende, por exemplo, o voto distrital, tem uma visão paroquial da política, que favorece as oligarquias locais mais fortes, desvincula o seu território do território nacional e despolitiza o eleitor, que vai pensar sempre que o mundo começa e termina no seu local, quando na verdade, hoje, todo local é global e nacional. São interesses como esses que não permitem o consenso, mas nada impede que se busque formar uma sólida maioria para fazer as reformas -- inclusive criando condições para que uma Câmara específica faça a reforma, ou uma assembleia constituinte com limites determinados para produzir determinadas revisões ou reformas constitucionais. Isto tudo é possível. Basta que você tenha uma norma constitucional para isso, pois a Constituição pode tudo.

CARTA MAIOR: Desde que esse debate, esse consenso, transcenda o Congresso, não é?

TARSO GENRO: Impossível fazer uma reforma que seja exclusivamente pautada pelo Congresso. Os interesses ali são tão microfracionados que seria impossível que isso fosse feito apenas pelo Parlamento. A força social externa, fora do Legislativo, pode gerar a coesão para promover essas reformas. A reforma política será resultado de uma luta política e social, e também de uma luta parlamentar.

CARTA MAIOR: Como fazer isso?

TARSO GENRO: Não tem fórmula. Na verdade, uma mudança desse tipo é um processo de ruptura democrática brasileira, de menos democracia para mais democracia, de menos qualidade na esfera política para mais qualidade. Isso não é feito através de um cálculo matemático e nem temporal. Eu lembro quando o presidente Lula inverteu a pauta do país e, no fim do chamado escândalo do mensalão, falou numa constituinte exclusiva para fazer a reforma política. Isso paralisou o país, mas não teve segmento porque mesmo entre os partidos de esquerda haviam interesses muito diferenciados, inclusive regionalmente.

CARTA MAIOR: Embora não seja possível deixar essa pauta só com o Congresso, os partidos não são fundamentais nesse processo?

TARSO GENRO: São fundamentais. Quando digo de uma mobilização social de fora para dentro do Congresso, digo que os partidos e a sociedade civil devem fazer essa mobilização. E veja como isso não é estranho a um desejo ainda não revelado da sociedade brasileira: o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social tirou fortes posições a favor da reforma política, inclusive do financiamento público de campanha, à época em que eu era secretário-executivo do Conselho.

CARTA MAIOR: Os conselheiros apreendem melhor as vantagens da reforma política que o Congresso?

TARSO GENRO: Sim, sem a menor sombra de dúvida. Isso ocorreu de forma visível naquele período, hoje não sei como está. No Parlamento, nós temos pessoas altamente dedicadas à luta pela reforma política, como a deputada Luiza Erundina, que tem recebido apoio de distintos partidos políticos, de frações de partidos. Não é impossível criar também um movimento forte no Congresso, porque já existe de maneira nuclear.

CARTA MAIOR: E nem se pode esperar apoio coeso dos partidos. Afinal, até no PT existem resistências.

TARSO GENRO: O Partido dos Trabalhadores, embora seja o partido mais coeso nacionalmente, com uma identidade bem forte, tem diferenças regionais. É impossível dizer que o partido paulista, por exemplo, pensa o mesmo do que o partido do Maranhão, ou do Rio Grande do Sul. Todos os partidos recebem recursos das forças econômicas e sociais locais e, de certa forma, fazem a mediação com essas forças. Eu diria que a grande influência que o partido paulista teve na história do PT foi extraordinariamente positiva para o partido, porque São Paulo é o polo econômico e social mais moderno do país.

Não tenho dúvidas, todavia, de que a influência decisiva do PT paulista nas decisões que impõe nacionalmente para todo o resto dos partidos do país já chegou a um momento de esgotamente, e creio que a grande maioria dos quadros políticos do PT, ou pelo menos uma boa parte deles, pensa assim. Temos de capilarizar no território nacional o processo de decisão das questões políticas e o fazemos frequentemente: os congressos, os encontros nacionais, no PT, têm sido cada vez mais frequentes, sem pender os seus laços com São Paulo, tem que ser mais enraizado ideologica e politicamente em todo o território.

CARTA MAIOR: Mesmo com um paulista na presidência?

TARSO GENRO: Mesmo com um paulista. Porque não se trata da origem territorial do dirigente, basta que o dirigente compreenda a política nacional não apenas a partir do território do qual ele é originário. O presidente Rui Falcão, até pela grande caminhada que ele está fazendo no Brasil hoje, está muito mais antenado com o sentimento coletivo do Brasil em escala nacional que os dirigentes anteriores, e que tinham aquela posição não por malícia, ou por achar que São Paulo é superior ao resto do país, mas por uma transmissão quase automática das forças sociais e econômicas de São Paulo sobre todos os partidos, não apenas sobre o PT.
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Contraponto 6910 - "Celac reflete importância geolítica da Amárica Latina e do Caribe, diz presidenta Dilma"

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03/12/2011

Celac reflete importância geolítica da Amárica Latina e do Caribe, diz presidenta Dilma

Do Blog do Planalto - Sexta-feira, 2 de dezembro de 2011 às 22:57 (Última atualização: 03/12/2011 às 07:42:13)

Na sessão plenária da Cúpula de Caracas, presidenta Dilma celebra a criação da Celac e reforça a importância da integração regional. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Viagens internacionais

Chefes de Estado da América Latina e do Caribe deram hoje (2) um significativo passo para fortalecer a integração dos países da região. Reunidos em Caracas, na Venezuela, criaram a Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), que conta com a participação de 33 países. As exceções são os Estados Unidos e o Canadá.

Na primeira sessão plenária da 3a Cúpula de Caracas, a presidenta Dilma afirmou que a Celac é fato político e econômico de “grande envergadura”. A integração regional, reiterou, é condição para que as economias da América Latina e do Caribe enfrentem os desafios impostos pela crise internacional, mantenham suas taxas de crescimento acima das registradas pelo resto do mundo e preservem seus ciclos atuais de desenvolvimento.

“A Celac é a expressão da capacidade que nós tivemos de olhar para nós mesmos e perceber a importância estratégica e geopolítica desta região. O Brasil tem hoje uma economia sólida, diversificada e competitiva, mas nós não queremos olhar só para dentro do Brasil ou para a Europa e os países desenvolvidos. É chegada a hora de construir a nossa prosperidade em conjunto com todos os países da região.”

A Celac nasce da união da Cúpula da América Latina e do Caribe (Calc), voltada para a cooperação entre os países, com o Grupo do Rio, que teve forte atuação política desde os anos 1980. Segundo o Itamaraty, surge para contemplar a nova realidade internacional. Nesta, latino-americanos e caribenhos contribuem para resolver a crise que afeta com seriedade os países ricos. Além disso, a nova organização pode estimular a cooperação e fortalecer a integração regional.

Na sua contundente defesa da integração regional, Dilma Rousseff argumentou que são reais os temores de uma recessão global. E, na contramão do que vive hoje a Zona do Euro, “onde velhos modelos foram colocados em xeque pela especulação financeira”, os países da América Latina e do Caribe devem, segundo ela, perseguir a integração.

“Sabemos que a integração não é um processo de curto prazo ou um caminho de facilidades, mas é uma construção contínua e paciente, com respeito à pluralidade. Há que se respeitar a soberania e a independência das nações. Juntos seremos mais fortes. Juntos podemos crescer de forma solidária e mutuamente benéfica.”

Aos 33 chefes de Estado presentes à Cúpula de Caracas, a presidenta Dilma ressaltou o caráter pacífico da região.

“Nós também somos uma zona de paz, livre de armas de destruição em massa, que cultiva a via do entendimento e do consenso, e que não se deixa tentar por soluções impositivas de um país pelo outro. Aprendemos a lidar com nossas diferenças pelo caminho do diálogo.”

E numa demonstração de que o Brasil acredita na atuação da nova Celac, Dilma Rousseff anunciou que a Universidade Federal Latino-americana (Unila) estenderá as matrículas a todos os latino-americanos e caribenhos. Em cinco anos, disse, a Unila poderá ter dez mil alunos e 500 professores de toda a região.

Ouça abaixo o discurso da presidenta Dilma na primeira sessão plenária da Cúpula de Caracas ou clique aqui para ler a transcrição.



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Contraponto 6904 - "Foto inédita mostra Dilma em interrogatório em 1970"

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03/12/2011

Foto inédita mostra Dilma em interrogatório em 1970

Da Época - 03/12/2011

ÉPOCA publica na edição desta semana uma imagem da presidente Dilma Rousseff aos 22 anos, na sede da Auditoria Militar do Rio de Janeiro

A vida quer coragem (Editora Primeiro Plano), do jornalista Ricardo Amaral, chega às livrarias na primeira quinzena de dezembro. A foto abaixo, inédita, está no livro que conta a trajetória de Dilma Rousseff da guerrilha ao Planalto. Amaral, que foi assessor da Casa Civil e da campanha presidencial, desencavou a imagem no processo contra Dilma na Justiça Militar. A foto foi tirada em novembro de 1970, quando a hoje presidente da República tinha 22 anos. Após 22 dias de tortura, ela respondia a um interrogatório na sede da Auditoria Militar do Rio de Janeiro.

A RÉ DILMA Dilma na sede da Auditoria Militar no Rio de Janeiro, em novembro  de 1970. Ao fundo, os oficiais que a interrogavam sobre sua participação na luta armada escondem o rosto com a mão (Foto: Reprodução que consta no processo da Justiça Militar)

A RÉ DILMA

Dilma na sede da Auditoria Militar no Rio de Janeiro, em novembro de 1970. Ao fundo, os oficiais que a interrogavam sobre sua participação na luta armada escondem o rosto com a mão (Foto: Reprodução que consta no processo da Justiça Militar)


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PITACO DO ContrapontoPIG

Vemos aí o retrato fiel da coragem contra a covardia.

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Contraponto 6903 - "Aécio Neves, uma grande mentira"

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02/12/2011

Aécio Neves, uma grande mentira

02/12/2011 007BONDeblog -

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Contraponto 6902 - "Na Venezuela, Celac dá início ao plano de consolidar soberania e integração latino-americana "

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02/12/2011

Na Venezuela, Celac dá início ao plano de consolidar soberania e integração latino-americana

Do Opera Mundi - 18h59 |
João Novaes | Redação

Primeira reunião de cúpula da nova entidade regional conta com a presença de 32 líderes em Caracas

“Pela primeira vez na história, teremos uma organização para a nossa América (Latina). Se ela tiver êxito, este será o maior acontecimento nos 200 anos de semi-independência que tivemos até agora”. Com esse discurso, o presidente de Cuba, Raúl Castro, que se encontra na Venezuela, classificou a importância da primeira reunião de cúpula da Celac (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos), que ocorre nesta sexta-feira (02/12), em Caracas. Idealizada em 2010 para fazer um contraponto à OEA (Organização dos Estados Americanos), o grupo só não contará com a presença de Estados Unidos e Canadá no continente.

Efe


Os 33 representantes sul-americanos durante cerimônia de instalação da Celac, em Caracas


Nesta reunião, a Celac contará com a presença de 32 dos 33 chefes de Estado e governo do continente – a exceção é o presidente peruano Ollanta Humala, que precisou ficar no país para negociar uma solução pacífica para o impasse envolvendo movimentos populares contra a construção de um projeto de mineração em Cajamarca. Nesta sexta-feira, um protesto deixou ao menos vinte pessoas feridas.

Amizade

Principal idealizador do grupo, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, saudou os líderes presentes, e fez uma homenagem especial à presidente argentina Cristina Kirchner: lhe presenteou com um quadro feito por ele mesmo do ex-presidente Néstor Kirchner, morto em 2010. ”Foi o quadro mais bonito que fiz em minha vida”, disse à Cristina, que se emocionou com a foto de seu ex-marido.

Efe


Chávez (esq.), no momento em que mostra seu quadro à presidente argentina Cristina Kírchner


Também em clima amistoso, a presidente brasileira Dilma Rousseff brincou com o líder venezuelano, dizendo que a careca de se antecessor, Luiz Inácio lula da Silva, não era tão bonita quanto a dele. Tanto Lula quanto Chávez tiveram que submeter-se a sessões de quimioterapia. Em outubro, Lula foi diagnosticado com um câncer de laringe. Já Chávez trata de um câncer desde junho, fator que postergou a reunião da Celac por alguns meses.

Trabalhos

Na última quinta-feira, o chanceler venezuelano Nicolás Maduro coordenou a primeira reunião de ministros de relações exteriores do grupo, e afirmou ter avançado em pelo menos 18 pontos de interess comum dos países-membros. “Quase um recorde”, comemorou.

Ricardo Suckert/Presidência


A presidente Dilma Rousseff brinca com a careca de Chávez em coletiva de imprensa


O objetivo da nova associação latino-americana é fomentar a autonomia e integração da região, maior exportadora de alimentos e uma das principais reservas de gás e petróleo no mundo. Assim, a Celac passa a substituir oficialmente o Grupo do Rio e a Calc (Cúpula da América Latina e do Caribe).

A reunião de cúpula da organização se encerrará neste sábado (03/12).

Repercussão

O presidente do Equador, Rafael Correa, o encontro representa a oportunidade de ter um fórum mais próprio e sem “as cisões causadas pela América Anglo-Saxônica”. “Temos de nos defender de sermos acusados de ditadores e tiranos. Os EUA não reconhecem essa convenção, as contradições são muito profundas”, disse o líder equatoriano.

Felipe Calderón, presidente do México, disse que a associação deverá fortalecer a independência democrática dos estados-membros. “Hoje continuamos um longo processo nunca visto, onde pretendemos forjar a prosperidade para todos os seus habitantes”.

Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, lembrou que a data da criação oficial do grupo não foi por acaso: ”Foi precisamente em 2 de dezembro de 1883 (há 228 anos) que os Estados Unidos proclamaram a Doutrina Monroe, uma política expansionista para dominar a América Latina. Mas precisamente hoje, também em um2 de dezembro, estamos colocando fim a esta doutrina”.

”O sonho de Simon Bolívar e Augusto Sandino se faz realidade”, disse o líder nicaraguense. Ortega lembrou que, além dos dois países anglo-saxões, apenas um outro povo nas Américas na faz parte do grupo: Porto Rico, oficialmente um território não-incorporado aos EUA. Ortega se referiu ao fato de, em 1824, Bolívar ter feito uma convocação para a integração dos países da região em um congresso no Panamá.

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Contraponto 6901 - "Santayana sobre o Irã e a Síria. Atrás da Europa, os EUA"

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02/12/2011

Santayana sobre o Irã e a Síria. Atrás da Europa, os EUA

Do Conversa Afiada - Publicado em 02/12/2011


O Conversa Afiada reproduz texto de Mauro Santayana no JB:

Novo movimento na escalada da guerra

Mauro Santayana

“A Primeira Guerra Mundial foi um trágico e desnecessário conflito” – assim se abre o excelente estudo do historiador britânico John Keegan sobre aquele confronto. Todas as guerras são uma só e permanente, iniciada não se sabe quando. Os raros períodos de paz têm sido os das tréguas impostas pela exaustão.

Em 1922, desmobilizado depois da derrota de seu país, o cabo Adolfo Hitler conclamaria a Alemanha à desforra: “não é possível que dois milhões de alemães tenham sido mortos em vão. Não podemos perdoar, nós queremos vingança”.

O confronto de 1914-1918 teve sua origem em outra guerra ocorrida quatro décadas antes, entre a França e a Alemanha. Como a mentira e a provocação são sempre instrumentos do poder, a guerra de 1870 fora provocada pela jogada de Bismarck, falsificando um telegrama que narrava encontro entre o embaixador da França, Conde Benedetti, e o rei Guilherme I, no balneário de Bad Ems. A conversa ocorrera em termos corteses, com o soberano alemão se negando a aceitar uma reivindicação da França. Bismarck mudou os termos do telegrama, afirmando que o embaixador e o rei se haviam insultado mutuamente, chegando quase aos bofetões. Divulgado o texto fraudado, a opinião pública dos dois paises exigiu a guerra – e a França caiu na armadilha, declarando-a em primeiro lugar, em julho de 1870.

A Alemanha em pouco tempo levou suas tropas a Paris. Bismarck se apossou logo da Alsácia e da Lorena, com a desculpa de que necessitava proteger-se no futuro contra o inimigo vencido. Lord Salisbury, depois primeiro ministro da Inglaterra, fez o alerta contra tal pretensão, em artigo publicado no calor dos fatos, em outubro de 1870, na famosa Quarterly Review. Escreveu o estadista que “as outras nações da Europa são levadas a deduzir que devem temer mais a intoxicação de uma Alemanha triunfante, do que uma França diante da violência e da Revolução. Uma Alemanha pacífica é apenas conversa de diplomatas. Nada existe na História para justificar semelhante situação”.

“Dia virá – diz Salisbury em outra passagem – no qual os sonhos ambiciosos da Alemanha virão chocar-se, em seu caminho, com um povo suficientemente forte para por os seus ressentimentos à prova. Esse dia será, para a França, o da restituição e o da revanche”.

Por duas vezes, em 1918 e em 1945, a Alemanha pagou pelas suas ambições. Na Primeira Guerra Mundial, a aliança entre a França e a Inglaterra, com a contribuição norte-americana, levou-a ao chão. Os sentimentos de revanche, capitalizados por Hitler, conduziram-na novamente ao desvario. Desta segunda vez, não obstante a brava resistência da Grã Bretanha e a ação interna dos patriotas dos países ocupados, o povo mais forte foi o da União Soviética. Quem derrotou a Alemanha foi o Exército Vermelho, a partir da heróica reviravolta de Stalingrado, até sua chegada a Berlim.

A Europa atual, em lugar de ter aprendido com o passado, parece ter perdido de vez a lucidez. Não há mais Salisbury, Disraeli, ou Churchill, entre os ingleses, mas pigmeus, como David Cameron e seus antecessores imediatos. No resto da Europa, o cenário é o mesmo. Incapazes de governar, posto que desprovidos de inteligência política, os simulacros de governantes entregam o poder aos banqueiros e a consultores empresariais. Como comediantes, lêem discursos que correspondem aos interesses dos reais donos do poder, e se reúnem com seus pares, fazendo de conta que lideram: não passam de meros delegados dos grandes banqueiros.

Ao mesmo tempo, cresce, na França e na Inglaterra, mas também na Itália e na Espanha, uma tendência a retomar, assimilar e assumir o espírito germânico de conquista e domínio, tão bem identificado por Salisbury há 140 anos. É assim que podemos ver a mobilização acelerada de Paris e Londres, sob o patrocínio norte-americano, contra o Irã e a Síria. Não é a violação dos direitos humanos, que eles mesmos desrespeitam em seus países, a movê-los – mas a hipótese, cada vez mais provável, de que as manifestações de inconformismo dentro de suas próprias fronteiras passem do protesto à revolução.

A deplorável e estranha invasão da embaixada britânica em Teerã, não era de interesse de Ahmadinejad. O governo inutilmente pediu desculpas e prometeu punir os responsáveis – mas isso não bastou. O tom irado e belicoso subiu nas chancelarias da Europa Ocidental. Repete-se a mesma história: a fim de obter a coesão interna, diante da insatisfação crescente de seus povos contra o neoliberalismo, apela-se para o falso patriotismo e a xenofobia. A guerra de agressão pode ser o passo seguinte.

É nesse cenário que vemos a alteração geopolítica do mapa mundial, com suas perspectivas e prováveis conseqüências. Os grandes países emergentes – China, Rússia (que reemerge) Brasil e Índia – deixaram claro que não admitem a intervenção na Síria, nem no Irã, fora dos mandamentos da Carta das Nações Unidas. Os russos mantêm uma base militar no porto sírio de Tartus – equipada com foguetes de defesa aérea de alta eficiência – e naves militares bem equipadas para uma guerra no Mediterrâneo. Os chineses têm também navios de guerra patrulhando aquele grande mar interior.

Os norte-americanos, em sua velha insensatez, parecem desafiar Moscou, ao anunciar que deixarão de cumprir certas cláusulas do Tratado das Forças Militares na Europa, no que se refere à Rússia. Esse tratado reduzia a presença de exércitos e armas convencionais no Continente, e o aviso prévio e recíproco entre Washington e Moscou de seu deslocamento militar na região. O tratado foi cumprido rigorosamente pelos russos, que fizeram recuar grande parte de suas tropas para além dos Urais.

Um ataque à Síria exigiria neutralizar o poder russo na base de Tartus, e é quase certo que haveria retaliação. Por outro lado, o Irã está muito perto da Rússia, e uma ação da Otan naquele país ameaçaria diretamente a segurança de Moscou.

Essa razão levou os Brics a aconselhar negociações com o governo de Teerã, em busca da paz na região, e a condenar qualquer iniciativa que viole os princípios da Carta das Nações Unidas. Um desses princípios é o da autodeterminação dos povos. O entendimento desses países, no encontro de Moscou, revela uma entente bem clara entre a China, a Rússia e a Índia, no espaço eurasiático, com todo o seu poderio militar (incluídos os arsenais atômicos), ao lado do Irã e da Síria.

A declaração oficial da diplomacia russa sobre a ameaça à Síria não poderia ter sido mais explícita, quando afirma que “ a situação dos direitos humanos em um ou em outro país pode ser, evidentemente, objeto de preocupação internacional, mas em nenhum caso se pode admitir que questões de direitos humanos sejam usadas como pretexto para qualquer tipo de intervenção nos assuntos internos de estados soberanos, como se vê hoje, no caso da Síria. Cabe aos sírios decidir sobre o próprio destino, sem qualquer ‘empurrão’ vindo do exterior. A Rússia de modo algum aceita cenário que inclua a intervenção militar na Síria”.

Por detrás da Europa, há a ação permanente dos Estados Unidos, a proteger Israel e a instigar Londres e Paris à agressão, na esperança de, como das outras vezes, impor sua “paz” ao mundo. Uma paz que, em 1945, lhes trouxe o controle das matérias primas mundiais, entre elas, o petróleo, e a cômoda situação de únicos emitentes de moeda no planeta. (Grifo do ContrapontoPIG)

Estamos à margem de um conflito que, se ocorrer, será tão trágico, ou mais trágico, do que os outros. Enfim, a paz sempre depende da vontade de que haja paz para todos – com equidade e justiça.

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Contraponto 6900 - "Dilma e seus recomeços"



Do Valor Econômico

Dilma e seus recomeços

Por Raymundo Costa | Valor Econômico

BRASÍLIA - Quando criança, Dilma Rousseff pedalava uma bicicleta amarela e queria ser bailarina ou entrar para o corpo de bombeiros, profissão em que meninas não costumavam pensar. A Presidência da República nunca esteve em seus sonhos, infantis ou adultos. Ela nunca imaginou que seria a primeira mulher a ocupar o cargo público mais importante do país. E, no entanto, em outras reviravoltas e recomeços de sua vida, foi exatamente o que aconteceu nas eleições presidenciais de 2010.

Até então, Dilma nunca havia disputado um único voto. Pouco ou quase nada se conhecia do passado dessa mineira de Belo Horizonte, dois casamentos, uma filha, Paula, e 64 anos a serem completados no dia 14. Mesmo sua passagem por dois dos ministérios mais importantes do governo Lula, o de Minas e Energia e o da Casa Civil, não foi suficiente para dar conhecimento do perfil cheio da ministra escolhida por Luiz Inácio Lula da Silva para sucedê-lo.

Roberto Stuckert Filho

Tranquila, Dilminha, tranquila. Você é forte, vai conseguir”, disse Lula ao saber da doença que poderia afastá-la da eleição

O livro “A Vida Quer é Coragem – A Trajetória de Dilma Rousseff”, escrito pelo jornalista Ricardo Batista Amaral, ex-repórter do Valor, a ser lançado no dia 15 pela editora Primeira Pessoa, é uma contribuição preciosa para dissipar a névoa que ainda encobre boa parte da biografia da primeira mulher a presidir o Brasil. Amaral trabalhou no comitê eleitoral de Dilma. Espectador privilegiado da campanha, completou mais tarde suas anotações e memórias ouvindo o depoimento de mais de 50 pessoas, lendo o que se escreveu sobre o período e revendo entrevistas concedidas por Dilma para a campanha e ao cineasta Silvio Tendler.

A Dilma que emerge do relato de Amaral é uma mulher da sua época, a “geração de 68”. Uma geração que viveu os seus melhores anos num período de intensa efervescência política e cultural, mas também regida pelos fuzis. Engajada na luta armada contra o regime, Dilma ficou presa durante dois anos e dez meses. Os primeiros 22 dias na cadeia foram de tortura. Dilma se considera uma sobrevivente da ditadura. E esse nem foi seu primeiro recomeço.

Só a própria Dilma pode testemunhar sobre a extensão da perda que sentiu com a morte do pai, no ano em que faria seus 15 anos: “Quando meu pai morreu, perdi o meu super superego”.

A vida recomeçou mais uma vez para Dilma no início de 2009, quando ela já era oficiosamente a candidata de Lula à sucessão em 2010. Lula nunca a consultou sobre o assunto, mas no fim de 2008 ela já entendera que era a eleita para concorrer. Então, reuniu a filha Paula e o ex-marido Carlos Araújo num pequeno restaurante italiano do bairro da Tristeza, em Porto Alegre, para confirmar a eles o que para o país todo era especulação.

Araújo observou que ela enfrentaria um dos políticos mais experientes do país, o tucano José Serra. Dilma falou com segurança: “Quem vai para a campanha com um peso sobre os ombros é o adversário, não sou eu”, disse ela ao ex-marido e à filha. “Eu vou com o sangue doce.”

Naquele Natal, Dilma mal podia imaginar que poucos meses depois reuniria os mesmos personagens, no mesmo restaurante, para dar uma notícia que poderia provocar outra reviravolta em sua vida: ela tinha um linfoma, um tipo de câncer nos gânglios. Segundo os médicos, como a doença fora diagnosticada no início, o tratamento tinha grande chance de sucesso. Mas seria doloroso e incômodo. Era preciso avisar Lula o quanto antes, pois, se fosse necessário trocar o candidato, o presidente precisaria de tempo para refazer sua estratégia.

Dilma encontrou-se com Lula no dia 24 de abril, na base aérea de Brasília. O presidente voltava de uma viagem a Buenos Aires. “ Tranquila, Dilminha, tranquila. Você é forte, vai conseguir.” Lula escolheu e elegeu Dilma no rastro de sua imensa popularidade, mais de 80%, segundo as pesquisas de opinião. No entanto, uma eleição dada como certa chegou a ser considerada perdida quando passou para o segundo turno.

O sociólogo Marcos Coimbra, do Instituto Vox Populi, subestimara o crescimento da candidata Marina Silva na reta final da campanha. Dilma não culpou ninguém pelo excesso de otimismo. No primeiro fim de semana após a eleição, a pesquisa interna Vox Populi detectava perda de votos da candidata. Francisco Meira, sócio de Marcos Coimbra no instituto, foi ao encontro de Dilma. Ela estava em São Paulo preparando-se para o primeiro debate do segundo turno.

Roberto Stuckert Jr.

Lula nunca a consultou sobre o assunto, mas no fim de 2008 ela já entendera que era a escolhida para concorrer à Presidência

Com lágrimas nos olhos, Meira disse aos comandantes da campanha eleitoral: “Perdemos essa eleição”. Foi enviado de volta a Belo Horizonte, sede do Vox, sem falar com Dilma. O marqueteiro de Dilma, João Santana, havia elaborado uma estratégia de campanha pela qual iria usar muito a imagem de Lula no primeiro terço de campanha e, depois, começaria o “desmame” da candidata. Lula só ficou sabendo da estratégia num comício em Belém, no dia 14 de outubro, já começado o segundo turno. Só então entendeu um telefonema que recebera mais cedo de Sérgio Cabral, governador reeleito do Rio de Janeiro.

Um analista de pesquisas dissera ao governador que ou o presidente voltava à campanha ou Dilma perderia a eleição. Havia na campanha quem compartilhasse do mesmo sentimento. Lula não perdeu tempo. Ao descer do palanque, cobrou do então presidente do PT, José Eduardo Dutra: “Que negócio é esse de desmamar”? O presidente não parecia disposto a ouvir explicações “Quantos milhões de votos você tem, seu João [Santana]? E você, seu [Antonio] Palocci? E você? E você?”

A campanha, que entrara no vácuo do discurso religioso e moralista, passou a ser instigante politicamente, confrontando-se o Brasil de Lula e o Brasil de Serra-FHC. Mais: o candidato tucano pensava em privatizar o pré-sal?

Em casa, a menina Dilma sempre recebeu estímulos à leitura. Primeiro, os adultos liam para ela. Dilminha, como era chamada, considerou uma vitória quando leu sem ajuda a coleção infantil de Monteiro Lobato. Quando tinha 12 anos, o pai, Pedro Rousseff, lhe deu “O Germinal”, de Émile Zola. Dilma ficou impressionada com as histórias dos mineiros de carvão na França do século XIX. Foi de Zola a Dostoiévski, que teve dificuldade para digerir, e dele para Honoré de Balzac. Aos 18 anos tinha lido praticamente toda a “Comédia Humana”. Livros de Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda e Celso Furtado foram companheiros de juventude.

Dilma logo estava em contato com a elite do movimento estudantil de Belo Horizonte, a um passo de organizações revolucionárias como a Polop, na qual se engajou, até os grupos de luta armada. O livro revela uma Dilma menos militarista (não se faz revolução sem fuzil) e mais política (fuzil sem política é inconsequência), como se dizia à época.

O livro reafirma que Dilma não participou do roubo do cofre do político paulista Ademar de Barros, no qual estavam guardados US$ 2 milhões — dinheiro da corrupção. Mas ela e uma colega ajudaram a trocar parte dos dólares — US$ 1 mil cada uma. A narração do episódio do roubo do cofre de Ademar, que ficava na casa de sua amante, revela um detalhe pitoresco.

Segundo Carlos Araújo, “a oportunidade de trocar uma grande quantia [dos dólares] viria logo depois: um emissário do Banco Bradesco disse a um de nossos militantes que eles queriam comprar nossos dólares, pagando ágio de 20%. Fiquei impressionado, os banqueiros chegaram a nós antes da repressão; era o capital farejando o capital”.

Na clandestinidade, Dilma dividiu uma quitinete no Rio de Janeiro com Iara Iavelberg, uma lenda na esquerda, a companheira de Carlos Lamarca. Iara cuidava da aparência e foi ela quem convenceu Dilma a cortar “essa juba fora de moda”, no salão então badalado de Carlos Jambert, onde serviam champanhe às clientes. “Você é uma feminista, Iara, a primeira que conheço”, disse-lhe Dilma. Colegas de Dilma lembram das vesperais dançantes em Belo Horizonte. A presidente era sempre muito requisitada (à época, os rapazes tiravam as moças para dançar). Também “paquerava” bastante.

O estilo direto já era conhecido na época da luta armada. Dilma casou-se com um colega de organização, Claudio Galeno de Magalhães. A clandestinidade os separou. A discussão sobre a fusão da VPR com a Colina, organização na qual Dilma atuava, levou-a a Porto Alegre. Ela encontrou-se com Galeno e “abriu a questão” sobre o casamento. Separaram-se.

“Estivemos juntos enquanto durou a paixão. Quando acabou, nos separamos, sem rancores, e mantivemos nossa grande amizade”, contou Galeno. Em janeiro de 1970, ele sequestrou um avião da antiga Cruzeiro do Sul e desembarcou em Havana, capital dos revolucionários do continente. Dilma já namorava Carlos Araújo.

A franqueza de Dilma é destacada em outros dois episódios relatados no livro. A presidente da República torceu, às claras, pela seleção brasileira de futebol que disputou a Copa do Mundo de 1970; boa parte da esquerda, à época, achava que a vitória da seleção ajudava a legitimar o regime ditatorial. Ela também defendeu outra decisão dos generais: a ampliação do mar territorial brasileiro de 12 para 200 milhas náuticas. Ao contrário de seus companheiros, ela entendia que se tratava de uma questão de soberania nacional.

Após receber a notícia do câncer, num telefonema do médico Roberto Kalil Filho, a presidente estava numa reunião em Belo Horizonte. Ao desligar o celular, limitou-se a dizer: “A vida não é fácil”. E voltou para a reunião com empresários mineiros.

(Raymundo Costa/Valor Econômico)

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Contraponto 6899 - "Presidenta Dilma tem reuniões bilaterais com Cristina Kirchner e Evo Morales"


02/12/2011

Presidenta Dilma tem reuniões bilaterais com Cristina Kirchner e Evo Morales

Do Blog do Planalto - Sexta-feira, 2 de dezembro de 2011 às 16:01

As presidentas do Brasil, Dilma Rousseff, e da Argentina, Cristina Kirchner, reúnem-se em Caracas. Ainda hoje elas participam da 3a Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da América Latina e do Caribe. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Viagens internacionais

Em Caracas, na Venezuela, para a 3a Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da América Latina e do Caribe (Calc), a presidenta Dilma Rousseff teve hoje (2) encontros bilaterais com os presidentes da Bolívia, Evo Morales, e da Argentina, Cristina Kirchner.

Nesta tarde, os três participam da cerimônia de abertura da 3a Calc que marca também o início da Cúpula da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac). Com a participação de 33 países, este novo organismo internacional tem como foco a cooperação intrarregional, a concertação política e a projeção da região no cenário internacional.

Ontem, na declaração à imprensa, a presidenta Dilma defendeu a integração regional como “motor de desenvolvimento” da América Latina e do Caribe. Segundo ela, os países da região podem alcançar papel estratégico no cenário internacional. Sobre a criação da Celac, a presidenta ressaltou:

“Nossos países estão mostrando essa vocação de criar um futuro comum que une toda nossa região, sem ingerências de qualquer natureza.”

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Contraponto 6898 - "Enquanto José Serra critica... A diretora do FMI diz que o Brasil é país mais protegido contra crise"

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02/12/2011

Enquanto José Serra critica... A diretora do FMI diz que o Brasil é país mais protegido contra crise

Ilustração do ContrapontoPIG



F de fome, M de miséria e I de inflação. Foi dessa forma, e por duas décadas, que os ex Presidente Lula se referiu ao Fundo Monetário Internacional. Na manhã da última terça-feira 13, contudo, Lula mandou anunciar que decidiu quitar a dívida do País com o FMI.

Dezembro de 1998... Fernando Henrique Cardoso: FMI empresta ao Brasil 18 bilhões de Dólares, 5 Bi de imediato, fazendo crescer a nossa dívida externa.

Dezembro de 2011: FMI chega ontem ao Brasil de pires na mão.


Em visita ao Brasil, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, afirmou que o país está mais protegido do que outras nações contra a crise econômica na Europa.

Ela se encontrou, em Brasília, com a presidente Dilma Rousseff e, depois, com o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Lagarde elogiou a gestão da economia brasileira. Mantega disse que o Brasil deve colaborar com recursos adicionais para o fundo, desde que outros países façam o mesmo.

Mantega diz que prefere “ser credor do que devedor”

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, não resistiu e brincou com a diretora-gerente do Fundo, ao fechar a conferência de imprensa dada pelos dois:

Desta vez o FMI não veio dar dinheiro, mas pedir dinheiro. Prefiro ser credor do que devedor.

No tempo de FHC era assim....

O Brasil, à mercê de más gestões e malversação do dinheiro público, tornou-se um tomador assíduo dos empréstimos do FMI e do Banco Mundial. O FMI emprestava dólares, mas impunha medidas de arrocho fiscal, de corte de salários e aposentadorias e privatizações em massa....


Missões vinham a Brasília e éramos obrigados a ouvir conselhos e,críticas aos modelos vigentes no País.


No governo FHC o Brasil não teve crédito. No governo Lula, o País foi reconhecido como investment grade pelas três maiores agências de classificação de risco internacionais. Ou seja, deixamos de ser um país em que o capital externo só entrava para especular para ser um país de investimentos.

F de fome, M de miséria e I de inflação. Foi dessa forma, e por duas décadas, que Luiz Inácio Lula da Silva se referiu ao Fundo Monetário Internacional. Em 2005, Lula mandou anunciar que decidiu quitar a dívida do País com o FMI.

Numa tacada, US$ 15,5 bilhões, e dois anos antes do prazo combinado. Havia quatro parcelas trimestrais que venceriam ao longo de 2006, US$ 7 bilhões no total, com juros de 4,5% ao ano. Outros quatro pagamentos, pendurados para 2007, somavam US$ 8,4 bilhões. Com o Banco Central de posse de US$ 67,1 bilhões em reservas internacionais, toda a dívida foi pagaa.

O próprio Lula veio a público explicar. “Não precisávamos do dinheiro”, disse. “É melhor devolver o dinheiro que o governo anterior pegou emprestado”, alfinetou, omitindo o fato de que, em 2003, ele renovou o acordo deixado por FHC.

A decisão de Lula foi inédita numa história de 51 anos do Brasil com a instituição. Nesse tempo, o País já assinou 17 acordos com o FMI – 14 descumpridos. O ex-ministro Delfim Netto, sozinho, assinou 11 cartas de intenções para o governo do general João Figueiredo, nenhuma delas cumprida. O ex-presidente José Sarney, decretou moratória.

Foi justamente o governo do PT o responsável pela guinada e pelo exemplo de bom pagador. O plano de antecipar o pagamento ao FMI vinha sendo acalentado há cinco meses por Antônio Palocci, da Fazenda, e Henrique Meirelles, do Banco Central. Para isso, o BC vinha comprando grandes quantidades de dólares para reforçar as reservas, que chegaram a quase US$ 70 bilhões.

Analistas de mercado não conseguiam explicar em que, afinal, o BC iria aplicar tanto dinheiro. A resposta veio no início da tarde de terça-feira. A decisão surpreendeu até mesmo os assessores mais próximos de Meirelles.

Outra intenção é conseguir uma melhora na classificação de risco-país.

No mercado financeiro, o anúncio surtiu efeito. A Bovespa subiu 1,36% e o risco recuou para 311 pontos, o menor nível desde 1994.

US$ 51,6 bilhões foi as reservas internacionais do País, mesmo após a quitação da dívida com o FMI