segunda-feira, 3 de junho de 2013

Contraponto 11.375 - "Para OIT, Brasil é exemplo de criação de emprego"

 

03/06/2013

 

Para OIT, Brasil é exemplo de criação de emprego

 

Do Esquerdopata - 3/6/2013


Brasil 247

Relatório da Organização Internacional do Trabalho aponta avanço no mercado de trabalho dos países em desenvolvimento. Brasil é destacado pelo crescimento de 16% da classe média entre 1999 e 2010 que, segundo a OIT, se deve ao fortalecimento do salário mínimo e do Programa Bolsa Família. Estudo conclui que, por outro lado, os países desenvolvidos estão em uma situação que pode se tornar "preocupante", com maior desigualdade de renda. Expectativa é que haja 208 milhões de desempregados no mundo em 2015.
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Carolina Sarres
Repórter da Agência Brasil
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O contexto econômico mundial e seu impacto sobre o mercado de trabalho tem registrado evolução positiva nos países em desenvolvimento como o Brasil, constatou a Organização Internacional do Trabalho (OIT) no relatório O Mundo do Trabalho 2013: Reparando o Tecido Econômico e Social, divulgado nesta segunda-feira (3). Os países desenvolvidos, por outro lado, estão em uma situação que pode se tornar "preocupante", a despeito da recuperação econômica desde 2009, ano em que começou a crise financeira internacional. De acordo com o documento, na América Latina e no Caribe, registrou-se em 2012 taxa de emprego, em média, 1% superior à de 2008, ano anterior à crise. Na região, essa taxa atingiu 57,1% ao fim de 2012.
"Nos países em desenvolvimento, o desafio mais importante é consolidar os recentes progressos na redução da pobreza e da desigualdade", informou, em nota, o coordenador do relatório, o diretor do Instituto Internacional de Estudos de Trabalho da OIT, Raymond Torres. A organização citou o estabelecimento de um piso salarial – por meio da fixação de salários mínimos – e de políticas de proteção social como essenciais para a situação atual desses países.
Sobre o Brasil, um dos destaques da organização no relatório foi o crescimento de 16% da classe média entre 1999 e 2010. Segundo a OIT, isso ocorreu devido ao fortalecimento do salário mínimo e do Programa Bolsa Família. Essas duas políticas, para a organização, explicam a redução da pobreza no país e o fortalecimento da economia nacional. Como desafios, a OIT citou a redução dos postos informais de trabalho, o aumento da produtividade, o aumento dos investimentos e o crescimento dos salários acima da inflação.
Em relação aos países desenvolvidos, constatou-se que a desigualdade de renda da população aumentou nos últimos dois anos. A principal justificativa foi o crescimento dos níveis de desemprego no mundo. A expectativa é que os atuais 200 milhões de desempregados cheguem a 208 milhões em 2015. Na última semana, a União Europeia registrou 26,5 milhões de desempregados.
"A situação em alguns países europeus, em particular, está começando a forçar o seu tecido econômico e social. Precisamos de uma recuperação global, focada em empregos e investimentos produtivos, combinada com melhor proteção social para os grupos mais pobres e vulneráveis", disse, em nota, o diretor-geral da OIT, Guy Ryder.
Para a organização, outro fator que atrasa a recuperação da geração de empregos nos países desenvolvidos é a falta de investimentos possivelmente gerados a partir de lucros. No último fim de semana, houve manifestações em mais de 100 cidades europeias contra políticas de austeridade. Segundo a OIT, apenas um terço dos investimentos globais em 2012 foram feitos por países de alta renda. Os países emergentes, em comparação, foram os responsáveis por mais de 47% dos investimentos no mesmo ano.
"Há uma clara relação entre o investimento e o emprego. Melhorar a atividade de investimento é crucial para permitir que as empresas aproveitem as novas oportunidades para se expandir e contratar novos funcionários", explicou o coordenador do relatório, Raymond Torres.
Como forma de reduzir os impactos negativos da conjuntura de fraco desempenho econômico e escassez de postos de trabalho, a OIT sugere que sejam eliminadas as crenças negativas sobre as intervenções dos governos no crescimento econômico e a capacidade que elas têm de diminuir a má distribuição de renda entre a população. Outro ponto importante, de acordo com a organização, é o estímulo ao diálogo social entre empregados, empregadores e o governo para gerar melhorias no mercado de trabalho.
Edição: Graça Adjuto

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Contraponto 11.374 - "Bolsa Família é início de reparação histórica, diz socióloga"


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03/06/2013 

 

Bolsa Família é início de reparação histórica, diz socióloga





Por Marco Antonio L.

Do Sul 21

“Bolsa Família é começo de reparação histórica”, diz socióloga Walquíria Leão Rego

Rachel Duarte

Dos rincões miseráveis do Brasil emergiram as vozes de mais de uma centena de mulheres que foram ouvidas por uma pesquisadora paulista preocupada em compreender os impactos do programa Bolsa Família na vida dos 5,4 milhões de beneficiários.  Ainda alvo de críticas por vários setores, o programa de transferência de renda é considerado pela socióloga Walquíria Leão Rego como um começo de reparação social do estado brasileiro para com os mais pobres. “Estas pessoas saíram da miséria absoluta, os índices de mortalidade infantil ficaram mais baixos e isto tem impacto fundamental para um país que se diz minimamente democrático.

Conviver com a miséria como o Brasil conviveu por tantos séculos, mesmo depois do fim do regime militar, deveria ser um processo que mexe com todos os brasileiros”, falou em entrevista aoSul21.
Professora do programa de pós-graduação em Sociologia da Unicamp, Walquíria Leão Rego fez a pesquisa por conta própria, sem apoio financeiro da Unicamp ou do governo federal. Financiou as viagens do próprio bolso, agendando as excursões em seus períodos de férias. A seu lado, em parte da pesquisa, esteve o filósofo italiano Alessandro Pinzani, que leciona na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).  “A qualidade de vida destas pessoas melhorou e elas não estão mais adoecendo. Esta afirmação é algo constatada não só na minha pesquisa, que não é quantitativa, mas pelo IPEA (Instituto de Pequisa Econômica e Aplicada), IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), ONU (Organização das Nações Unidas), PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), todos constatam a mesma coisa”, afirma.

Concebida com a finalidade de averiguar se, como e em que medida a nova renda e sua regularidade afetam a vida cotidiana das famílias e, em particular, das mulheres, a pesquisa completa estará disponível no livroVozes do Bolsa Família, a ser lançado pela Editora Unesp no dia 11 de junho. “A remuneração proporciona uma liberdade pessoal. Esta é uma das importantes funções do beneficio ser em dinheiro. É diferente se fosse uma cesta básica, onde já é determinado o que a pessoa irá fazer com o recurso e o que ela irá comer”, explica a socióloga.

Na visão da professora, os ataques ao programa federal criado pelo governo Lula são feitas por setores específicos da sociedade e com base em conceitos preconceituosos. Ela não acredita em uso político do seu livro. “Este recente episódio do boato que o programa iria acabar e que levou centenas de pessoas aos bancos em poucas horas, mostra bem para os críticos o tamanho da necessidade do Bolsa Família. Por isso, acho pouco provável que alguém queira brincar com isso”, fala.

A socióloga Walquíria Leão Rego, autora de Vozes do Bolsa Família | Foto: Unicamp


Sul21 – O Bolsa Família completa 10 anos em 2013, alcançando perto de 5,4 milhões de pessoas e é reconhecido internacionalmente como o maior programa de combate à pobreza. Qual é o impacto real deste programa no desenvolvimento do país, porque ao mesmo tempo, ele segue sendo alvo de críticas?

Walquíria Leão Rego – Criticado por quem? Temos que nos perguntar a quem interessa falar mal deste programa. O principal impacto é perceptível. Uma parte significativa da população da chamada ‘extrema pobreza’ deixou de estar nesta condição. Isto não é pouco. É algo muito importante. Estas pessoas saíram da miséria absoluta, os índices de mortalidade infantil ficaram mais baixos e isto tem impacto fundamental para um país que se diz minimamente democrático. Conviver com a miséria como o Brasil conviveu por tantos séculos, mesmo depois do fim do regime militar isto fez parte do país por muitos anos, deveria ser um processo que mexe com todos os brasileiros. A imprensa, a academia e a sociedade em geral deveriam ser tocadas com isso. O impacto é muito grande para as pessoas que passaram a ter um rendimento regular, apesar de pequeno. É um dinheiro que eles podem contar todos os meses. Eles aprendem a conviver com esse recurso e buscam querer viver melhor.  Este programa é o começo de uma reparação por parte do estado brasileiro.

“Este argumento de que eles não saberiam administrar [o dinheiro] é preconceito com os pobres” | Foto: Roberto Setton

Sul21– Os usuários conseguem administrar a liberdade de ter uma fonte fixa de renda, o que para muitos deve ser algo inédito?

Walquíria Leão Rego - Administram muito bem. Este argumento de que eles não saberiam administrar é preconceito com os pobres. Quem está endividada é a classe média e os ricos, não os pobres. Quando falo em pobres, me refiro aos cadastrados no Bolsa Família, porque existem pobres que estão na categoria de pobres e não estão vivendo na extrema pobreza. Eles administram muito bem os recursos e em dez anos aprenderam a gerir as finanças como qualquer outra pessoa aprende. A qualidade de vida destas pessoas melhorou e elas não estão mais adoecendo. Esta afirmação é algo constatado não só na minha pesquisa, que não é quantitativa, mas pelo IPEA (Instituto de Pequisa Econômica e Aplicada), IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), ONU (Organização das Nações Unidas), PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), todos constatam a mesma coisa. Isto deveria estar nas manchetes dos jornais do país. Demonstrar que este programa, mesmo oferecendo um auxílio pequeno, está tornando as pessoas cidadãos de fato. Este programa garante o direito mais elementar: a vida.
Estudam no ensino público, fazem intercâmbio no exterior com auxílio público e voltam para abrir um consultório na Avenida Paulista e cobrar até R$ 1,5 mil por uma consulta. Isto é o horizonte típico da classe média brasileira que faz medicina.

Sul21 – Dados oficiais revelam que 70% dos beneficiários adultos são trabalhadores e os estudantes que participam do programa possuem média de aprovação quase 5% maior que a média nacional. Além de ter um índice menor de abandono dos estudos
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Walquiria Leão Rego – Isto acontece pela exigência do vínculo das crianças na escola para receber o benefício, o que é muito interessante, porque mostra o quanto estas crianças estavam abandonadas pelo estado. Porém, também é necessário discutir a qualidade da escola brasileira. A escola pública no Brasil precisa de muito investimento ainda. As crianças que eu estudei vivem em cidades do interior, algumas em zona rural e em periferias de grandes cidades. (Recife, Vale do Jequitinhonha, etc ). O benefício também implica o controle da saúde das crianças, mas ainda faltam médicos no Brasil nos postos de saúde destas regiões. O governo federal estuda trazer para o Brasil os médicos cubanos, espanhóis e portugueses, porque os nossos não costumam ir para estes lugares. Isto acontece pela falta de compromisso de certas pessoas com o seu país. Os paulistas, por exemplo, querem fazer medicina na melhor universidade, que é USP (Universidade de São Paulo) ou a Unicamp, para se formar em uma universidade pública. Estudam no ensino público, fazem intercâmbio no exterior com auxílio público e voltam para abrir um consultório na Avenida Paulista e cobrar até R$ 1,5 mil por uma consulta. Isto é o horizonte típico da classe média brasileira que faz medicina. O compromisso com o povo eles não querem saber. Não adianta oferecer o salário e o benefício que for para estas pessoas porque elas não vão para as regiões de periferia e interior. As crianças que são beneficiadas com o Bolsa Família são abandonadas como cidadãos. O estado tenta resolver e a classe média vai para as ruas fazer protesto contra os médicos estrangeiros.

“Existe uma ignorância de algumas pessoas sobre a realidade do seu próprio país. Não sabem a geografia do seu país, que dirá a geografia econômica ou informações sociológicas” | Foto: Divulgação

Sul21 – Recentemente foi divulgado que 1,6 milhão de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família deixaram espontaneamente o programa. Isto contraria a tese de que elas se tornam dependentes do programa?

Walquíria Leão Rego – Isto sempre foi uma tese preconceituosa. Toda tese preconceituosa é desmentida em pouco tempo. O preconceito é algo estreito. Isto foi desmentido porque este dado revela que as pessoas querem melhorar de vida e, em algumas regiões não há emprego. Aliás, não há nem o que vestir ou que comer. Quem irá oferecer emprego para alguém que vive no sertão? Existe uma ignorância de algumas pessoas sobre a realidade do seu próprio país. Não sabem a geografia do seu país, que dirá a geografia econômica ou informações sociológicas. Então, há muito preconceito e estereótipo por trás destas teses.

Sul21 – A senhora desenvolveu a pesquisa por conta própria, sem apoio financeiro da Unicamp ou do governo federal. Financiou as viagens do próprio bolso, agendando as excursões em seus períodos de férias. Como alcançou a publicação do livro?

Walquíria Leão Rego – Consegui a publicação por meio da editora Unesp (Universidade Estadual Paulista), que é uma editora universitária. As outras editoras não se interessaram pelo meu material. Percebi que teria que ser pela editora universitária e creio que este é o papel mesmo. As editoras comerciais só estão interessadas em lucro. As publicações são aquelas que irão vender. Mas, mesmo contando com editora universitária não é fácil publicar estudos como este no Brasil.
A remuneração proporciona uma liberdade pessoal para as pessoas. Esta é uma das importantes funções do beneficio ser em dinheiro.

Sul21 – Na sua pesquisa, que resultou no livro Vozes do Bolsa Família, foram ouvidas 150 mulheres cadastradas no programa. O que é possível dizer desta experiência de dar autonomia para as mulheres na gestão dos recursos do Bolsa Família?

Walquiria Leão Rego – Nós ouvimos muito mais pessoas, mas selecionamos uma amostragem de 150 mulheres para poder fazer um recorte. O livro é um experimento interpretativo, sociológico e com contribuição para o meio intelectual. Não terá grande reflexo na sociedade que, sinceramente, sei que não irá se interessar em ler meu livro. O que é uma pena, porque pode ser uma oportunidade de a sociedade experimentar conhecimento sobre seu próprio país. O estudo desfaz uma série de estereótipos de que os pobres só querem depender do estado e não querem trabalhar. Quem ler este livro conseguirá aprender alguma coisa. É a minha esperança. Agora, o conceito de autonomia é muito complexo. Tem implicações morais e políticas. O que podemos dizer é que, o fato destas mulheres tão destituídas em suas vidas e em estado de extrema pobreza, passarem a ser titulares de cartões de recursos transferidos pelo estado traz certa autonomia. A remuneração proporciona uma liberdade pessoal para as pessoas. Esta é uma das importantes funções do beneficio ser em dinheiro. É diferente se fosse uma cesta básica, onde já é determinado o que a pessoa irá fazer com o recurso e o que ela irá comer. Fica imposto a quantidade de comida e o tipo de alimento que ela irá comer. O dinheiro dá liberdade de escolha, com isso elas aprendem a administrar os recursos. É um exercício de cidadania muito maior do que as classes mais abastadas pensam sobre a capacidade dos pobres.

Sul21 – Os homens ficaram ou tendem a ficar para trás neste processo de desenvolvimento que foca nas mulheres, a curto, médio ou longo prazo?

Walquíria Leão Rego – Homens também são pobres, analfabetos ou com mínima escolaridade. O desemprego é geral, não está relacionado com o gênero em determinadas regiões do país. Por séculos o estado abandonou parte do país. É preciso ter esta consciência. Agora, com o Bolsa Família, é que se começou a fazer alguma coisa pelo abandono desta parte da população. O estado decretou há muitos anos a morte civil destas pessoas. Elas não têm voz, a sociedade não as escuta. As pessoas não querem pensar sobre isso ou mesmo esquecem de pensar porque isso as incomoda muito e passa a crescer o preconceito. Os brasileiros conviveram por várias gerações sabendo da existência da pobreza e defendem que a culpa é dos próprios pobres que “não querem trabalhar” ou “são vagabundos”. Se não tivesse existido um programa como o Bolsa Família, pessoas seguiriam morrendo no Brasil, África e em tantas outras nações onde ele foi criado.

No que se refere ao programa Bolsa Família, por exemplo, creio que seja necessário aumentar o valor do benefício. É preciso ter mais oportunidade de acesso ao ensino. A imprensa precisa ser melhor. É uma imprensa muito controlada pelos seus patrões.

Sul21 – Como garantir o desenvolvimento do país após o desligamento do Bolsa Família?

Walquíria Leão Rego – Tem que se avançar muito mais no país em termos de desenvolvimento. No que se refere ao programa Bolsa Família, por exemplo, creio que seja necessário aumentar o valor do benefício. É preciso ter mais oportunidade de acesso ao ensino. A imprensa precisa ser melhor.

É necessário que aconteça um conjunto de políticas públicas, inclusive específicas para a realidade destas regiões mais pobres. A educação é feita na escola, com a alfabetização, mas outras formas de formação para estes cidadãos são necessárias. Uma pessoa do sertão aprende a ler, mas segue vendo apenas televisão. Isto não resolve muito. Nós temos que discutir o que é educar. Não é só escola. É ter uma mídia democrática que produza conteúdos que elevem as pessoas. A televisão hoje indignifica as pessoas. Estamos ainda iniciando um novo processo de formação e transformação no Brasil. Eu citei apenas alguns exemplos aqui, mas temos muito que avançar.

O que foi feito no último ano do governo Fernando Henrique Cardoso não tinha a mesma dimensão distributiva e a amplitude do Bolsa Família criado no governo Lula.
Sul21  – Por ser um dos poucos estudos acadêmicos sobre um dos programas mais importantes para a gestão do PT, e do próprio PSDB, que alega a paternidade do embrião do programa, a senhora imagina que seu livro terá uso político?

Walquíria Leão Rego – Não temo. Este recente episódio do boato que o programa iria acabar e que levou centenas de pessoas aos bancos em poucas horas, mostra bem para os críticos o tamanho da necessidade do Bolsa Família. Eu creio que essa reação das pessoas mostrou a importância que o programa tem na vida delas. Isso mostra o significado dessa bolsa para a população. Por isso, acho pouco provável que alguém queira brincar com isso. Além do que, o programa de fato tomou a dimensão que tomou e se tornou o maior programa do mundo não foi com o PSDB. O programa deles (PSDB) era outra coisa. O que foi feito no último ano do governo Fernando Henrique Cardoso não tinha a mesma dimensão distributiva e a amplitude do Bolsa Família criado no governo Lula. A transformação social do país por meio deste programa começou, sem dúvida, no governo Lula e agora tem continuidade com o governo Dilma, isso não tem como negar. Se um jornalista quiser fazer investigação sobre isso, é só perguntar para as pessoas nas ruas do Brasil. Isso é um dado de realidade, não tem como mentir ou falsificar a história.
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Contraponto 11.373 - "Petrobras: Não tem notícia ruim? O Globo providencia"

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03/06/2013


Petrobras: Não tem notícia ruim? O Globo providencia

Do Tijolaço - 3 de Jun de 2013 | 09:51



 Por Fernando Brito

Outro dia perguntei aqui qual era a crise gerencial que se alega existir na Petrobras, porque a empresa vem batendo recordes sobre recordes, em descobertas, exploração e produção do pré-sal, assim como no refino.
Hoje, O Globo dá um exemplo de como isso é feito.

Um consultor da Câmara dos Deputados, que vem torpedeando desde o início a adoção do modelo de partilha para o pré-sal ganha espaço para dizer que a União terá prejuízo com a decisão da Petrobras de avançar rapidamente na produção dos campos utilizados no contrato de cessão onerosa firmado na época da capitalização da empresa.

O argumento do Sr. Paulo Lima é de que estes campos não pagam a “participação especial” prevista nos contratos da lei de FHC que abriu o petróleo brasileiro.

É verdade. Mas só meia-verdade.

Porque os contratos de cessão onerosa não pagam participação especial?

Porque parte da participação da União já foi paga na forma de ações da empresa, no aumento se seu capital, em 2010. E mais ainda será paga, pois há um limite – cinco bilhões de barris – além do qual todo o petróleo pertencerá à União.

E as áreas do pré-sal, entre elas as de cessão onerosa, têm demonstrado que possuem reservas muito superiores às estimadas àquela época.

O argumento é de que a Petrobras está dando prioridade a estas áreas, em detrimento de outras, onde incidem as participações especiais.

Mas o que deveria fazer a Petrobras em áreas onde os estudos geológicos estão muito avançados e a produtividade tem se mostrado excepcional? Não investir?

E tem mais: 60% de tudo o que a Petrobras lucrar, vai – além dos royalties, dos impostos diretos e dos gerados em suas encomendas de equipamentos – para os cofres públicos, pela participação acionária.

E lá no final da matéria o jornal publica a razão essencial: o contrato de cessão onerosa fixa setembro de 2014 como prazo final para a fase exploratória. Ou seja, 14 meses, o que é nada em matéria de sondagens e perfurações exploratórias.

A intensificação nos trabalhos nestas áreas está prevista há quase três anos.

É curioso que esta turma, que defende a entrega às multis das áreas do pré-sal e que vive acusando a Petrobras de ser “muito política e pouco empresarial”, agora chia porque ela vai ter ganhos.(Grifo do ContrapontoPIG)


O lobo tem razões, mas não pode explicá-las.


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PITACO DO ContrapontoPIG 

O ContrapontoPIG paga  Cr $ 1.000.000,00  para quem apresentar alguma notícia na Rede Globo favorável ou mesmo simpática à Petrobrás.

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Contraponto 11.372 - Drogas: É hora de pensar diferente"

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03/06/2013


Drogas: É hora de pensar diferente

 

 
Da CartaCapital - 0/06/2013

 
A repressão militar consumiu dinheiro e gerou violência sem conter a expansão do poder do narcotráfico. Até os EUA parecem dispostos a abandonar a política da "guerra às drogas"
 
por Willian Vieira publicado 02/06/2013 11:49
 
 
 
A repressão militar consumiu dinheiro e gerou violência sem conter a expansão do poder do narcotráfico. Até os EUA parecem dispostos a abandonar a política da "guerra às drogas"

Na sempre atrasada América do Sul, cabe ao pequeno Uruguai do presidente José Mujica levar adiante um debate que avança mais depressa em outras regiões do planeta. Diante da falência da guerra às drogas – o planeta não reduziu o número de dependentes ou consumo de entorpecentes, ao contrário –, qual política seria capaz de amenizar os efeitos deletérios, entre eles a violência e a corrupção?

O Uruguai quer testar uma alternativa. O projeto para legalizar o consumo de maconha e estatizar sua produção e distribuição é um passo além em uma nação onde as leis há muitos anos isentam de pena a posse e o consumo de entorpecentes. Um modelo liberal centrado em ações de saúde em relação ao usuário sem abandonar a repressão ao mercado ilegal. Na Europa, esse tipo de abordagem tem se tornado cada vez mais comum. Há 12 anos, Portugal liberou a posse de drogas de forma geral para uso próprio. A política portuguesa é hoje uma referência mundial e tem o apoio da ONU. Ao menos no caso da maconha, leis similares foram aprovadas em mais de 20 países, entre eles Espanha, República Tcheca, Holanda, Argentina, Colômbia e Guatemala.  Até nos Estados Unidos, mentores da “guerra às drogas”, dois estados legalizaram no ano passado o uso recreativo da cannabis.

O mundo não se tornou mais liberal da noite para o dia. O modelo repressivo é que se mostrou um fracasso retumbante. Segundo um estudo da Transform Drug Policy Foundation de 2012, só os EUA gastaram mais de 1 trilhão de dólares na guerra às drogas nos últimos 40 anos. Como resultado, o número de presos em território americano por violações saltou de 38 mil para 500 mil.

O país gasta 30 mil dólares ao ano por preso e só 11 mil dólares por aluno da rede pública. Apesar da repressão, o tráfico não diminuiu. O país vive agora uma epidemia de heroína, não apenas concentrada nos grandes centros urbanos, segundo descreve de Nova York o colaborador Eduardo Graça, em  texto publicado no site da revista (www.cartacapital.com.br).

Se regulamentasse o consumo, aponta o Instituto Cato, os EUA recolheriam em impostos 46 bilhões de dólares por ano. Cansados da ineficiência do modelo, 49% dos americanos aprovam a legalização da maconha (o dobro de 20 anos atrás) e 79% acreditam que a cadeia não é o melhor para os usuários. No Colorado e Washington, o consumo recreativo de maconha foi legalizado, o que deve injetar 1 bilhão de dólares de impostos na economia. Em outros 18 estados, o uso medicinal está autorizado.

Meio século após a Convenção sobre Drogas da ONU de 1961, que definiu a repressão generalizada como modelo, até o governo de Barack Obama mudou o nome de “guerra às drogas” para “combate ao tráfico”. A mudança não é somente retórica. “É impressionante o presidente afirmar que a legalização é um debate legítimo”, diz Steve Rolles, analista da Transform Drug Policy Foundation. Com a repressão interna mais frouxa dentro dos EUA, declara o analista, a autoridade norte-americana para impor a guerra em suas relações bilaterais e na ONU desaba.

Já era tempo. Os piores resultados da política norte-americana estão no próprio quintal, para usar uma expressão utilizada recentemente pelo democrata John Kerry. Desde o recrudescimento da guerra ao tráfico em 2006, financiado por Washington, 60 mil mexicanos morreram no conflito.
Apesar da violência, os cartéis do México e de outros países nunca tiveram tanto poder e dinheiro, como relata um novo livro do escritor italiano Roberto Saviano, especialista em máfia e crime organizado (texto à pág. 34). Um único dado atestado pela ONU: o narcotráfico movimenta mais de 400 bilhões de dólares por ano.



Em 2008, estima o Fundo Monetário Internacional, 352 bilhões de dólares do comércio ilegal de entorpecentes foram absorvidos pelo sistema bancário do planeta, o equivalente a um terço das perdas financeiras na crise iniciada naquele ano. A lavagem funciona como em um sistema de matrioska. Diversas camadas escondem a origem. Online, o dinheiro é repassado de banco para banco, de país para país, até sair totalmente limpo em alguma região do mundo. Um processo em curso nos Estados Unidos investiga a informação de que alguns bancos norte-americanos só escaparam da falência por causa da fortuna movimentada pelos traficantes mexicanos.

Provavelmente, o tráfico é o negócio mais lucrativo do mundo. Saviano compara o retorno do investimento em ações da Apple, a gigante em tecnologia, e os lucros dos narcóticos. Em 2012, os papéis da empresa subiram 29%. Quem investiu mil euros, lucrou 290 em 12 meses. Se os mesmos recursos fossem aplicados em cocaína, o retorno seria de 181 mil. Um quilo de coca pura vale 1,5 mil dólares na Colômbia, diz o livro, de 12 mil a 16 mil no México, perto de 47 mil na Holanda, 57 mil na Itália e até 77 mil no Reino Unido. No varejo, a droga é misturada a outras substâncias e rende muito mais.

O cartel mexicano de Ciudad Juárez dispõe de uma frota de Boeings 727 para trazer cocaína da Colômbia, além de uma companhia de táxi aéreo com uma frota de Cessnas para cruzar a fronteira com os EUA. Entre 2005 e 2007, 18 submarinos foram apreendidos pela Marinha colombiana na costa do Pacífico. Outros 30 foram identificados e estima-se a existência de mais de cem. No início, descreve o escritor, o tráfico usava pequenas máquinas tripuladas por um único indivíduo. Atualmente, vale-se de submarinos dignos do nome.

Como atestam as inúmeras informações reunidas por Saviano, uma rede de interesses beneficia-se do mercado ilegal. A liberação das drogas afetaria mortalmente o narcotráfico e, por extensão, bancos dedicados à lavagem de dinheiro e à máquina da corrupção policial e política. A mais provável consequência seria, portanto, a redução da violência e o controle mais eficiente do consumo. E não o aumento desbragado de viciados, tese principal do discurso contrário à liberalização.

O discurso pró-guerra perde fôlego até no quintal dos EUA, ou melhor, na América Latina. Em 2012, Felipe Calderón, então presidente do México, admitiu na Assembleia-Geral da ONU a falência do modelo. O colombiano Juan Manuel Santos concordou: “É nosso dever determinar, com dados científicos, se agimos certo ou se há alternativas melhores para combater esse mal”. A próxima reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA), em junho na Guatemala, discutirá o tema. Luis Fernando Castro, ministro guatemalteco das Relações Exteriores, foi a Brasília em busca de apoio para reformas mais profundas nas políticas do continente. Saiu de mãos vazias. A Guatemala não desiste, porém. “Os americanos querem guerra ao Sul, onde o resultado tem sido mortes e violência”, diz Julio Martini, embaixador no Brasil. “Nós não.”

 

Dois programas surgem como modelos, o holandês e o português. Por meio da legalização da venda e do consumo de maconha em locais regulados pelo Estado, a Holanda conseguiu separar o mercado da maconha daquele de drogas pesadas, de forma a evitar que usuários da primeira se exponham à cocaína e à heroína. “Na Suécia, onde a droga é criminalizada, 52% dos consumidores de maconha dizem se expor a outras drogas com suas fontes. Na Holanda, 14%”, afirma Kasia Malinowska-Sempruch, diretora do programa de políticas sobre drogas da Open Society, líder em iniciativas sobre o tema.

O liberalismo holandês inspirou outras iniciativas. Nos EUA, o direito de pacientes de câncer e Aids ao uso medicinal de maconha foi aprovado por plebiscito. Quem compra maconha nos dispensários não se defronta com drogas mais pesadas. Na Espanha, a legislação aprovada à base de protestos nas ruas não apenas permite portar droga para consumo como plantar maconha para uso pessoal ou coletivo, por meio de cooperativas.

Em Portugal, o número de viciados em heroína caiu 50% na comparação com 1997. Os índices de criminalidade despencaram, assim como o número de presos e de infectados com o vírus da Aids. “Atacamos a droga, não o usuário”, afirma João Goulão, mentor da reforma portuguesa e atual presidente do Observatório Europeu de Droga e Toxicodependência. “O problema deixou de ser a maior preocupação social do país.”

Caitlin Hughes, pesquisadora-chefe do Drug Policy Modelling Program, da Universidade de Sydney, aprova: “A descriminalização, combinada com uma expansão do tratamento ao usuário, diminuiu os casos de HIV, de overdose, o número de presos e a percepção da droga como problema nacional, mostram as evidências”. Referência mundial em políticas sobre drogas, o programa comandado por Hughes estudou as políticas portuguesas por 11 anos e defende: ao contrário do modelo repressivo atual, ele seria menos perverso para a América Latina. “Os países com disparidades sociais sofrem mais danos com políticas punitivas.”

Enquanto o mundo avança, o Brasil está parado no tempo. “O País está muito atrasado e desconectado da discussão liderada por países latino-americanos, como se não tivéssemos os problemas que temos”, desabafa Ilona Szabó de Carvalho, fundadora da Rede Pense Livre. “Somos campeões em números de homicídios, rota do tráfico internacional e um dos maiores mercados consumidores de drogas ilegais do Hemisfério Sul. Cerca de 20 países tiraram o consumo de drogas da esfera criminal sem aumento do uso, e sim com diminuição de mortes por overdose e contaminação de doenças transmissíveis.” Mais importante, argumenta, a descriminalização permitiu a aproximação dos dependentes do sistema de saúde.

Quando em 2006 o Brasil aprovou sua nova Lei de Drogas, as perspectivas eram promissoras. Em tese, o usuário não seria confundido com um traficante. A falta de regulamentação cria, porém, uma distorção. Cabe à polícia e à Justiça decidirem quem é quem. “Um cidadão branco de bairro rico pego com maconha será visto como usuário. O pobre será visto como marginal, traficante, ficará na cadeia até um juiz decidir. E não se livrará mais do estigma de criminoso”, diz Paulo Gadelha, presidente da Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia (CBDD).

Nos últimos sete anos, o número de presos por tráfico no País cresceu quatro vezes, de 32 mil para 138 mil. No mesmo período, a população carcerária passou de 294 mil para 548 mil. O custo é alto. Cada vaga nas prisões estaduais consome 21 mil reais por ano. Nas federais, alcança 40 mil.

Em comparação, o investimento por aluno do ensino fundamental na rede pública passa um pouco de 2 mil reais. “Droga é uma questão de saúde pública. Abordar o problema do ponto de vista criminal é um erro”, diz o padre Valdir Silveira, coordenador da Pastoral Carcerária da CNBB. Gadelha levanta outro ponto: “O País vive uma explosão do consumo de tranquilizantes, mas esses abusos não vêm associados à marginalidade, pois tais drogas não são criminalizadas, o que mostra que a condenação é moral e social”.

 

É onde entra o crack, as imagens de cracolândias tomadas por “fantasmas” em andrajos, relacionadas de forma apressada a índices de violência. Dominada pelo pânico moral, a rubrica “drogas” banaliza o debate e transforma qualquer proposta não repressora como apoio ao tráfico e à ilegalidade. Isso provoca uma covardia institucional. O programa Crack, É Possível Vencer, lançado no ano passado pelo governo federal, prevê gastar 4 bilhões de reais em cuidados integrativos e ações policiais inócuas. Está previsto, por exemplo, o treinamento “especial” de policiais pelas secretarias de Segurança estaduais e a compra de armas de choque para lidar com viciados. “Com tanto poder nãos mãos do policial, houve um aumento sistêmico da corrupção, uma inversão de papéis entre juiz e policiais”, afirma o defensor público Leandro de Castro Gomes.

Entre as dezenas de casos de prisão por tráfico, enviadas ao gabinete de Gomes, a maioria tem como prova basicamente o testemunho policial e não envolvem contexto violento. As defensorias não têm, porém, condições estruturais de mudar casos que demandam mais investigação. “Temos uma carga infinita de processos. Então, nos cabe ser o escudo protetor dos vulneráveis em ações paradigmáticas.” Em 2010, o defensor levou ao Supremo Tribunal Federal (STF) o processo de um homem preso com 3 gramas de maconha. A lei de 2006 contraria o artigo 4º da Constituição, que assegura a todo cidadão a inviolabilidade da vida privada, argumenta. Além disso, como o uso de drogas não lesa o Estado ou um bem jurídico de terceiros, não seria passível de criminalização. Se aprovado, o recurso poderia servir de base para a liberação da posse. O caso está no Supremo. Em 16 de abril, sete ex-ministros da Justiça dos governos FHC e Lula enviaram um documento ao STF no qual defendem a descriminalização.

Sem um posicionamento claro do governo federal, o Congresso trata o assunto ao sabor da ideologia. Enquanto o Judiciário apega-se à Constituição de 1988 (libera, por exemplo, as Marchas da Maconha), a proposta de uma comissão de juristas para descriminalizar o uso e a posse enfrenta resistências, em especial da bancada evangélica. Dificilmente deve passar incólume pela Câmara dos Deputados, onde ganha força o projeto nebuloso do peemedebista gaúcho Osmar Terra. A proposta é um retrocesso em relação à Lei de Drogas e prevê a criação de um medieval cadastro nacional dos usuários. Profissionais de saúde ficariam obrigados a informar sobre seus pacientes, assim como professores a respeito dos alunos. Sugere ainda aumentar a pena para traficantes, sem definir quem é e quem não é.

No Executivo, o debate sobre a descriminalização iniciado por um grupo de trabalho no Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas estacionou. Três integrantes foram exonerados, inclusive Paulina Duarte, da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas. Sua saída foi atribuída ao lobby das  comunidades terapêuticas, entidades de cunho religioso e sem fiscalização, em prol da internação compulsória. A secretaria repassa cerca de 130 milhões de reais por ano a essas entidades.

 

Na contramão, o deputado petista Paulo Teixeira vai apresentar em breve um projeto semelhante ao modelo adotado em Portugal. A ideia é descriminalizar o uso e estabelecer quantidades para cada droga, o suficiente para dez dias de consumo. Dentro desse limite, um policial não poderia prender o usuário. Quem vende para manter o vício tampouco seria condenado. “Não podemos levá-los ao sistema prisional, de onde sairão traficantes de verdade.” O deputado quer ainda legalizar o uso medicinal. “Hoje, por preconceito e ignorância alheios, os pacientes em quimioterapia não podem amenizar sua dor com um remédio sem tantos efeitos colaterais.” Quais as chances de aprovação? Teixeira é realista e conhece a força dos conservadores e temerosos. “Aos poucos a população vai perceber que a atual política é pior para o País do que a própria droga.”

No exterior, cresce o consenso a respeito da impossibilidade de livrar o planeta das drogas. Por isso, o essencial seria reduzir os danos ao consumidor, controlar a violência e atacar o poder ilegal do narcotráfico, os maiores beneficiários da proibição. “Ao contrário da repressão, a redução de danos cumpre o que promete. Ela salva vidas e melhora a saúde”, afirma Damon Barret, diretor do International Centre on Human Rights and Drug Policy. Barret propõe legalizar drogas leves como a maconha, de modo a equiparar sua regulação ao álcool e ao cigarro. Elas seriam taxadas e o dinheiro, revertido para projetos de saúde.

Um avanço maior é proposto pelo Transform Drug Policy. No estudo “After the war on drugs”, de 2012, a entidade sugere formas de regulamentação da produção e da distribuição, como a venda em farmácias e sob prescrição médica. O Estado teria total controle do mercado, o que permitiria asfixiar o tráfico, financiar a redução de danos e projetar programas de saúde. Tal grau de liberação, a ser testado pelo pequeno Uruguai com a maconha, permanece uma incógnita. Os primeiros passos rumo à descriminalização ampla e irrestrita parecem, porém, questão de tempo.

Até no Brasil.
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Contraponto 11.371 - "Quem dará coerência ao futuro do desenvolvimento "

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03/06/2013

Quem dará coerência ao futuro do desenvolvimento?

 
 Da Carta Maior 2/6/2013


O país ingressa num ciclo de transição do modelo de crescimento que o poupou até agora da desordem neoliberal.
 
Mudanças pontuais, a curto prazo, e estruturais, de médio e longo prazos, terão que ser feitas para calibrar a máquina da economia rumo a um novo estirão expansionista.

Uma dúzia de variáveis desafiam a coerência e o dinamismo da marcha.

Cada uma tem um custo e nem sempre – ou melhor, quase nunca – combina com a outra.

Incentivar as exportações para, entre outras coisas, fortalecer o emprego industrial, por exemplo.

Implica desvalorizar o real, o que encarece os produtos importados, eleva a inflação e rebate no aumente dos juros, que comprime a demanda e ... derruba o emprego.

Que se pretendia preservar.

Quem decide o que é coerente na macroeconomia do desenvolvimento é a correlação de forças de cada época.

Não é um dado da natureza.

A exemplo das ‘vantagens comparativas’ (que o conservadorismo credita a um dom divino das nações), a correlação de forças é construída nas lutas históricas de cada povo.

Quem vai liderar a travessia para o novo ciclo de desenvolvimento?

Como e quando a CUT, o MST e demais organizações sociais vão intervir nessa dobra do caminho?

O conservadorismo, como aconteceu em 32, em 54, em 64 e na década de 90 apressa-se em atualizar o seu roteiro eterno de futuro.

Editoriais, como o da ‘Folha’, deste domingo (‘Um plano Dilma’), listam os requisitos do cardápio.

Tudo para o Brasil ‘voltar a crescer de forma saudável’, diz o epíteto martelado sobre a lápide das conquistas sociais.

Entre as sugestões, o diário preconiza: ‘conter o gasto público’ (adivinhem como...); ‘desamarrar’ a Petrobras para deslanchar o pré-sal (adivinhem como...); ‘baixar o centro da meta’ da inflação (adivinhem como...); ‘rever a política de comércio exterior’ e buscar acordos fora do Mercosul e dos Brics (adivinhem como...).

Em resumo, trata-se de um ‘Plano Dilma’ de rendição à pauta derrotada em 2002, 2006 e 2010.

Algo não bate.

Pela via eleitoral dificilmente a pasta de dente marchará assim, resignada, para dentro do tubo conservador.

Nos últimos dez anos, o país não fez tudo o que poderia ter feito.

Mas ampliou o investimento social do Estado; recuperou o poder de compra popular; gerou um novo ator político e um novo mercado de consumo; retomou o papel indutor do setor público na economia; reservou a maior descoberta de petróleo do século 21 à regulação soberana da sociedade; afrontou a lógica da Nafta em busca de uma nova ordem internacional; fortaleceu a agenda progressista latino-americana.

O país mudou: uma coisa não cabe dentro da outra.

O tubo desenhado pela Folha requer uma crise terminal ou a sangria do ‘excesso’ a golpes de machete para comportar o novo volume ao invólucro anacrônico.

Se o velho figurino não abarca o novo, nem por isso a sociedade pode prescindir de um trilho que injete coerência e impulso à engrenagem em construção.

Os gargalos da infraestrutura e a atrofia do investimento industrial terão que ser equacionados.

A industrialização brasileira está emparedada.

O desarranjo cambial barateia importações; favorece o consumo.

Mas destrói empregos locais, desmonta cadeias produtivas, desencoraja o investimento fabril e ressuscita, perigosamente, a vulnerabilidade externa.

Será de US$ 60 bi o déficit do setor manufatureiro este ano. Quase 18% das reservas.

Ele corrói aquilo que distingue o desenvolvimento brasileiro entre os demais emergentes: a singular conquista de uma planta industrial sofisticada e completa – ainda que desatualizada.

O país tem uma cola poderosa para recuperar as trincas e fendas do seu sistema fabril.

Não necessariamente reconstituindo-o nas mesmas bases, o que a essa altura talvez seja até impossível.

Mas revigorando o que importa: empregos de qualidade, inovação, tecnologia, equilíbrio nas contas externas etc.

O nome desse ‘super-bonder’ estrutural é encomendas cativas do ciclo do pré-sal.

Há etapas de maturação exploratória a vencer, ademais de ajustes macroeconômicos (desvalorização cambial) a serem negociados para que esse trunfo não se perca.

Há, ademais, que resistir à cobiça externa,.

O mencionado editorial da ‘Folha’, a exemplo dos grunhidos sobre a alegada ‘pré-insolvência da Petrobrás’, ilustram o olho gordo.

A corrosão da base manufatureira nacional é boa para a industrialização da China e dos países ricos.

O Brasil agregou uma Argentina às filas dos supermercados e das lojas de departamento na última década.

As encomendas do pré-sal – um cliente abençoado, cujo atendimento reverte automaticamente em capacidade de pagamento – figuram como o maior mercado de plataformas de petróleo dos sete mares.

Sem falar das peças de precisão, pesquisa, serviços, embarcações, refino etc., etc., etc.

O mundo rico cobiça a fervilhante feijoada brasileira num planeta cujo principal problema é justamente a falta de demanda.

Vista desse ângulo, a travessia em curso adquire contornos semelhantes à grandeza das escolhas feitas por Getúlio nos anos 50.

Hoje, como ontem, o udenismo cogita o sacrifício final do parque manufatureiro, com um tranco de misericórdia nas proteções tarifárias.

O mesmo se dá em relação ao destino do petróleo nacional.

A industrialização ocupa, de novo, o centro da disputa sobre o passo seguinte do desenvolvimento.

As linhas de passagem para manter o controle endógeno dessa variável tem um custo.

O ajuste cambial e a modulação do consumo formam o par mais delicado.

Se calibrados exclusivamente sob a batuta do BC e da orquestra mercadista, a fatura será paga em espécie.

Devolvendo-se um pedaço dos empregos, das políticas sociais e do poder de compra criados nos últimos anos.

Quem sabe, devolvendo-se até a regulação do pré-sal aos mercados (‘Vocês vão e voltam’, prometeu Serra ao emissário da Chevron, em 2010).

Os atores sociais que podem fazer o contraponto a essa espiral não tem mais tempo a perder.

Nos anos 50, um pedaço das forças progressistas só foi perceber o seu lado quando o povo já estava nas ruas apedrejando os carros do jornal O Globo.

Getúlio, isolado, deu um cavalo de pau na história com um único tiro.

O mesmo que ecoa até hoje como divisor da política nacional.

Ontem, como hoje, a inércia e o acanhamento estratégico pavimentam o caminho do projeto regressivo.

Não bastam discursos. Salvaguardar interesses corporativos é pouco mais que miopia nos dias que correm.

A hora reclama propostas críveis.

Propostas de desenvolvimento para o Brasil.

Que guarneçam a travessia em curso com as salvaguardas e pactos capazes de preservar não apenas as conquistas do passado.

Mas o ‘direito de ter o comando sobre o próprio destino’.

Era assim que Celso Furtado definia desenvolvimento.
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domingo, 2 de junho de 2013

Contraponto 11.370 - "FHC é a aposta mais arriscada feita por Aécio"

Minas247 - Uma pesquisa feita pelo Instituto Vox Populi, sobre como a população enxerga o governo FHC em comparação com as administrações petistas, revela que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) fez uma aposta arriscada ao trazer o ex-presidente para a linha de frente de sua campanha. Eis alguns pontos:

* na geração de empregos, 7% dos entrevistados disseram que FHC atuou melhor, enquanto 75% responderam que Lula e Dilma o superaram;

* na habitação, 3% para FHC e 75% para Lula e Dilma;

* nos programas para erradicar a pobreza, 4% ficaram com FHC e 73% com os petistas; na educação, FHC foi defendido por 5% e Lula e Dilma por 63%;

* na política econômica, em geral, FHC foi avaliado como melhor por 8% e os petistas por 71% dos entrevistados;

* no controle da inflação, FHC teve seu melhor resultado: 10% acharam que foi melhor que os sucessores, mas 65% responderam que Lula e Dilma é que agiram ou agem melhor;
* no combate à corrupção, FHC teria atuado melhor que seus sucessores para 8%, enquanto 48% dos entrevistados afirmaram que Lula e Dilma foram-lhe superiores.

Os dados são eloquentes e revelam que o eleitor ainda guarda uma boa memória sobre o governo FHC. Aécio, no entanto, tem ouvido economistas que fizeram parte de seu governo, como Armínio Fraga e Pedro Malan, e tem feito questão de valorizar seu legado, como fez no programa do Ratinho, quando disse que FHC é o verdadeiro pai do Bolsa Família.

Depois de perderem duas eleições escondendo FHC, os tucanos mudaram de estratégia. Mas falta ainda convencer o eleitor de que essa é uma boa estratégia.

Segundo o próprio FHC, a população não avaliará mais o passado, mas quem poderá construir um futuro melhor.
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Contraponto 11.369 - "A morte de Veja e das outras semanais"


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02/06/2013

A morte de Veja e das outras semanais

 

Do Direto da Redação - 02/06/2013



Eliakim Araújo

Ninguém duvida da força da Internet nos dias que correm. A web está cada dia mais presente na vida das pessoas, desde aquelas que fazem suas compras online até às que buscam nessa mídia alternativa a opinião independente e o democrático debate de ideias.

O Direto da Redação, que vai completar 12 anos ininterruptos no próximo dia 3 de agosto,  surgiu exatamente com esse propósito, o de despertar no leitor uma consciência crítica sobre os problemas que afetam o nosso dia a dia. Por isso, rejeitamos a mesmice do pensamento único que nos é imposto pela mídia tradicional, representada pelos chamados “jornalões” , pelos noticiários televisivos e pelas revistas semanais, com raras exceções.

Com esse pensamento é que vou abrir o espaço da minha coluna de hoje para transcrever o artigo do jornalista Paulo Nogueira, sobre o melancólico final de uma grande revista semanal de informações dos EUA.  Paulo, que vive em Londres,  é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.  


Deixo com você, portanto, prezado leitor, as reflexões de Paulo Nogueira sobre a agonia das revistas semanais de informação e o futuro das demais mídias.



O melancólico final da Newsweek.


Nada mostra tão bem o declínio das revistas semanais quanto a agonia da Newsweek, que durante décadas foi a influente e admirada número dois do mundo, com uma circulação de 3 milhões de exemplares.

Na redação da Veja, nos anos 1980, a Newsweek e a líder Time eram acompanhadas com rigor e com devoção pelos jornalistas, incluído eu em meu começo de carreira.

Nesta semana, soube-se que, mais uma vez, ela está à venda. Só que ninguém quer comprar os restos mortais.

A Newsweek foi virando pó com a ascensão da internet. Foi perdendo leitores, anunciantes, repercussão e, finalmente,  razão de ser.

Já nos estertores, passou do grupo que controla o Washington Post para as mãos da editora Tina Brown, que comandava então o site Daily Beast.  As duas marcas ficaram sob a órbita de Tina.

No final do ano passado, a edição impressa deixou de circular. Se não fosse o aviso, ninguém teria notado, tão irrelevante já tinha ficado a revista na Era Digital.

Agora, o site foi posto à venda. A empresa quer se dedicar à marca Daily Beast.

É difícil imaginar que apareça candidato.  No New York Times, alguém notou, melancolicamente, que não é uma revista à venda, com jornalistas: é apenas uma marca.

E uma marca de um passado longínquo. O caso da Newsweek não mostra apenas quanto a internet destruiu a indústria tradicional de mídia. (Há pouco tempo, a Time Warner tentou se desfazer de sua divisão de revistas, mas não encontrou quem quisesse comprar.)

A agonia da Newsweek revela, também, um fato duro para as companhias jornalísticas: as grandes marcas do papel não transferem seu prestígio para a internet. Não surpreende que a empresa prefira se concentrar no Daily Beast e não na Newsweek.

No Brasil, o quadro é o mesmo, com o natural atraso de alguns anos que caracteriza a mídia nacional em relação à americana e à europeia.

A principal revista brasileira, a Veja, é uma sombra do que foi. Os esforços extraordinários para manter a circulação em 1 milhão – a mesma em vinte anos – não têm impedido uma queda calculada em 4% ao ano.

Tenho para mim que o fim iminente e inevitável das revistas semanais de informação amargurou enormemente Roberto Civita em seus últimos anos.

Tenho para mim, também, que parte dos excessos da revista se deveu a uma desesperada tentativa de manter a relevância a qualquer preço.

O fato é que a internet vai transformando rapidamente as demais mídias em defuntos.

A próxima parada, liquidados jornais e revistas, é a televisão.

O futuro da tevê está na Netflix, no YouTube e na Amazon, que vai produzir conteúdo em vídeo.  Marcas tradicionais – a Globo no Brasil – vão enfrentar um processo parecido com o que vitimou a Newsweek e tantos outros títulos nobres da Era do Papel.

A Globo só consegue manter a receita publicitária – sem a qual não é nada – graças ao expediente do BV, o Bônus por Volume, que acorrenta a ela as agências de publicidade.

Mas o grilhão só se explica com audiências monstruosas. Porque é o terror de perder essas audiências – com um boicote da Globo — que faz os anunciantes aceitarem uma coisa tão ruim para eles.

Sem grandes audiências, a amarra se vai. Os anunciantes se despedirão da Globo (e do BV abominado) e vão buscar seus consumidores onde eles estão: na internet. Não no Faustão, não no Fantástico, não nas novelas.

A internet vai fazer com a Globo o que governo nenhum conseguiu fazer: acabar com o monopólio. Pela via da desaparição de expectadores.


Paulo Nogueira. Jornalista, é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.
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Eliakim Araújo. Ancorou o primeiro canal de notícias em língua portuguesa, a CBS Brasil. Foi âncora dos jornais da Globo, Manchete e do SBT e na Rádio JB foi Coordenador e titular de "O Jornal do Brasil Informa" Em parceria com Leila Cordeiro, possui uma produtora de vídeos jornalísticos e institucionais.  
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Contraponto 11.368 - "Os dois lados do Atlântico Sul"

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02/06/2013


Os dois lados do Atlântico Sul




Do Blog do Miro - domingo, 2 de junho de 2013



Por Mauro Santayana, em seu blog: 

A Presidente Dilma Rousseff acaba de voltar da Etiópia, onde assistiu, como convidada, à Cúpula Presidencial do 50ª Aniversário da União Africana. Lá, além de reiterar os laços culturais e econômicos que nos ligam àquela região, ela anunciou, também, a eliminação de antigas dívidas de 12 países africanos com o Brasil, no valor de 980 milhões de dólares.


Aqui, muita gente ficou sem entender o gesto, assim como muitos ainda desconhecem as razões que justificam a nossa política africana. A aproximação estratégica do Brasil com a África, como um todo, vem desde o regime militar. Nos anos 1970 e 1980, era para a África e o Oriente Médio que iam milhares de brasileiros, para forjar seu futuro, trabalhando para empresas como a Mendes Júnior no Iraque e a Mauritânia, entre outros países. Para lá exportávamos, antes da destruição da indústria bélica brasileira, tanques da Engesa e da Bernardini, mísseis da Avibrás e armas portáteis.


A nossa relação com os países de língua portuguesa é mais antiga. Houve anos,antes da independência, em que entravam no porto de Luanda mais navios saídos do Rio de Janeiro do que de Lisboa. Em plena ditadura, o Brasil foi o primeiro país a reconhecer a independência de Angola.

Na África, não está apenas o passado de milhões de brasileiros, nos antepassados que dali vieram, mas também o seu futuro. Não se trata apenas da presença, naquele continente, de técnicos da Petrobras, e de construtoras e mineradoras, ali presentes.


Sendo a África Ocidental, do ponto de vista climático e geológico, um território gêmeo do brasileiro, é a única região do mundo que oferece ao Brasil a possibilidade de aplicar e demonstrar o que há de melhor em nosso modelo de desenvolvimento econômico e social.


Nos nossos cultivares de cana, na produção de açúcar e álcool, na soja resistente à seca, no gado tropical para a produção de carne e leite, nos nossos programas de agricultura familiar, estão soluções que podem levar à ocupação produtiva de milhões de hectares de cerrado naquele continente. Não só na economia, mas, também, na política social - como no Brasil - é possível o combate às endemias e epidemias, a eliminação da fome e o fim da pobreza absoluta. Esse projeto de cooperação Sul-Sul, poderá ser grande e solidária ação internacional com povos irmãos na História e na geografia.


Os países africanos foram decisivos para a vitória brasileira na votação da OMC, e sabem que o Brasil não tem, para com eles, a mesma visão colonialista da Europa e dos Estados Unidos.
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No Brasil há a consciência histórica de que é prioritário, para estabelecer área de paz e prosperidade no Atlântico Sul, tratar, de igual para igual, nossos vizinhos e irmãos do continente e os que habitam o outro lado do oceano.
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Contraponto 11.367 - "Freire pesca eleitor para Rede de Marina"

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02/06/2013

 

Freire pesca eleitor para Rede de Marina



Do Tijolaço - 2 de Jun de 2013 | 00:43


Reveladora a matéria publicada ontem a noite pelo O Globo.

Além de dizer o óbvio – que Aécio Neves, Eduardo Campos e Marina Silva “estão conversando e traçando estratégias conjuntas, de ajuda mútua, para concretizar as candidaturas” – revela que a coisa vai além. Roberto Freire diz que ”seus partidários atuam na linha de frente para permitir a criação do partido de Marina Silva”. E diz ao jornal qie “lideranças políticas do ex-PPS estão abrindo postos de coleta de assinaturas para o Rede em vários estados”.

Quer dizer, então, que o freiro-serristas estão indo ao eleitor se passando como partidários de Marina Silva para coletar assinaturas para a tal “Rede”? Porque não é crível que digam que eles são de um partido e pedem assinaturas para a criação de outro, que não irão integrar.

Isso é iludir a boa-fé das pessoas que assinam, lamento dizer.

Marina tem o direito e os méritos para ser candidata a Presidente, como foi em 2010. Se não se adaptou ao PSol, como não se adaptou ao PT, tem também o direito de formar um novo partido. É discutível -Freire  e o Congresso está discutindo – se isso dá ao novo partido o direito de participação no tempo de TV e nos recursos do Fundo Partidário que os eleitores deram a outro partido, nas eleições.

Esta discussão, aliás, dividiu o STF no caso do PSD de Gilberto Kassab e  levou a uma decisão esdrúxula que reacendeu o mercado de troca-troca de legenda pelos parlamentares.
Mas o que Roberto Freire revela vai além da fidelidade partidária, resvala para o estelionato partidário.

Certamente há muitos partidários sinceros de Marina montando banquinhas nas praças para coletar assinaturas para a “Rede” sem saber que, algumas quadras adiante, o pessoal de Roberto Freire, travestido de marinista, faz o mesmo. Da mesma forma, há pessoas assinando por Marina acreditando que freiristas, aliados de Serra, são os simpáticos marinistas que supõem.
Muito menos sabendo que a aliança eventual com o candidato da direita mais bem sucedido é algo que “mais ou menos entendido com o Aécio”, nas palavras de Freire.

Se Marina Silva não sabe do que Freire contou na entrevista, agora sabe. Depois, não adianta escrever na Folha que está sendo atacada na internet pelo que chama de “mensalet”. Quem publicou este modelo de comportamento ético foi O Globo, transcrevendo palavras de seu aliado do PPS e, agora se sabe, ajudante de fundador da Rede.
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Contraponto 11.366 - "A Herança de Fernando Henrique, por Marcos Coimbra"

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 02/06/2013

 

A Herança de Fernando Henrique, por Marcos Coimbra





Marcos Coimbra

Enquanto não surgir coisa mais avançada, as pesquisas de opinião continuarão a ser a melhor maneira de saber o que pensa a população a respeito das questões coletivas.

Sem elas, ficamos com o que acha cada individuo ou dizem os grupos mais organizados e loquazes. Os sentimentos e atitudes da maioria permanecem ignorados. É como se não existissem.

Mas as pesquisas estão aí, permitindo que compreendamos os juízos e as expectativas dos que não se expressam, não mandam cartas ou postam comentários na internet. Há outras formas de fazê-lo, mas nenhuma mais confiável.

Realizá-las não é extravagância ou privilégio. Sequer custam tanto que um partido político poderoso, como, por exemplo, o PSDB, não possa encomendar as suas. Ou que um jornal fique pobre se tiver que contratar alguma.

Por que, então, as oposições brasileiras as usam tão parcimoniosamente? Por que, se é simples conhecê-la, os partidos e a mídia oposicionista desconsideram a opinião pública?

Tome-se a velha ideia de que as três derrotas sucessivas dos tucanos para o PT teriam sido causadas pela insuficiente defesa da “herança de Fernando Henrique”. Sabe-se lá o porquê, é uma hipótese que volta e meia reaparece, como se fosse uma espécie de verdade profunda e houvesse evidências que a sustentassem.

Nas últimas semanas, ela retornou ao primeiríssimo plano. Em seu discurso inaugural como presidente nacional do PSDB, o senador Aécio Neves (MG) disse que seu partido se equivocou ao não valorizar o “legado” das duas administrações de FHC. Em suas palavras: “Erramos por não ter defendido, juntos, todo o partido, com vigor e convicção, a grande obra realizada pelo PSDB”.

Salvo uma ou outra manifestação de cautela, a mídia conservadora aplaudiu o pronunciamento. Os “grandes jornais” gostaram de Aécio ter assumido uma tese com a qual sempre concordaram. Faltava-lhes um paladino e o mineiro se ofereceu para o posto.

E as pessoas comuns, o que pensam desse “legado”?

Em pesquisa recente de âmbito nacional, a Vox Populi tratou do assunto. Ao invés de subscrever (ou atacar) a tese, apenas identificou o que a população pensa a respeito.

Os entrevistados foram solicitados a avaliar quinze áreas de atuação do governo Dilma. Depois, a comparar o desempenho de cada uma nos governos dela e de Lula com o que apresentavam quando Fernando Henrique era presidente.

As avaliações de todas as políticas nos governos petistas são superiores. Em nenhuma se poderia dizer que, para a população, as coisas estavam melhores no período tucano.

Consideremos algumas: na geração de empregos, 7% dos entrevistados disseram que FHC atuou melhor, enquanto 75% responderam que Lula e Dilma o superaram; na habitação, 3% para FHC e 75% para Lula e Dilma; nos programas para erradicar a pobreza, 4% ficaram com FHC e 73% com os petistas; na educação, FHC foi defendido por 5% e Lula e Dilma por 63%; na política econômica, em geral, FHC foi avaliado como melhor por 8% e os petistas por 71% dos entrevistados.

No controle da inflação, FHC teve seu melhor resultado: 10% acharam que foi melhor que os sucessores, mas 65% responderam que Lula e Dilma é que agiram ou agem melhor.

Na saúde e na segurança, os petistas tiveram as menores taxas de aprovação, mas mantiveram-se bem à frente do tucano: na primeira, Lula e Dilma foram considerados melhores por 46% dos entrevistados; na segurança, por 45%. FHC, por sua vez, por 7% e 6%.

No combate à corrupção, FHC teria atuado melhor que seus sucessores para 8%, enquanto 48% dos entrevistados afirmaram que Lula e Dilma foram-lhe superiores.

Os políticos (e as empresas jornalísticas) são livres para crer no que quiserem. Enéas Carneiro era a favor da bomba atômica. Levi Fidelix é obcecado pela ideia de espalhar aerotrens pelo Brasil. Os partidos de extrema esquerda lutam pelo comunismo. Há quem queira recriar a velha Arena da ditadura.

Ancorar uma campanha presidencial na “defesa do legado de FHC” é um suicídio político, que nem Serra, nem Alckmin quiseram praticar. Não foi por não fazê-la que perderam. Seu problema nunca foi estar distantes demais dos anos FHC, mas de menos.

Resta ver como se comportará, na prática, Aécio. E o que dirão seus apoiadores, quando perceberam que também ele procurará fazer o possível para se afastar do tal “legado”.
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