Da CartaCapital
Presidente do Ipea critica os vícios do pensamento brasileiro
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Por Miguel Martins
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Atual presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (
Ipea), o sociólogo
Jessé de Souza é conhecido pelo pensamento agudo e a argumentação desassombrada. Seu novo livro,
A Tolice da Inteligência Brasileira,
confirma essas características. Ao analisar o desenvolvimento do
pensamento no e sobre o País, Souza não poupa ninguém, nem mesmo
Gilberto Freyre e
Sérgio Buarque de Holanda.
Segundo ele, o pensamento culturalista brasileiro tornou-se um
instrumento das elites para influenciar a classe média na demonização
das instituições e da classe política, o que esconderia a verdadeira
intenção da parcela mais rica do País: apropriar-se novamente do Estado
brasileiro.
Na entrevista a seguir, Souza também critica o conceito de nova
classe média criado por seu antecessor no Ipea, Marcelo Neri. Os setores
médios tradicionais, argumenta, possuem privilégios não materiais
inacessíveis aos novos trabalhadores. Essa classe média tradicional,
acrescenta, é um dos três pilares da atual “gramática do golpe”. Os
outros dois são a mídia e a Justiça, que substituiu as Forças Armadas
nesta aliança.
CartaCapital: No livro A Tolice da Inteligência Brasileira
,
o senhor critica a perenidade dos mitos nacionais. A busca dessa
identidade teria reforçado preconceitos sobre o brasileiro ser corrupto,
levar tudo “no jeitinho”, ser hospitaleiro e amável, entre outros
estereótipos. Neste ano de recrudescimento conservador no País, os mitos
estão mais fortes?
Jessé de Souza: Os jornalistas, os professores e os
livros no Brasil ainda recorrem a intelectuais que moldaram nossa
interpretação em torno dessas questões. São ideias equivocadas, não
valem um vintém do ponto de vista científico, mas convencem e mandam no
País. Sempre que um governo popular chegou ao poder, as elites
recuperaram o pensamento culturalista formulado desde 1933.
CC: O ano do lançamento de Casa-Grande e Senzala.
JS: Exato. A genialidade de Gilberto Freyre foi
interpretar o País em uma comparação com os Estados Unidos, o grande
outro do Brasil. Ele valorizou o encontro de raças e o classificou como
um encontro de culturas. Como sempre perdíamos na comparação com os
norte-americanos, era preciso criar um mito positivo, algo que a
população pudesse aceitar e incorporar. Formulou-se então um mito que
valoriza nosso corpo, sentimento e sexualidade. Embora absurdo, tendemos
a aceitar que os norte-americanos e os europeus representam o espírito,
a racionalidade, são mais produtivos e confiáveis, não são corruptos.
Em Freyre, isso ainda é ambíguo.
Quando Sergio Buarque de Holanda reproduz esse mito no homem cordial,
acaba por absorver apenas a parte negativa do antecessor, ao opor o
homem cordial brasileiro ao homem racional norte-americano. Para pintar o
Brasil como o país do atraso, os conflitos reais têm sido postos na
sombra em nome de uma disputa entre Estado e mercado que passa a ser
incensada. Não existe esse conflito. Cria-se esse falso certame para
silenciar a luta de classes, na qual quem monopoliza o conhecimento e
domina o capital cultural são as elites e a
classe média.
CC: Embora não se veja dessa forma, a classe média brasileira é privilegiada?
JS: Sem dúvida. Apesar de não ter acesso ao capital
econômico do 1% mais rico, a classe média tem uma herança invisível,
como estímulos emocionais e a capacidade de concentração, algo que os
pobres não têm. Muitos entram na escola como potenciais analfabetos
funcionais, antes mesmo de sua trajetória escolar. O liberalismo defende
que a escola pode resolver os problemas sociais. A questão não é,
porém, apenas a qualidade do ensino, mas toda uma construção emocional,
sentimental, de estar aberto ou não ao pensamento abstrato, ao cálculo,
ao pensamento prospectivo. Nada disso é natural, é um privilégio. A
classe média tem tempo para planejar sua carreira ao longo da vida. Por
batalharem demais no presente, os trabalhadores precarizados não têm
essa perspectiva.
CC: Há uma crítica no livro à prevalência do
economicismo nas análises de Marcio Pochmann e Marcelo Neri, seus
antecessores no Ipea, sobre a ascensão social dos últimos anos. Esse
foco excessivo na criação de empregos e na distribuição de bens
materiais tem pago um preço neste momento de crise econômica?
JS: Esse é o ponto principal. Até 2010, só se falava
em nova classe média. Passei a defender então o conceito de nova classe
trabalhadora precarizada. Os trabalhadores tradicionais têm diminuído,
enquanto o capitalismo financeiro ergue uma classe trabalhadora para
suas próprias necessidades, não somente no Brasil, mas na China, na
Rússia, em todos os locais onde há quem se disponha a fazer de tudo por
muito pouco. E são esses precarizados que cresceram entre nós.
Os governos petistas não fomentaram a formação de uma nova classe
média. Os batalhadores continuam sem qualquer privilégio de nascimento. A
grande herança desses últimos 15 anos foi a manutenção desse processo
de ascensão dos excluídos para uma classe trabalhadora, mesmo
precarizada. Há inclusão no mercado, emprego formal e a possibilidade de
investimento em educação para os filhos dos batalhadores. É preciso
mudanças consequentes para se formar uma classe trabalhadora qualificada
com alta produtividade, o grande desafio para o Brasil deixar de ser um
exportador de matéria-prima.
CC: Muitos dos novos trabalhadores têm ficado
alheios à atuação sindical, e explicam sua ascensão social mais por
méritos próprios ou pela intervenção divina do que pelo sucesso de
políticas públicas. Isso fragiliza a base de apoio a um governo popular?
JS: Se a esquerda não construir uma alternativa, a
única narrativa válida para os batalhadores será o pentecostalismo, que
atrela em grande medida essa classe aos interesses de mercado. Isso não
é, contudo, chapado. No Nordeste, essa classe percebe a relação da
ascensão com os programas sociais, até porque lá a miséria anterior era
muito maior. Sabem que devem a Lula. No Sudeste, a visão de que Deus ou o
mérito pessoal foram mais relevantes é mais forte. Têm uma visão
egoísta de mundo, atrelada a interesses de mercado. Essa própria classe
não percebe quem são seus aliados políticos. O que mostra a pobreza de
narrativa da própria esquerda.
CC: Sobre as manifestações de junho de 2013, seu
livro afirma que o dia 19 foi a grande virada, com a formação de um
novo pacto conservador. Como o senhor interpreta a atual crise política
em face desse pacto?
JS: Existe uma estrutura, uma gramática do golpe no
Brasil. Ele mudou, modernizou-se, mas mantém a mesma estrutura. O golpe
precisa do “bumbo” tocado pela imprensa conservadora, do suporte da
classe média e de um elemento constitucional para dar a aparência de
legalidade à captura da soberania popular. Nos governos democráticos de
Getúlio Vargas e João Goulart, esse elemento eram os militares, pois a
Constituição previa a intervenção das Forças Armadas em caso de
desordem. Essa gramática modernizou-se: não está ancorada mais na botina
do general, mas na toga da lei. O elemento constitucional atual são as
agências de controle, a Polícia Federal, os juízes justiceiros, postos
para além do bem e do mal.
CC: Vivemos um momento crucial?
JS: É uma esquina da nossa história. Ou aprofundamos
o que conquistamos nos últimos 15 anos, um processo abortado há 60
anos, ou voltamos a um Brasil governado para 20%, aquele erguido pelo
golpe de 1964.
*Entrevista publicada originalmente na edição 876 de CartaCapital, com o título "O demolidor"
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