quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Contraponto 18.549 - "O telhado de vidro de tucanos e aliados"

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06-01-2016


O telhado de vidro de tucanos e aliados

 




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Hélio Doyle
ColunistaO chamado mensalão do PT e a operação Lava-jato ajudaram os que fazem oposição ao governo de Dilma Rousseff a passar para a sociedade uma grande mentira: a de que as práticas corruptas são exclusivas do PT e de políticos que apoiam o atual governo. Os acusadores, do PSDB, do DEM, do PPS, do Solidariedade e de outros partidos menores posam como defensores da moralidade pública e ferrenhos combatentes da luta contra a corrupção no país. O que é, no fundo, uma grande piada.

Alguns segmentos do Ministério Público e da Justiça e a chamada grande imprensa ajudam os oposicionistas a difundir essa grande mentira. Aparecem inúmeros indícios de envolvimento de parlamentares e dirigentes da oposição em irregularidades, mas esses indícios, de modo geral, ou parecem ser ignorados ou tratados com tanta lerdeza que caem no esquecimento. Há dois casos emblemáticos: a demora do Ministério Público em denunciar e da Justiça em julgar os chamados mensalões do PSDB, em Minas Gerais, e do DEM, em Brasília. Mas não são os únicos. A imprensa minimiza as acusações contra oposicionistas e exacerba as que atingem os governistas.

A verdade, porém, é simples: a corrupção, no Brasil, é um mal que assola políticos de todos os partidos, servidores públicos e juízes de todas as crenças. A corrupção está nos três poderes da República, dos estados e dos municípios. Do mais alto ao mais baixo escalão. Do ministro que cobra comissão sobre as obras ao servidor que cobra propina para liberar um papel. Do ministro de um tribunal superior ao juiz de uma vara no interior, que vendem suas sentenças. Do senador ao vereador, que recebem remuneração por votos, pareceres, emendas, convocações e desconvocações.

É hipocrisia, pois, atribuir toda a corrupção, com exclusividade, a algum partido ou algum governo.

Como se em governos tucanos e de seus aliados nada tivesse acontecido. Como se só o PT tenha se lambuzado, nas palavras do ministro Jaques Wagner. Se bem que lambuzar talvez não seja o termo adequado para tucanos e aliados, pois para eles estar no poder não era nada novo, e a tecnologia do roubo de dinheiro público já era por eles bem conhecida.

O país precisa de uma limpeza, sem dúvida. Todos os esforços para que isso aconteça são positivos. Mas não podem se limitar a um segmento, ou a alguns escolhidos. Todos devem ser investigados, sem “preconceito” político ou ideológico. E os políticos tucanos, demistas e aliados que saem acusando tendo telhados de vidro devem ter mais cuidado.


Hélio Doyle é jornalista, foi professor da Universidade de Brasília e secretário da Casa Civil do governo do Distrito Federal
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terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Contraponto 18.548 - "Como o Bolsa Família beneficia a economia do país"

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05-01-2016 

 

Como o Bolsa Família beneficia a economia do país 

 



Do Portal Brasil

Oportunidades de Inclusão


Ninguém fica rico com o Bolsa Família, ninguém para de trabalhar, e toda a sociedade ganha.


Maior programa de transferência de renda condicionada do mundo, o Bolsa Família mantém 36 milhões de brasileiros fora da extrema pobreza. O benefício, pago todos os meses às quase 14 milhões de famílias cadastradas, é pequeno: R$ 167, em média. Ninguém fica rico com o Bolsa Família, ninguém para de trabalhar, mas todos ganham muito – e não apenas os beneficiários diretos.  


Graças ao reforço na renda dos mais pobres, às oportunidades de inclusão produtiva – via cursos de qualificação profissional e apoio ao empreendedorismo – e às próprias condicionalidades do Programa, entre as quais a exigência de manter as crianças na escola, com vacinação em dia e acompanhamento médico regular, o Brasil comemora a queda da mortalidade, da desnutrição crônica e do déficit de peso de suas crianças. Os estudantes agora passam mais tempo em sala de aula, melhoram o rendimento escolar e seguem os passos de Dorival rumo à universidade.


O Bolsa Família faz girar a roda da economia. Com dinheiro – ainda que pouco – no bolso, milhões de brasileiros antes excluídos do mercado de consumo vão às compras. Movimentam comércio e indústria, geram  emprego e renda. Na ponta do lápis, pelos cálculos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cada R$ 1,00 investido no Programa estimula um crescimento de R$ 1,78 na atividade econômica. Ao custo de apenas 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB).
 

Em apenas 12 anos, o Brasil venceu uma guerra de séculos. Com o Bolsa Família, aliado à geração de 21 milhões de empregos, ao aumento real de 71,5% do salário mínimo, à produção recorde de alimentos e à merenda escolar distribuída diariamente a 43 milhões de crianças e jovens, o País saiu pela primeira vez do Mapa Mundial da Fome, elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).


Melhor ainda: o aumento de renda entre os pobres foi acompanhado por uma melhor condição de vida, que inclui maior escolaridade e acesso a bens e serviços – como energia elétrica, abastecimento de água e saneamento. Com isso, a pobreza multidimensional (que leva em conta as diversas dimensões da pobreza) caiu nada menos que 88%: de 8,2% da população, em 2002, para 1%, em 2014. 


E a luta continua. O desafio agora é chegar às pessoas que continuam em situação de extrema pobreza, seja no interior mais remoto do País ou nas grandes cidades, e levar o Estado a quem ainda não tem acesso aos serviços públicos e vive fora de qualquer rede de proteção social. Nos últimos quatro anos, a estratégia de Busca Ativa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) localizou 1,4 milhão de famílias com esse perfil. Brasileiros que antes tinham quase nada e agora têm o Bolsa Família – e, com ele, as oportunidades que virão.

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Contraponto 18.547 - "Santayana: só não vê quem não quer"


05-01-2015 


Só não vê quem não quer

salvador


por Fernando Brito

Mauro Santayana, que vem de longe e enxerga longe nos seus 60 anos de jornalismo, dá o recado: é bom o tucanato colocar as barbas de molho, porque o mais de ano de histeria que promoveram, como se viu nas pesquisas, não lhes deu a condição de franco favorito em 2016.  A transferência da política para os tribunais e da sua argumentação para o poder dos procuradores e dos delegados de polícia pode fazer o que não era ainda possível – pelo personagem e pelo ainda restrito processo de politização do STF – com Joaquim Barbosa.

Moro não é dado a chiliques como Barbosa. É silencioso, obstinado e traça planos de longo prazo, como se vê em seu sonho cultivado por mais de uma década e expresso em artigos muito detalhados – de repetir no Brasil a Operação Manu Puliti italiana. Tem o poder incontestável, até agora, e é só querer para que lhe surjam as bases para uma aventura eleitoral.

Mídia não faltará.

A oposição e os “salvadores da pátria”

Mauro Santayana


As divulgação de “acusações” de delatores “premiados” contra os senadores Renan Calheiros, Randolfe Rodrigues, Fernando Collor e Aécio Neves vêm corroborar o que afirmamos recentemente em O impeachment, a antipolítica e a judicialização do Estado

A criminalização da política, na tentativa e na pressa de retirar o PT do Palácio do Planalto por outros meios que não os eleitorais, iria descambar para a condenação, paulatina, geral e irrestrita, da atividade como um todo.

Esse é um processo que parece estar focado, além de, principalmente, no PT, também nos partidos ou candidatos que possam fazer sombra, no campo adversário ao do governo, ao projeto messiânico de um “novo Brasil” que está sendo engendrado à sombra da ambição e do deslumbramento das forças surgidas da “guerra contra a corrupção” e da “Operação Lava-Jato”.

A entrevista da semana passada, com o procurador Deltan Dalagnoll, na primeira página do Correio Braziliense  e a capa da retrospectiva de Veja, com a cara fechada do Juiz Sérgio Moro, com o título de “Ele salvou o ano” (a segunda, se não nos enganamos) que – será por mera coincidência? – lembra a capa da mesma revista com o rosto de Fernando Collor, com o título de “O caçador de Marajás”, publicada muito antes de ele anunciar-se candidato a presidente da República – são emblemáticas do que pode vir a ocorrer – do ponto de vista midiático – nos próximos três anos.

Só os cegos, os surdos, ou os ingênuos, não estão entendendo para que lado começa a soprar – quase como brisa – o vento – ou melhor, para tocar que tipo de música está começando a se preparar a banda.
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Contraponto 18.546 - "Saldo comercial é 'apesar do mundo' e não contam a você"

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 05-01-2015

 

Saldo comercial é  'apesar do mundo' e  não contam a você

saldo


Por

Os jornais  hoje dizem que é a crise brasileira a responsável pela formação de um sensacional saldo comercial de US$ 19,681 bilhões e usam como argumento o fato de  terem caído os valores de exportações e das importações.

Verdade.

Meia verdade.

Primeiro porque uma coisa é o comércio das mercadorias. Outra, bem diferente, é o valor destas mercadorias.

Roger Amarante, no site Crítica da Economia, descreve cruamente o que está acontecendo: “O volume das mercadorias comercializadas no mundo não para de crescer. Os portos de todo o mundo estão congestionados. Mas o valor das mercadorias cai ininterruptamente. O volume sobe pelo elevador, o valor desce pela escada.”

O FMI prevê uma redução  em torno de 10% no valor do comércio mundial, comparável à de 2009. As exportações dos EUA, por exemplo, em plena recuperação econômica, caíram 8% no acumulado no terceiro trimestre de 2015, frente a 2014.

Vejamos o que aconteceu com as principais mercadorias de exportação brasileiras, com os dados detalhados:
O volume das  exportações mais importantes  subiu na soja (20% a mais, frente a 2014), no minério de ferro (+ 8%). Mas seu preço, ao contrário, despencou: foi 50% menor no caso do ferro em quanto o valor médio da tonelada de soja caiu 24%.

Se considerarmos um intervalo um pouco maior, desde 2012, a soja vale um quarto do que valia e o ferro, um terço.

Se os preços destes produtos fossem os mesmo de 2014, teríamos um superávit de mais de 40 bilhões de dólares, um dos maiores da história.

A Folha, que se esmera em dizer o quanto deixamos de importar na manchete de economia, só na coluna de Mauro Zaffalon registra esta dramática perda de receitas do pais, assim mesmo em valor menor do que as estimativas de outros especialistas.

Isso, portanto, nada tem a ver com a crise na economia brasileira, mas sim com a recessão mundial. E, a menos que elevemos Michel Temer ou Aécio Neves ao nível de líderes mundiais, não parece que possa ser resolvível pelo oportunismo político tupiniquim.

O segundo fator do resultado comercial brasileiro foi o realismo cambial, que o Banco Central teimou em não permitir que voltasse gradualmente.

Isso permitiu que a participação dos produtos manufaturados nas exportações, que vinha em declínio há muitos anos, voltasse a crescer, mesmo com uma redução no valor total – alinhada com a queda mundial – passando de 35% para 38% do total, na média anual, mas já passando de 40% nos meses finais do ano, quando já se havia consolidado o valor do câmbio, que se reflete mais lentamente neste setor, que não tem um mercado spot como as commodities.

É claro que há efeitos da recessão aprofundada por Joaquim Levy nas contas eternas do país, o mais negativo deles a queda na importação de maquinaria industrial, que teve um incrível tombo de 46%  no ano. É um item na pauta de importações que responde diretamente à  decisão de investir em aumento de produção industrial e, convenhamos, não era de se esperar que com o ministro da Fazenda sinalizando todo tempo cortes e arrochos, não  é esperável  que se comprem máquinas para produzir mais.

É, afinal, o primeiro fator positivo depois de um longo ano de desastre após desastre e que, claro, a nossa imprensa precisa transformar também em desastre.

Aliás, quem via a cara de velório do William Waack ontem falando da crise da bolsa chinesa ontem ficava com a imprenssão de que o mundo tinha acabado e, com ele, nós aqui. Até que chamou o correspondente ele e teve de ouvir que a situação, ao menos naquele momento, havia se estabilizado.


Há uma mudança em curso na economia mundial e as forças dominantes usam e usarão sua principal arma – o controle da formação de preços – para sufocar as forças emergentes. A história é um rio, dá voltas, anda mais rápido e turbulentamente, como segue por períodos calmos. Mas anda, inexoravelmente..



Contraponto 18.545 - "Se poupar Aecím, Janot vai fechar o MPF"

 

05/01/2016

 

Se poupar Aecím, Janot vai fechar o MPF

Janot repete Gurgel e Moro: não vem ao caso!



Conversa Afiada - publicado 05/01/2016
 
bessinha um patriota
O Conversa Afiada reproduz impecável - como sempre - reportagem de Conceição Lemes, no Viomundo:


Rogério Correia: “Se com a delação dos R$ 300 mil da UTC o doutor Janot não abrir inquérito contra o Aécio, o Ministério Público Federal pode fechar a porta”

por Conceição Lemes

Na última quarta-feira de 2015, 30 de dezembro, o repórter Rubens Valente revelou na Folha de S. Paulo duas bombas:

*Em delação premiada homologada pelo Supremo Tribunal Federal, Carlos Alexandre de Souza Rocha afirmou que, no segundo semestre de 2013 (entre setembro e outubro) levou R$ 300 mil a um diretor da UTC Engenharia no Rio de Janeiro, que lhe disse que a soma iria para o senador Aécio Neves (PSDB-MG). O “Ceará”, como é conhecido, era entregador de dinheiro do doleiro Alberto Youssef.

* “Ceará” prestou depoimento em 1º de julho de 2015. Portanto, seis meses atrás.

“A cada dia surge uma nova evidencia do comprometimento do Aécio em esquemas de corrupção”, diz, de saída, em entrevista exclusiva ao Viomundo o deputado estadual Rogério Correia (PT-MG). “Aécio sempre foi patrocinado por grandes empresas, misturando frequentemente a sua vida privada com esses financiamentos.”

“Agora, o senador Aécio quer aparecer como arauto da ética e da moral no Brasil”, prossegue Correia. “ Só que  ele não tem a menor condição de sê-lo.”

Rogério Correia tem se dedicado a desmascarar os malfeitos de Aécio Neves.  Após ler a reportagem de Rubens Valente, ele postou no seu twitter alguns dos escândalos denunciados.
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Contraponto 18.544 - "O que a imprensa esconde sobre as compras de Natal. Por Carlos Fernandes"

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04-01-2015

 

O que a imprensa esconde sobre as compras de Natal. Por Carlos Fernandes

 



Compras de Natal: o mundo acabou mesmo?
Compras de Natal: o mundo acabou mesmo?


Carlos FernandesA última semana do ano nos deu uma percepção mais clara da distância entre os dados econômicos e a maneira como eles são divulgados pela grande imprensa nacional de acordo com os interesses de ocasião.


É sabido que a movimentação das compras de Natal é um forte termômetro para medir o quão aquecida está a economia do país e o poder de compra dos brasileiros.


A partir desses dados podemos ter uma idéia, apesar de que ainda insuficientes, da como andam o orçamento familiar e a capacidade de endividamento das famílias como um todo.


Com a divulgação dos números pela ALSHOP – Associação Brasileira de Lojistas de Shopping, os grandes portais de imprensa se apressaram em veicular em letras garrafais a queda de 1% nas vendas e o seu pior Natal nos últimos 10 anos.


Logo se viram obrigados a reconhecer que as vendas efetuadas no mercado eletrônico tiveram um aumento inimaginável de 26% no mesmo período. Por si só, já seria um motivo de comemoração e não de penúria como quiseram levar a crer. Mas o fato é que os números vão além.


O que apresentaram como uma queda de 1% refere-se exclusivamente ao período de 1 a 24 de dezembro em relação ao mesmo período. Se observarmos a trajetória anual em termos nominais, de janeiro a dezembro as compras em shopping centers tiveram um aumento de 1,7% em relação a 2014.


Além disso, a grande mídia também considerou desnecessária a informação de que em 2015 o país presenciou a abertura de mais 19 shopping centers em todas as regiões. Destaque para o Sudeste e Nordeste com 8 e 7 novos empreendimentos, respectivamente.


Com isso, houve um aumento no número de lojas em operação em todo o Brasil: 1.042 novas lojas para ser mais exato. No fim, o que alardearam como o apocalipse do Natal na verdade é o resultado de um saldo positivo de 30.400 novos empregos com carteira assinada nesse setor especificamente.


Todos os dados acima foram obtidos do próprio relatório da ALSHOP, ou seja, com todas as informações em mãos, a oligarquia midiática brasileira preferiu não informar, ou pior, desinformar o seu público.


Esse é apenas um exemplo do terrorismo econômico que jornalistas sem qualquer compromisso com a realidade dos fatos, ajudam a construir um ambiente desfavorável à retomada do crescimento.
Não estou aqui de forma alguma querendo deixar a entender que não passamos por momentos difíceis ou que todas as dificuldades ora enfrentadas sejam de responsabilidade exclusiva da imprensa nacional.


Passamos sim por momentos de ajustes que demandam medidas sérias e enérgicas. Mas o que se tem visto por parte da grande mídia é uma contribuição monumental para o agravamento da percepção desse momento.


Os fundamentos micro e macroeconômicos do Brasil de hoje são extremamente mais sólidos e consistentes do que nas inúmeras crises que já passamos no decorrer da história.


Para ficarmos num só exemplo, basta dizer que no dia 1.o de janeiro de 2003, quando FHC entregava a faixa presidencial ao presidente Lula, as nossas reservas internacionais somavam 37 bilhões de dólares. No fechamento de novembro de 2015 contabilizamos 357 bilhões de dólares dessas mesmas reservas.



É inegável que 2015 se encerra como o pior ano da era petista e isso a grande mídia brasileira faz questão de tornar claro. O que simplesmente estão nos omitindo é que o pior ano do PT no governo ainda é melhor do que o melhor ano dos governos FHC e Sarney juntos.
E nisso os números não mentem.


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Sobre o Autor
 
. Economista com MBA na PUC-Rio, Carlos Fernandes trabalha na direção geral de uma das maiores instituições financeiras da América Latina
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Contraponto 18.543 - 'A tática usada por jornais e revistas para esconder a denúncia contra Aécio. Por Paulo Nogueira'


04-01-2016 

 

A tática usada por jornais e revistas para esconder a denúncia contra Aécio. Por Paulo Nogueira





Aécio com Merval: quem disse que jornalista não tem amigo?
Paulo NogueiraVocê conhece.


Certos jogadores de futebol fingem ir para uma dividida, mas na verdade correm numa velocidade calculada para não chegar à bola e, portanto, não arriscar a canela.


As aparências ficam resguardadas.

Marcelinho Carioca era um mestre nisso.


É mais ou menos esta a tática que a grande imprensa utiliza para cobrir, ou fingir cobrir, assuntos delicados de seus protegidos.


Muitos leitores não percebem.


Um caso típico foi a denúncia segundo a qual Aécio recebeu propina de uma empreiteira.
Jornais e revistas fingiram cobrir.

Você faz o seguinte: dá num lugar de pouco destaque, ou nenhum. E depois simplesmente esquece. Não há nenhum empenho em realmente investigar o assunto.



Compare, agora, com o que acontece quando a denúncia recai sobre alguém de quem a mídia não gosta, como Lula. O assunto demora uma eternidade para sair das páginas dos jornais, alimentado por supostas novidades, frequentemente não comprovadas.


Um exemplo disso é o “Amigo do Lula”, uma cobertura que já se tornou piada nas redes sociais, tais os disparates editoriais associados a ela.


Lula, na ótica das companhias jornalísticas, é para matar. Aécio, para ser protegido


A Folha deu discretamente, quase que envergonhadamente, a acusação contra Aécio.


O que ela fez depois para avançar na história? O acusador era um certo Ceará. Se tivesse qualquer intenção de fazer jornalismo, a primeira coisa que a Folha teria feito, em seguida, era um perfil sobre Ceará.


Exige algum esforço. Não é uma informação que a PF vaza ao repórter num telefonema. Mais importante: demanda o mínimo de imparcialidade.


A repercussão dos demais jornais seguiu o mesmo caminho da Folha. Poucas linhas escondidas, e num período em que poucos leem jornais, o final do ano, e depois nada.


Fim de história.


Como o jogador que finge não fugir da dividida, os jornais fingem não fugir da notícia indigesta. Mas tudo não passa disso: fingimento.


Trabalhei muitos anos em redações das grandes empresas jornalísticas e sei muito bem como se destaca ou como se esconde uma notícia.


A internet vem desmascarando esse tipo de trapaça jornalística, mas os donos de jornais e revistas e seus editores parecem não ter se dado conta disso. E continuam em sua simulação enganosa, como nos velhos tempo em que monopolizavam as informações e as opiniões como se fossem isentos.


É como se, no futebol, uma nova tecnologia mostrasse com clareza a velocidade reduzida de um jogador perante uma dividida em que ele não queira chegar.


O truque acabaria. Mais canelas seriam arriscadas, ainda que contra a vontade de certos craques.
No jornalismo, a internet é esta nova tecnologia que aponta casos em que a imprensa finge cobrir, como a propina alegadamente passada a Aécio.


Mas mesmo assim jornais e revistas continuam a tentar enganar as pessoas. Você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo, como diz a célebre sentença política.

Mas a imprensa brasileira, em sua obtusa ignorância, acha que, sim, pode. O drama, para ela, é que é cada vez menor o número de pessoas que fingem acreditar no noticiário

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Paulo Nogueira. Jornalista, fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

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Contraponto 18.542 - " A torcida por um 2016 melhor "


04-01-2015

A torcida por um 2016



2016 começa sob o signo da esperança – como todo ano, aliás. Há alguns fatos novos no ar, depois dos problemas enormes que o país enfrentou em 2015.
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O primeiro é a vontade geral de que os problemas políticos sejam superados e a economia volte a se recuperar. Em cima dessa expectativa, há uma reavaliação ampla da atuação de vários personagens públicos.
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A estabilização da economia tornou-se matéria de interesse nacional. Não adianta se apelar para esse jogo malicioso de dividir a estabilização entre governistas e oposicionistas. Em determinado momento, ganhou corpo a ideia de que a saída de Dilma Rousseff atendia mais ao interesse nacional.
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Agora, a situação é outra. A bandeira do impeachment murchou e qualquer tentativa de prorrogar essa novela passa a ir contra o interesse nacional e a vestir a carapuça do golpismo..
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Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Aécio Neves entram definitivamente para o duvidoso panteão dos personagens políticos nefastos, ao lado de Eduardo Cunha, daqueles que colocam interesses pessoais ou políticos, idiossincrasias e oportunismos acima do interesse nacional.
Perderam a capacidade de derrubar governos, mas mantém o poder de continuar atazanando o país.
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O grande desafio será, agora, na esfera político-econômica. E está nas mãos do Ministro da Fazenda Nelson Barbosa.
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Nelson tem mais realismo do que as excentricidades desenvolvimentistas de Guido Mantega ou a mentalidade de contador de Joaquim Levy. Sabe que o principal desafio econômico será interromper a queda da atividade econômica. Por outro lado, tem claro os limites fiscais.
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Para reativar a economia, precisará de boa dose de imaginação para articular instrumentos legais que não impliquem em mais custos fiscais. Por outro lado, tem a necessidade de impor segurança ao mercado, sim. E segurança não consiste em adotar medidas heroicas pró-cíclicas. Medidas heroicas são para enganar o freguês e permitir a economistas de jornal jogar para a plateia. Segurança consiste em apresentar um plano factível, lógico, que acene com o equilíbrio fiscal no médio prazo. E equilíbrio fiscal significa recuperar as receitas fiscais através da melhoria da atividade econômica.
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O grande desafio de Nelson será equilibrar-se ante as demandas dos movimentos sociais e sindicatos e as do mercado. Em geral, Ministro que entra tem a fase de carência, de pelo menos seis meses para mostrar a que veio.
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Por conta da crise a agenda ficou mais estreita. Mas seria importante que as forças mais à esquerda entendessem as limitações da política econômica e desse um sinal verde para o Ministro..
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A recuperação da economia não pode depender dos esforços únicos de um Ministro, mas de uma ação de governo, agitando todos os Ministérios em torno de metas claras e factíveis de crescimento.
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É papel que cabe à Presidente da República.

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domingo, 3 de janeiro de 2016

Contraponto 18.541 -"Manual do perfeito midiota "

 

3/1/2015


Manual do perfeito midiota 

 

 Blog do Miro -  sábado, 2 de janeiro de 2016

 

Por Luciano Martins Costa, no site Brasileiros:

O ano está terminando e você certamente está odiando não poder jantar naquele restaurante em Nova York onde um lugar à mesa não sai por menos de 300 dólares.

Você leu na imprensa brasileira que esse é o melhor programa para comemorar a passagem do ano. Mas não vai dar, não é? E a culpa, claro, é daqueles que fizeram disparar o dólar e elevaram os juros, de modo que, por mais que tenha ralado para cumprir as metas, o custo desse sonho é muito alto.

Isso faz com que você odeie ainda mais esses comunistas que afundaram o Brasil, não é mesmo? Porque você está convencido, pela leitura dos jornais e da maioria das revistas de informação, de que o Brasil afundou.

Mas não era essa mesma imprensa que pedia incessantemente, desde 2013, que os juros fossem elevados para melhorar o desempenho do mercado de ações e que o câmbio pudesse flutuar livremente ao sabor do mercado?

Você não recebia os boletins daquela corretora cuja economista-chefe pontificava quase diariamente no rádio, na TV e em colunas de jornais, exigindo a mudança do modelo econômico?

Ela anda meio sumida, e provavelmente vai estar naquele restaurante que você queria conhecer. Gastando o bônus que ganhou ao apostar contra o Brasil.

Irônico, não é?

Pois é assim que funciona: a mídia tradicional manipula seus sonhos de consumo e ao mesmo tempo faz você acreditar que, se eles ficam fora do seu alcance, a culpa não é sua. É do governo.

Parece meio esquizofrênico?

É pura esquizofrenia: ao mesmo tempo em que prega a precedência do interesse privado sobre a ideia de nação, a imprensa hegemônica vende o paraíso da individualidade, fazendo você acreditar que pertence a uma casta que merece tudo.

Você quer estar naquele bar que a revista Veja listou entre os melhores da cidade, mas detesta aglomerações?

É o mesmo mecanismo mental que faz você adorar a chegada de novidades ao mercado nacional, mas ao mesmo tempo odeia que outras pessoas tenham acesso a esses bens e serviços. Ninguém contou que isso só é possível porque o mercado nacional se ampliou, se diversificou e alcançou escala suficiente para oferecer essas novidades.

Agora que algumas turbulências complicam um pouco mais sua vida, a culpa é do Estado e de seu gestor, o governo.

Sinto muito, mas não dá para encarar essas contradições sem deslocar você da zona de conforto proporcionada pela condição de midiota.

A mídia tradicional, na qual você acredita religiosamente, não está a serviço da classe média tradicional, aquela casta que antigamente era chamada de burguesia. Ela usa a burguesia para atender aos interesses de uma minoria que fica um pouco acima no andaime social. Como sempre, o cidadão comum funciona como massa de manobra, porque o sistema da mídia o faz suspirar pelo andar de cima e desprezar seus próprios pares.

Parece pouco democrático? Na verdade, como lembra o crítico de mídia Jeff Cohen, a imprensa deveria atuar como o sistema nervoso de uma democracia. Quando ela é dominada por atores que não estão preocupados com essa questão essencial, a democracia deixa de funcionar.

O modelo mais escrachado dessa imprensa inimiga da democracia é o império do australiano Rupert Murdoch. Há vinte anos, os principais grupos de comunicação da América Latina denunciavam Murdoch como um aventureiro que ameaçava a liberdade de imprensa. Hoje, o modelo Murdoch é praticado por nove entre dez dos veículos de maior audiência em todo o continente.

Você é refém desse sistema.

Para preservar a condição de midiota, que defende sua cabecinha da angústia de pensar, convém desenvolver a síndrome de Estocolmo, ou seja, é preciso amar quem sequestrou a sua mente.

Por exemplo, se você assistiu aquela cena em que meia dúzia de insensatos interpela na rua o cantor Chico Buarque e sentiu um pouco de vergonha alheia, cuidado: sua consciência está traindo seus interesses.

Mas se você imagina que, se estivesse lá, teria aderido ao coro da grosseria, fique tranquilo: você está próximo de alcançar a condição do perfeito midiota.
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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Contraponto 18.540 - "Tijolaço: Globo precisar gritar 'crise' a cada minuto"


Ontem à noite, a poucas horas da virada do ano, O Globo saiu-se com a "pérola": Crise econômica faz público trocar o branco pelo amarelo no réveillon.

Ridículo.

Algumas pessoas, por superstição, sempre vestiram amarelo para "chamar dinheiro" no Ano Novo.
Mas, por causa da crise, quem trocou foi o "público". Público, como se sabe, são aquelas seis pessoas que são selecionadas pela reportagem "cumpre pauta".

– Ih, olha lá, tem um de amarelo , vamos falar com ele

Incrível. O Rio de Janeiro "bombando", com 900 mil turistas e hotéis lotados e uma multidão nas ruas e praias.

E quase todo mundo de branco, óbvio.

A "reportagem" chega a "pagar o mico" de ouvir uma arista de rua, que oferece um boneco carnavalesmo com roupas amarelas para que os turistas se fotografem. E o texto vem, claro, com o bordão permanente:

Apesar da crise, ela diz que o ano não foi ruim e que espera um 2016 melhor. Já prevê a cor na virada do ano que vem:

— Vai ser branco ou azul, pode apostar. Pra mim, desde que cheguei no Rio, não tem ano ruim. Já me considero carioca.

Não tem espírito de confraternização. Só espírito de porco.

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Contraponto 18.539 - "CUT: Novo salário mínimo é o melhor poder de compra desde 1979; beneficiará diretamente 48 milhões de brasileiros e gerará mais renda para outros setores da economia"

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01/01/2015 

 

CUT: Novo salário mínimo é o melhor poder de compra desde 1979; beneficiará diretamente 48 milhões de brasileiros e gerará mais renda para outros setores da economia

 

Do Viomundo - publicado em 31 de dezembro de 2015 às 11:42

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dilma e vagner freitas pres cut by lula marques

Foto: Lula Marques/Agência PT

Salário mínimo valorizado é instrumento de combate à crise e a miséria


por Vagner Freitas, presidente da CUT

O aumento do Salário Mínimo (SM) para R$ 880,00 anunciado pelo governo nesta terça-feira 29, é uma boa notícia para os brasileiros e para o País. Para as pessoas porque beneficia diretamente 48 milhões de aposentados, pensionistas e trabalhadores que têm o rendimento atrelado ao piso nacional, referência para os salários do mercado informal de trabalho e para os pisos de muitas categorias profissionais.  Para o Brasil porque serão R$ 57 bilhões a mais circulando na economia a partir de 1º de janeiro, quando o reajuste entra em vigor.  Esse montante incrementará o consumo, gerando mais renda para outros setores da economia, como comércio, agricultura e indústria.

Outro impacto positivo é a melhora da distribuição renda, fator que considero fundamental para a retomada do desenvolvimento econômico e social do Brasil iniciada em 2003 e condição necessária para sairmos da agenda da crise e entrarmos de uma vez por todas na agenda  do crescimento, da geração de emprego e melhoria da renda.

A política de valorização do salário mínimo, negociada pela CUT, com o apoio das demais centrais sindicais, e implementada nos governos Lula e Dilma, aumentou o poder de compra em 77% de 2002 até este ano, segundo o DIEESE. Quando comparamos com o valor da cesta básica, o novo SM comprará 2,14 cestas. Este é o melhor poder de compra desde 1979.

Sabemos que este valor não é suficiente para atender todas as necessidades de uma família. Por isso mesmo, continuamos lutando pelo mínimo necessário para manter uma família de, por exemplo, dois adultos e duas crianças que, segundo o DIEESE, estava em de R$ 3.399,92 em novembro de 2015.

Mas, não podemos deixar de reconhecer que em apenas 15 anos conseguimos aumentar o poder de compra em quase 80% e, com isso, segundo o IPEA, ajudar a reduzir a desigualdade da renda e do trabalho. Fato inédito há décadas, segundo o Instituto.

Apesar de todos esses fatos, ainda há quem critique o aumento do salário mínimo alegando preocupações com os impactos nas contas públicas. Em outras palavras, com a elevação do que eles chamam de “custo” dos pagamentos de benefícios previdenciários e nós chamamos de investimento na melhoria de vida das pessoas. Além disso, os críticos esquecem que o aumento da renda também vai contribuir para elevar a arrecadação de impostos sobre o consumo, que segundo o DIEESE será de mais de R$ 30 bilhões. Ou seja, grande parte do aumento de gastos se paga.

Outra crítica que vem sendo feita é sobre a decisão do governo de dar aumento real ao SM ampliando seu valor para R$ 880 – segundo a regra deveria subir para R$ 871. Essa diferença, alegam, gera uma despesa de mais R$ 2,9 bilhões, pelos cálculos do Ministério do Planejamento, aumentando o chamado “rombo” nas contas públicas. O montante, na verdade, é muito pequeno se comparado a outras despesas, como o pagamento de juros da dívida pública, que em 2015 terá seu custo aumentado em mais de R$ 200 bilhões, ou seja, 100 vezes mais que aumento do SM.

O interessante neste debate é notar que, quando o aumento de gastos é para engordar os lucros dos banqueiros e dos especuladores financeiros, os críticos se calam. Porém, quando o benefício é para a classe trabalhadora rapidamente se posicionam contra, com o velho e batido argumento do “rombo das contas”.

Para nós da CUT, o salário mínimo é um instrumento de combate a crise e a miséria, portanto, deve continuar crescendo, não só pelo impacto econômico positivo, como também por ser um alicerce da sociedade que estamos construindo com mais justiça social, geração de empregos e distribuição de renda.

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Contraponto 18.538 - "Contra golpe, Dilma diz ser 'injustamente questionada' "

Ontem, Dilma também publicou uma mensagem de fim de ano em suas redes sociais, admitindo que 2015 foi um ano difícil e desejando um feliz 2016 a todos os brasileiros. No artigo desta sexta, ela define 2015 como "um ano muito duro". E lembra que, no ano que passou, "as instituições da nossa democracia foram exigidas como nunca e responderam às suas responsabilidades, preservando a estabilidade institucional do Brasil".

Criticada por alas do PT e por movimentos sociais por implementar o ajuste fiscal, que promoveu corte bilionário nas contas do governo, a presidente dá um aceno à esquerda quando defende a importância do equilíbrio das contas públicas: "É claro que os direitos adquiridos serão preservados, e devem ser respeitadas as expectativas de quem está no mercado de trabalho, mas de forma efetivamente sustentável".

"O governo está fazendo sua parte. Executamos um duro plano de contenção de gastos. Fizemos e faremos esse esforço sem transferir a conta para os que mais precisam", diz ainda a presidente. "O governo fará de 2016 um ano de diálogo com todos os que desejam construir uma realidade melhor", assegura Dilma.

Leia aqui a íntegra.

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Contraponto 18.537 - "Reveillon 2016 e a queima de fogos em Fortaleza, por Luciano Hortêncio"

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01/01/2015  

 

Reveillon 2016 e a queima de fogos em Fortaleza, por Luciano Hortêncio

 


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Contraponto 18.536 - "Jessé de Souza: 'Herança dos últimos 15 anos foi ascensão dos excluídos' "

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01/01/2016

 

Jessé de Souza: "Herança dos últimos 15 anos foi ascensão dos excluídos"

 


Da CartaCapital


Presidente do Ipea critica os vícios do pensamento brasileiro
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Por Miguel Martins
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Atual presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o sociólogo Jessé de Souza é conhecido pelo pensamento agudo e a argumentação desassombrada. Seu novo livro, A Tolice da Inteligência Brasileira, confirma essas características. Ao analisar o desenvolvimento do pensamento no e sobre o País, Souza não poupa ninguém, nem mesmo Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Segundo ele, o pensamento culturalista brasileiro tornou-se um instrumento das elites para influenciar a classe média na demonização das instituições e da classe política, o que esconderia a verdadeira intenção da parcela mais rica do País: apropriar-se novamente do Estado brasileiro.

Na entrevista a seguir, Souza também critica o conceito de nova classe média criado por seu antecessor no Ipea, Marcelo Neri. Os setores médios tradicionais, argumenta, possuem privilégios não materiais inacessíveis aos novos trabalhadores. Essa classe média tradicional, acrescenta, é um dos três pilares da atual “gramática do golpe”. Os outros dois são a mídia e a Justiça, que substituiu as Forças Armadas nesta aliança.


CartaCapital: No livro A Tolice da Inteligência Brasileira, o senhor critica a perenidade dos mitos nacionais. A busca dessa identidade teria reforçado preconceitos sobre o brasileiro ser corrupto, levar tudo “no jeitinho”, ser hospitaleiro e amável, entre outros estereótipos. Neste ano de recrudescimento conservador no País, os mitos estão mais fortes?
Jessé de Souza: Os jornalistas, os professores e os livros no Brasil ainda recorrem a intelectuais que moldaram nossa interpretação em torno dessas questões. São ideias equivocadas, não valem um vintém do ponto de vista científico, mas convencem e mandam no País. Sempre que um governo popular chegou ao poder, as elites recuperaram o pensamento culturalista formulado desde 1933.


CC: O ano do lançamento de Casa-Grande e Senzala.
JS: Exato. A genialidade de Gilberto Freyre foi interpretar o País em uma comparação com os Estados Unidos, o grande outro do Brasil. Ele valorizou o encontro de raças e o classificou como um encontro de culturas. Como sempre perdíamos na comparação com os norte-americanos, era preciso criar um mito positivo, algo que a população pudesse aceitar e incorporar. Formulou-se então um mito que valoriza nosso corpo, sentimento e sexualidade. Embora absurdo, tendemos a aceitar que os norte-americanos e os europeus representam o espírito, a racionalidade, são mais produtivos e confiáveis, não são corruptos. Em Freyre, isso ainda é ambíguo.
Quando Sergio Buarque de Holanda reproduz esse mito no homem cordial, acaba por absorver apenas a parte negativa do antecessor, ao opor o homem cordial brasileiro ao homem racional norte-americano. Para pintar o Brasil como o país do atraso, os conflitos reais têm sido postos na sombra em nome de uma disputa entre Estado e mercado que passa a ser incensada. Não existe esse conflito. Cria-se esse falso certame para silenciar a luta de classes, na qual quem monopoliza o conhecimento e domina o capital cultural são as elites e a classe média.


CC: Embora não se veja dessa forma, a classe média brasileira é privilegiada?
JS:  Sem dúvida. Apesar de não ter acesso ao capital econômico do 1% mais rico, a classe média tem uma herança invisível, como estímulos emocionais e a capacidade de concentração, algo que os pobres não têm. Muitos entram na escola como potenciais analfabetos funcionais, antes mesmo de sua trajetória escolar. O liberalismo defende que a escola pode resolver os problemas sociais. A questão não é, porém, apenas a qualidade do ensino, mas toda uma construção emocional, sentimental, de estar aberto ou não ao pensamento abstrato, ao cálculo, ao pensamento prospectivo. Nada disso é natural, é um privilégio. A classe média tem tempo para planejar sua carreira ao longo da vida. Por batalharem demais no presente, os trabalhadores precarizados não têm essa perspectiva.


A dita classe média se une à mídia e à Justiça, substituta dos militares/ Créditos: Paulo Pinto/Fotos Públicas



CC: Há uma crítica no livro à prevalência do economicismo nas análises de Marcio Pochmann e Marcelo Neri, seus antecessores no Ipea, sobre a ascensão social dos últimos anos. Esse foco excessivo na criação de empregos e na distribuição de bens materiais tem pago um preço neste momento de crise econômica?
JS: Esse é o ponto principal. Até 2010, só se falava em nova classe média. Passei a defender então o conceito de nova classe trabalhadora precarizada. Os trabalhadores tradicionais têm diminuído, enquanto o capitalismo financeiro ergue uma classe trabalhadora para suas próprias necessidades, não somente no Brasil, mas na China, na Rússia, em todos os locais onde há quem se disponha a fazer de tudo por muito pouco. E são esses precarizados que cresceram entre nós.
Os governos petistas não fomentaram a formação de uma nova classe média. Os batalhadores continuam sem qualquer privilégio de nascimento. A grande herança desses últimos 15 anos foi a manutenção desse processo de ascensão dos excluídos para uma classe trabalhadora, mesmo precarizada. Há inclusão no mercado, emprego formal e a possibilidade de investimento em educação para os filhos dos batalhadores. É preciso mudanças consequentes para se formar uma classe trabalhadora qualificada com alta produtividade, o grande desafio para o Brasil deixar de ser um exportador de matéria-prima.


CC: Muitos dos novos trabalhadores têm ficado alheios à atuação sindical, e explicam sua ascensão social mais por méritos próprios ou pela intervenção divina do que pelo sucesso de políticas públicas. Isso fragiliza a base de apoio a um governo popular?
JS: Se a esquerda não construir uma alternativa, a única narrativa válida para os batalhadores será o pentecostalismo, que atrela em grande medida essa classe aos interesses de mercado. Isso não é, contudo, chapado. No Nordeste, essa classe percebe a relação da ascensão com os programas sociais, até porque lá a miséria anterior era muito maior. Sabem que devem a Lula. No Sudeste, a visão de que Deus ou o mérito pessoal foram mais relevantes é mais forte. Têm uma visão egoísta de mundo, atrelada a interesses de mercado. Essa própria classe não percebe quem são seus aliados políticos. O que mostra a pobreza de narrativa da própria esquerda.


CC: Sobre as manifestações de junho de 2013, seu livro afirma que o dia 19 foi a grande virada, com a formação de um novo pacto conservador. Como o senhor interpreta a atual crise política em face desse pacto?
JS: Existe uma estrutura, uma gramática do golpe no Brasil. Ele mudou, modernizou-se, mas mantém a mesma estrutura. O golpe precisa do “bumbo” tocado pela imprensa conservadora, do suporte da classe média e de um elemento constitucional para dar a aparência de legalidade à captura da soberania popular. Nos governos democráticos de Getúlio Vargas e João Goulart, esse elemento eram os militares, pois a Constituição previa a intervenção das Forças Armadas em caso de desordem. Essa gramática modernizou-se: não está ancorada mais na botina do general, mas na toga da lei. O elemento constitucional atual são as agências de controle, a Polícia Federal, os juízes justiceiros, postos para além do bem e do mal.


CC: Vivemos um momento crucial?
JS: É uma esquina da nossa história. Ou aprofundamos o que conquistamos nos últimos 15 anos, um processo abortado há 60 anos, ou voltamos a um Brasil governado para 20%, aquele erguido pelo golpe de 1964.



*Entrevista publicada originalmente na edição 876 de CartaCapital, com o título "O demolidor"

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Contraponto 18.535 - "E a democracia resistiu ao golpe e à intolerância"

Pode parecer pouco, mas é um grande feito quando se leva em conta a intensidade da agressão que se tramou contra a democracia brasileira. De um lado, a oposição, aliada à mídia familiar, buscou, desde a derrota nas eleições presidenciais de 2014, um atalho para retornar ao poder. Tentou-se de tudo: desde a recontagem das urnas até o pedido de impeachment ancorado na extravagante tese das pedaladas fiscais, acolhido por Cunha.

Em paralelo, ao mesmo tempo em que envenenava o ambiente político com seu terceiro turno sem fim, a oposição patrocinava as pautas-bomba no Congresso, apostando na tese do 'quanto pior, melhor'. E isso sem falar nas demissões provocadas no setor de engenharia pelo fator Lava Jato.

O Brasil foi rebaixado por duas agências de risco, o desemprego cresceu fortemente, mas, apesar disso, a presidente Dilma conseguiu, no fim do ano, ver a seu lado um batalhão de pessoas dispostas a lutar pela democracia. A seu lado, perfilaram-se artistas, professores, juristas, sindicalistas e intelectuais – mesmo aqueles que não estão satisfeitos com a sua gestão.

Tudo isso demonstrou que, em 2015, a democracia foi colocada como um bem maior, a despeito de todos os seus inimigos – tanto na política como nas franjas mais radicais da sociedade. O ano que chega ao fim foi marcado por vários episódios de intolerância. Ex-ministros, como Guido Mantega e Alexandre Padilha, foram agredidos em locais públicos. Chico Buarque, o maior artista brasileiro, foi insultado por um grupo de intolerantes no Leblon, demonstrando a que ponto a sociedade brasileira adoeceu.

No entanto, 2015 teve ainda o mérito de mostrar a natureza do golpe. Uma articulação sinistra, que uniu derrotados nas urnas, políticos corruptos que temem o avanço das investigações em curso e grupos fascistas que disseminam ódio e intolerância.

Felizmente, eles não passaram, nem passarão em 2016.
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