segunda-feira, 30 de julho de 2012

Contraponto 8831 - "Não há motivos para pessimismo"

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30/07/2012
Economia

Não há motivos para pessimismo

Da Carta Capital - 30/07/2012 10:54

Paulo Daniel

É fato que a economia brasileira desacelerou-se nos últimos trimestres, e o crescimento esperado para este ano está um pouco longe dos 4% imaginados no início do ano. Entretanto, não se deve desesperar, haja vista alguns dados apresentados por órgãos do governo e institutos de pesquisas até o momento.

Um dos principais motivos para não chafurdar no pessimismo é a taxa de desemprego continuar caindo. Ajustada à sazonalidade (ou seja, à flutuação de vagas característica do mês), a desocupação medida pelo IBGE chegou a 5,4% da população economicamente ativa em maio, contra 6% no mesmo mês de 2011. É a menor taxa da série histórica. Isso é um significado de que os capitalistas estão com a expectativa de aumentarem suas rendas no futuro, pois os gastos atuais e futuros dos(as) trabalhadores(as) representam a renda dos empresários.

Outro ponto a ser colocado para espantar o pessimismo de alguns é a questão do investimento. De acordo com estudo do Ministério da Fazenda, o custo do investimento no Brasil é o menor desde 1999. O preço relativo dos investimentos caiu 2,81% entre 2010 e 2011, terminando, no ano passado, no menor patamar em 12 anos. Portanto, as medidas de desoneração tributária tomadas pelo governo neste ano somadas à redução dos juros continuaram reduzindo o preço relativo dos investimentos em 2012.

É importante lembrar que o incremento dos investimentos na economia deveu-se às desonerações tributárias promovidas pelo governo. Estima-se que a desoneração tenha sido em torno de 31 bilhões de reais entre 2007 e 2011, sendo 11,4 bilhões apenas no ano passado. Além disso, a valorização cambial entre o início da recuperação da crise, no fim de 2009 e no início de 2012, de certa maneira barateou máquinas e equipamentos importados.

Neste sentido, com a sofisticação do parque industrial nacional decorrente dessa incorporação de tecnologia mais barata poderá impulsionar a produção interna e, agora, estimulada pelo câmbio mais desvalorizado.

Mais um quesito para esquecer de vez o pessimismo é analisar os indicadores da Sondagem Conjuntural da Indústria de Transformação, realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Há expectativas de retomada do setor para o quarto trimestre deste ano. O Índice de Expectativas (IE) calculado pela sondagem cresceu 0,8% em julho, na comparação com ajuste sazonal frente a junho deste ano. Esse resultado inverte o movimento apresentado no mês passado, quando as expectativas caíram 1,4% na comparação dessazonalizada contra maio.

Por fim, a última redução na taxa básica de juros está mostrando aos empresários que os juros no Brasil estão realmente caindo de forma consistente. Com essas consecutivas reduções, a tendência é que os empresários aumentem a sua renda, de forma a fazer seu investimento quando o custo do capital for o mais baixo possível. O capitalista olha para o futuro, no caso brasileiro, observam toda a vontade e disposição do governo em auxiliar e incrementar a riqueza, por isso, o tempos vindouros não serão nefastos para nós. Azar de quem apostar nisso.


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Contraponto 8830 - "Chávez chega hoje ao Brasil para selar entrada no Mercosul"

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30/07/2012


Chávez chega hoje ao Brasil para selar entrada no Mercosul

Chávez

Do Vermelho - 30 de Julho de 2012 - 8h57

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, chega nesta segunda-feira (29) ao Brasil para formalizar a entrada da Venezuela no Mercosul em ato que será oficializado nesta terça-feira (31) durante cerimônia que será realizada em Brasília.

O evento na capital federal será protocolar. Marca a assinatura dos papéis e dá solenidade à entrada do primeiro novo membro do bloco desde a sua fundação, há 21 anos. A integração real, no entanto, poderá demorar até quatro anos, prazo para a finalização do processo de união aduaneira.

Leia também:
Jeferson Miola: O Mercosul na sua segunda geração
Chávez vai investir R$ 1 bi para fundo do Mercosul

Nesta segunda-feira (30), os ministros das Relações Exteriores de Brasil, Argentina, Uruguai e Venezuela vão discutir os termos da adesão. A reunião ocorrerá a partir das 17h, na sede do Ministério das Relações Exteriores, no Palácio Itamaraty.

Na reunião desta tarde, será criado um grupo de trabalho que vai se debruçar sobre os aspectos técnicos envolvendo o ingresso da Venezuela no Mercosul. Também serão discutidos os termos de nomenclatura que vão ser adotados no bloco.

O Brasil espera que a Venezuela adote até dezembro a chamada Nomenclatura Comum do Mercosul, os códigos aduaneiros que identificam os produtos e suas unidades no comércio dentro do bloco. Esse é o primeiro passo para que o país possa entrar na Tarifa Externa Comum, a taxa de importação cobrada de países de fora do bloco, e também passe a ter o direito de vender seus produtos dentro do Mercosul sem tarifas.

Suspensão do Paraguai

Depois de seis anos, a Venezuela será incorporada ao Mercosul. O prazo se estendeu porque somente o Congresso do Paraguai não aprovava o ingresso. Como o Paraguai foi suspenso temporariamente do bloco, Brasil, Argentina e Uruguai ratificaram a adesão do país caribenho.

A suspensão foi definida pelos presidentes por considerarem que o processo de destituição do poder do então presidente Fernando Lugo, em 22 de junho, não seguiu os preceitos democráticos e violou a cláusula democrática do bloco.

Entenda o Mercosul:

Integrantes

Membros plenos: Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai (suspenso até a retomada da ordem democrática). Membros associados: Chile, Equador, Colômbia, Peru e Bolívia
Observadores: México e Nova Zelândia

Objetivos

A livre circulação de bens, serviços e produção entre os países que integram o bloco por meio da eliminação dos direitos aduaneiros e restrições; a definição de uma tarifa externa comum e a adoção de uma política comercial comum em foros econômicos regionais; a coordenação das políticas macroeconômicas e setoriais entre os membros, nas áreas de comércio exterior, agricultura, indústria e sobre os aspectos fiscal, monetário, cambial e de capitais; o compromisso dos membros em harmonizar as legislações para fortalecer o processo de integração.

Histórico

Há mais de quatro décadas, líderes políticos da região tentaram negociar a criação de um bloco regional para incrementar o comércio, fortalecer a economia e estimular a integração. Nos anos de 1980, os esforços se concretizaram na proposta de instauração do Mercosul. Em 1991, foi assinado o Tratado de Assunção, considerado o marco do início do bloco.

Com informações da Agência Brasil
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Contraponto 8829 - "Coração ferido: a irracionlidade da razão"

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30/07/2012

Coração ferido: a irracionlidade da razão

Leonardo Boff

"A economia precisa voltar a ser aquilo que é de sua natureza: garantir as condições da vida física, cultural e espiritual de todas as pessoas "
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Não estamos longe da verdade se entendermos a tragédia atual da humanidade como o fracasso de um tipo de razão predominante nos últimos quinhentos anos. Com o arsenal de recursos de que dispõe, não consegue dar conta das contradições, criadas por la mesma. Já analisamos nestas páginas como se operou a partir de então, a ruptura entre a razão objetiva (a lógica das coisas) e a razão subjetiva(os interesses do eu). Esta se sobrepôs àquela a ponto de se instaurar como a exclusiva força de organização histórico-social.

Esta razão subjetiva se entendeu como vontade de poder e poder como dominação sobre pessoas e coisas. A centralidade agora é ocupada pelo poder do “eu”, exclusivo portador de razão e de projeto. Ele gestará o que lhe é conatural: o individualismo como reafirmação suprema do “eu”. Este ganhará corpo no capitalismo cujo motor é a acumulação privada e individual sem qualquer outra consideração social ou ecológica. Foi uma decisão cultural altamente arriscada a de confiar exclusivamente à razão subjetiva a estruturação de toda a realidade. Isso implicou numa verdadeira ditadura da razão que recalcou ou destruíu outras formas de exercício da razão como a razão sensível, simbólica e ética, fundamentais para a vida social.

O ideal que o “eu” irá perseguir irrefreavelmente será um progresso ilimitado no pressuposto inquestionável de que os recursos da Terra são também ilimitados. O infinito do progresso e o infinito dos recursos constituirão o a priori ontológico e o parti pri fundador desta refundação
do mundo.

Mas eis que depois de quinhentos anos, nos damos conta de que ambos os infinitos são ilusórios. A Terra é pequena e finita. O progresso tocou nos
limites da Terra. Não há como ultrapassá-los. Agora começou o tempo do mundo finito. Não respeitar esta finitude, implica tolher a capacidade de reprodução da vida na Terra e com isso pôr em risco a sobrevivência da espécie. Cumpriu-se o tempo histórico do capitalismo. Levá-lo avante custará tanto que acabará por destruir a sociabilidade e o futuro. A persistir nesse intento, se evidenciará o caráter destrutivo da irracionalidade da razão.

O mais grave é que o capitalismo/individualismo introduziu duas lógicas que se conflitam: a dos interesses privados dos “eus” e das empresas
e a dos interesses coletivos do “nós” e da sociedade. O capitalismo é, por natureza, antidemocrático. Não é nada cooperativo e é só competitivo.

Teremos alguma saída? Com apenas reformas e regulações, mantendo o sistema, como querem os neokeynesianos à la Stiglitz, Krugman e outros entre nós, não. Temos que mudar se quisermos nos salvar.

Para tal, antes de mais nada, importa construir um novo acordo entre a razão objetiva a a subjetiva. Isso implica ampliar a razão e assim libertá-la do jugo de ser instrumento do poder-dominação. Ela pode ser razão emancipatória.

Para o novo acordo, urge resgatar a razão sensível e cordial para se compor com a razão instrumental. Aquela se ancora do cérebro límbico, surgido há mais de duzentos milhões de anos, quando, com os mamíferos, irrompeu o afeto, a paixão, o cuidado, o amor e o mundo dos valores. Ela nos permite fazer uma leitura emocional e valorativa dos dados científicos da razão instrumental. Esta emergiu no cérebro neocortex há apenas 5-7 milhões de anos. A razão sensível nos desperta o reencantamento e o cuidado pela vida e pela mãe-Terra.

Em seguida, se impõe uma nova centralidade: não mais o interesse privado mas o interesse comum, o respeito aos bens comuns da Humanidade e da Terra destinados a todos.

Depois a economia precisa voltar a ser aquilo que é de sua natureza: garantir as condições da vida física, cultural e espiritual de todas as pessoas. Em continuidade, a política deverá se construir sobre uma democracia sem fim, cotidiana e inclusiva de todos seres humanos para que sejam sujeitos da história e não meros assistentes ou beneficiários. Por fim, um novo mundo não terá rosto humano se não se reger por valores ético-espirituais compartidos, na base da contribuição das muitas culturas, junto com a tradição judaico-cristã.

Todos esses passos possuem muito de utópico.
Mas sem a utopia afundaríamos no pântano dos interesses privados e corporativos. Felizmente, por todas as partes repontam ensaios, antecipadores do novo, como a economia solidária, a sustentabilidade e o cuidado vividos como paradigmas de perpetuação e reprodução de tudo o que existe e vive. Não renunciamos ao ancestral anseio da comensalidade: todos comendo e bebendo juntos como irmãos e irmãs em casa.

Leonardo Boff. Teólogo/Filósofo
lboff@leonardoboff.com

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Contraponto 8828 - "Robert Fisk: A Arábia Saudita como fonte da democracia"

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30/07/2012

Denúncias

Robert Fisk: A Arábia Saudita como fonte da democracia

Do Viomundo - publicado em 30 de julho de 2012 às 1:23

Robert Fisk: Guerra síria, de mentiras e hipocrisia

O verdadeiro alvo do Ocidente não é o regime brutal de Assad mas seu aliado, o Irã, e suas armas nucleares

no diário britânico Independent, em 29.07.2012

Já houve uma guerra no Oriente Médio com tanta hipocrisia? Uma guerra com tanta covardia e imoralidade, falsa retórica e humilhação pública? Não estou falando sobre as vítimas físicas da tragédia síria. Estou me referindo às mentiras e enganações de nossos mestres e de nossa opinião pública — oriental e ocidental — em resposta à matança, à pantomima perversa que mais lembra uma sátira de Swift do que Tolstoy ou Shakespeare.

Enquanto o Qatar e a Arábia Saudita armam e financiam os rebeldes da Síria para derrubar a ditadura alawita/xiita-Baathista de Bashar al-Assad, Washington não profere uma palavra de crítica contra eles. O presidente Barack Obama e sua secretária de Estado, Hillary Clinton, dizem que querem democracia na Síria. Mas o Qatar é uma autocracia e a Arábia Saudita está entre as mais perniciosas ditaduras-reinos-califados do mundo árabe. Os governantes dos dois estados herdam o poder de suas famílias — assim como Bashar — e a Arábia Saudita é aliada dos rebeldes salafistas-wahabistas da Síria, assim como foi um dos mais fervorosos apoiadores do medieval Talibã durante a idade da escuridão afegã.

De fato, 15 dos 19 sequestradores-assassinos em massa de 11 de setembro de 2001 vieram da Arábia Saudita, depois do que, naturalmente, bombardeamos o Afeganistão. Os sauditas estão reprimindo sua própria minoria xiita da mesma forma como pretendem destruir a minoria alawita-xiita da Síria. E acreditamos que a Arábia Saudita quer instalar uma democracia na Síria?

Temos então o partido-milícia xiita Hezbollah no Líbano, mão direita do Irã xiita e apoiador do regime de Bashar al-Assad. Por 30 anos, o Hezbollah defendeu os xiitas oprimidos do sul do Líbano contra a agressão israelense. Eles se apresentam como defensores dos direitos dos palestinos da Cisjordânia e de Gaza. Mas, diante do lento colapso de seu aliado implacável na Síria, perderam a língua. Não disseram uma palavra — nem mesmo Sayed Hassan Nasrallah — sobre os estupros e o assassinato em massa de civis sírios por soldados de Bashar e pela milícia Shabiha.

E temos também os heróis dos Estados Unidos — La Clinton, o secretário de Defesa Leon Panetta e Obama. Clinton divulgou uma “advertência” para Assad. Panetta — o mesmo homem que repetiu para os últimos soldados dos Estados Unidos no Iraque a velha mentira sobre a conexão de Saddam com o 11 de setembro — anunciou que as coisas “estão saindo do controle” na Síria. Mas isso está acontecendo há seis meses. Descobriu isso agora? E Obama nos disse na semana passada que “dado o estoque de armas químicas do regime, continuaremos a deixar claro para Assad… que o mundo está de olho”. Mas, não foi aquele jornal do Condado de Cork, chamado Skibbereen Eagle, que temendo a cobiça da Rússia em relação à China declarou “que estava de olho… no czar da Rússia?”. Agora foi a vez de Obama enfatizar o pouco que pode influir nos grandes conflitos do mundo. Bashar deve estar tremendo de medo.

Será que o governo dos Estados Unidos realmente gostaria de ver os atrozes arquivos da tortura de Bashar abertos para nós? É que, apenas alguns anos atrás, o governo Bush mandava muçulmanos para Damasco para que os torturadores de Bashar arrancassem suas unhas em troca de informação, presos a pedido do governo dos Estados Unidos no mesmo buraco infernal que os rebeldes sírios implodiram na semana passada. As embaixadas ocidentais diligentemente ofereciam aos torturadores as perguntas que deviam ser feitas às vítimas. Bashar, vejam bem, era nosso bebê.

Ah, existe aquele país da vizinhança que nos deve muita gratidão: o Iraque. Na semana passada, sofreu em um dia 29 ataques a bomba em 19 cidades, com a morte de 111 civis e ferimentos em outros 235. No mesmo dia, o banho de sangue da Síria consumiu um número parecido de inocentes. Mas o Iraque estava no pé da página, enterrado abaixo da dobra, como dizem os jornalistas; porque, naturalmente, nós demos liberdade ao Iraque, uma democracia jeffersoniana, etc, etc, não é verdade? Então essa matança a leste da Síria não tem a mesma importância, certo? Nada que fizemos em 2003 levou ao que o Iraque sofre hoje, certo?

Por falar em jornalismo, quem na BBC World News decidiu que os preparativos para as Olimpíadas deveriam preceder no noticiário os ultrajes da Síria na semana passada? Os jornais britânicos e a BBC no Reino Unido naturalmente deveriam destacar as Olimpíadas, como notícia local. Mas, em uma decisão lamentável, a BBC — transmitindo para o mundo — também decidiu que a passagem da tocha olímpica era mais importante que crianças sírias morrendo, ainda que os despachos viessem do corajoso repórter da emissora, diretamente de Aleppo.

E, naturalmente, há nós, os queridos liberais que rapidamente enchem as ruas de Londres para protestar contra a matança israelense de palestinos. Justo, com certeza. Quando nossos líderes políticos se contentam em condenar os arábes por sua selvageria mas se mostram muito tímidos para dizer uma palavra de tênue crítica quando o exército israelense comete crimes contra a humanidade — ou assiste a aliados fazendo isso no Líbano –, gente comum deve relembrar ao mundo que não somos tão tímidos quanto nossos líderes. Mas quando a matança na Síria atinge de 15 mil a 19 mil pessoas — talvez 14 vezes mais que as mortes causadas pela investida selvagem de Israel em Gaza, em 2008-2009 — praticamente nenhum manifestante, a não ser pelos exilados sírios, foi para as ruas condenar estes crimes contra a humanidade. Os crimes de Israel não atingem esta escala desde 1948. Certo ou errado, a mensagem é simples: demandamos justiça e direito à vida para árabes se eles forem massacrados pelo Ocidente ou seus aliados israelenses; mas não quando eles são massacrados por outros árabes.

E enquanto isso, nos esquecemos da “grande” verdade. Que esta é uma tentativa de esmagar a ditadura síria não por causa de nosso amor pelos sírios ou nosso ódio pelo nosso ex-amigo Bashar al-Assad, ou por causa de nosso ódio pela Rússia, cujo lugar está garantido no panteão dos hipócritas quando vemos a reação do país às pequenas Stalingrados que se espalham na Síria. Não, esta guerra é sobre o Irã e nosso desejo de esmagar a República Islâmica e seus planos nucleares infernais — se eles existirem — e não tem nada a ver com direitos humanos ou com o direito à vida ou à morte dos bebês sírios. Quelle horreur!

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domingo, 29 de julho de 2012

Contraponto 8827 - "Folha e Merval admitem a farsa do mensalão, e pede ao STF votar a aplicar o AI-5"

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29/07/2012

Folha e Merval admitem a farsa do mensalão, e pede ao STF v0ltar a aplicar o AI-5

Do Amigos do Presidente Lula - 29/07/2012

Na hora da verdade, o jornal "Folha de São Paulo" e o colunista do jornal "O Globo" Merval Pereira já começam a pipocar diante do julgamento do mensalão.

Em editorial, a Folha admite que mentiu nos últimos 7 anos de investigações, pois não foi possível provar as acusações centrais: nem compra de votos, nem a origem pública do dinheiro.

Essa é a grande farsa do mensalão. Se a denúncia fosse de caixa-2 de campanha, coisa admitida por todos, e que todas as provas apontam para isso, seria um processo honesto. Mas quiseram carregar nas tintas para forjar uma crise política, e inventaram a estória da compra de votos e de que doações de campanha por caixa-2 de empresas privadas seria dinheiro público.

Agora, tudo indica, não haverá como condenar a maioria dos acusados.

O que pede a Folha, então? Com outras palavras, pede ao STF que aplique os critérios de um monstrengo criado pela ditadura, o AI-5. Aquele dispositivo na mão do ditador para cassar algum adversário político que incomodava, inventando alguma acusação sobre ele como desculpa, dizendo para o distinto público que era "moralização" da política e "combate à corrupção".

Merval Pereira faz a mesma coisa. Admite que o julgamento é político. Dissimula em texto burilado o pedido para o STF também aplique o AI-5 em nome da "moralidade pública".

Se a Folha e Globo ainda fossem apenas fascistas, mas pelo menos tivessem honestidade de propósitos, seria questão de divergência política. O problema é que a preocupação com moralidade e combate à corrupção passam longe nestes veículos de comunicação, pois tem uma enorme má vontade em aprofundar no mensalão tucano, na privataria tucana e na CPI do Cachoeira, quando aponta para José Serra (PSDB-SP).

Esses órgãos de imprensa querem apenas expurgar trabalhistas e socialistas da política brasileira, para recolocar no Planalto os demotucanos velhos de guerra, governos dóceis aos interesses econômicos dos barões da mídia.

A mentira de Merval

O colunista do Globo contou uma mentira ao argumentar que Eduardo Azeredo (PSDB-MG) responde a processo por responsabilidade e Lula não, devido a decisão política do Procurador-Geral.

A verdade é que Azeredo foi incluído no processo do mensalão tucano porque há cheques para ele e recibos, que são provas materiais. Contra Lula, vasculharam à vontade e não acharam nada.
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Contraponto 8826 - "Fim do inferno astral"

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29/07/2012

Fim do inferno astral
Do Cafezinho - 27/07/2012

Miguel do Rosário

A mídia hoje traz notícias que sugerem o fim do período de inferno astral do governo Dilma. Crescimento baixo, crises políticas, inadimplência em alta, indústrias sangrando, motim entre aliados, greve de servidores. Uma série de fatores conjugavam-se para deixar a presidente numa situação delicada, apesar de sua alta popularidade.

  1. O crescimento baixo parece ter chegado ao fim. Todas as previsões (FMI, Banco Central, agentes privados) indicam que o segundo semestre assistirá a uma aceleração da economia. A mudança não veio de graça. O governo promoveu uma violenta guinada na política econômica, abandonando a postura conservadora e recessiva do primeiro ano; e adotando uma mais assertiva, quase interventora, em 2012: fazendo pressão pela redução de juros e spreads, cortando impostos e ampliando fortemente o crédito.
  2. As crises políticas amainaram, em primeiro lugar com a postura algo jesuítica da presidente de usar a mídia para fazer uma espécie de limpeza dentro de casa, arcando com os riscos de enfurecer aliados feridos com denúncias nem sempre consistentes. Em segundo lugar, porque a Polícia Federal estourou o principal bunker de produção de escândalos: o esquema Cachoeira, que espionava agentes do governo, muitas vezes arquitetando armadilhas, para entregar fitas à revista Veja. O feitiço virou contra o feiticeiro e hoje Cachoeira e Veja estão no banco dos réus.
  3. A inadimplência parou de cair. É bom lembrar que o aumento da dívida do cidadão brasileiro se deu, principalmente, pelo crescimento do crédito imobiliário, o que é um fato positivo. Mas a inadimplência é sempre negativa, e, apesar de ainda estar em níveis aceitáveis, vinha aumentando. Pois bem, em junho deu uma trégua e a estimativa de bancos privados e do Banco Central é que registre um declínio substancial até o fim do ano.
  4. O sangramento das indústrias também deve se reduzir nos próximos meses. A redução em até 30% no custo de energia pode representar um incentivo determinante para restabelecer a sua competitividade. A queda nos juros, spread, concessão de crédito e redução de tributos, produzirão um ambiente amigável no qual as indústrias nacionais poderão, enfim, deflagrar um grande contra-ataque às suas concorrentes externas.
  5. As greves dos servidores parece estar se encaminhando a uma resolução. Dilma já acenou com um aumento linear para todos os servidores federais, a partir de janeiro de 2013. A mobilização dos professores universitários, embora os sindicatos não queiram admitir (porque a lógica sindical é de arrancar sempre mais), já resultou num ganho considerável dos salários, desde a base até as categorias top; a greve não deve durar muito mais. O aumento de 45% para os professores com dedicação exclusiva é de fazer inveja a qualquer outro assalariado no país. E os na base da categoria, conseguiram arrancar aumento médio de 25%.
  6. No dia 31, Dilma, Mujica e Cristina baterão o martelo para a entrada da Venezuela no Mercosul, o que deverá servir para fortalecer substancialmente o bloco, apesar dos faniquitos da mídia. A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do planeta e, por isso mesmo, é um grande importador de produtos manufaturados e básicos. Sua entrada beneficia a indústria brasileira e de nossos vizinhos. A decisão, além disso, representa um delicioso contragolpe ideológico contra a direita golpista do continente (que patrocinou e apoiou o golpe no Paraguai), e por isso mesmo ajuda a azeitar a relação da durona Dilma com as sempre desconfiadas forças progressistas.

De resto, temos o julgamento do mensalão, que paradoxalmente também ajuda o governo Dilma, porque desvia atenção dos pitbulls midiáticos, que a partir de agora acompanharão cada notícia com dentes pra fora e baba escorrendo da boca. As notícias podem prejudicar o PT, mas não respingam em Dilma, nem em seus ministros, que não têm nada a ver com o escândalo de caixa 2 das campanhas de 2002.

Por outro lado, temos a CPI do Cachoeira, que corresponde a um câncer nos órgãos vitais da oposição, visto que o vilão número 1 era o seu principal campeão ético, Demóstenes Torres; além de envolver a sua maior arma, a revista Veja, cujas denúncias contra o PT eram forjadas nos porões da máfia do bicho.

Quanto às eleições, os prognósticos – por mais que a mídia tente confundir as análises – são de crescimento do núcleo de esquerda da base aliada: PT, PSB, PDT, PCdoB, devem crescer, e a oposição, declinar. O PMDB deve crescer apenas onde decidiu se aliar de maneira mais explícita com partidos de esquerda, como no Rio de Janeiro.

O PT conseguiu dar um contragolpe genial em Belo Horizonte; mesmo que não ganhe, conseguirá certamente eleger um bom número de vereadores e sustar o avanço eleitoral do aecismo em Minas Gerais. Em Recife, a vantagem de Humberto Costa em Recife me parece difícil de ser superada.

Em São Paulo, Haddad continua estagnado, mas há uma enorme expectativa para quando começar a propaganda de TV, porque o PT conseguiu um bom tempo, e somente quando o petista vencer a barreira do anonimato será possível avaliar concretamente o seu potencial de voto. De qualquer forma, temos a mesma situação de BH; mesmo que o PT perca, conseguirá eleger um bom número de vereadores; e provavelmente aumentará sua presença nas cidades no entorno da capital, e em todo estado de São Paulo.

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Contraponto 8825 - "Sarah Menezes e o Bolsa Atleta"

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29/07/2012

Sarah Menezes e o Bolsa Atleta

Do Blog do Miro - 28/7/2012


Por Altamiro Borges

A judoca Sarah Menezes conquistou neste sábado a primeira medalha de ouro do Brasil nas Olimpíadas de Londres. A vitória é das mais significativas. É o primeiro ouro na história do judô feminino, o terceiro no judô em geral e o segundo das mulheres brasileiras em esportes individuais. Ela também é muito significativa por ter sido conquistada por uma esportista que se projetou graças ao programa Bolsa-Atleta do Ministério dos Esportes. É um cala-boca nos neoliberais que criticam a “gastança pública” dos governos Lula e Dilma.


Natural de Teresina, capital do Piauí, a jovem atleta de apenas 22 anos teve muitas dificuldades na sua carreira. Teve que enfrentar os obstáculos financeiros de uma família pobre e até o preconceito contra um esporte considerado masculino pelo seu pai. O programa Bolsa-Atleta viabilizou sua persistência no esporte e nos estudos. Atualmente, ela cursa o quinto período do curso de Educação Física e continua a treinar na sua cidade natal. Hoje, inclusive, ela já conta com três patrocínios privados para os seus treinamentos.

Orgulho dos brasileiros

Feliz com o ouro olímpico, Sarah declarou que sempre acreditou no seu potencial e esforço. “Sei que sou um exemplo no judô porque não sou dos grandes centros. E serei ainda mais depois disso... Acho que as coisas vão melhorar tanto para mim quanto para a minha família. Financeiramente vai melhorar. E também para quem treina comigo”, declarou, emocionada, logo após a vitória.

A presidenta Dilma parabenizou Sarah Menezes e também Felipe Kitadai, que conquistou a medalha de bronze no judô. “Em nome de todos brasileiros, quero parabenizar os dois atletas pela brilhante conquista. O Brasil comemora a vitória de seus atletas e o governo se orgulha de ter contribuído para essa conquista com o Programa Bolsa Atleta, que vem tendo importante papel na profissionalização de nossos esportistas”.
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Contraponto 8824 - "A refundação do Mercosul"

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29/07/2012

A refundação do Mercosul

Da Carta Maior - 28/07/2012

Emir Sader

A entrada da Venezuela como membro pleno do Mercosul - a ser formalizada na próxima terça-feira em Brasília – permite que o Mercosul reformule não apenas sua composição, mas ganhe novo impulso e ocupe todos os espaços da integração regional. Esse novo formato rompe com círculos viciosos que estavam fazendo o Mercosul girar em falso, pelas disputas comerciais por mercado entre grandes corporações privadas brasileiras e argentina. Com os outros dois países – Uruguai e Paraguai – marginalizados.

Enquanto isso os processos de integração regional – Unasul, Banco do Sul, Conselho Sulamericano de Defesa, Comunidade de Estados Latinoamericanos e do Caribe – avançavam. No começo da crise economica internacional, foi a Unasul que promoveu as reuniões dos governos sulamericanos para formular estratégias comuns de resistência aos efeitos recessivos da crise.

A solicitação de ingresso da Venezuela tinha sido aprovado no Congresso da Argentina, do Uruguai e do Brasil, ficando, há anos, bloqueada no Senado do Paraguai. Quando esse mesmo Senado promoveu o golpe branco que derrubou Fernando Lugo, os outros tres países do Mercosul, além de condenar o golpe, decidiram pelo ingresso da Venezuela, depois da suspensão do Paraguai como membro pleno.

O ingresso da Venezuela permitirá uma espécie de refundação do Mercosul, não apenas rompendo com o círculo vicioso apontado, mas também estendendo as esferas de integração para outras áreas, entre elas, a educação, a pesquisa, tecnologia, a comunicação, a cultura, os esportes, entre outros. Assim como, no próprio plano econômico, aprofundar as formas de integração.

Enfim, o Mercosul passa a poder expressar a força que a região tem demonstrado, ressaltada ainda mais pelo contraste com os países do centro do capitalismo, que seguem em crise e em recessão. Os países do Mercosul estão entre os países latino-americanos que priorizam a integração regional, as políticas sociais e um Estado ativo nos planos econômico e social.

O Mercosul, incorporando a terceira economia da América do Sul, torna-se um pólo econômico dinâmico no Sul do mundo. Deve incorporar a Bolívia e o Equador – que já solicitaram seu ingresso – como membros plenos, avançando na integração econômica regional.

Daí a importância da reunião da próxima terça-feira, uma das mais importantes em toda a historia do Mercosul e certamente a mais importante há muito tempo.


Emir Sader. Sociólogo e cientista político

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Contraponto 8823 - Ministro 'mensalado' pode julgar mensalão?

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29/07/2012

Gilmar vai julgar, Ministro Ayres Britto?

Do Conversa Afiada - Publicado em 29/07/2012

Como fica, Presidente Ayres Britto, o seu maculado Tribunal ?


A denúncia de Mauricio Dias e Leandro Fortes na Carta Capital, cria um problema para o Presidente Ayres Britto.

Nada que mereça a dúvida hamletiana.

Uma questão que o bom senso e o sentido de Justiça resolvem sem vacilação.

A questão trivial é: como iniciar o julgamento do mensalão com um juiz “mensalado”?

O julgamento do mensalão já estava comprometido pela prevaricação de Gilmar: ter sido chantageado e não denunciar o chantageador à Polícia.

Agora, está posta sobre a mesa uma questão que tem a ver com a própria legitimidade do Tribunal.

Um dentre vós mensalou.

Este julgamento já estava cercado de nuvens.

A começar pela submissão do Tribunal à escancarada merval pressão para o Ministro Peluso ter tempo de votar (contra o Dirceu).

Embora este ansioso blogueiro duvide que Peluso condene Dirceu sem provas: os mervais passam e a biografia fica.

O Tribunal de Contas da União, que serve para empacar o PAC, não servirá para desmontar a acusação central do brindeiro Gurgel – a de que houve dinheiro público na operação ?

E a legitimidade do próprio acusador ?

Como pode o Tribunal Supremo ouvir calado as acusações de um juiz acusado de prevaricar por um senador da República e, ele próprio acusador submetido ao julgamento da Corregedoria do Ministério Público ?

Com que autoridade moral pode o Procurador da sociedade dizer qualquer coisa em defesa da sociedade, se ela própria nele não confia, se ele próprio está em julgamento ?

Mas, vamos relevar tudo isso em nome do “bom mocismo”, do “homem cordial” que vive em cada um de nós, dentro da mesma “sopa” que nos congrega e na amortece, como diz o Mino Carta.

Uma sopa.

Um pirão.

Mesmo assim, como ficam os juízes que se reúnem a um colega que “manda subir; que recebe R$ 180 mil do Eduardo Azeredo, que foi enviado ao Supremo por Fernando Henrique Cardoso , aquele que, na companhia do filho, recebeu uma “mensalada” de R$ 500 mil, com a expressa recomendação do Azeredo e do Pimenta da Veiga ?

Como fica, Presidente Ayres Britto, o seu maculado Tribunal ?

Que Tribunal vai julgar o mensalão, se recebe mensalada ?

Que tribunal vai julgar logo em seguida o mensalão tucano ?

E dar legitimidade à Operação Satiagraha ?

Quem julgará tudo isso ?

Se está atolado nesse pirão ?

O que dirão a turba e o Zé Mané da esquina desse Egregio Tribunal ?

Gilmar Dantas (*) não pode estar sentado à mesa em que o senhor está, Ministro Ayres Britto.

O que marcará a sua Presidência não será o julgamento dos mensalões ou a recuperação da Satiagraha.

Mas o destino que dará à inglória carreira de Gilmar Dantas (*), a mais nefasta das heranças de Fernando Henrique.


Paulo Henrique Amorim



(*) Clique aqui para ver como eminente colonista do Globo se referiu a Ele. E aqui para ver como outra eminente colonista da GloboNews e da CBN se refere a Ele. E não é que o Noblat insiste em chamar Gilmar Mendes de Gilmar Dantas (*) ? Aí, já não é ato falho: é perseguição, mesmo. Isso dá processo…”

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Contraponto 8822 - " Os muros invisíveis d América Latina"

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29/07/2012

Gilson Caroni Filho: Os muros invisíveis d América Latina

Do Viomundo - publicado em 29 de julho de 2012 às 12:27

Linkpor Gilson Caroni Filho

“As idéias são cárceres de longa duração”, dizia Fernand Braudel. Cárceres que aprisionam geração após geração, e dos quais é muito difícil escapar, não só pela invisibilidade dos seus muros, mas também pela sua imperceptível reprodução.

Quando os anos de ditadura (1973-1985) fizeram com que os uruguaios, de alguma forma, esquecessem ou perdessem, em meio a tanto medo e repressão, aquele orgulho por sua democracia, que era uma parte integrante do próprio “ser nacional”, uma mulher, entre tantos outros resistentes, se dispôs a reconstruir o imaginário de uma sociedade civil dinâmica, marcada , até a chegada dos militares ao poder, pela convivência democrática, a livre exposição de ideias e uma poderosa organização partidária e sindical.

Alba Roballo, senadora da Frente Ampla, foi a primeira mulher latino-americana a ocupar um ministério (Cultura) e dele saiu pouco antes de os primeiros estudantes caírem assassinados nas ruas de Montevidéu por um regime que implantou medidas de exceção e abriu caminho para o golpe de estado.

A ditadura uruguaia respondeu a uma política global do imperialismo norte-americano, que tinha por objetivo reverter todo o quadro político do continente, evitando que a democracia liberal – que em geral tinha estado associada aos sistemas vigentes – derivasse em regimes de conteúdo popular e matiz socialista. Militante e escritora, a senadora sabia o significado mais profundo da Frente Popular: um movimento anti-imperialista e anti-oligárquico, um projeto que não se limitando a uma conjuntura determinada, visava a uma nova opção de poder no país.

Como escritora, a partir de 1973, viveu a anti-criação. Como política, sua condição de cassada lhe criou a angústia de ser morta em plena vida inquieta e combatente. Costumava definir a condição de proscrita de forma cortante: ”É terrível, não a desejo para ninguém. Colocar um ser vivo no cal ou torná-lo cinza é um ato de crueldade e de injustiça feroz e principalmente se não fizemos nada para merecê-lo”

Mas a dirigente política jamais se permitiu ser pessimista. Nem na inteligência nem na vontade. A presença maciça do povo nas ruas, o avanço no acerto de ações comuns entre partidos políticos legais e os colocados na ilegalidade pelos militares, a unanimidade dos dirigentes e das bases na exigência de uma nova democracia que permitisse à cidadania uruguaia ser protagonista da própria história, eram o combustível que alimentava sua crença e sua poesia.

Sua motivação para seguir na luta era o destino dos milhares de presos políticos, entre eles Líber Seregni, presidente da Frente Ampla, preso em Montevidéu desde 1974, Jaime Pérez, Massera, Pietrarroia e muitos outros, num claro sinal de que o principal alvo da ditadura era o movimento que, somente em 2004, após décadas de um regime bipartidário de tendência conservadora, formado pelos partidos Colorado e Nacional.

Autora de inúmeros livros, sua obra poética era também um compromisso político. Em “Tempo de Lobos” (1970) relata o terror e o sofrimento impingidos ao povo uruguaio durante o regime militar. Sua poesia enfrenta o discurso com armas desiguais: opõe síntese à mentira, calor à loucura, sonho à violência. Proclama “todo espanto desta triste América / que está gritando aos quatro ventos do delírio”

Alba morreu em 1996. Não viu Tabaré Vázquez e Pepe Mujica chegarem ao poder. Mas sempre soube que a Frente Ampla teria futuro. E nunca duvidou que seria um futuro de êxitos. Não viveu para ver o general Gregório Álvarez, ditador uruguaio de 1981 a 1985, ser condenado a 25 anos de prisão por ter participado de 35 execuções no regime militar. Mas os muros invisíveis contra os quais lutou desmoronam um a um no devir latino-americano.

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Contraponto 8821 - "Jornal ligado ao PSDB reconhece que não há provas do mensalão"

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29/07/2012

Eduardo Guimarães

Não pode passar despercebido um texto jornalístico que, por si só, antecipa o fim do julgamento do mensalão. Trata-se de editorial da Folha de São Paulo publicado em sua última edição dominical sob o título “À espera do mensalão”. A certa altura, o texto desmente tudo o que a mídia ligada ao PSDB vem afirmando há anos.

Esse veículo de comunicação que, depois da revista Veja, é o mais identificado com a oposição ao PT e ao governo Dilma, a dias do início do julgamento já reconhece que não há provas de que houve compra de parlamentares e uso de dinheiro público por ação da cúpula do partido.

Desprezando alegorias do texto destinadas a conferir grandiosidade a julgamento que, segundo um ministro do STF (Ricardo Lewandowsky), não teria caráter político se não fosse a pressão da mídia, há que analisar, um a um, os trechos que interessam a fim de chegar àquele que mais interessa.

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Da Folha:

“(…) De acordo com a PGR [Procuradoria Geral da República], o mensalão foi um esquema ilegal de financiamento político organizado pela cúpula do PT para garantir apoio ao governo comprando votos no Congresso Nacional em 2003 e 2004, no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A acusação sustenta que o mensalão foi alimentado com recursos públicos desviados pelas agências de publicidade do empresário Marcos Valério em meio a supostos empréstimos dos bancos Rural e BMG. O esquema teria distribuído ao menos R$ 43 milhões ao PT e mais quatro partidos aliados (…)”.

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O caráter político do julgamento do mensalão é a sua grande fraqueza. E tal caráter foi conferido pelo indiciamento daquele que, à época dos fatos, ocupava o segundo posto mais importante do governo Lula: o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu.

A tese de que Dirceu organizou um esquema de compra de apoio parlamentar para o governo Lula na Câmara dos Deputados usando dinheiro público imputa àquele governo a autoria intelectual do crime. Assim sendo, caso Dirceu não seja condenado a tese em questão simplesmente desmorona.

Continuemos a leitura dos trechos que importam no editorial.

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Da Folha:

“(…) A gravidade do ocorrido pode ser medida pelas palavras do próprio Lula. Não as de hoje, calcadas na tese hipócrita de que se tratou de uma farsa golpista. Melhor confiar nas que foram proferidas no calor da hora, quando o então presidente se mostrava bem mais realista.

Em pronunciamento no dia 12 de agosto de 2005, pouco mais de dois meses após o ex-deputado Roberto Jefferson revelar o mensalão em entrevista a Renata Lo Prete, nesta Folha, o ex-presidente afirmou que se sentia ‘traído por práticas inaceitáveis’ (…)”

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Dez em cada dez comentários da imprensa aliada ao PSDB sobre o mensalão usam essa frase de Lula proferida em entrevista que concedeu ao programa global “Fantástico” em viagem que fez à França à época do estouro do escândalo.

A mídia oposicionista e seus colunistas tentam transformar essa frase em admissão de que o que aconteceu foi compra de votos pelo governo federal com uso de dinheiro público, quando o que Lula disse, à época, foi que houve, sim, práticas ilegais, mas foram de uso de “caixa 2” e, por isso, considerou-as inaceitáveis. Apenas isso.

Agora, por fim, chegamos ao ponto principal do editorial da Folha. Leia com atenção porque, após tanta repetição de chavões pela mídia de 2005 para cá, é a primeira vez que ela assume fatos que vêm sendo informados por blogs como este desde aquela época.

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Da Folha:

“(…) Evidências colhidas em sete anos de investigações, entretanto, não seriam suficientes, aos olhos de alguns especialistas, para caracterizar a ilicitude em duas questões centrais: a finalidade do esquema e a natureza dos recursos.

Não há nos autos elementos que sustentem de forma inequívoca a noção de que o objetivo do mensalão era comprar respaldo no Congresso. Sem a demonstração de que os pagamentos foram oferecidos em troca de apoio parlamentar, perdem alguma força as acusações de corrupção.

Quanto ao dinheiro, o STF precisará se pronunciar sobre sua origem, se pública ou privada. Comprovar o desvio de recursos públicos é pré-requisito para algumas acusações de lavagem de dinheiro, por exemplo (…)”

Ora, acabou o julgamento. Ao menos no que tange à tese de compra de apoio parlamentar e uso de dinheiro público, deixando, “apenas”, acusação de formação de caixa 2 àqueles que sacaram dinheiro “não contabilizado” na boca do caixa, desvio que certamente ocorreu e que tem que ser punido.

Chega a ser constrangedor, portanto, ter que escrever o que vai a seguir, mas é importantíssimo que as pessoas entendam a filosofia jurídica que embasa o Estado Democrático de Direito.

In Dubio Pro Reo é uma expressão latina que significa, literalmente, que, na dúvida, a Justiça deve sempre decidir a favor do réu. Essa expressão traduz o princípio jurídico da presunção da inocência. É um princípio consagrado em TODAS as democracias dignas do nome.

Em caso de dúvida (por exemplo, insuficiência de provas) não pode haver condenação do réu. É um dos pilares do Direito penal e está intimamente ligado ao princípio da legalidade.

O princípio In Dubio Pro Reo se aplica “Sempre que se caracterizar uma situação de prova dúbia, pois a dúvida em relação a existência ou não de determinado fato deve ser resolvida em favor do imputado.” (apud SOUZA NETTO, 2003, p. 155).

A dúvida da autoria de um delito, assim, não está nas provas produzidas, mas na mente de quem as julga. A dúvida não é a causa e motivo de absolvição, mas falta de elementos de convicção que demonstrem ligação do acusado com o fato delituoso.

É nesse ponto que o editorial termina de enterrar a condenação ao menos de José Dirceu e, por conseguinte, a teoria de um esquema institucionalizado de compra de votos de parlamentares com uso de dinheiro público.

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Da Folha:

“(…) Parece muito provável que o mensalão tenha envolvido desvio de verbas públicas, boa parte das quais foi distribuída por próceres do PT entre correligionários e aliados. E mesmo que fosse apenas para saldar dívidas de campanha, que outro objetivo haveria nos pagamentos se não o de aliciar apoio (votos) no Congresso? (…)”

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O vício no pensamento do editorialista é flagrante e se deixa trair pelo uso de um verbo. Parecer “provável”, segundo o melhor Direito, é insuficiente para destruir a vida de alguém, ou seja, para condenar um réu à prisão e à execração pública.

Se apenas parece “provável” que houve desvio de verbas públicas, por que o editorialista escreve que parte delas “foi distribuída por próceres do PT”? Não seria mais correto dizer que parte das verbas “teria sido” distribuída? Não há nem concordância do texto com ele mesmo, pois.

O assunto mensalão ocupou cerca de 70% dos cadernos de política dos grandes jornais do domingo que antecede o início do julgamento. Tudo o que esses veículos publicaram não passa de opinião e especulação, na base do “parece”, “é provável” etc. Todavia, o editorial da Folha se diferencia porque, pela primeira vez em cerca de sete anos, um dos braços da imprensa ligada ao PSDB reconhece ausência de provas do mensalão.

Alguns dirão que foi uma escorregada, mas não foi. Após tantos anos garantindo que haveria certeza de que houve compra de votos de parlamentares e uso de dinheiro público, a mídia tucana parece querer deixar uma porta aberta por onde escapar caso o julgamento do STF seja técnico e não político, como ela quer.

Aliás, como curiosidade, vale citar matéria da mesma Folha também deste domingo que repete afirmação que este blog fez no último dia 10 de julho no post Se pressionar STF for “crime”, PIG pode “vestir” as algemas. Nesse post, o blog afirmou que o julgamento do mensalão assemelha-se ao do ex-presidente Fernando Collor.

Como se sabe, Collor foi absolvido por falta de provas. Afinal de contas, In Dubio Pro Reo.

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sábado, 28 de julho de 2012

Contraponto 8820 - "Mino: o mensalão e o julgamento de Gilmar"

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28/07/2012

Mino: o mensalão e o julgamento de Gilmar

Do Conversa Afiada - 27/07/2012

CartaCapital sempre entendeu que o “mensalão”, com o significado de mesada do suborno, nunca foi provado.



Saiu na Carta Capital:

Desatemos o nó

Wálter Fanganiello Maierovitch critica a ministra Eliana Calmon, do Superior Tribunal de Justiça, por ter dito que com o processo do chamado “mensalão” a Nação julgará o próprio Supremo. Segundo o nosso colunista, quem será julgado é o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que denunciou os acusados de participar do esquema criminoso. Procedente ou não a denúncia? Eis a questão.

O fato de que Gurgel mereça a precedência no julgamento da opinião pública não invalida a ideia da senhora Calmon, na qual sinto a constatação em lugar da pressão. Não é que o STF faça jus à confiança coral do povo brasileiro. Nem sempre foi impecável na atuação, pelo contrário. Sem contar os passos em falso dados por este ou aquele ministro. Primeiro entre eles, dentro das composições mais recentes, Gilmar Mendes.

Autoritário até a truculência, Mendes é aquele que chamou às falas o presidente Lula. E denunciou ser vítima do grampo, executado pelos agentes da Abin, de suas conversas com o amigão Demóstenes Torres, escuta que nunca houve e, mesmo assim, resultou no desterro para Portugal do chefe da agência, o honrado delegado Paulo Lacerda, melhor diretor da Polícia Federal das últimas décadas.

Mendes é sócio de um instituto de ensino, a contrariar a Lei Orgânica da Magistratura, que exige dedicação exclusiva, e não hesitou em convocar, na qualidade de professores, colegas do Supremo. Por exemplo, Eros Grau quando ministro. Tertúlias de felizes e pontuais consumidores de pizza, convictos de sua impunidade. Mendes é também acusador de Lula ex-presidente, apontado, um mês depois dos eventos alegados, como autor de pressões para influenciar seu voto no processo do “mensalão”. Foi desmentido inexoravelmente pelo próprio ex-ministro Nelson Jobim, anfitrião do encontro com Lula.

Na reportagem de capa desta edição, Mendes volta à ribalta, e por causa de circunstâncias destinadas a esclarecer de forma decisiva as razões do seu voto contrário ao envolvimento do ex-governador Eduardo Azeredo no “mensalão” das Alterosas. A suspeição de Mendes no processo que se inicia é muito mais que evidente. Talvez não seja o único ministro que a justifica. Veremos o que veremos. De saída, CartaCapital declara confiar na batuta do presidente do STF, Ayres Britto, figura de todo respeito.

Que o nó seja desatado, e não pela espada de Alexandre, o macedônio, é da conveniência da Nação em peso, inescapável juiz dos comportamentos do Supremo diante de uma questão tão crucial na perspectiva do futuro do País, emergente superdotado e até hoje cerceado pelos herdeiros da casa-grande, elite (elite?) prepotente e hipócrita, feroz e covarde. Não é por acaso que o Brasil contou com torturadores eméritos, capatazes e jagunços imbatíveis nos seus misteres. E até hoje é incapaz de negar, pela força da Justiça, a validade de uma lei da anistia imposta pela ditadura civil-militar.

CartaCapital sempre entendeu que o “mensalão”, com o significado de mesada do suborno, nunca foi provado, embora houvesse evidências de outros crimes, igualmente graves. Espera agora por um julgamento digno da Suprema Corte de um país democrático e civilizado, sem excluir de pronto possibilidade alguma.

De sorte a cumprirmos dignamente o compromisso com o jornalismo honesto, ancorado na verdade dos fatos, a partir desta edição passamos a publicar a contribuição de um grupo de professores de Direito da PUC de São Paulo, análise estritamente técnica das condições iniciais e dos desenvolvimentos do processo. Trata-se de um trabalho que alia profundidade à isenção, e que prosseguirá ao longo de toda a demanda. CartaCapital faz questão de diferenciar-se de quem se antecipa à sentença final na impafiosa certeza de ter já identificado executores e mandantes. Esperamos, apenas, que se faça justiça, a bem do Brasil.

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Contraponto 8819 - "Após o julgamento do mensalão"

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28/07/2012

Após o julgamento do mensalão


Do Blog Cidadania - 27/07/12

Eduardo Guimarães

Escrevo a seis excruciantes dias do início de um julgamento que a mídia decidiu que nem precisaria ocorrer, pois trata a todos os réus como culpados e jamais se viu uma única concessão sua à mera possibilidade de que tal juízo tenha um desfecho diferente daquele que demonstra claramente que deseja.

Neste dia, por mais uma entre incontáveis vezes, vi uma charge na grande imprensa em que o autor pretendeu representar os réus do mensalão como culpados indubitáveis – escondidos embaixo de uma cama, expressavam medo de ser julgados.

Refleti que aquele desenho (charge) resumiu a forma como a imprensa tratou um caso do qual prever o resultado nunca foi tão simples. E, sobre o qual, jamais se especulou muito sobre o que decorreria dos seus variados desfechos possíveis.

Alguém já se perguntou o que ocorrerá após o julgamento do mensalão? Como será se todos os réus forem condenados? E, claro, como será se parte deles ou – no limite do improvável – se todos eles forem absolvidos? Que implicações políticas e até institucionais podem decorrer desta ou daquela decisão?

Em ao menos um dos resultados possíveis o que se prevê é que não haverá espaço para questionamento da decisão do Supremo Tribunal Federal. Sobretudo da decisão nesse caso que é a mais aguardada, sobre José Dirceu. Caso sejam condenados todos os que a mídia quer, estará instituída uma condenação não dos envolvidos no caso, mas de um partido político e da era Lula como um todo, por mais maluca que seja essa linha de pensamento.

Restará, claro, combinar com os russos, ou seja, com o povão. A mídia espera que este, então, venha finalmente a entender que o governo Lula foi, sim, tudo aquilo que essa mídia e a oposição, em uníssono, sempre disseram que foi. E é aí que a porca entorta o rabo, pois não seria exagero prever que, se as condenações ocorrerem, o povo não vai deixar de votar em Dilma em 2014.

Por outro lado, a possibilidade da qual a mídia e a oposição não querem nem ouvir falar, mas que existe, teria um resultado cataclísmico para esse conclave antipetista, antilulista e, não se enganem, antidilmista: a absolvição seria muito mais danosa para a oposição e a mídia do que a condenação dos “mensaleiros” seria para o PT.

Até porque, o resultado que mais importa à mídia, a condenação de Dirceu, se não ocorrer desmontará a tese de pagamento de mesada do governo a deputados, enterrando, assim, o mensalão. Mesmo que outros réus sejam condenados, não se poderá dizer que havia um esquema de corrupção institucionalizado no governo Lula.

Para ambos os lados – oposição e mídia de um lado e PT do outro –, portanto, o julgamento que começa na próxima quinta-feira poderá mudar grande parte de seus planos.

O PT continuará governando e poderá usar o bem-estar social para arrefecer a memória popular. Claro que colherá um grande prejuízo eleitoral neste ano, mas a vida continuará. Já a mídia, fica difícil imaginar o que dirá além da previsível acusação ao STF de que amaciou para os poderosos, o que é uma bobagem pois os réus do mensalão e o governo não têm qualquer poder de intimidação daquela Corte.

Todavia, como mídia e oposição vêm alardeando um resultado inexorável de condenação ampla, geral e irrestrita dos adversários políticos – o que, de certa forma, referenda a tese de que esse conclave confia na decisão do STF a seu favor – agora será difícil explicar o que deu errado. A isso, alie-se o bem-estar social – que continuará sendo despejado em qualquer hipótese – e pode-se prever um golpe fatal para o oposicionismo verde-amarelo.

E, para não dizerem que não falei de flores, a previsão deste blogueiro é a de que haverá condenações, sim, mas não de todos os réus e muito menos daquele que o conclave oposicionista PRECISA que seja condenado de qualquer jeito. Até o fim de agosto saberemos quem tem razão.
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Contraponto 8818 - "Carta Capital: o valerioduto abasteceu Gilmar Mendes"

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28/07/2012

Carta Capital: o valerioduto abasteceu Gilmar Mendes

Do Viomundo - publicado em 27 de julho de 2012 às 13:21

Exclusivo

CartaCapital

CartaCapital publica na edição que chega às bancas em São Paulo nesta sexta-feira 27 uma lista inédita de beneficiários do caixa 2 da campanha à reeleição do então governador Eduardo Azeredo em 1998. O esquema foi operado pelo publicitário Marcos Valério de Souza, que assina a lista, registrada em cartório. O agora ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes aparece entre os beneficiários. Mendes teria recebido 185 mil reais.

Há ainda governadores, deputados e senadores na lista. Entre os doadores, empresas públicas e prefeituras proibidas de fazer doações de campanha. O banqueiro Daniel Dantas também aparece como repassador de dinheiro ao caixa 2.

A documentação foi entregue à Polícia Federal pelo advogado Dino Miraglia Filho, de Belo Horizonte. Ele defende a família da modelo Cristiana Aparecida Ferreira, assassinada em 2000. Segundo Miraglia, a morte foi “queima de arquivo”, pois a modelo participava do esquema e era escalada para transportar malas de dinheiro. Na lista, Cristiana aparece como destinatária de 1,8 milhão de reais.

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sexta-feira, 27 de julho de 2012

Contraponto 8817 - "Serra e a democracia de duas orelhas"

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27/07/2012

Serra e a democracia de duas orelhas

Do Jornal do Brasil - 27/05/2012

Mauro Santayana

A verdade, diz um provérbio berbere, é como o camelo: tem duas orelhas. Você pode agarrá-la como lhe for mais conveniente, pela direita ou pela esquerda. Essa parece ser a postura do candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo, que prefere a direita. Para quem conheceu o jovem Serra de há quase 50 anos, é um desconsolo descobrir o que o tempo faz aos homens. Não só, como no poema de Drummond, ao abater com sua mão pesada, cobra os anos com “rugas, dentes, calva”, mas também costuma sulcar erosões nas ideias.

José Serra quer calar os blogueiros sujos, e usou o seu partido para isso. Dois nomes são mencionados, Paulo Henrique Amorim e Luis Nassif. Não preciso expressar a minha solidariedade aos atingidos. O que está em questão — e os dois estarão de acordo com o raciocínio — é muito maior do que eles mesmos e todos os outros franco-atiradores da internet. O problema real são os limites que querem impor à democracia.

Ao que parece, há uma liberdade de imprensa para uns, e outra para os demais. Os grandes veículos de comunicação combatem o governo e recebem dele vultosas verbas de publicidade, como é do conhecimento geral. Alguns poucos blogs, por convicção, defendem o governo federal, mas, conforme o PSDB, estão impedidos de receber verbas publicitárias das empresas estatais.

Nenhum jornalista brasileiro pode se dar o luxo de não contar, em sua remuneração, qualquer que ela seja, com parcelas, ainda que pequenas, de dinheiro público. O poder público é a base de toda a economia nacional. Ele contrata as empreiteiras, compra das grandes empresas industriais, além de subsidiá-las com incentivos fiscais, financia as atividades agropecuárias, paga pelos serviços, participa do custeio das grandes organizações patronais, entre elas a Fiesp, para ficar apenas em São Paulo. Assim, indiretamente, participa de todos os gastos com publicidade.

E mais ainda: quem paga tudo, afinal, é a sociedade e, nela, os que realmente produzem, ou seja, os trabalhadores. E são os trabalhadores, com parcela de seu suor, que mantêm o enganoso Fundo de Amparo ao Trabalhador que, administrado pelo Estado, por intermédio do BNDES, financiou as privatizações e continua a financiar empresas estrangeiras, como é o caso notório das companhias telefônicas, a começar pela controlada pelos espanhóis. Em suma, o trabalhador paga pela corda que o sufoca.

Serra e os que pensam como ele tentam, como Josué em Jericó, segurar o sol com as mãos ou, melhor, impedir que a Terra continue rodando em torno de seu eixo e em torno da nossa estrela. A internet é indomável. E, apesar de suas terríveis distorções, como veículo que serve à difamação, à calúnia, à contrainformação, à difusão de atos de insânia — ampliando o que a televisão vinha fazendo — não há, no horizonte das ideias plausíveis, como amordaçar os bytes, imobilizar os elétrons, apagar as telas. Tudo isso poderá ocorrer com uma tempestade solar, mas nunca pela ação dos estados — a menos que, como tantos sonham, um governo fascista mundial destrua o sistema.

O candidato José Serra e seus correligionários se encontram alheios ao mundo que os cerca. Estão como um francês distraído que, em 10 de agosto de 1792, em um dos muitos cafés do Jardim das Tuileries, tomava placidamente uma baravoise — para os curiosos, mistura de café, conhaque e uma gema de ovo, segundo a receita do libertino Casanova. Enquanto isso, a multidão invadiu o Palácio Real — de onde, por pouco, escaparam Luis XVI e Maria Antonieta — e o saqueou. O desconhecido continuou a beber. Todos os que o cercavam fugiram esbaforidos. Na defesa do palácio, morreram seiscentos guardas suíços. O francês distraído estava alheio a tudo, em sua manhã de agosto. Cinco meses depois, o rei e a rainha encontrariam a lâmina da guilhotina.

José Serra e os seus estão pensando em seu outubro, embora estejamos, no mundo inteiro, em tempos semelhantes aos do francês sans souci. Como sempre, o que está em jogo é a mesma reivindicação dos sans culotte: igualdade, liberdade, fraternidade — ou, seja, a democracia real.

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