terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Contraponto 18.523 - "O Globo: plataforma antecipa produção. Mas o pré-sal não era 'patrimônio inútil'?"


29/12/2015

O Globo: plataforma antecipa produção. Mas o pré-sal não era “patrimônio inútil”?


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por Fernando Brito

Uma semana depois de ter deixado a Baía da Guanabara, no mesmo dia em que O Globo chamava o pré-sal de “patrimônio inútil”, o navio-plataforma Cidade de Maricá já está no Campo de Lula e, por ironia, é o próprio jornal dos Marinho que noticia que sua produção será antecipada em relação ao esperado:
A Petrobras conseguiu acelerar os trabalhos e vai antecipar em três meses a entrada em produção do navio-­plataforma (FPSO) Cidade de Maricá no pré-­sal na Bacia de Santos. A companhia informou que a unidade já está sendo ancorada no campo de Lula na (área de Lula Alto). O Cidade de Maricá deverá entrar em produção no primeiro trimestre de 2016, antecipando a previsão anterior que era até fins do primeiro semestre.

Entrar em produção, no caso de um navio destes, é começar um processo gradativo de engajamento de diversos poços, que leva meses para poder operar com segurança cada um dos poços extratores de petróleo e injetores de gás e água, para criar pressão e retirar o óleo dos depósitos rochosos.
E entrar em produção plena, para Cidade de Maricá significa aumentar em mais de 5% a produção de petróleo no Brasil. Com o navio gêmeo Saquarema, que ocupou seu lugar na terminação no Estaleiro Brasa, em Niterói, como 12%, ao final de 2016.

Fica a pergunta intrigante: se, como diz o jornal, “alguns preços de referência de petróleo bateram US$ 37, acima do custo de produção no pré-sal, calculado em junho pela Petrobras entre US$ 40 e US$ 57”, por que a Petrobras estaria “antecipando a produção” do Cidade de Maricá.? Para “antecipar os prejuízos”?

Por uma razão muito simples. O custo de extração do petróleo no campo de Lula – e em boa parte do pré-sal – é de US$ 9 dólares o barril. Isso é o custo operacional. O custo de exploração, que envolve a amortização do investimento feito, os impostos, royalties ( Lula ainda não é um campo do sistema de partilha) e outras obrigações, talvez, seja o dobro.

Ainda assim, compensador.

O Globo agarra-se em números estimados no início da exploração do pré-sal, quando ainda não se tinha ideia do potencial daqueles campos e na ideia de que será eterna a depressão dos preços do petróleo.

E, sobretudo, quando não se podia dimensionar o que o aprendizado da Petrobras , operadora única do pré-sal, poderia gerar de redução de custos. Ali, no campo de Lula, a perfuração de poços no pré-sal nos campos de Lula durava  126 dias, em 2010;  60 dias em 2013 e, hoje, nem 50.

Como um poço custa, para ser perfurado, cerca de US$ 1 milhão por dia – só uma sonda de águas ultraprofundas tem um aluguel de US$ 500 mil diários – dá para ter uma ideia do que isso representa.

Como são várias centenas de poços, uma ideia mais avantajada ainda. US$ 70 bilhões na construção de poços exploratórios e de desenvolvimento da produção no Brasil, na segunda metade desta década.
A  perfuração de poços é praticamente metade dos gastos da área de exploração e produção da empresa.

O Globo se embaralha nas próprias pernas. Tenta nos convencer que as uvas estão verdes.
Os vendilhões da pátria, há muitos anos, usam o mesmo discurso: o Brasil não vale nada…

Tanto  vale que eles nunca o entregam para seu povo.

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Contraponto 18.522 - "Mudança do imposto não tem que ser sobre salário. É sobre a renda"

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29/12/2015

 

Mudança do imposto não tem que ser sobre salário. É sobre a renda

 

drpato


Por

Andei lendo, na Folha, que o PT estaria propondo uma nova tabela de Imposto de Renda, com alíquota de 40% para quem ganha mais de R$ 100 mil por mês.

Não é nenhum absurdo, muitos países  insuspeitos de qualquer tipo de “esquerdismo” fiscal cobram alíquotas muito maiores.

Coloco aí embaixo uma tabela  para você comparar o que se cobra no Brasil e no mundo.
Mas não acho que o caminho seja este, até porque R$ 100 mil por mês não é salário e gera uma percepção negativa, como se fosse.

A preocupação em viabilizar politicamente mudanças, no quadro político como o que temos hoje é tão importante quanto a própria mudança.

Existe algo gravíssimo na estrutura de imposto sobre a renda no Brasil  e que está retratado no excelente artigo de Róber Iturriet Avila e  João Batista Santos Conceição da Unisinos, reproduzido hoje no site de Rogério Cerqueira Leite.

Os 71.440 contribuintes mais ricos do Brasil –  que corresponde a 0,3% dos declarantes de IR – receberam , em 2013,  R$ 196 bilhões de reais sobre os quais o imposto foi zero. Sim, isso, zero!
É o mesmo que receberem um “salário” mensal – e mais um “décimo terceiro” de R$ 200 mil mensais, em média, livres de imposto de renda.

Como isso acontece?

É que a Lei 9.249, proposta e sancionada por Fernando Henrique Cardoso, que estabelece que os dividendos e os juros sobre capital próprio das empresas transferidos a pessoas físicas  são isentos de imposto de renda.

Isso não existe em parte alguma do mundo, informa o artigo, exceto na Eslovênia.
Não são deduções, são ganhos isentos.

Uma mísera taxação de 1% nestes rendimentos equivaleria a toda a arrecadação prevista com a ressurreição da CPMF.

É só um exemplo, porque  1% não é nada: a mesma renda é taxada em 36,1% no Reino Unido, 25% no Chile, 21,2 % Estados Unidos 17,5 na Turquia e  em 17,1 % no México, aliquota  fixada  ano passado, sem que ninguém fosse chamado de “comunista”, tenham fugido para Miami ou entrado em recessão.

E não é sobre o holerite de ninguém, mesmo com salário de jogador de futebol ou presidente de multinacional.

A resistência política, portanto, não vai encontrar nenhuma simpatia social, porque mais de 99% dos brasileiros não entram neste imposto.

E, no ótimo fecho do artigo, evita a história de má fé com a qual o pato da Fiesp tenta enganar os trouxas.

“Mesmo que haja uma constante tentativa de convencimento de que os ricos e os grandes empresários “pagam o pato”, ao se comparar os dados com outros países, observa-se o contrário. Os ricos no Brasil nunca pagaram o pato. Eles apenas convencem os patos que pagam.”

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Contraponto 18.521 - "Dilma reajusta salário mínimo acima da inflação: a partir de 1º de janeiro, sobe para R$ 880"

 

29/12/2015 

 

Dilma reajusta salário mínimo acima da inflação: a partir de 1º de janeiro, sobe para R$ 880

 

Do Viomundo - publicado em 29 de dezembro de 2015 às 16:10

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Foto: Rafael Neddermeyer/ Fotos Públicas


Salário mínimo sobe para R$ 880 em 1º de janeiro


 
 
A partir do dia 1º de janeiro de 2016, o salário mínimo será de R$ 880. O valor foi definido em decreto assinado hoje (29) pela presidenta Dilma Rousseff, que será publicado no Diário Oficial da União de amanhã (30).

O aumento do salário mínimo será de 11,6%, já que, atualmente, o valor é de R$ 788. “Com o decreto assinado hoje pela presidenta Dilma Rousseff, o governo federal dá continuidade à sua política de valorização do salário mínimo, com impacto direto sobre cerca de 40 milhões de trabalhadores e aposentados, que atualmente recebem o piso nacional”, diz nota divulgada pelo Palácio do Planalto.

A proposta de Orçamento aprovada pelo Congresso Nacional previa um salário mínimo de R$ 871.

Ainda hoje o governo irá dar mais detalhes sobre o novo valor do salário para o ano que vem.


 
Edição: Juliana Andrade
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Contraponto 18.520 - "CPMF: um imposto que pode salvar vidas"




CPMF: um imposto que pode salvar vidas






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Lula Miranda

Lula MirandaComo já disse aqui: eu não gosto de imposto; você, certamente, também não gosta de imposto; nós não gostamos de imposto.

Mas o imposto é necessário para financiar o Estado.

Empresários não gostam de impostos – embora não paguem. Pois quem paga os impostos embutidos nos preços dos produtos e serviços somos nós, consumidores, quando compramos esses produtos e/ou serviços. Os impostos que os empresários deveriam pagar, estes eles sonegam, em geral.

Tem gente que prefere um Estado mínimo e privatizado.

Ou seja: tem gente que quer um Estado de joelhos, a serviço de interesses privados.

Se você não faz parte dessa turma, peço-lhe então que preste atenção em algumas manchetes que estamparam os jornais nesses últimos dias de fim de ano:
“Crise financeira no Rio leva caos à saúde do estado”.
“Arrecadação do governo é a mais baixa desde 2010”.
“Governadores reivindicam alívio imediato das dívidas”.

Você já parou para pensar quantas pessoas estão morrendo diariamente por causa desse estado de coisas?

Você pode, perfeitamente, dar de ombros e fazer de conta que nada disso está acontecendo. Afinal, você pode pagar um médico particular ou tem um bom convênio médico pago pela empresa para a qual trabalha.

É, se esse for o seu caso você pode mesmo estar se lixando para a situação do governo federal, dos estados e municípios, no tocante a arrecadação, e, por consequência, no que diz respeito aos serviços públicos prestados por esses entes da federação.

Porém, meu prezado, se você depende desses serviços, e está ciente que o país passa por uma crise econômica (e que, por isso, o Estado arrecada pouco), é aconselhável que comece a cogitar a possibilidade de defender teses e apoiar políticas que visam o aperfeiçoamento e a melhoria na arrecadação de impostos.

A CPMF, pense bem (ou pense melhor), é um imposto mais justo, que pune os especuladores financeiros e os sonegadores – uma vez que está prevista uma faixa de isenção que deixará os mais pobres de fora dessa fatura.

Outro imposto bem justo e legal (em todos os sentidos) é aquele que incide sobre as faixas de alta renda [acima de R$50 mil]. O Partido dos Trabalhadores já sugeriu uma alíquota de IR de 40% para aqueles que ganham acima de R$100mil – para mim, um teto muito alto. Mas... Eu não sou tributarista. Não tenho elementos para contestar.

Desculpe-me se insisto nesse tema antipático, é que não vejo sentido em deixar a população brasileira sofrer com esse Estado de penúria, tão somente por causa de uma dificuldade de arrecadação em face da crise econômica ou porque alguns empresários espertalhões e alguns reacionários “endinheirados” querem engordar as suas contas na Suíça, à custa da sonegação de impostos e do sofrimento da população mais pobre.

A gente tem a obrigação cidadã de zelar e de se preocupar com a manutenção e preservação de um serviço universal de saúde ou de um Sistema Único de Saúde, o nosso SUS – mas assim com maiúsculas, como queria o saudoso Adib Jatene.

Desejo um Feliz 2016 para todos nós. Com um Estado mais forte, que tenha condições de prestar um serviço de qualidade à população.


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PITACO DO ContrapontoPIG 

"CPMF: um imposto que pode salvar vida" .. e espantar sonegadores.
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Contraponto 18.519 - "PT quer alíquota de 40% do IR para os muito ricos"

Entre as medidas já definidas pelo partido que serão cobradas do governo Dilma, conforme noticia nesta terça a colunista Natuza Nery, do Painel, está a mudança da tabela no Imposto de Renda. A ideia é que haja uma faixa nova, com alíquota de 40%, para os que ganham mais de R$ 100 mil por mês, e isenção para quem ganha até R$ 3.800. De acordo com cálculos do PT, o ganho para os cofres públicos seria de R$ 80 bilhões.

O PT também defende outra medida que atinge os mais ricos: a criação de um imposto semelhante ao IPVA cobrado sobre o uso de jatinhos e helicópteros. E cobra um plano nacional de defesa do emprego. Os dirigentes petistas alertam o Planalto que militantes saíram às ruas no último dia 16 para defender o projeto de partido, não o governo Dilma. Uma forma de avisar que a base de apoio do governo está ameaçada.

O partido é contra o ajuste fiscal implementado pelo ex-ministro da Fazenda, Joaquim Levy, substituído por Nelson Barbosa. Apesar de Barbosa ter feito um discurso em defesa da continuidade das medidas do ajuste, o PT afirmou na nota de ontem ter confiança no novo ministro, assim como em Valdir Simão, que passou a comandar o ministério do Planejamento.

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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Contraponto 18.518 - "A capacidade da mídia de dizer asneiras terroristas é espetacular!"

 

28/12/2015

 

A capacidade da mídia de dizer asneiras terroristas é espetacular!

 

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Por

Uma semana atrás – ou melhor, três dias úteis atrás – a nossa sábia mídia berrava em suas páginas que a “disparada” do dólar era sinal de desconfiança e pessimismo dos investidores com a mudança no Ministério da Fazenda: Nélson Barbosa não agradava a turma da bufunfa.

O dólar havia subido de R$ 3,95 para R$ 4,02. Uma “disparada” de 1,31%!

Hoje, o mercado fechou a R$ 3,86. Uma queda de 4% que ninguém vai, por óbvio, chamar de “despencada”.

Muito menos que significa uma “demonstração de confiança” de confiança do mercado em Nélson Barbosa.

Oscilações de final de ano são comuns e valeu de tudo para “explicar” a queda do câmbio: desde o dinheiro dos chineses que venceram o leilão para uma linha de transmissão de energia até  (só rindo) os aportes que multinacionais teriam feito para cobrir “rombos” em suas subsidiárias brasileiras.

O nível de qualidade do jornalismo econômico brasileiro só não é pior que a sua capacidade de ser catastrofistas.

O Brasil está longe de sofrer problemas cambiais.

Tanto que fecha o ano com um espetacular saldo de perto de US$ 19 bilhões na balança comercial, apesar da crise.

Nossos problemas são de nível da atividade econômica aqui, com a overdose recessiva do período Levy.

E, claro, com uma mídia que empurra diariamente para baixo as expectativas econômicas, que são o combustível daquela atividade.

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Contraponto 18.517 - "Por que Chico Buarque sofreu ataques?"


Democracia e Conjuntura


Por que parar o Chico Buarque de madrugada, no meio da rua, para um esculacho?

A resposta é até simples.

O Chico representa a sofisticação e a genialidade singela, a beleza e o som que as elites imaginam ser de sua exclusividade.

Chico, filho da mais fina flor da aristocracia intelectual paulista, não se aliou – e nem se aliaria – aos gritos raivosos balbuciados contra o PT, contra as classes populares, contra o processo de igualização das condições sociais no país (o que Tocqueville chamaria, inclusive, democracia).

Chico não é a imagem especular das elites – ou pretensas elites – tucanas. Chico representa, a contrário senso, o que estas elites deveriam ser e não são. E isso as irrita profundamente.

Chico é original, enquanto os truculentos playboys do Leblon são uma cópia tosca, pretensiosa e vazia, perdida em devaneios de exclusivismo e revoltadas off line pela sua situação política kirch e por suas inteligências precarizadas e de aluguel.

E o gozo perverso desses moleques anabolizados pelo dinheiro expropriado do trabalho alheio é destruir tudo aquilo que não é espelho. Narcisismo voraz e inculto, que se locupleta da violência enquanto forma de manifestação cultural.

Os filhos e netos da elite vagabunda do Leblon, ao atacarem Chico Buarque, sinalizam qual o seu projeto de país, qual a compreensão de sociedade que chancelam: querem do Brasil a extração fácil das distinções e o reconhecimento dos privilégios que estão se esvaindo numa velocidade cada vez mais acelerada.

E Chico Buarque representa exatamente o lugar que eles nunca irão alcançar. Para o bárbaro, aquilo que não se compreende ou se controla, aquilo que não se alcança nem se alcançará, deve ser destruído.

Com relação a este, infelizmente, não há espaço para o diálogo. O que resta é apenas o império da lei.

Mas Chico está acima da necessidade de reconhecer estes indivíduos através de um processo penal.

Preferirá o mais simples desprezo. E uma nota musical do tipo "Vai trabalhar, vagabundo!".
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Contraponto 18.516 - "FHC ou a tragédia da elite brasileira"

FHC ou a tragédia da elite brasileira

 



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Emir Sader

Emir SaderO Brasil saiu da ditadura como o pais mais desigual do continente mais desigual do mundo. O arrocho salarial, como o santo do “milagre econômico”, tinha promovido o mais acelerado processo de acumulação de capital e de desigualdade social que o pais ja havia conhecido em toda a sua historia.

Tivemos possibilidade de fazer com que a democratização não fosse simplesmente a restauração do sistema politico liberal, com a campanha das diretas. Tivesse triunfado, Ulysses Guimaraes teria grande possibilidade de, munido com o programa de reformas estruturais do PMDB, dar um conteúdo econômico e social à democratização.

A derrota da campanha, somada à eleição pelo Colégio Eleitoral de um candidato mais moderado – Tancredo -, além das contingencias que levaram a que Jose’ Sarney, em semanas, passasse de presidente do partido da ditadura a primeiro presidente civil da democracia, limitaram a democratização na direção do que a teoria do autoritarismo de FHC tinha pregado: apenas a desconcentração do poder politico em torno do executivo e a desconcentração do poder econômico em torno do Estado. Essa versão precoce do neoliberalismo transformou a teoria do autoritarismo – segundo a qual não tivemos ditadura, mas “situação autoritária, uma espécie de ditabranda – na ideologia da transição conservadora no Brasil.

O fracasso do governo Sarney esgotou o impulso democrático, levando consigo ao PMDB como partido da transição, seu programa de reformas e a liderança do doutor Ulysses, permitindo que um “filhote da ditadura” impusesse outra agenda ao pais. Carros produzidos no pais como “carroças” e funcionários públicos como “marajás” comandavam o marketing neoliberal do Collor.

Sua queda não impediu o triunfo desse novo consenso. Atribui-se a Roberto Marinho, naquele momento, a afirmação de que a direita não elegeria mais presidente, tendo portanto que busca-lo em outro lado. A escolha recaiu sobre FHC, que se prestou a renunciar ao programa social democrata originário dos tucanos, para seguir a trilha das suas referencias europeias: de François Mitterrand e de Felipe Gonzalez, na reconversão neoliberal da social democracia.

No pais mais desigual do continente mais desigual, FHC se elegeu e se reelegeu derrotando a centralidade da questão social proposta pelo Lula, pela do ajuste fiscal. Foi eleito e reeleito – como seus correligionários latino-americanos na mesma aventura: Carlos Menem, Alberto Fujimori, Carlos Andres Peres, Carlos Salinas de Gortari, Gonzalo Sanchez de Losada, entre outros, vários depostos por corrupção, alguns dos quais foram parar na prisão -, até que, como eles, FHC também se tornou o politico mais rejeitado do pais.

A trajetória de FHC reflete o desencontro definitivo das elites tradicionais brasileiras com o pais e com seu povo. A vitória do Lula e a construção de um governo centrado na afirmação dos direitos sociais da grande maioria da população, sempre marginalizada, tornou o pais menos injusto, menos desigual, menos imoral.

Mas reconhecer essas realizações por parte da elite tradicional seria reconhecer o seu fracasso, as suas responsabilidades na miséria e na pobreza acumuladas frente à riqueza nas suas mãos. Não tiveram a grandeza de reconhecer como a afirmação dos direitos das grandes maiorias pobres faz do Brasil um pais melhor, uma sociedade mais integrada e mais justa. Fizeram como se nada de importante estivesse passando no Brasil e se lançaram à tentativa de derrubar o Lula por um impeachment em 2005.

FHC estava à cabeça do golpe, pela sua incapacidade de reconhecer como seu projeto de estabilidade monetária tinha se esgotado sem desembocar na melhoria social do povo. Enquanto que o Lula teve a grandeza de reconhecer como a luta contra a inflação e a estabilidade das contas publicar haviam sido incluídas no consenso nacional e como deveriam ser incorporadas a seu programa de governo, mesmo se  em função da prioridade fundamental – as politicas sociais. A direita, ao invés de reconhecer os avanços do governo Lula e incorpora-los, tratou de desconhece-los, de nega-los, e assim se desencontrou do povo e do pais.

Foi assim se reconfigurando a tragédia da elite tradicional brasileira, tentando centrar no papel do Estado e na corrupção que traria, o centro dos problemas do pais, para acobertar os avanços sociais, tudo o que resta a fazer nesse campo e como a centralidade da especulação financeira tira do pais os recursos para voltar a crescer e promover os direitos sociais de todos.

FHC tornou-se a triste caricatura desse fracasso da velha elite brasileira. De teórico da transição conservadora e de presidente de uma nota só – a estabilidade monetária -, de social democrata a um reles neoliberal -, tornou-se um golpista sem ideias e sem apoio popular. Quando até seus gurus europeus da social democracia francesa e espanhola reconhecem os méritos do Lula e do PT, ele se isola na medíocre pregação golpista e no apoio às direitas trogloditas da Argentina e da Venezuela, ao lado dos seus aliados fieis, os decrépitos do DEM.

Preferem tentar destruir o pais, mediante um impossível golpe do impeachment ou faze-lo sangrar até a exaustão, a reconhecer seu fracasso. Fracasso na ditadura militar, fracasso na transição democrática conservadora, fracasso no neoliberalismo, fracasso nas tentativas de restauração conservadora.

A tragédia da trajetória de FHC resume, de forma exemplar, o fracasso da elite tradicional brasileira diante de um pais que teve revelado todo o seu potencial com o governo Lula e que busca seu reencontro com esse caminho, derrotando, uma vez mais, a FHC e a direita brasileira.

Contraponto 18.515 - "Saí do anonimato, por Garoto do Leblon"

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28/12/2015


Saí do anonimato, por Garoto do Leblon

 

Percival Maricato 

 
Eu sô foda meu. Eu tinha mesmo que chamar esse fdp de bandido. Não é só por ele ser do PT, ficar se derretendo pelos sem terra, sem teto, sem merda nenhuma. É mais por ele não saber o que é bom na vida. Com as musiquinhas que ele faz ele ganha milhões, vende e é endeusado no mundo todo e eu aqui, implorando ao papai pra ganhar os porshes. Esse bosta poderia ter vinte porshes, poderia me contratar para dar um jeito na vida dele, mostrar o que mundo de  bom.

Se eu fosse ele, em vez de me preocupar com pobres, compraria vários porshes, um yatezinho igual ao do Dinis, de 150 pés, e já reservava vaga para assistir a F1 em Mônaco, ia torrar uma grana no Cassino, comprava um jatinho, trocava a mulher de 60 por três de 20, escolhidas nas novelas da Globo, no Big Brother....puttzzz, tem um pernilongo aqui no quarto, só faltava essa pra estragar o meu sono...amanhã a Maria vai ter comigo. Sempre falo pra essa analfabeta que depois de limpar o quarto tem que fechar a janela, amanhã ela não escapa. Será que a tal lei Maria da Penha vale também pra empregada? Não sei porque acabaram com o pelourinho.

Até sou um cara legal. Não tenho nada contra o cara pensar diferente, mas ficar falando merda  por ai já é demais. Se fosse um pé-de-chinelo ainda dava. Mas um cara que tem apartamento em Paris?

Então o cara não é merda?. Bem que se diz que Deus dá olho pra quem não enxerga. Já na ditadura militar esse fdp poderia ter si fudido. No Chile dizem que os milicos do Pinochê cortaram os dedos de um tal Vitor, que era o Chico deles. Pena que os nossos milicos não pegaram ele de jeito. Se não sai cagada na bomba do Riocentro a gente não teria essas musiquinhas sonolentas que fala em banda passar, apesar de você, operário em construção, acorda amor, gota d’água, o que será, deus lhe pague...Tudo subversão, até calesse, só agora me falaram que é cálice de vidro, mas quer dizer calessse, pura subversão subliminar como fala o Tonhão da Academia.

Fascismo? Eu lá sei o que é essa bosta? Mas se tão falando que sou fascista é porque é bom, é porreta, coisa de macho.  Amanhã em vez de levantá peso vou meter a mão no uatsap e falar desse cantorzinho ignorante que pensa que é Deus... .  Intelectual é o Tonhão. Tá certo ele quando diz que toda unanimidade é burra. Vou falar isso pro Chico merda.

Pelo menos fiquei famoso. Tô bombando no feice. Já teve uma garota do Ipanema, agora tem o garoto do Leblon. Quem sabe o Vinicius faz uma música pra mim. O Vinicius não, também é subversivo. O Milton Nascimento? O Caetano? O Martinho? O Gil? O Taiguara? Oooops. Vou ficar sem música, cantor é tudo subversivo.

Ninguém me dava bola, sempre fui um anônimo ilustre mas desconhecido, acho que só sou famoso quando pego meu bronzeado no Posto 6 e na Academia.  E vejam só, numa hora que meto minha espontaneidade pra fora, todo mundo agora fala de mim, os jornais dizem que o cara veio bater boca comigo,  tô até na TV, a turma agora me admira, vai chovê mulher na minha horta, pode sobrar grana, quem sabe consigo virar deputado. O Bolsonaro não conseguiu? Meu pai vai para de me encher o saco, falar pra mim ir a faculdade. Preciso achar mais fdp pra xingar e ser elogiado nos jornais. Que glória se eu encontrasse aquela presidente de merda ou o operário aleijado que foi presidente, andando aqui pelo Leblon. Mas eles tem simancol, nunca vão chegar no pedaço.

Preciso dormir, amanhã tenho que decidir se aceito fazer a palestra pro pessoal dos revoltado de São Paulo. Será que vai dar? Prá falar até uns cinco  minutos acho que consigo, mas se for mais onde vou encontrar assunto?  Vou de qualquer jeito, falo pro Tonhão escrever o que eu devo falar, pego uma janta e quem sabe sobra uma paulista. A vida tá chata, preciso variar um pouco.
Garoto do Leblon

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Contraponto 18.514 - "PT quer nova política econômica"

 

28/12/2015

 

PT quer nova política econômica

Rui Falcão: com Nelson Barbosa, chega de altas de juros e de cortes em investimentos


 
Conversa Afiada - publicado 28/12/2015
 
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O Conversa Afiada reproduz texto de Rui Falcão, presidente nacional do PT:

A palavra do presidente: Uma nova e ousada política econômica para 2016

 

Entre o final e de 2015 e o início de 2016, o governo da presidenta Dilma Rousseff precisa se concentrar na construção de uma pauta econômica que devolva à população a confiança perdida após a frustração dos primeiros atos de governo.

Claro que a oposição partidária do quanto pior melhor também contribuiu para agravar os problemas (muitos deles decorrentes da crise global do capitalismo), insistindo o ano todo com suas tentativas golpistas que desembocaram numa crise política.

Agora que o risco do impeachment arrefeceu, mas sem que as ameaças de direita tenham cessado, é hora de apresentar propostas capazes de retomar o crescimento econômico, de garantir o emprego, preservar a renda e os salários, controlar a inflação, investir, assegurar os direitos duramente conquistados pelo povo.

Chega de altas de juros e de cortes em investimentos. Nas propostas da Fundação Perseu Abramo e entidades parceiras, nos projetos da nossa Bancada, da Frente Brasil Popular, da CUT, do MST, entre outras, há subsídios à vontade para serem analisados e adotados.

Sabemos da competência, habilidade e capacidade de diálogo dos novos ministros Nelson Barbosa e Valdir Simão. Confiamos em que eles deem conta da tarefa, mudando com responsabilidade e ousadia a política econômica.
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Contraponto 18.513 - "O Pior Brasileiro do Ano. Por Paulo Nogueira"

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28/12/2015 

 

O Pior Brasileiro do Ano. Por Paulo Nogueira



Golpista
Golpista

 


Paulo NogueiraNão faltaram candidatos fortes, mas é de Aécio, com folga, o título de Pior Brasileiro do Ano.

Aécio só não fez o que deveria fazer: trabalhar no Senado. Fazer jus ao salário e mordomias que os brasileiros lhe pagam.

Ele consumiu seu tempo em conspirações contra a democracia em 2015. Tentou, e continua a tentar, cassar 54 milhões de votos, sob os pretextos mais esdrúxulos, cínicos e desonestos.

Adicionou um novo e definitivo rótulo a sua imagem de playboy do Leblon, adepto de esforço mínimo e máximas vantagens: o de golpista.

Para tanto, andou sempre nas piores companhias da República. Esteve constantemente junto de Eduardo Cunha, que só não levou o título de Pior Brasileiro porque Aécio existe.

Aécio foi vital para que Cunha se sagrasse presidente da Câmara dos Deputados. Depois, quando já eram avassaladoras as provas de ladroagem de Cunha, Aécio armou um esquema de blindagem para que ele não respondesse por seus crimes. Tudo isso para que suas pretensões de golpista obtivessem sucesso.

Aécio protegeu, preservou Cunha. E assim contribuiu decisivamente para que ele chegasse ao fim do ano ainda na presidência da Câmara, o que representa uma tonitruante bofetada moral no rosto da nação.

Pode-se dizer que Cunha é filho de Aécio. São sócios no crime de lesa democracia.

Tanto ele fez que teve acabou recebendo uma resposta espontânea da sociedade. Fazia muito tempo que um político não era motivo de tantas piadas.

2015 foi o ano do Aécio golpista, e também o ano do Aécio piada.

Sua incapacidade patológica de aceitar a derrota se transformou em gargalhadas nas redes sociais.

Qualquer pessoa que caísse no ano, a piada estava pronta. Se o Mourinho cair, assume o Aécio?

Houve humor de outra natureza, também. Memes brotaram em profusão, dias atrás, depois da coroação equivocada como Miss Universo da candidata da Colômbia. Nestes memes, Aécio aparecia como a Miss Colômbia.

O que todos lembravam, ali, eram os escassos momentos pelo qual Aécio se julgou vencedor das eleições presidenciais de 2014.

Ele recebera já informações segundo as quais ganhara de Dilma, e armara uma festa em Belo Horizonte. A comemoração foi brutalmente abortada quando foram anunciados os resultados oficiais.

A imagem da decepção ganhou as redes sociais numa das fotos mais compartilhadas das eleições.

Tivesse grandeza de espírito, Aécio faria o básico. Ligaria para Dilma para cumprimentá-la e tentaria entender onde errou para corrigir os equívocos, eventualmente, numa próxima vez.
Mas não.

Da derrota emergiu um monstro moral, um golpista sem limites e sem pudor, um demagogo que provoca instabilidade no país e depois fala, acusatório, da instabilidade como se não fosse ele o causador dela.

Por tudo isso, e por outras coisas, é de Aécio o título de Pior Brasileiro do Ano.


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Sobre o Autor
 
Paulo Nogueira. Jornalista,  fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.
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Contraponto 18.512 - "A praia da Escandinávia é assim?"

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28/12/2015

A praia da Escandinávia é assim?

praia
 O primeiro domingo de verão, quentíssimo, “bombou” no Rio de Janeiro.


Por
 

O primeiro domingo de verão, quentíssimo, “bombou” no Rio de Janeiro.

Moro perto de uma praia – embora perto de de uma praia “longe” –  e não havia espaço para parar uma bicicleta.

Havia, na orla do Rio de Janeiro, algo como dois milhões de pessoas.

Mas a notícia,  segundo os jornais, foi uma tentativa de assalto, da qual saíram 10 pessoas presas, possivelmente algumas só pela confusão.

Mas que fossem todas assaltantes, que seja…

Um assalto em dois milhões de pessoas, dez presos nessa multidão, seria índice de fazer cair o queixo de dinamarqueses ou suecos. Seria, provavelmente, a menor incidência criminal do planeta.

Como a cidade do Rio de Janeiro tem seis milhões de habitantes, seria dizer que há aqui três tentativas de assalto por dia e apenas 30 presos sendo levados à delegacia.

É evidente que isso não é verdade, senão aqui seria o céu.

Assaltou-se hoje, como se assalta, não foi só um que perdeu seus pertences. E prende-se aos magotes, muito mais que os só dez que foram levados ao “doutor delegado”.

Ninguém quer fingir que aqui é a Noruega.

Mas aqui não é o Iraque, nem dos pobres das favelas desce um “Exército Islâmico” para degolar os passantes.

Mas está evidente que o Rio – e o Brasil, por expansão – é vitima do poder do foco da Globo.

É, aliás, há anos.

A taxa de criminalidade escandinava que seria uma tentativa de assalto entre dois milhões de pessoas é transformada numa guerra civil não declarada, na barbárie, no terror.

Criou-se um ambiente de pânico, e com ele se alimenta o ódio, tal como se mostrou no dia das manifestações da direita, quando aquele grupo de skatistas negros e mulatos foi identificado como uma horda esquerdista que iria atacar as senhoras da nova UDN.

O Rio teve um dia de quentíssima festa.

Mas é preciso estragá-la, colocar a cidade e clima de guerra civil, o que muito agrada aos brutos de todos os lados; aos bandidos, porque de chefetes os faz generais; à policia, porque os faz salvadores, em lugar de servidores,

E no lugar da alegria, uma crise.

A CBN, é verdade, noticia: Rio de Janeiro bate recorde de turistas no feriado de fim de ano. E mais:  “Cidade deve receber 850 mil visitantes, economia deve ter movimentação de R$ 686 milhões e hotéis têm taxa de ocupação de até 94%. Pontos turísticos estão lotados.”

Mas é preciso acrescentar um porém: “Turistas, no entanto, buscam formas de economizar e se hospedam em casas de amigos ou albergues.” Como se ficar em casas de amigos (quando se os tem ) e em albergues (onde os há, e em toda parte os há mais que por cá) fosse novidade em qualquer cidade turística do mundo.

É isso o que se quer dizer quando se fala que a Globo molda a a política no Rio de Janeiro.

Não é possível deixar crer que dois milhões de pessoas, ricas, pobres, brancas, negras, das coberturas e das favelas possam partilhar em paz de um mesmo pedaço da Terra (e do mar).

E, olhe, quase peladas!

Seria admitir o inadmissível: que somos todos humanos e, pior…civilizados!

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Contraponto 18.511 - "Cai a ficha da elite: Dilma é quem combate a corrupção"

Um reconhecimento importante foi feito, neste domingo, pela socialite Rosângela Lyra, que passou o ano de 2015 tentando angariar simpatias para um processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff.  

Numa entrevista publicada pela Folha, ela explicou seu recuo. "Meu ponto de virada foi quando eu percebi a importância da Lava Jato e a não interferência da presidente. Esse meu posicionamento vai ao encontro do que pensam os investigadores da Lava Jato. Na última coletiva, perguntaram se havia interferência do governo na operação. Os investigadores disseram que não havia. Poderiam ter se esquivado ou respondido com menos ênfase, mas foram categóricos", afirmou (leia mais aqui).

Antes dela, o colunista Roberto Pompeu de Toledo havia exposto razões semelhantes para rechaçar um impeachment que levasse ao poder o vice-presidente Michel Temer. "Não se duvide da fúria com que o PMDB, com seu rol de notórios investigados, tentará um acerto de contas com o juiz Moro e o procurador Janot", disse ele (leia aqui). "Até já se especula sobre nomes que, no Ministério da Justiça, possam dar um jeito de dobrar o ímpeto da Polícia Federal."

As declarações de Rosângela e Pompeu revelam que a postura republicana de Dilma, e também de seu ministro José Eduardo Cardozo, começa a criar uma espécie de seguro contra o golpismo. Afinal, em que administração teriam sido presos os maiores empreiteiros, um dos maiores banqueiros e o líder do próprio governo sem que uma reação tivesse sido colocada em marcha?

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Contraponto 18.510 - "Stiglitz: o capitalismo não está funcionando"

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28/12/2015

 

Stiglitz: o capitalismo não está funcionando

 

Um terço dos americanos vive na pobreza !


Conversa Afiada -  27/12/2015

 
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(Imagem de Omar Motta, no facebook)

Saiu no RT, em espanhol:

Nobel de Economía: "El sistema capitalista es un fracaso"

 

El premio Nobel de Economía en 2001, Joseph Stiglitz, asegura que un modelo económico que no proporciona bienestar a los ciudadanos es un fracaso.

En un foro de investigadores en Montevideo, Uruguay, el ganador del Nobel de Economía en 2011, Joseph Stiglitz, ha señalado que "un sistema económico que no proporciona bienestar a una parte muy importante de la sociedad, es un sistema económico que fracasa", según cita sus palabras la cadena TeleSur.

"Los ingresos no solo han estado estancados, sino que además están reduciéndose", sostuvo Stiglitz criticando el actual modelo capitalista. El Nobel de Economía opina que los bancos de desarrollo multilaterales tienen que desempeñar un papel principal para llevar a cabo la reforma de los mercados financieros.

Tras su visita a Uruguay durante la entrega del título de Doctor Honoris Causa por la Universidad de la República (Udelar), Stiglitz también ha compartido su punto de vista sobre la economía y el estado actual del capitalismo con el medio uruguayo 'El País'.

"Lo que está pasando es el inicio de un diálogo político que, al menos para Estados Unidos y Europa, dice que la economía de mercado no está funcionando de la manera que se supone que debería", opina Stiglitz, destacando que el salario mínimo en Estados Unidos actualmente es más bajo que el de hace 60 años. "Por lo menos la tercera parte de los estadounidenses pasan parte de sus vidas en la pobreza. ¿Cómo puede ser?"


domingo, 27 de dezembro de 2015

Contraponto 18.509 - " 'Cadê o prejuízo?', pergunta Gurgacz "

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27/12/2015

"Cadê o prejuízo?", pergunta Gurgacz 

 





Paulo Moreira Leite

Elaborado nos últimos dias de 2015, o relatório do Senador Acir Gurgacz (PDT-RO) está destinado a se transformar no primeiro texto base da política brasileira em 2016. Resposta à resolução do Tribunal de Contas da União que propõe a rejeição das contas do governo Dilma em 2014, o documento é uma aula de administração pública, conhecimento jurídico – e respeito pelas regras do Estado Democrático de Direito. Também oferece novidades fulminantes contra a decisão do TCU.

Lembrando que qualquer acusação de irregularidade contra a presidente da República “ deve ser comprovada, e não presumida”, ele observa na página 67: “apesar de recomendar a rejeição (das contas), em nenhum momento do TCU especificou o efetivo prejuízo causado às contas públicas pela conduta presidencial.” Não é uma omissão qualquer.

Entre as quatro hipóteses previstas legalmente para a rejeição das contas da presidente, três se referem a desfalques, desvios e atos de natureza criminal ou pelo menos ilegal. (A outra hipótese pune o governante que simples deixar de enviar ao Congresso um relatório sobre suas contas). Ao se mostrar incapaz de definir sequer o “efetivo prejuízo causado às contas públicas pela gestão presidencial,” o documento do TCU valoriza uma narrativa que pretende descrever um suposto sistema de desvios e irregularidades, mas não aponta fatos para justificar o que pretende. Privilegia a trama, sem apresentar a prova.  

Com paciência e detalhamento – o relatório tem 243 páginas, com gráficos e tabelas que tornam a argumentação mais compreensível – Gurgacz sustenta que as contas de Dilma em 2014 devem ser aprovadas “com ressalvas.”

Essa classificação é um termo técnico, usado para definir uma gestão onde podem ter ocorrido falhas e deslizes de natureza formal, mas que não causaram prejuízo aos cofres públicos. Para permitir um debate ponderado sobre as contas, o documento recorda que em 2011 o TCU apontou 25 falhas e deslizes formais, quase o dobro daquilo que se aponta nas contas de 2014 – e nem por isso concluiu que as contas deveriam ser rejeitadas, como agora se pretende.  
  
A principal crítica de Gurgacz envolve a postura do TCU, que acusa de tentar assumir um papel de protagonista num debate no qual deveria manter-se em função secundária, de assessoramento do Legislativo, como determina a Constituição.  Com essa observação, o senador coloca o debate no plano correto – da democracia.

Diz que, ao pedir a rejeição das contas de Dilma, o TCU de extrapola suas atribuições legais, de órgão de assessoria do Legislativo, fugindo ao espírito da Constituição democrática de 1988. Chega a denunciar, na página 63, uma “quebra de princípios da igualdade e independência entre os poderes.” 

Lembra que, não cabe ao TCU julgar um governo e muito menos fazer recomendações a deputados e senadores, pois seu trabalho é muito mais modesto, de outra natureza: apenas emitir um “parecer prévio”, apoiado em fatos objetivos e dados técnicos, sem tentar “influenciar” a decisão dos parlamentares. Sem demonstrar, em nenhum momento, o mais leve desrespeito pelo tribunal e sua atividade, empregando, por todo tempo, uma linguagem adequada, ele recorda, entre outras, uma observação de Marco Aurélio Mello, em 1992, que define o TCU como “simples órgão auxiliar da esfera opinativa.”

As diversas referências  à Constituição de 1988 não constituem um truque retórico. Sem esconder-se atrás de eufemismos que poderiam prejudicar a clareza do raciocínio, o senador argumenta que com a postura assumida no exame das contas de 2014 o TCU em 2015 permitiu-se “julgar tudo o que considera conveniente.”

Diz, por exemplo, que o tribunal chega a “reinterpretar” as normas internas do Banco Central, num esforço destinado a contestar a metodologia tradicional da instituição para produzir suas próprias estatísticas fiscais, num exercício padronizado há décadas, e aceito internacionalmente. 

O texto localiza a origem desse comportamento de quem ignora fronteiras legais a suas atribuições num período lamentável de nossa história, no Brasil que vivia sob o AI-5. Lembra que o TCU foi usado pelo regime dos generais para funcionar como um instrumento de pressão permanente para enquadrar o Congresso, visto como principal foco de discórdia e atitudes de contestação que, mesmo limitadas, pretendia-se evitar a qualquer custo.  

Num necessário serviço de reconstituição da memória histórica, o relatório recorda que, nos primórdios da Constituinte de 1988, quando os rumos da democratização ainda não estavam claros, fez-se uma tentativa de assegurar que o TCU mantivesse os poderes políticos acumulados no período anterior. Esse movimento chegou a prosperar no início dos trabalhos, como um dos diversos entulhos autoritários – até que, numa reação compreensível da maioria dos parlamentares, o texto definitivo assegurou as devidas prerrogativas dos representantes eleitos, aos quais o TCU deve prestar uma assessoria, limitada a “aspectos meramente formais,” como ensina o mestre Celso Bandeiro de Mello, uma das vozes mais respeitadas do direito administrativo brasileiro.     

Para sublinhar que o debate real não envolve problemas de contabilidade, mas opções de política econômica que dizem respeito ao destino de um país com mais de 200 milhões de habitantes, a ser resolvido em urnas, pelos eleitores, Gurgacz recorda, na página 8, uma observação antológica deixada por Aliomar Baleeiro (1905-1978), um parlamentar da UDN que chegou ao Supremo por indicação de Castello Branco, primeiro presidente do golpe 64 mas, com o passar dos anos, tornou-se uma referência liberal na mais alta corte do país.

Em obra clássica sobre administração pública e sobre o papel dos governantes, Baleeiro observou que é preciso considerar as mudanças de conjuntura de cada país – e de cada governo – para entender o ordenamento de despesas e definição de prioridades, o que só reforça a necessidade de reservar o trabalho de julgar as contas da presidente da República a um poder político, o Legislativo, e não a um órgão de assessoria técnica.

“Num país dominado por uma elite requintada, esta exigirá do governo obras de luxo e de conforto,” escreveu Baleeiro.  Falecido no mesmo ano em que ocorreram as grandes greves que projetaram a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva no plano nacional, o jurista acrescentou: “se as circunstâncias mudam, e as massas humildes conseguem a partilha do poder político, as despesas públicas se dirigirão para a construção de hospitais, maternidades, postos de puericultura, escolas primárias e outros serviços que de modo geral interessam ao proletariado.”

É nesse contexto, observa o senador, que cabe ao Congresso examinar se a presidente “procedeu como devia e, ainda, como prometeu.”

Pela consistência, o trabalho, intitulado  “Contas Prestadas pela Excelentíssima Senhora Presidente da República (Exercício 2014)” representa, no plano político, aquilo que o voto do ministro Luiz Roberto Barroso, do STF, representou no plano jurídico, ao desmontar, linha por linha, argumento por argumento, o projeto de Eduardo Cunha, que encaminhava a proposta de impeachment por uma via rápida, leviana e irresponsável. 

Pela qualidade de sua argumentação, pela importância dos dados que apresenta, é de se imaginar que possa vir a ter um impacto semelhante entre seus pares, contribuindo para assegurar uma discussão de bom nível, fundamentada em conhecimento de caso e dados consolidados.

(Este é o primeiro de um conjunto de artigos sobre as contas do governo que planejo publicar nas próximas semanas)



Paulo Moreira Leite. Jornalista e escritor Paulo Moreira Leite é diretor do 247 em Brasília
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