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terça-feira, 6 de setembro de 2011

Contraponto 6178 - "11/09 marca a ascensão da América Latina"



Da BBC

América Latina se aproveita da 'década perdida' dos EUA

William Márquez

No afã de responder aos ataques do 11 de Setembro, os Estados Unidos colocaram o Oriente Médio e a Ásia Central no topo de suas prioridades políticas. Nos últimos dez anos, essas regiões têm ocupado suas atenções, a que os historiadores se referem como "a década perdida".

Além de outras mudanças na conjuntura internacional, a América Latina também aproveitou essa distração do gigante americano para abrir as asas e buscar novos rumos políticos, diplomáticos e sobretudo econômicos.

O resultado foi a eleição de governos latino-americanos menos palatáveis para Washington, a relação desses com outras nações um dia consideradas "exóticas" e a prioridade do intercâmbio comercial com a China.

Especialistas continuam discutindo as causas e os efeitos prolongados deste giro, mas o certo é que a região reafirmou sua identidade e independência. Muitos países revitalizaram suas economias e saíram relativamente ilesos da crise financeira de 2008, que continua afetando os EUA e a Europa.

Precursores

"O 11 de Setembro marca mais ou menos o momento em que a América Latina nasceu como verdadeira entidade independente", disse à BBC Mundo Larry Birns, diretor do Conselho sobre Assuntos Hemisféricos, COHA, de Washington.

Os precursores foram os governos de Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil, e Hugo Chávez, na Venezuela. O primeiro protagonizou uma intensa campanha para um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. O segundo destacou-se por seu desafiante populismo radical.

Seguiram o mesmo caminho, guardadas as devidas proporções, governos como o do casal Kirchner, na Argentina, de Rafael Correa, no Equador, e o de Evo Morales, na Bolívia, entre outros na América do Sul. O mesmo ocorreu com Daniel Ortega, na Nicarágua, e Mauricio Funes, em El Salvador.

Larry Birns reconhece que essa tendência da "esquerda" latino-americana poderia estar em gestação antes, mas consequências do 11 de Setembro aceleraram o processo.

A consolidação dessa mudança é vista em organizações multilaterais como a Unasul, que exclui os Estados Unidos e Canadá.

"A região está emergindo como um importante centro da política externa", diz o diretor do COHA. "A América Latina não é mais apenas um consumidor de eventos, mas também um gerador deles."

Ritmo da China

Onde mais se nota a perda de hegemonia dos EUA sobre a região é na economia. A região estabeleceu fortes laços comerciais com outras potências emergentes e blocos.

A falta de atenção de Washington para com o seu "quintal" tradicional custou aos EUA o privilégio automático de ser o primeiro parceiro comercial da América Latina. As razões para tanto são variadas.

Para começar, os pactos comerciais que resultaram nos anos 1990 no Nafta (entre EUA, México e Canadá) e no Cafta (para a América Central) foram apenas parcialmente bem sucedidos. Ao fim dessa década, e ao longo dos anos 2000, a região começou a diversificar seus parceiros comerciais, voltando-se para a Europa.

Em seguida, a iniciativa de criar uma zona de livre comércio do Alasca à Patagônia, a Alca, nunca se materializou, enquanto que vários pactos bilaterais entre os EUA e em outros países foram enfraquecidos ou não foram implementados.

A mudança mais significativa, no entanto, foi a emergência do Sudeste Asiático como polo de crescimento.

"A entrada da China na economia global é sem dúvida o evento mais importante neste período econômico que estamos vivendo", diz Augusto de la Torre, economista-chefe para América Latina e Caribe do Banco Mundial.

Num primeiro momento, a emergência da China produziu efeitos adversos sobre as economias do México e da América Central, que perderam espaço no mercado dos EUA. Acreditou-se inicialmente que esta seria a tendência de toda a região.

A fase de desenvolvimento em que se encontra a China, no entanto, pelo fato de ser uma nação de renda per capita baixa e renda média em ascensão, faz do país um consumidor voraz de matérias-primas.

De la Torre ressalta que países que têm sua cadeia produtiva ligada às necessidades da China são os grandes beneficiários desse processo. Brasil, Peru, Chile, Argentina, Venezuela, Colômbia, Equador, Paraguai e Uruguai são alguns dos países puxados pelo crescimento do gigante chinês.

O Panamá, por causa do canal, também se beneficiou com o grande fluxo de comércio internacional.

Repúblicas de bananas

"O que se nota é que a atividade econômica destes países pulsa mais com o ritmo da China que com o dos Estados Unidos, à medida que a China é agora o parceiro mais importante para alguns países como o Peru", diz o economista do Banco Mundial.

O comércio de commodities, no entanto, é uma faca de dois gumes para a América Latina, por ter sido "tanto a fonte de sua prosperidade como de suas ansiedades", disse De la Torre.

Para evitar os altos e baixos que fizeram os países da região ficaram marcados como “repúblicas de bananas” é necessário uma política econômica destinada à diversificação, competitividade e criação de "conectividades" para permitir crescimento de longo prazo e em direções diferentes.

O diagnóstico do Banco Mundial é que, com poucas exceções, tem melhorado a capacidade das sociedades latino-americanas de gerir seus recursos através da melhoria de suas instituições.

De la Torre destaca o caso do Chile, que conseguiu lidar com as receitas da venda de cobre de forna "muito sábia e prudente", depositando o dinheiro em fundos de estabilização que foram desembolsados para manter a economia ativa durante a última crise financeira global.

Também o Brasil, dono de uma enorme riqueza mineral, tem boas perspectivas para administrá-la, por causa da maturidade de suas instituições.

Riqueza de conhecimento

Para manter a bonança no longo prazo, o mais importante é transformar a riqueza derivada das matérias-primas em "riqueza do conhecimento", pontua De la Torre.

Seria seguir o exemplo do Japão após a a Segunda Guerra Mundial e agora da China, que se beneficiaram da transferência de tecnologia dos países com quem tiveram forte comércio.

"Quando o iPod é montado na China, há um grande número de engenheiros chineses estudando como ele é feito e como poderiam ser melhorados", diz o economista.

Essa foi uma relação que a América Latina não aproveitou quando os laços econômicos com os Estados Unidos estavam no auge.

"Nós ainda não desenvolvemos a capacidade de absorção de tecnologia, inovação de aprendizagem, e não temos políticas nacionais de fomento tão vigorosas como a dos asiáticos", diz Augusto de la Torre.

Nova relação

Onde fica a relação com os EUA?

Os analistas reconhecem que houve um racha, mas o prognóstico geral é que as ligações continuem fortes, tanto política quanto economicamente, mas com uma perspectiva diferente.

"A América Latina quer expandir as suas opções", disse Geoff Thale, diretor do Washington Office on Latin America, WOLA, uma ONG que promove a relação “equilibrada” entre os EUA e seus vizinhos.

"Muitos países têm aprendido as lições da sua dependência política e econômica com os EUA e querem diversificar as suas relações", disse Thale.

No entanto, o analista destaca que as relações continuam a ser fundamentais e mutuamente benéficas.

"Em 2003, nos piores momentos entre Venezuela e Estados Unidos, em nenhum momento houve corte do fornecimento de petróleo, porque ambos dependem dele", lembra.

Thale ressalta que, apesar da retórica, todos os governos da América Latina, tanto os de direita quanto os de esquerda, querem um bom relacionamento com o grande vizinho do norte.

O diretor da WOLA diz que Washington precisa dar mais atenção política à região para fortalecer seus laços.

A mudança está dada e alguns suspeitam que é irreversível.

Larry Birns, diretor do COHA acredita que os laços permanecem, mas já não mais tão elásticos como antes.

"Uma coisa é certa: o status quo, aquele que existia antes de 2001, esse não existe mais", disse.

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terça-feira, 30 de agosto de 2011

Contraponto 6119 - "Na Bolívia, Lula exalta crescimento da América Latina"


30/08/2011


Na Bolívia, Lula exalta crescimento da América Latina

Do Vermelho - 30 de Agosto de 2011 - 10h38

Em visita à Bolívia, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o crescimento econômico da América Latina é consequência da implantação de "governos progressistas" na região. Segundo ele, "nunca, em 500 anos", houve "tantos governos progressistas" na América Latina capazes de construir uma nova economia.

EFE
Lula e Morales

Lula afirmou que, ao chegar ao poder, em 2003, firmou como um de seus objetivos mudar a geografia econômica da América do Sul


Lula atribuiu isto ao processo de mudança vivido na região desde os anos 2000. Ele destacou que, antes de assumir a Presidência do Brasil, em 2003, o único governo progressista era o de Hugo Chávez, na Venezuela. O brasileiro recordou que estas mudanças, inclusive no Paraguai, Argentina, Uruguai, Bolívia, Chile e Equador, permitiram abrir novos horizontes no modelo econômico local.

Segundo ele, o Brasil começou a dar preferência para as relações comerciais com os países da região e, como consequência, o intercâmbio com a América do Sul em 2010 foi de US$12 bilhões. Atualmente, as trocas chegam a US$ 83 bilhões, de acordo com Lula.

O ex-presidente chegou ontem à Bolívia para uma visita de dois dias. Ele discursou para milhares de jovens em um complexo esportivo de Santa Cruz. Lula também se reuniu com o presidente boliviano, Evo Morales, por cerca de uma hora. O presidente da nação vizinha considerou o brasileiro um mentor e um conselheiro político.

Na ocasião, Morales ainda destacou a "liderança do Brasil" na América Latina e a necessidade de fortalecer a integração e as políticas sociais regionais. "O Brasil é um irmão mais velho. Reconhecemos sua liderança na região", disse o presidente boliviano.

Lula deve participar nesta terça-feira (30) de um fórum econômico patrocinado pela construtora OAS, responsável pela obra de uma estrada que vem recebendo críticas da comunidade indígena boliviana. A rodovia cruzará de norte a sul o Parque Nacional Isiboro Sécure, a maior reserva florestal do país, cujos rios são uma importante fonte de água doce da América do Sul.

Fonte: Ansa
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domingo, 14 de agosto de 2011

Contraponto 5996 - Da Carta Maior

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14/08/2011

Da Carta Maior

AMÉRICA LATINA SEGUE À ESQUERDA

Realizadas neste domingo, as eleições primárias da Argentina confirmaram o favoristismo de Cristina Kirchner na corrida para o pleito presidencial de outubro próximo. Pesquisas indicam a candidata à releição com cerca de 20 pontos à frente do segundo colocado do Partido Radical. Pelo sistema eleitoral argentino, basta uma vantagem de 10 pontos em outubro para consagrar Cristina vitoriosa em 1º turno. Ao contrário da líder peronista sempre demonizada pela mídia, o direitista Sebástian Piñera, no Chile, vê sua aprovação derreter. O milionário presidente chileno conta hoje com apenas 26% de apoio popular e acaba de reforçar a participação de pinochetistas no seu ministério em resposta às manifestações de massa dos estudantes contra a política educacional herdada da ditadura militar. Quando tomou posse em janeiro de 2010, Piñera chegou a ser apontado pelo jornalismo conservador como o símbolo de uma guinada latinoamericana "rumo à direita moderna". Com a vitória de Dilma no Brasil, a de Humala, no Peru, o fortalecimento, agora, de Cristina , na Argentina e o pleno entendimento entre Brasil e Argentina sobre a necessidade de fortalecer políticas regionais soberanas através da Unasul, desenha-se uma América Latina diferente do desejo conservador: caminhando para enfrentar a crise pela via da esquerda.

(Carta Maior; 2º feira, 15/08/ 2011)
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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Contraponto 5914 - "Graziano diz que América Latina pode erradicar a fome até 2025"

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04/08/2011

Graziano diz que América Latina pode erradicar a fome até 2025

Graziano

Da Agência Brasil - 03/08/2011 - 14h02


Yara Aquino
Repórter da Agência Brasil

Brasília - Erradicar a fome até 2025 é uma meta viável para os países da América Latina, na avaliação do recém-eleito diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), o brasileiro José Graziano.

“A meta para o milênio [meta proposta pela Organização das Nações Unidas] é reduzir pela metade o número de famintos até 2015. Será muito difícil alcançar essa meta para boa parte dos países, sobretudo os mais pobres. A América Latina tem meta de erradicar a fome em 2025, o que acho perfeitamente viável”, disse hoje (3), ao participar de reunião do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

Como representante regional da FAO para a América Latina e o Caribe, posto que assumiu em 2006, José Graziano conseguiu que os países da América Latina fossem os primeiros a assumir o compromisso de erradicar a fome até 2025.

Graziano observou que alguns governantes, em especial os de países onde não há um sistema democrático, não têm o interesse de acabar com a fome. Mudar a realidade nesses países é um dos desafios apontado por ele para sua gestão à frente da FAO, que começa em janeiro de 2012. “Alguns países se assentam nessa exclusão social para manter o domínio de uma minoria, por isso que digo que acabar com a fome não interessa a todos, por que ela pode modificar governos. Acho que chegar a um sistema democrático também é uma pré-condição para acabar com a fome”, disse.

A eleição de José Graziano para a diretoria-geral da FAO ocorreu em junho. Com o apoio do governo brasileiro, Graziano foi eleito com 92 dos 180 votos e ocupará o cargo no período de janeiro de 2012 a julho de 2015

Ele atribui a escolha de um brasileiro para o cargo à mudança na imagem que o Brasil adquiriu no exterior. “Acho que essa foi a grande razão da vitória: a expectativa que o Brasil representa hoje no mundo de encontrar um novo caminho de desenvolvimento. O Brasil é visto como um país que pode fazer a ponte para os países que estão em desenvolvimento com uma proposta diferente dos que estão lá, os desenvolvidos.”

Edição: Talita Cavalcante
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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Contraponto 5683 - “América do Sul deve construir uma aliança estratégica”

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04/07/2011

“América do Sul deve construir uma aliança estratégica”



Da Carta Maior - 03/07/2011


Em entrevista ao jornal Página/12, o presidente da Bolívia, Evo Morales, fala sobre sua experiência como presidente, sobre os programas sociais que está implantando para beneficiar a população mais pobre e defende uma aliança estratégica entre os países da América do Sul. “Devemos fazer uma aliança estratégica com toda a América do Sul para a tecnologia. Porque a América do Sul já é a mãe de todos os recursos estratégicos do mundo. Temos a Amazônia, água doce...É uma esperança para o mundo. É preciso desenvolver uma nova tese. A tese da vida, da humanidade”.

O jogo da noite entre Argentina e Bolívia e o gasoduto para trazer gás ao norte argentino eram os grandes temas da visita de Evo Morales a Argentina até que surgiu o protesto da comunidade judaica pela viagem do ministro de Defesa iraniano a La Paz. São 11 horas da manhã e Evo acaba de se despedir dos dirigentes da DAIA (Delegação de Associações Israelitas Argentinas). Saíram sorridentes. Talvez contagiados pela tranquilidade que emana hoje desse presidente aymara e ex-dirigente sindical que, no último dia 22 de janeiro, completou cinco anos no Palácio Queimado.

- Nunca sonhei em seu presidente – diz Evo. Nunca pensei que iria ser presidente.

- Nunca?

- Até 2002, jamais. Jamais. Eu, de tão baixo. Quando meus companheiros me propuseram ser candidato à presidência, em 1997, pensei que estavam gozando com minha cara.

- Mas o elegeram deputado.

- Sim. Fui candidato a presidente em 2002, e a candidatura surpreendeu a mim mesmo. Eu candidato? Foi uma satisfação. E depois, em 2005, ganhamos, mas temos muito que seguir aprendendo no novo sentido da política boliviana: antes o povo era escravo do governo. Agora o governo é escravo do povo. Está a serviço do povo.

- Os bolivianos votaram várias vezes em eleições presidenciais e para a reforma da Constituição. Como faz um presidente para avaliar o sentimento popular a cada dia?

- As reuniões com os movimentos sociais permitem saber como servir ao povo. Os resultados de gestão não só satisfazem como causam orgulho quando o povo se sente atendido em suas demandas. Nem sempre é suficiente, claro, por que os recursos são limitados. Mas sempre escutamos.

- Os dirigentes da DAIA que tiveram a entrevista com você comentaram isso: que os escutou, que admitiu ter cometido um erro e que eles acreditaram.

- Houve problemas e nós os reconhecemos. Melhor aprender errando. Melhor não ocultar as coisas. Assim a vida é melhor. Essa é minha experiência na família, no sindicalismo e no governo.

- Admitir um erro não pode ser tomado como sintoma de debilidade?

- Para mim não. Alguém sempre pergunta por que eu reconheço isso. Quem não comete erros? Lamentamos coisas que não estavam em nossos planos e expressamos nosso reconhecimento.

- Qual é o interesse nacional boliviano com o gasoduto que começou a ser negociado com a Argentina em 2006 e do conversou com a presidenta (Cristina Fernandez Kirchner)?

- A Bolívia, lamentavelmente em boa parte, viveu de seus recursos naturais. Em um primeiro momento a borracha, depois o estanho e, mais tarde, o gás. As relações que iniciamos com o presidente Néstor Kirchner tiveram continuidade com os acordos com a companheira Cristina e com a construção do gasoduto Juana Azurduy, tão importante para os dois povos, um que será abastecido de gás e o outro que se beneficiará disso. Ao mesmo tempo, estamos melhorando a economia da Bolívia e prestando um serviço ao povo argentino. Falei muito sobre isso com a companheira Cristina. Ela conhece o tema. Não parece advogada, mas sim uma petroleira. Garantir energia frente à crise do mundo, no marco da complementariedade, é importante. Nós necessitamos do povo argentino e de seu governo e se eles precisam de nós, aqui estamos. Eu nunca esqueço que, quando nos faltou trigo e farinha para o pão, a Argentina nos socorreu. Não sei como fez, mas o trigo ajudou a nossa felicidade.

- A nova Constituição estabelece um Estado plurinacional. Como está funcionando a construção?

- Nossa história mostra tantos irmãos assassinados, enforcados, esquartejados, discriminados, marginalizados...Houve rebeliões com resultados nefastos, mas nessas rebeliões nossos antepassados defenderam a identidade e os recursos naturais. Agora estamos em uma revolução. Não com balas; Com o voto. O Estado plurinacional se constrói também via um processo de descolonização. Três etapas: Rebelião, revolução, descolonização. Esta etapa não é fácil. Podemos mudar normas e procedimentos pelas quais um funcionário público se converterá em um servidor público. Mas é mais difícil mudar a mentalidade.

- A do funcionário?

- Sim. Por sorte, na Bolívia o povo começa a pensar diferente sobre a política. No passado, o político era visto como delinquente, como um meliante, um ladrão, um farsante. Estamos mudando isso. Agora, ser político é prestar serviço ao povo por tempo determinado.

O que significa por tempo determinado?

- Que depende dos tempos da democracia, dos mandatos, do voto. Antes ser político era dizer: “Isso é meu. Aproveitarei”. Terminamos com isso na Bolívia. O povo era escravo do governo. Em meu gabinete há intelectuais e profissionais que poderiam estar ganhando melhor em outro trabalho. Mas se somam a esse trabalho para prestar um serviço por tempo determinado. E descolonizar também é a busca da soberania com igualdade de todos os bolivianos. Não pode haver uns vivendo no luxo e outros que morrem de fome. Não podem existir essas diferenças de família para família e tampouco de país para país, ou de continente para continente. Esse milênio não deve ser o das oligarquias, hierarquias e monarquias. Olhemos as reações que temos nestes dias em outros continentes. Na Europa, por exemplo. Antes eles olhavam para a América Latina. E o que viam? Os golpes militares, as ditaduras, crises, convulsões, mortos. A Bolívia, antes de eu chegar à presidência, teve cinco presidentes em cinco anos.

- Nós ganhamos: cinco em uma semana.

- Sim. E eu não posso acreditar: entrei no sexto ano da presidência. Isso quer dizer que estamos mudando.

- Bom, e pelo Honoris Causa da Universidade de Córdoba já é o doutor Evo Morales.

-E sou doutor, sim. Mas o que vale é o que estamos mudando no plano estrutural, no econômico e financeiro. Estamos nos libertando financeiramente. O próximo passo é tecnológico e científico. Devemos fazer uma aliança estratégica com toda a América do Sul para a tecnologia. Porque a América do Sul já é a mãe de todos os recursos estratégicos do mundo. Temos a Amazônia, água doce...É uma esperança para o mundo. É preciso desenvolver uma nova tese. A tese da vida, da humanidade. Falamos muito sobre isso com o companheiro Néstor Kirchner.

- Vocês se conheceram antes da presidência.

- Sim. Néstor foi muito prático em suas recomendações e sugestões. Para mim segue sendo um pai político. Quando comecei como presidente, lá estava Néstor, lá estava Lula, lá estava Chávez para suas sugestões e recomendações.

- Qual foi a recomendação mais importante?

- O serviço ao povo. E lembro a ajuda que me deu em Tarija. Ele me disse: “Se perceber que as empresas não querem investir, pega o telefone e me liga que a Argentina vai investir”. Talvez possa ser entendida como uma mensagem simbólica. Mas foi muito importante. Nós, presidentes, devemos nos ajudar também em temas de investimento.

- Qual é, no plano mundial, a novidade boliviana em termos de identidade e desenvolvimento dos povos originários?

- Programas, por exemplo. Para os setores mais pobres das comunidades indígenas o governo está garantindo 70% do investimento para empreendimentos produtivos. Os beneficiados contribuem com os outros 30%. O Banco Mundial está exportando este programa para a África. Outro programa: a criança que termina o ano escolar recebe um pequeno bônus de 200 bolivianos ao ano. O segredo deste bônus é evitar que haja novos analfabetos. Estamos conseguindo diminuir a evasão escolar, especialmente nas áreas rurais do altiplano e nos bairros periféricos das cidades. Baixamos a evasão de 6 para 2% e temos que impedir que surjam novos analfabetos. Outro programa ainda: os mais pobres, os abandonados, os que trabalharam durante toda a vida, recebem cerca de 200 bolivianos por mês. Não é muito, mas é alguma coisa. Nas áreas rurais, o idoso que recebe sua renda resolve seu problema de água e de luz. E estamos entregando terra, ainda que alguns sejam muito ambiciosos.

- O que querem?

- Em lugar de 50 hectares, querem 150. Não é possível. Alguns dizem: “Aproveito a presidência do companheiro Evo, do irmão Evo, porque depois não haverá essa chance”.

- Como é o estado atual da unidade da Bolívia, sobretudo em relação a Santa Cruz de la Sierra? Os enfrentamentos de 2008 são coisa do passado?

- Antes se falava da meia lua. Isso acabou. Agora é a lua inteira. Nosso movimento se baseia na política do bem viver, não do viver melhor. Seu você quer viver melhor, tem que roubar, saquear os recursos, explorar. Isso nós podemos garantir porque meu partido, o dos mais pobres, dos camponeses indígenas originários, tem dois terços da Câmara de Deputados e dois terços da Câmara de Senadores. Isso nunca aconteceu na história da Bolívia. Há um sentimento popular que simpatiza com as mudanças profundas. E isso apesar das corridas aos bancos, que fracassaram. Ou do boicote para que falte açúcar ou azeite e para que joguem a culpa em cima de mim. Mas estamos sempre preparados para aprender errando, errando.

- Mauricio Macri disse que um dos problemas da Argentina, e repetiu isso, é o que chamou de “imigração descontrolada”. Como reagiu ao ouvi-lo?

- Respeitamos as opiniões de todos. Cada um tem direito a expressar o que pensa e o que sente. Mas somos todos latino-americanos. Todos somos sulamericanos. Temos a obrigação de compartilhar. Mas não só na Bolívia, também na Europa, na Espanha e em outros países o boliviano é visto como honesto e trabalhador. Veio aqui buscar melhores condições de vida. Mas também contribui para o desenvolvimento da Argentina. Assim ocorre sempre com as migrações. As externas e as internas. Na Bolívia vemos o que ocorre com os que chegam a Cochabamba, ou com os que vão de Potosi ou Oruro para Santa Cruz. Por isso, em Santa Cruz se encontra gente de origens tão diferentes. Vão trabalhar. Assim ajudam o desenvolvimento. Na América Latina ocorre o mesmo. Nos complementamos para viver juntos.

Tradução: Katarina Peixoto

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segunda-feira, 20 de junho de 2011

Contraponto 5580 - "Com Humala, Peru se une à guinada à esquerda da América Latina"

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20/06/2011

Com Humala, Peru se une à guinada à esquerda da América Latina

Ollanta Humala

Do Vermelho - 20 de Junho de 2011 - 10h20



Acrescentem o Peru à lista de países latino-americanos que guinaram à esquerda. No dia 5 de junho, os peruanos votaram no segundo turno e elegeram presidente Ollanta Humala, um oficial do exército na reserva, de 48 anos.

Por Greg Grandin, em The Nation

Esta é a segunda tentativa de Humala de chegar ao cargo. Em 2006, ele chegou perto da vitória, mas telegramas do Wikileaks revelam que os políticos do establishment peruano deixaram suas diferenças de lado e abriram caminho até a embaixada dos EUA, pedindo ajuda para retratar Humala como um Hugo Chávez peruano.

O Wikileaks também revela que, no mesmo ano, a direita mexicana e o Departamento de Estado dos EUA trabalharam juntos para derrotar o candidato presidencial populista Andrés Manuel López Obrador, levando muitos nos EUA a proclamarem que a "guinada à esquerda" na América Latina havia chegado ao fim.

A vitória de Humala indica o contrário. Eis apenas alguns dos fatos ocorridos desde 2006: na Bolívia, Evo Morales liderou a ratificação de uma nova Constituição social-democrata e foi reeleito presidente em 2009 com 64% dos votos; no Equador, Rafael Correa também ganhou a reeleição facilmente e ratificou uma nova Constituição que garante os direitos sociais e impõe limites rígidos à privatização; recentemente, os equatorianos ainda votaram sobre dez iniciativas progressistas, aprovando todas. Entre elas está a regulação estrita de dois esportes sangrentos: os bancos agora estão proibidos de especular e os touros não podem mais ser mortos em corridas.

E no ano passado, no Brasil, o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva deixou o poder como o político mais popular do planeta, entregando a presidência de uma das maiores economias do mundo a Dilma Rousseff, uma ex-guerrilheira urbana e economista que promete continuar tentando tornar o Brasil uma nação mais humana e igualitária.

Todos esses projetos políticos nacionais de esquerda -- da Venezuela ao Uruguai -- têm seus problemas e defeitos, e estão abertos a críticas em várias questões por parte do povo progressista. No entanto, combinada, a esquerda latino-americana pode reivindicar uma façanha notável: ela tirou o conceito de democracia das mãos dos neoliberais e piratas corporativos, que quase convenceram o mundo de que democracia é sinônimo de capitalismo sem regras, e devolveram o termo a sua definição mais humana, sustentável.

Na América Latina, democracia significa social-democracia. Assim, considerando a paisagem global, de resto sombria, o retorno da esquerda latino-americana, que agora avança pela segunda década, é motivo de grande alegria.

O que a vitória de Humala significa para o Peru? Principalmente no curto prazo, ela impediu a volta do estilo de neoliberalismo de esquadrão da morte de Alberto Fujimori. A oponente de Humala era a filha de Fujimori, Keiko, que prometeu libertar o pai, condenado à prisão por assassinado, sequestro e corrupção.

No longo prazo, muitos peruanos, especialmente aqueles de fora de Lima, votaram em Humala porque viram poucos benefícios com o celebrado desempenho macroeconômico nacional ao longo da última década, impulsionado pelo alto preço da praza, zinco, cobre, estanho, chumbo e ouro -- que representam 60% das exportações do país.

Promessas

Mais de 30% dos 30 milhões de peruanos vivem na pobreza e 8%, na pobreza extrema. Nas áreas rurais, particularmente em comunidades indígenas, mais da metade das famílias é pobre, muitas em situação desesperadora. Humala prometeu combater essa desigualdade com uma série de medidas pragmáticas: uma pensão garantida a pessoas com mais de 65 anos; a expansão do atendimento de saúde nas áreas rurais, incluindo a construção de mais hospitais provinciais; um aumento nos salários do setor público, a ser pago com um inesperado imposto sobre o lucro no setor da mineração.

Em termos de política externa, a eleição de Humala é outra vitória para o Brasil na disputa com Washington por influência regional. Se Fujimori tivesse vencido, teria alinhado o Peru políticamente com Washington e economicamente com as corporações dos EUA e Canadá.

Humala, em contraste, se voltará para os interesses econômicos brasileiros. De fato, o historiador peruano Gerardo Rénique afirmou que a eleição, embora represente uma importante vitória das forças democráticas, também pode ser entendida em parte como uma disputa entre o Brasil e os EUA pelos recursos energéticos e minerais do Peru. Nessa perspectiva, é possível afirmar que não importa quem venceu a eleição peruana: a Amazônia perdeu.

Esta pode ser a questão que determinará o sucesso da presidência de Humala: ao tentar implementar sua agenda de "crescimento com inclusão social", ele será capaz de equilibrar os interesses conflitantes de seus aliados brasileiros e dos movimentos sociais que o elegeram, muitos dos quais lutam pelo desenvolvimento sustentável e pelo controle local dos recursos?

Racismo

Além de reavivar a social-democracia, a outra grande façanha da esquerda latino-americana renovada foi diluir o racismo entrincheirado que definiu o continente durante séculos. Na Bolívia, Equador, Chile, Brasil, Venezuela e outros países, os americanos nativos e os povos descendentes de africanos têm liderado uma democratização notável, ainda que incompleta, da política e da cultura. O Peru, com seus 45% de população ameríndia, ficou praticamente de fora desse processo.

Na verdade, alguns dizem que o racismo se aprofundou na última década, com o boom da mineração levando o caos ao interior andino e às terras baixas da Amazônia, com sua população de pele escura, enquanto financiava o surgimento de luxuosos condomínios e centros comerciais em Lima, branca e de classe média.

Assim, por mais difícil que possa ser para Humala obter capital internacional - o mercado de ações do Peru despencou 12% no dia seguinte à sua eleição -, uma tarefa igualmente difícil será combater o racismo peruano. "El Indio Humala" perdeu em Lima por ampla margem, uma consequência dos temores de que ele transformasse o Peru não só na Venezuela de Chávez, mas principalmente na vizinha Bolívia sob governo indígena. O candidato Humala fez o possível para afastar esses temores.

O presidente Humala, no entanto, terá de enfrentar esse racismo de frente se quiser ter sucesso na democratização do Peru. Afinal, antes mesmo da eleição, dezenas de milhares de seus simpatizantes começaram a lotar as praças do país, incluindo as de Lima. Eles ergueram a bandeira colorida wiphala, que se tornou onipresente na Bolívia durante a ascensão dos movimentos sociais que levaram Evo Morales ao poder. Hoje, ela é agitada ao longo dos Andes como um símbolo do orgulho e da soberania indígenas.
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Contraponto 4831 - "O outro mundo possível na América Latina"

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24/02/2011

O outro mundo possível na América Latina

Do Blog do Emir - 24/02/2011

Emir Sader*

O Fórum Social Mundial começou na América Latina – mais particularmente no Brasil, em Porto Alegre -, para onde deve retornar em 2013. A escolha do continente e do país se fizeram para se contrapor ao Fórum Econômico de Davos, que representava, entre outras coisas a vitória do centro do capitalismo sobre a periferia, com a emergência da globalização neoliberal.

A América Latina foi escolhida, por ter abrigado os principais movimentos de resistência popular aos governos neoliberais que proliferavam no continente – dos zapatistas ao MST, dos movimentos indígenas da Bolivia aos do Equador, do movimento camponês peruano aos piqueteiros argentinos. O Brasil foi o país definido como sede, pela presença do PT, do MST, da CUT, dos governos de orçamento participativo, da liderança do Lula. E Porto Alegre, justamente por ter sido pioneira nas experiências de orçamento participativo.

Dez anos depois, após ir à Asia e à Africa, o Forum Social volta à América Latina, única região do mundo onde há governos que buscam construir governos de superação do neoliberalismo. Com matizes diferenciados, esses governos – de que 5 presidentes estiveram no FSM de Belém, em 2009 – privilegiam os processos de integração regional no lugar dos Tratados de Livre Comércio com os EUA, priorizam as politicas sociais e a extensão do mercado interno de consumo popular no lugar da prioridade neoliberal aos ajustes fiscais.

Essas opções permitiram terminar com a diminuição dos Estados às suas proporções mínimas, que promoveram um brutal processo de mercantilização das relações sociais e do próprio Estado. Os processos de privatização foram brecados, assim como as aberturas desenfreadas das economias nacionais ao mercado internacional. Políticas de integração regional foram priorizando os intercâmbios entre os países da região e com os países do Sul do mundo. O poder aquisitivo dos salários foi recuperado sistematicamente, assim como o nível de emprego formal.

Como resultado, os países que priorizam a integração regional e as politicas sociais, diminuíram significativamente as desigualdades sociais, promoveram processos de distribuição de renda e de inclusão social, que fazem do período atual aquele em que esses países mais pudessem avançar naquele aspecto mais dramático da América Latina – o continente mais desigual do mundo.

Diante da crise econômica internacional, nascida no centro do capitalismo, os países que priorizaram a integração regional e o desenvolvimento do mercado interno de consumo popular, puderam reagir muito melhor, demorar mais para entrar na crise e sair dela mais cedo. Enquanto isso, um pais como o México que, na contramão dessa opção, assinou um Tratado de Livre Comércio com os EUA, amarrando seu destino ao vizinho do norte, com quem tem mais de 90% do seu comercio exterior, sofre os duros efeitos da crise profunda e prolongada dos EUA. Da mesma forma, os países europeus, que optaram por pacotes recessivos tipo FMI – de triste memória para nós, no governo FHC – seguem em crise, com níveis recordes de desemprego.

O próximo FSM pode renovar-se, incorporando avanços do realizado em Dacar – quando Evo Morales e Gilberto Carvalho falaram na sua abertura – colocando no seu centro a relação entre os governos progressistas latino-americanos e os movimentos sociais, para discutir as diferenças e articular os pontos em comum para multiplicar a força de todos eles.

*Emir Sader. Sociólogo e cientista político

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Contraponto 1452 - "Um ano decisivo para a AL

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22/02/2010

Um ano decisivo para a AL


Do Direto da Redação Publicada em:21/02/2010

Finalmente começou o ano de 2010, período em que muitas águas vão rolar. Não precisa nenhuma bola de cristal para prever que o ex-presidente FHC vai voltar a destilar ódio contra a candidata Dilma Roussef, o que para ela é muito positivo, pois cada pronunciamento do príncipe sociólogo mais a agora candidata oficial do Partido dos Trabalhadores cresce nas pesquisas. FHC, que em oito anos de mandato revelou-se um entreguista de marca maior, vai reafirmar que Dilma “é uma pessoa dura, autoritária, dogmática e mais próxima da esquerda do que o Presidente Lula”, como disse para o jornal Miami Herald.

Cardoso, que ainda se julga o maior dos maiorais, deve elevar as mãos para os céus que está solto, porque se o país fosse outro, uma Argentina, uma Bolívia um México ou Peru, por exemplo, o ex-Presidente já estaria respondendo na Justiça pelo que fez em matéria de entregar a preço de banana estatais às empresas transnacionais. Carlos Menem e Gonzalo Sanchez de Losada, para não falar de Carlos Salinas de Gortari e Alberto Fujimori, respectivamente, ex-Presidentes da Argentina, Bolívia, México e Peru que o digam. Depois de deixarem o governo, tiveram de enfrentar ações na Justiça. Cardoso, lépido e faceiro, segue escrevendo em O Globo e Estado de S. Paulo defendendo o indefensável, ou seja, o que fez em seu governo.

Da Bolívia podem acontecer novidades surpreendentes, inclusive repicando no Brasil. É que o governo Evo Morales ordenou a abertura de todos os arquivos implacáveis das Forças Armadas dos anos de chumbo que atravessou o país vizinho. Não é nenhuma novidade que governos militares brasileiros, de Costa e Silva e Médici, passando por Ernesto Geisel e até mesmo João Figueiredo, incentivaram golpes de estado que provocaram numerosas violações dos direitos humanos e mortes. Os governos militares destas bandas têm culpa no cartório também e os arquivos podem trazer novidades que mostrarão como a direita tupiniquim, cujos remanescentes hoje destilam ódio em sites com os nomes mais estranhos, ajudaram a extrema direita boliviana a ocupar o poder.

Lamentavelmente, e isso é história, os governos de fato aqui do Brasil deram força até a golpistas vinculados ao narcotráfico, como o general meliante Garcia Meza. E tudo isso depois do golpe que derrubou o Presidente chileno Salvador Allende, em que civis e militares brasileiros desempenharam papéis relevantes na quebra constitucional. O então vendedor de armas Aristóteles Drumond que o diga.

Conhecer a história é também importante no sentido de se evitar que os lamentáveis fatos daquela época voltem a ocorrer. É o mínimo que se exige para que avance o processo democrático.

Ainda pelas bandas de Nuestra América, informes da Colômbia, raramente divulgados pela mídia hegemônica, dão conta que mães de jovens assassinados pelo Exército estão denunciando “encenações midiáticas”. Ou seja, as Mães de Soacha, e outras tantas que tiveram os filhos desaparecidos, possivelmente mortos em circunstâncias criminosas, estão tentando encontrar pelo menos os restos dos jovens.

Elas acusam o Exército colombiano de responsabilidade em crimes do Estado, os quais remetem às “encenações macabras” que denominaram de “falsos positivos”. Os jovens mortos são apresentados aos colombianos como guerrilheiros mortos em combate, segundo as mães de Soacha. A ONU contabilizou um total de 1.800 jovens, mas o número pode ser muito maior. Os jovens são recrutados com promessas de trabalho, o que não se concretiza. As mães denunciam ainda que há também o método em que os filhos são recrutados á força pelos militares e mesmo paramilitares, mas quando opõem algum tipo de resistência são sumariamente executados. Na etapa seguinte, são apresentados em espetáculos de televisão como combatentes das Farc. Os corpos, ainda com trajes de guerrilheiros, são mostrados em close nos telejornais.

É preciso que a opinião pública da Colômbia e latino-americana exija que uma comissão internacional investigue as denúncias. Não se pode deixar que o caso fique apenas caia no esquecimento. E não se pode também confiar que o governo acusado, como o de Álvaro Uribe, seja o responsável pelas investigações.

Se nada disso acontecer, a omissão e o silêncio poderão servir à guerrilha, cujos comandantes aproveitarão o embalo para mostrar como denúncias de mães colombianas não são levadas a sério.

Ao término deste artigo veio a notícia da Colômbia que no país foi encontrada a maior fossa comum até hoje localizada no continente americano. Foram achados, em Macarena, no Departamento de Meta, pelo menos dois mil corpos A mídia conservadora, para variar, silenciou sobre o fato e também não informou que naquela região o Exército esteve fazendo várias incursões.


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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Contraponto 911 - "América Latina: esquerda, volver; direita, vai ver..."


08/12/2009

"América Latina: esquerda, volver; direita, vai ver..."


















Eles se foram: e agora, quem representa a direita na América Latina? Partidos conservadores estão à deriva

O Escrivinhador - publicada segunda, 07/12/2009 às 13:08 e
atualizado segunda, 07/12/2009 às 13:12

Evo Morales acaba de dar uma surra na oposição, na Bolívia. Isso nem chega a surpreender. O que surpreende é o fato de as siglas tradicionais da centro-direita boliviana estarem à beira do colapso: o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), de Víctor Paz Estensoro, e a Ação Democrática Nacionalista (ADN), de Hugo Bánzer, e o MIR (que deu apoio ao governo liberal de Sanchez de Lozada) já tinham entrado em decadência antes de Evo Morales chegar ao poder.

A direita "inventou" uma força opositora a Evo, o "Podemos" - que até recentemente dominava o Senado boliviano.

Pois bem, o "Podemos" também se desintegra. A oposição boliviana não tem partidos, não tem discurso - a não ser afirmar que a popularidade de Evo ameaça a democracia. Que piada. O que ameaça a democracia são os golpes que a direita sempre apoiou.

A direita, na Bolívia, sobrevive na mídia e em movimentos que pregam a secessão, a divisão territorial do país - como em Santa Cruz de la Sierra... Ou seja: a direita se aloja em movimentos regionais, sem força nacional.

Mas o desmanche dos partidos tradicionais não é um fenômeno só da Bolívia.

Na Venezuela, a AD e o COPEI (que dominaram a politica nacional durante a segunda metade do século XX) viraram partidos nanicos.

O PSUV de Chavez é majoritário, em aliança com o Partido Comunista da Venzeuela (que preferiu não se dissolver no partido chavista).

A direita na venezuela precisa "inventar" novas siglas, porque as velhas ruíram quando o neo-liberalismo afundou.

Na Argentina, a UCR (que não é de direita, mas de centro; um partido liberal, com fortes raizes na classe média portenha, e que sob o governo de Alfonsin teve papel fundamental na redemocratização do país pós ditadura) chegou à beira do colapso, depois do governo de De la Rúa (que fugiu do palácio de helicópetero) e quebrou a Argentina.

Os setores mais à direita no peronismo também naufragaram depois que Menem (um peronista que adotou a agenda neo-liberal) acabou com o que restava do Estado argentino.

A direita argentina já "inventou" uma nova sigla: o PRO. É comandado por Macri, uma espécie de Berlusconi local - homem rico, dirigente do Boca Juniors, tenta cooptar o eleitorado de direita nas grandes cidades (especialmente na grande Buenos Aires.

No Uruguai, o último pleito mostrou a decadência do velho Partido Colorado. Rival histórico do Partido Nacional, aceitou apoiar Lacalle (candidato do Partido Nacional) no segundo turno, para evitar a vitória da esquerda. Os dois apanharam juntos, e terão que se reinventar para fazer frente aogoverno de Pepe Mujica, da Frente Ampla.

O Chile talvez seja exceção nesse processo.

No país andino, o centro (desde o fim da ditadura de Pinochet) mantém uma aliança firme com a centro-esquerda do Partido Socialista. A direita, isolada, perdeu todas as eleições, mas não perdeu a direção. Até porque, no Chile, a direita não renega a ditadura de Pinochet. Defende Pinochet, defende o programa liberal (na economia) que ele implantou.

No Chile, a direita é mais "orgânica", e tem chance real de ganhar a próxima eleição - sob o comando de Sebastián Pinera, um milionário local.

E o Brasil?

Aqui, o quadro é mais confuso, mais matizado...

O colapso da economia, nos anos 80, não provocou o enterro das duas velhas legendas: PMDB e PFL. Eles perderam o centro do poder, mas sobreviveram nas beiradas, costurando alianças com tucanos e petistas.

O PMDB mantém-se no poder com Lula. Cada vez mais fragmentado.

Já o velho PFL passa por um processo semelhante ao da direita na Venezuela e na Bolívia. Mudou de nome (DEM) em 2007. Adotou um tom "liberal" no discurso, e preparou-se para ser o partido das classes médias conservadoras e liberais: contra os impostos, contra a corrupção.

Mas a danada da realidade atrapalhou tudo.

O DEM é uma caricatura.

O escândalo dos panetones põe o partido na lista das legendas em extinção. Com a expulsão de Arruda, deve perder o único governo que possuía (do Distrito Federal).

Dos 13 senadores que possui, 8 terão que passar pelo teste das urnas em 2010. Há risco concreto de encolher para uma bancada de 8 ou 9 senadores. E de 30 a 40 deputados.

Os tucanos (ao contrário da direita chilena) parecem envergonhados de defender o legado neo-liberal de FHC. Isso pode custar caro.

O partido viu sua base definhar no Congresso. E só sobrevive com algum destaque porque domina dois Estados importantes: São Paulo e Minas.

Falta identidade à direita brasileira. Falta programa.

No quadro partidário, ninguém cumpre o papel de encampar o discurso da direita. O DEM havia levantado velas, e preparava-se para ocupar essa raia. Mas parece que naufragou antes de chegar a mar aberto.

Não acho isso bom. A direita é uma força política, real, na sociedade brasileira. Se não se sentir representada politicamente, pode aderir a aventuras extra-institucionais (gostaram do eufemismo para golpe?).

O desespero que vemos nos colunistas e comentaristas da mídia corporativa indica o grau de desespero dessa turma. No Brasil, a direita sobrevive na mídia!

A desagregação política da direita na América Latina é um fato. No Brasil, esse fato ganhou uma imagem simbólica a representá-lo: as propinas do DEM.

Uma nova direita deve surgir. Espero que surja como opção política. Não como gangue, nem como aventura fora dos marcos da democracia.
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