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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Contraponto 6490 - "Nova passeata da Globo: a ressaca dos derrotados"

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13/10/2011


Nova passeata da Globo: a ressaca dos derrotados

Os movimentos que saem da internet para ganhar as ruas, longe de ser a "primavera" com que sonham – ou fingem sonhar – seus reais mentores, têm se mostrado um melancólico outono dos tradicionais dispositivos de agenciamento midiático.

Gilson Caroni Filho*

Os brasileiros, que tiveram de passar 20 anos, lendo nas entrelinhas, especulando a partir de meias palavras ou interpretando – procurando interpretar – as rudes reações viscerais trazidas ao público por aqueles que detinham o poder, têm hoje olhos e ouvidos apuradíssimos para entender o que há por trás de cada episódio do cotidiano, por mais irrelevante que possa parecer à primeira vista. É isso que o baronato midiático parece não ter entendido ao continuar patrocinando atos que, a pretexto de combater a corrupção, têm como objetivo esvaziar a política.

Os movimentos que saem da internet para ganhar as ruas, longe de ser a "primavera" com que sonham – ou fingem sonhar – seus reais mentores, têm se mostrado um melancólico outono dos tradicionais dispositivos de agenciamento midiático. Submersos na crise do imobilismo de suas bases, resta à velha direita o consolo de platitudes publicadas para justificar mais uma tentativa fracassada. O saldo de mais um insucesso ora é debitado à boa situação da economia brasileira ora a uma estranha lógica binária, como a apresentada pelo professor de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo (USP), Renato Janine Ribeiro, na edição de 13/ 05, de O Globo.

"O problema na luta contra a corrupção é que ela está tomada pelos partidos. E é uma lástima que as pessoas usem isso contra o partido oposto". Mas a que se refere o renomado acadêmico? A característica do movimento não seria exatamente o seu reiterado "caráter apartidário"? Ou, sem se dar conta, Janine revela o fato que deveria permanecer oculto: o centro político da reação está agrupado no campo jornalístico oligopolista que assume para si o papel de partido de oposição.

O mesmo partido que deu sustentação a duas décadas de ditadura militar. O mesmo agrupamento que silenciou as emoções e expectativas da opinião pública durante os oito anos de desmando do tucanato. Que editou a realidade para ocultar as preocupações da população com o apagão, o descontrole cambial, a desnacionalização de partes substanciosas da produção e serviços nacionais, os rigores de uma política econômica que duplicaram as dívidas externas e internas e criaram seguidos déficits comerciais.

Desemprego, congelamento ou irrisórios aumentos salariais, ao lado de escândalos políticos e econômicos, pareciam fazer parte do cenário natural para os mesmos colunistas militantes que agora se arvoram em defensores de valores republicanos. Num conhecido jogo de espelhos, a defesa incondicional dos ditames do mercado é trocada, editorialmente, pela busca de posicionamento ético no trato da coisa pública. A guinada é tão mal-feita que não atrai o distinto público, como pudemos constatar nas manifestações de quarta-feira, dia da padroeira oficial do Brasil. No Rio de Janeiro, os manifestantes chegaram a hostilizar os que preferiram olhar o mar a ver a ressaca dos derrotados.

Para deixar claro qual o objetivo da TV Globo e de seus sócios menores nessa simulação barata, vale a pena reproduzir o que escreveu o ex-deputado Milton Temer (PSOL) em seu blog: "promover no Brasil uma onda semelhante à que lamentavelmente varre povos de potências capitalistas, que se reúnem em manifestações pontuais e conjunturais, mas que, pela abstenção nos processos eleitorais, por justificado ceticismo, permitem à direita mais reacionária manter o controle absoluto das instituições, ditas republicanas, que realmente deliberam sobre seus destinos, através do modelo de sociedade que desenham com suas leis e decisões dos poderes Executivo e Judiciário."

O brasileiro sabe que, sempre que uma esperança se frustra (o que não é o caso do atual do governo), vem a decepção e é preciso criar alternativas. Sempre é preciso reconstruir caminhos, mas o que a grande imprensa apresenta é um atalho para o precipício.

*Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil
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sábado, 19 de março de 2011

Contraponto 4989 - "A Líbia e o DJ do Império"

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19/03/2011

A Líbia e o DJ do Império

Da Carta Maior - 19/03/2011

Passadas duas décadas, e tendo vivenciado o que entrou para a história como Doutrina Bush, uma lição não pode ser esquecida pelas forças progressistas. Ainda mais agora, quando, a pretexto de “conter a barbárie de um ditador”, EUA, França e Inglaterra lançam mísseis na Líbia: o imperialismo encurta tempos e espaços.

Gilson Caroni Filho*

Ao começar a ofensiva militar contra a Líbia, as potências mundiais referendaram a nova estratégia estadunidense de manutenção de hegemonia global. Hoje é improvável que a Casa Branca queira se envolver diretamente em novo confronto militar. Talvez nem precise. Pouco a pouco, os Estados Unidos vêm conseguindo o aumento da cooperação internacional para alcançar seus objetivos geopolíticos. Sem os riscos de isolamento que marcaram a agressão imperialista ao Iraque e Afeganistão, a ação bélica no país árabe é amparada por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. Os sonhos de um mundo multipolar sofrem um desvio histórico de tal monta que não é exagero atentarmos para uma perspectiva internacional de extrema gravidade.

Nos anos 1920, os norte-americanos dançavam o “charleston” e diziam que eram "os anos loucos", enquanto nas ruas de Chicago, gangsteres italianos e irlandeses se enfrentavam à bala. Na Líbia, o guerrilheiro Omar al-Muktar, o "leão do deserto", lutava contra o fascismo italiano e, na Nicarágua, Augusto Sandino, o "general dos homens livres", combatia os marines do capitão Frederick Hatsfield. Muktar foi enforcado em 1931 e Sandino fuzilado em 1934. O “terrorismo” estava sendo contido.

Mais de meio século depois, Líbia e Nicarágua foram associadas por algo mais do que aquelas gestas antiimperialistas, quase simultâneas. O artífice dessa ligação foi o então presidente Ronald Reagan para quem Muamar Kadafi era o "cão raivoso" do Oriente Médio e o comandante Daniel Ortega "um capanga com os olhos de figurinista".

Em 14 de abril de 1986 foi realizado um ataque norte-americano a Trípoli, Bengazi e a outras três cidades por 18 bombardeios que levantaram vôo de bases na Grã-Bretanha, e 15 caças estacionados em porta-aviões pertencentes à 6ª Frota dos Estados Unidos no mar Mediterrâneo. A operação foi justificada como uma retaliação a um atentado em 5 de abril, em uma discoteca alemã, que teria matado 4 pessoas, deixando um saldo de 200 feridos. Na época, como sempre, Washington alegou possuir provas “irrefutáveis" da participação de terroristas líbios no atentado, ainda que não tivesse apresentado nenhuma.

Simultaneamente, a CIA, com o apoio da imprensa centro-americana, difundia a existência de comandos árabes realizando ações terroristas em território hondurenho, a partir de bases cedidas pelo governo sandinista. Como destacou o sociólogo Roberto Bardini, “ao tomarem conhecimento da alarmista campanha da mídia e da adoção de fortes e ostensivas medidas de segurança em Honduras, alguns observadores calcularam que tudo não passava de uma operação psicológica que teria quatro objetivos: justificar represálias militares contra a Líbia, demonstrar que a Nicarágua emprestava seu território para exportar o terrorismo, comprovar a existência de uma conexão Trípoli-Manágua. e, principalmente, conseguir que o Congresso aprovasse a destinação de US$ 100 milhões aos "contras".”

O que Reagan conseguiu com a agressão à Líbia? Um isolamento internacional sem precedentes. Ficou reduzido ao apoio da então primeira-ministra inglesa, Margaret Thatcher, e do governo israelense. Desde a guerra do Vietnã jamais se tinha presenciado uma onda tão forte de hostilidade aos Estados Unidos. Definitivamente, o pop dos anos 80 não tinha o mesmo poder de encantamento do charleston.

Passadas duas décadas, e tendo vivenciado o que entrou para a história como Doutrina Bush, uma lição não pode ser esquecida pelas forças progressistas. Ainda mais agora, quando, a pretexto de “conter a barbárie de um ditador”, EUA, França e Inglaterra lançam mísseis na Líbia: o imperialismo encurta tempos e espaços.

O Império é criterioso quando se trata de resgatar o que lhe parece ser seu fundo de quintal. A tentativa de modificar a nova ordem política da América Latina é o que move os passos de Obama na região. Transformar assimetrias em impossibilidades e mudar o perfil da política externa brasileira são os imperativos da vez.

Ao declarar que "nosso consenso foi forte e nossa decisão é clara. O povo da Líbia precisa ser protegido e, na ausência de um fim imediato à violência contra civis, nossa coalizão está preparada para agir e agir com urgência", o presidente dos Estados Unidos deixa evidente que, em nome do “hegemon”, está pronto para misturar sem dó nem piedade o hit radiofônico “Closer”, do “rapper Ne-yo”, com um “mash-up” tribal da Madonna para "Miles away". Espera-se que a pista, quase sempre lotada de ingênuos ou servis, repila com veemência os apelos do "DJ" do império.

Lula acertou na mosca. Não é muito difícil adivinhar quem veio para o almoço.

*Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.
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quinta-feira, 11 de março de 2010

Contraponto 1603 - "O homem de vários tempos"

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11/03/2010
O homem de vários tempos

A direita não esconde seu desconforto. Sonha com a implosão de tudo que foi conquistado e o retorno ao estatuto colonial preconizado pela diplomacia sem sapatos de FHC.

Gilson Caroni Filho*

Pediatra de nomeada competência, o doutor Gilson Caroni também se destacou na vida pública. Quer na medicina, quer na política foi homem de olhos clínicos e diagnósticos precisos. Em Cachoeiro do Itapemirim, sul do Espírito Santo, tal como no famoso verso de Paul Valéry, viveu e morreu aquilo que viu. Mas só viu o que sonhou. E viu muito enquanto espreitava da sacada do Itabira Hotel, as águas turvas do rio Itapemirim.

Liderança regional expressiva do antigo MDB conheceu as desditas da política capixaba. A prefeitura de Cachoeiro, a Secretaria Estadual de Saúde e a chefia da Casa Civil foram momentos distintos de sua trajetória pública. Nas conversas que tivemos sobre política, uma coisa ficou clara: era uma pessoa dotada de sólida formação humanística e aguçado poder analítico. Animal político como poucos, enxergava muito além da conjuntura imediata. Velho quadro do Partido Comunista Brasileiro (ex-PCB) prenunciava o arrivismo de Roberto Freire e Alberto Goldman, então expoentes da sigla, numa simples sentença: “não compõem com a direita, pois dela já fazem parte há muito tempo”

Na mobilização política pelo impeachment do presidente Collor vislumbrou a expressão de recorrentes pactos intraelites. Alertava para o papel da imprensa na construção das representações do momento e afirmava que os “caras-pintadas” só ocupavam centralidade no noticiário para ocultar a real natureza da crise. Antevia, em meados de 92, que o saldo final do movimento seria favorável às forças conservadoras. O clamor pela ética, quando acompanhado de vazio político, produz um vaudeville burguês. Mais um prognóstico preciso do velho pediatra.

Fazia sérias restrições ao que se convencionou, à época, chamar de nova esquerda. Faltava a esta, segundo ele, concepções claras de socialismo, só possíveis, e pausava bem as palavras, “quando se estuda a fundo o capitalismo”. Nunca, e essa foi a nossa maior divergência, viu no PT uma alternativa à esquerda. Fitando o trem que passava com precisão suíça, perguntava qual era, afinal, o projeto do partido. E, de soslaio, observava irônico o embaraço do filho a esgrimir palavras de ordem em vez de argumentos sólidos.

Lembro-me de que, em janeiro de 95, no que seria a nossa última conversa, observou que a eleição de FHC traria o total sucateamento do país com aplausos de amplos segmentos da classe média. A hegemonia neoliberal estava consolidada e não seria batida em curto prazo. Não viveu para ver a correção do vaticínio, felizmente ultrapassamos seu último acerto.

Seria interessante vê-lo analisar o atual cenário político. Um ano que começou seis meses antes do seu primeiro dia solicita observadores de primeira grandeza. O pleito eleitoral de outubro é algo que vai muito além de um rito sucessório. A vaguear com conterrâneos ilustres, talvez esteja o bom médico debruçado sobre a complexidade do momento. Há de ter vislumbrado o que representa um provável retorno da coalizão demotucana.

Concordará, decerto, que numa eleição presidencial no Brasil, se decide muito do futuro da América Latina. A política externa brasileira colocou o país como eixo de uma ampla aliança, que vai de Cuba a Venezuela por um lado, até a Argentina e o Uruguai por outro. Estamos construindo o único espaço de integração regional possível, o pressuposto para a inserção altiva no mundo globalizado. Portanto, nas urnas de outubro, principalmente após a derrota da Concertación no Chile, repousa a sorte dos povos indígenas da Bolívia e Equador, da aguerrida população argentina, de nicaragüenses, venezuelanos, cubanos, mexicanos e paraguaios, entre outros.

A direita não esconde seu desconforto. Sonha com a implosão de tudo que foi conquistado e o retorno ao estatuto colonial preconizado pela diplomacia sem sapatos de FHC. Não é à toa que Celso Lafer e Rubens Barbosa reapareçam em telas e páginas como “abalizados especialistas”, condenando o governo Lula “ por ter partidarizado o Itamaraty.”

O que os jornalistas de programa, reunidos no Instituto Millenium, pensam a respeito de democracia e soberania nacional não é segredo. O velho fascismo oligárquico sempre dispôs dos préstimos dos praticantes do jornalismo de esgoto. Uma espécie que, hoje, com as novas tecnologias, se reproduz em blogs de corporações e redações de sinas conhecidas. Nesse quadro, qual seria a prescrição do doutor de Cachoeiro de Itapemirim? Reunificar a esquerda em sintonia com movimentos sociais, tendo como eixo central a intervenção decisiva no processo de difusão social de informações.

O inimigo de classe se move com desenvoltura, disposto, se necessário, a fazer tábua rasa do ordenamento institucional que permite incorporação de novos atores. Ao esquerdismo sectário, o pediatra diria que qualquer desencanto com o atual governo não autoriza suicídio político. Com um sorriso no olhar, o médico não hesitaria em dizer: “votar contra o tucanato é, como nos velhos tempos, no mínimo, voto útil”. Há que se ouvir quem, encantado, virou prefeito do mundo. E, nessa condição, sabe como é importante a eleição de Dilma Rousseff para o Brasil e seus vizinhos.

*Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil
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