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sábado, 22 de outubro de 2011

Contraponto 6560 - "É o fim ou só o começo?"

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22/10/2011
É o fim ou só o começo?


Da Carta Capital - 22/10/2011

*Antonio Luiz M. C. Costa
21 de outubro de 2011 às 12:23h

Sirte, cidade natal de Muammar Kaddafi, sofreu cinco semanas de bombardeios da Otan e de disparos de artilharia de ambos os lados, durante os quais o “fogo amigo” entre rebeldes parece ter feito a maior parte das vítimas entre eles. Sempre em nome de uma resolução da ONU que autorizou a Otan a “proteger civis” por meio de um bloqueio aéreo, logo transformado em intervenção aberta do Ocidente a favor dos insurgentes, quando estes se mostraram incapazes de vencer a luta sozinhos. Isso apesar de a mesma resolução ter proibido o fornecimento de armas a qualquer dos lados.

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Grande parte dos sobreviventes estava reduzida a desabrigados famintos entre os escombros – seus líderes religiosos emitiram uma fatwa permitindo-lhes comer cães e gatos, o que normalmente é proibido pelo Islã – quando o Conselho Nacional de Transição (CNT) anunciou sua conquista, às 11 da manhã de 20 de outubro, hora da Líbia (7 da manhã em Brasília, horário de verão). Duas horas depois, às 13h07, o Conselho Militar de Misrata – um comando que apoia o CNT, mas não aceita suas ordens –, disse ter capturado o próprio ditador vivo. Menos de uma hora depois, às 13h53, a Reuters e a Al-Jazira afirmaram que ele estava morto.

Pelas primeiras informações, Kaddafi tinha sido capturado após a última resistência em um “buraco”, pedindo “não atirem”. Depois, foi dito que o acharam em um cano de esgoto, “como uma ratazana” – insulto que ele frequentemente distribuiu aos rebeldes. Disse o CNT que morreu na ambulância, mas suspeita-se de que foi executado após a captura. Um médico que esteve na ambulância que levou o cadáver (contrariando o CNT) contou para a agência AP que ele tinha um tiro no peito e outro na cabeça, enquanto comemorava: “Vocês não podem imaginar minha felicidade, a tirania acabou. Agora o povo líbio pode descansar”. À noite, o premier do novo governo, Mahmoud Jibril, afirmou que Kaddafi foi morto após a captura, em fogo cruzado com seus partidáros.

Desde o início da guerra civil, em fevereiro, foram frequentes notícias rapidamente desmentidas – depois de comemoradas com muitos tiros para o ar –, de vitórias rebeldes e captura de -membros da família Kaddafi e outras figuras do antigo regime, de modo que as mídias e agências de notícias mais sérias foram cautelosas. O site do jornal britânico Guardian, por exemplo, esperou por mais quatro horas – e um pronunciamento oficial do primeiro-ministro britânico, David Cameron, anunciando a morte – para publicar o obituário do ex-líder e mudar o título da notícia de “Kad-dafi está morto, segundo o Conselho Nacional de Transição”, para simplesmente “Kaddafi foi morto e Sirte caiu”. Nesse meio-tempo, foram divulgados vários vídeos e fotos. Um deles mostrava o ex-ditador capturado e vivo, nos outros, aparece já morto. Em um deles, o cadáver é carregado por rebeldes entre tiros para o ar. Mas mesmo depois disso, sites kaddafistas continuaram a afirmar que os vídeos eram forjados e o líder estava vivo e longe de Sirte.

Os informes sobre o destino de seus filhos e outros integrantes de seu governo foram ainda mais confusos. Dezessete lideranças do regime deposto, segundo o CNT, teriam sido mortas ou capturadas em Sirte. Entre os capturados vivos estariam os filhos Mutassim e Saif al-Islam e o porta-voz Moussa Ibrahim. Informou-se depois que os dois filhos estavam mortos e também que Saif havia fugido. Pormenor importante, pois era o presumível sucessor do pai e poderia tentar continuar- a luta. Às 21 horas locais, enquanto os partidários do novo regime -comemoravam nas ruas de Trípoli, o CNT confirmou oficialmente a morte de Mutassim e surgiram fotos de seu corpo.

Duas horas depois de Cameron, também Barack Obama se pronunciou, com frases que talvez tenham embaraçado até alguns de seus aliados: “Lembramos de todos esses americanos perdidos para as mãos do terror de Kaddafi”, depois de vários anos de reconciliação com seu regime, nos quais a CIA até o ajudou a caçar e torturar dissidentes agora no CNT.

“Vemos a força da liderança americana pelo mundo”, proclamou, dizendo ter posto a Al-Qaeda no “caminho da derrota” (discutível), estar “acabando” a guerra no Iraque (ainda mais duvidoso) e “começado a transição” (catastrófica) no Afeganistão. O honesto, mas indizível, ainda mais em período eleitoral, seria afirmar que vemos a força das bombas e dos aviões estadunidenses pelo mundo, mas mesmo assim ela não é capaz de impor aos acontecimentos os rumos que Washington desejaria, muito menos restaurar sua liderança.

Em 20 de setembro, o ex-presidente afegão Burhanuddin Rabbani, ao negociar com o inimigo em nome do governo protegido pela Otan, foi assassinado em atentado suicida do suposto emissário do -Taleban, denunciado em 2 de outubro, por Cabul e Washington, como um paquistanês -incitado e ajudado pelo serviço secreto de Islamabad, oficialmente tido como aliado.

A Líbia pode ser outro Afeganistão. Os grupos que reconhecem o CNT incluem desde militantes da Al-Qaeda até monarquistas comprometidos com as transnacionais do petróleo, passando por militares e ministros que estiveram com Kad-dafi até a penúltima hora. Como o ex-comandante militar “rebelde” Abdel-Fattah Younis, morto em julho por “companheiros” insurgentes de orientação fundamentalista. São mínimas as chances de estabilidade, para não falar de democracia: um relatório de 13 de outubro da Anistia Internacional denuncia os abusos da “Nova Líbia” contra supostos kaddafistas, líbios negros e imigrantes africanos.

Assim como Bush júnior na Ásia Central e no Golfo Pérsico, o governo Obama decidiu agarrar a oportunidade de conquistar um satélite e uma base de operações a um custo em tese baixo, desta vez na África, cujos recursos disputa com a China. Isto se articula à criação do Comando Africano no Pentágono, ao envio de tropas dos EUA para apoiar o regime de Uganda – ditadura nada melhor que aquelas que Washington se vangloria de ter ajudado a derrubar – e à ampliação da guerra na Somália com apoio do Quênia. Mas a Líbia já custou mais do que o planejado (oficialmente, 2 bilhões de dólares até agora) e esse envolvimento pode acabar tão catastrófico, inclusive para a economia, quanto o das malfadadas intervenções anteriores. •


*Antonio Luiz M.C.Costa é editor de internacional de CartaCapital e também escreve sobre ciência e ficção científica.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Contraponto 6126 - " Líbia pós Gaddafi: colônia 'disfarçada' "

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30/08/2011
Líbia pós Gaddafi: colônia 'disfarçada'

Do Blog do Miro - 30/08/2011

Por Juliana Sada, no blog Escrevinhador:


Com o fim do regime de Gaddafi e às vésperas de uma reunião de líderes mundiais para debater a reconstrução da Líbia, o futuro do país começa a se desenhar. Apesar das dificuldades em desenhar o que virá, o cientista político e diretor do Instituto de Cultura Árabe, José Farhat, aponta algumas certezas: “a tal ‘democracia’ e o ‘futuro’ estão sendo desenhados lá fora e impostos ao povo líbio”.

Para Farhat, ação da OTAN na Líbia é um recado aos povos árabes: “quem não ler pela cartilha terá as forças da OTAN contra ele”. Sobre o interesse das potências no petróleo líbio, Farhat afirma que “a rapina do século está em curso”. Confira a seguir, a íntegra da entrevista ao Escrevinhador.

O próximo governo líbio está em vias de formação, quem deve assumir o poder?

Bem que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) gostaria de assumir diretamente o poder e dirigir sem interferências e intermediações o controle completo do abundante petróleo líbio e dos investimentos bilionários líbios nos quatro cantos do mundo, quase todos já congelados; mas seria vergonhoso demais, até mesmo para esta organização.

Então, a saída seria arranjar uma figura igual ao Hâmid Karzai do Afeganistão para não mandar além da porta de seu palácio, mas também é difícil por falta de uma figura líbia idêntica ao persa e pachto que se fantasia de afegão.

Daí só resta uma junta que a OTAN mal consegue manter unida que é o Conselho Nacional de Transição (CNT). Com o CNT sob mando das Nações Unidas (ONU), inspiração dos Estados Unidos e membros principais da OTAN, a Líbia volta a ser uma colônia disfarçada.

Há na Líbia grupos organizados politicamente? Grupos que sejam capazes de formar partidos e disputar o governo?

Tempos atrás fui perguntado para onde iria a Primavera Árabe depois de Tunísia e Egito. Respondi, percorrendo um longo caminho através dos restantes vinte países árabes, e ao me deparar com Líbia e Arábia Saudita afirmei que nestes dois países seria muito difícil haver um levante popular porque tinham características comuns consubstanciadas por: grande riqueza, população reduzida e enorme capacidade governamental de corromper os mais velhos, seguidos pelos mais jovens. Havia um dado não levado em consideração: a ganância otaniana pelo petróleo e pelos investimentos líbios.

No entanto, Muammar Kaddafi nem querer justificou a minha tese, pois não há na Líbia qualquer organização partidária ou religiosa ou de qualquer outra natureza que ele não tenha eliminado e cortado pela raiz em seus quarenta e poucos anos de domínio abusivo. Até mesmo o regime tribal que domina a sociedade líbia foi isolado e neste caso ele teve como mestre Saddam Hussein no Iraque; o que não aconteceu no Afeganistão, dada a ausência de um mínimo de influência real de Karzai.

Por tudo isso, não há no curto prazo a possibilidade de formação de agremiações capazes de disputar o governo. Só há uma certeza, a ONU está traçando o futuro da Líbia, inclusive a respeito de formação de partidos.

Nem a ONU ou a OTAN estarão preocupadas em perguntar ao povo líbio o que quer, enquanto avançam com o seu projeto de democracia semelhante àquele que George W. Bush desenhou para o Iraque e está dando no que tem dado.

Muitos analistas afirmam que a participação popular nas lutas contra Gaddafi é pequeníssima. Quem são os “rebeldes” que lutam contra Gaddafi? Há algum traço em comum entre os diferentes grupos? Por que lutam contra Gaddafi?

A participação popular nas lutas contra Kaddafi não é pequeníssima, ela é inexistente. As caras semelhantes à de líbios que se vê repetidas na televisão nada mais são que mercenários egípcios contratados no mercado de locação de forças armadas em Londres, para fingir que os líbios estão lutando contra o regime. Para a luta propriamente dita a OTAN, com a longa duração da luta para derrubar Kaddafi, contrariando o mandato da ONU, acabou contratando mercenários colombianos. Como também não surtiu efeito, forças da própria OTAN entraram nas batalhas finais também por terra.

O traço comum entre os “rebeldes” é que são mercenários estrangeiros e lutam contra Kaddafi como lutou a Blackwater no Iraque, para fazer o “serviço sujo” para a Coalizão ou OTAN, tanto faz. A luta contra Kaddafi, sublinhe-se mais uma vez, é porque ele, a exemplo de Saddam Hussein, ousou querer mudar as políticas para petróleo e investimento.

Que mudanças ele fez? E quem saiu perdendo com elas?

Foi reafirmado o caráter estatal e nacional do petróleo e exigido o pagamento numa cesta de moedas que não sujeitasse o país à dependência do dólar ou euro. Para salvaguardar os investimentos externos, Kaddafi também iniciou uma ação seletiva de onde aplicar, remanejar as aplicações em moedas e países de duvidosos o que foi considerado um perigo no atual ambiente internacional de crise atual. Estas mudanças seriam uma pá de cal para as pretensões das multinacionais do petróleo e dos países dependentes do petróleo líbio e retirar aplicações de certos países para aplicá-los em outros prejudicaria certamente os países receptores dos bilionários investimentos líbios.

E o Conselho Nacional de Transição? O que se pode esperar dele quando possui figuras tão diferentes como o ex-ministro de Justiça de Gaddafi e o filho do último rei da Líbia, derrubado por Gaddafi?

O saco de gatos que é o CNT foi formado exatamente igual àquele que ser formou no exterior às vésperas do ataque e ocupação do Iraque e certamente terá no futuro o mesmo destino dos participantes iraquianos: nenhum deles está hoje no poder, nenhum tinha qualquer base popular dentro do Iraque, como os membros da CNT na Líbia. A OTAN – e os Estados Unidos, para maior precisão – tem uma tremenda falta de capacidade de arranjar parcerias e os exemplos são inúmeros e em todas as guerras que causaram, frias ou quentes.

Em recente entrevista, o senhor disse que demoraria cerca de cinquenta anos para a democracia se consolidar no país. Que tipo de governo haverá neste intervalo? Quais tarefas devem ser feitas para se alcançar um regime democrático?

Na Tunísia e no Egito ocorreram movimentos populares, desarmado e com uma ideia na cabeça, o povo foi às praças e de lá tem exercido seu poder sobre os governos provisórios. Na Líbia, ao contrário, a tal “democracia” e o “futuro” estão sendo desenhados lá fora e impostos ao povo líbio. Os regimes provisórios que se sucederão na Líbia, e muitos haverá, irão acumular erros que levarão o povo líbio a criar a sua Praça Tahrir e, de lá, dizer o que quer e como quer.

Um dos erros não está somente na falta de consulta ao povo e sim a todas as tribos líbias, além das reivindicações particulares das três províncias líbias: Tripolitânia, Cirenaica e Fezzan. A diferença entre estas – acentuadas durante as várias ocupações coloniais, não somente do ponto de vista tribal e social, como também econômico – talvez indique um caminho para a organização da futura Líbia: uma Federação, com representação justa de todas as províncias, uma divisão geográfica que de certa forma corresponde às ocupações tribais, podem garantir uma coesão social na futura Líbia.

Está marcada para esta semana uma reunião entre o CNT, a ONU e alguns países para discutir a “reconstrução” da Líbia. O que está em jogo nessa reconstrução?

Esta reunião é igual a um convite para jantar: o receituário já estava escrito, os pratos preparados e servidos e aos convidados só restava comer. Al Jazeera publicou um documento que vazou detalhando os preparativos para o papel da ONU na Líbia pós-Kaddafi visando, entre outros inúmeros detalhes, como o país será controlado, inclusive com militares espalhados por todo o território líbio (os militares, diz o documento, serão desarmados, mas não escapa a ninguém que as armas estão ao alcance das mãos).

O documento que o CNT terá que engolir, ou não receberá o adiantamento que reivindica, tem 10 páginas e foi elaborado por um time especial da ONU chefiado por Ian Martin, o antigo dirigente da Amnesty International. O documento não menciona o controle do petróleo e nem tampouco dos investimentos líbios, mas isto não precisa publicar, o CNT receberá instruções globais. Lembremos que os países interessados estarão presentes à reunião.

Qual a importância econômica e política da Líbia para os países membros da OTAN?

Interessa sobremaneira à OTAN que os demais países árabes, principalmente a Síria (com a tentativa de derrubada do seu governo apadrinhado indiretamente por Estados Unidos e Israel), o Egito (que está ensaiando dar a Israel o verdadeiro tratamento que merece) e o Iraque (que começa a cobrar o cumprimento do acordo de desocupação e já entrou em rota de coalizão com os Estados Unidos que ensaiam não cumprir com o acordado) ouçam claramente o recado: quem não ler pela cartilha terá as forças da OTAN contra ele.

Dominar a Líbia é um exemplo e uma advertência para quem ousar continuar com a Primavera Árabe verão adentro. Do ponto de vista político é muito mais importante o exemplo aos demais árabes que a questão política propriamente líbia.

Já do ponto de vista econômico é claro que a rapina do século está em curso, são os países consumidores do petróleo líbio que mandarão no petróleo e são os recebedores dos investimentos líbios, atualmente congelados, que darão destino aos investimentos. Vão até fazer a Líbia pagar por sua libertação, como fizeram no Iraque.

Há alguma certeza no incerto futuro da Líbia?

Espero que minha previsão de cinquenta anos, mencionada acima, esteja equivocada e que a Líbia se torne um país livre, independente e democrático, de fato, em muito menos tempo, esta é a esperança.
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