Mostrando postagens com marcador Mair Pena Neto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mair Pena Neto. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Contraponto 6488 - "O buraco é mais embaixo"

.
13/10/2011
O buraco é mais embaixo

Do Direto da Redação - Publicado em 13/10/2011

Mair Pena Neto*

Governos progressistas precisam dizer ao que vêm. Os socialistas europeus se renderam às regras do mercado e foram engolidos pela crise, possibilitando o crescimento da direita. Barack Obama, eleito como sinal de mudança após a truculência republicana, está com seus menores índices de popularidade, sem conseguir reduzir o poder do mercado e tímido demais ao enfrentá-lo. Dificilmente voltará a ter os votos dos que acreditaram no lema "yes, we can", já que não pode mudar nada e enfrenta uma insatisfação que cresce e aparece no movimento "Ocupar Wall Street".

Não adianta ser de esquerda ou progressista sem implantar nos governos uma linha de atuação que assim os identifique. O governo Lula começou amarrado pela Carta aos Brasileiros e a necessidade de recuperar um país em frangalhos e parecia condenado a ser mais do mesmo, apesar das boas intenções. Aos poucos, foi encontrando o caminho, e, no segundo mandato, deslanchou. A ênfase nos programas sociais, o fim das privatizações em grande escala e o papel atuante do Estado levaram o Brasil a outro patamar, elogiado no mundo todo.

A atuação decisiva do governo e o uso das ferramentas do Estado no enfrentamento da crise econômica foram exemplares. Ao oferecer crédito em meio à crise, fortalecer o mercado interno e movimentar a economia, o Brasil mostrou que não se resolvem situações de aperto econômico com mais aperto. O sufoco por que passam muitos países europeus, condenados a apertar ainda mais os cintos e a sacrificar suas populações, mostra que este modelo de rigor fiscal não dá certo. E, além do mais, é injusto, pois condena as pessoas a pagar pelos erros que não cometeram, enquanto os responsáveis são sempre socorridos pelos Estados e continuam na bonança.

O governo Dilma é um prosseguimento do governo Lula nas suas linhas mestras. Em sua visita à Bulgária, Dilma reafirmou os compromissos com o crescimento e com um modelo que não interrompa o ciclo virtuoso que o país vem vivendo. A presidente não cai no conto da ameaça inflacionária como inibidora de uma política expansiva e atua com firmeza, inclusive sobre a taxa de juros, para não deixar que o mercado retome o controle total do país.

Neste sentido, parecem fora de foco as manifestações contra a corrupção que tentam emplacar por aqui. Não que a corrupção não deva ser combatida, pois é uma praga que corrói nossa sociedade desde os tempos de colônia. Mas ao movimento falta qualquer tipo de proposta objetiva, o que o transforma num simples desabafo, além de servir a interesses escusos. Os casos de corrupção que vieram à tona foram resolvidos e não se nota no atual governo complacência com este tipo de situação. Talvez fosse mais efetivo um movimento pela reforma política que mudasse as regras do jogo e impedisse que governos progressistas ficassem reféns de alianças com fisiologistas. Ou por uma forma de democracia mais direta, pela qual os governos pudessem consultar a população sobre diversas temas e deixá-la decidir sobre os rumos do país.

O filósofo esloveno Slavoj Zizek esteve visitando o acampamento do movimento "Ocupar Wall Street", no parque Zuccotti, em Nova York, e falou aos manifestantes. "Lembrem-se, o problema não é a corrupção ou a ganância, o problema é o sistema", disse ele, salientando as possibilidades quase ilimitadas que nos são oferecidas sem que, na prática, possamos desfrutar delas. "É possível viajar para a lua, tornar-se imortal através da biogenética... Mas olhem para os terrenos da sociedade e da economia. Nestes, quase tudo é considerado impossível. Querem aumentar um pouco os impostos aos ricos? Eles dizem que é impossível. Perdemos competitividade. Querem mais dinheiro para a saúde? Eles dizem que é impossível, isso significaria um Estado totalitário. Algo tem de estar errado num mundo onde vos prometem ser imortais, mas em que não se pode gastar um pouco mais com cuidados de saúde."

O discurso de Zizek deveria ser escutado aqui. As questões por ele levantadas são as essenciais. Também seria necessário taxar mais os ricos e o governo está em plena campanha por mais dinheiro para a saúde. A reação por aqui é exatamente a mesma que ele aponta. A corrupção não é o problema central. A luta deve ser por mais bem comum. E isto, no estágio de desenvolvimento brasileiro, é melhor saúde e educação para todos e uma possibilidade de um padrão de vida decente, sem desigualdades que nos envergonhem. Corrupção existe no mundo todo e precisa ser enfrentada com aperfeiçoamento dos mecanismos de investigação e punição. Mas está longe de ser uma questão transformadora.

Mair Pena Neto. Jornalista carioca. Trabalhou em O Globo, Jornal do Brasil, Agência Estado e Agência Reuters. No JB foi editor de política e repórter especial de economia.
.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Contraponto 5019 - " Chile salva a honra"

.
23/03/2011

Chile salva a honra

Do Direto da Redação - Publicado em 23/03/2011


Mair Pena Neto*

Enquanto a mídia brasileira se deslumbrou com a visita de Obama e continua publicando páginas e páginas de abobrinhas mesmo depois de ele ter deixado o país, a imprensa chilena questionou o presidente dos Estados Unidos sobre sua disposição em colaborar com investigações sobre os crimes da ditadura militar chilena e pedir desculpas pelo apoio de seu país ao golpe de 11 de setembro de 1973.


Não poderia haver questão mais pertinente. Obama chegou à América Latina com um discurso de defesa da democracia conquistada a duras penas em todo o continente, mas sua pregação só teria sentido se precedida por um mea culpa. Foi com apoio direto e comprovado dos Estados Unidos que governos eleitos pelo provo foram derrubados por golpes de Estado e o processo democrático interrompido em grande parte da América Latina.

Não se constroem novas relações sem resolver as pendências do passado. A Igreja católica jamais poderia tentar estabelecer laços com o povo judeu sem pedir perdão pela indiferença à perseguição por eles sofrida durante o nazismo. Não se passa a borracha no passado, principalmente quando as chagas ainda estão abertas, como no caso das jovens democracias latino-americanas.

Em sua viagem ao continente, Obama escolheu três países particularmente afetados em suas histórias por regimes truculentos, que mataram seus cidadãos e atrasaram seus desenvolvimentos com o suporte dos Estados Unidos. O Brasil enfrentou 25 anos de trevas depois que o governo João Goulart foi derrubado por um golpe de Estado orquestrado com amplo envolvimento da diplomacia norte-americana. Até a quarta frota foi enviada para águas brasileiras para colaborar no enfrentamento de uma possível resistência.

No caso chileno, a CIA esteve envolvida na conspiração para a derrubada de Salvador Allende desde a greve dos caminhoneiros até o endosso ao governo do general Pinochet. E em El Salvador, também houve apoio integral à ditadura que praticou crimes bárbaros contra a população, culminando com o assassinato do bispo católico Dom Oscar Romero, fuzilado quando celebrava missa na capital do país.

Obama não poderia passar impunemente por esses três países sem ser interpelado pela responsabilidade histórica dos EUA em relação às ditaduras que aterrorizaram o continente. Graças ao bom jornalismo de um repórter chileno, a questão foi colocada durante sua passagem por Santiago, o que já diferenciou sua visita da que aconteceu no Brasil. Ao invés do oba-oba verificado por aqui, mesmo tendo autorizado de dentro do território brasileiro o início de uma nova guerra, foi confrontado com uma questão que relativiza muito o seu discurso de defesa da democracia.

Não houve pedido de desculpas, mas Obama foi obrigado a tratar da questão e a se comprometer a cooperar com pedidos de informação das autoridades chilenas sobre o período do governo Pinochet. O presidente norte-americano encontrou um novo continente, que não é mais quintal dos Estados Unidos, como ficou evidente, para ele, na cobrança firme que a presidente Dilma Rousseff fez de relações mais justas, sem as barreiras impostas aos produtos brasileiros.

O único comportamento de júnior para sênior, aproveitando as palavras do próprio Obama, foi o da grande imprensa brasileira, que tratou o presidente norte-americano com a velha subserviência de quem fala com um superior..

*Mair Pena Neto. Jornalista carioca. Trabalhou em O Globo, Jornal do Brasil, Agência Estado e Agência Reuters. No JB foi editor de política e repórter especial de economia.

.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Contraponto 4604 - "Imprensa segue a agenda dos EUA"

.
02/02/2011

Imprensa segue a agenda dos EUA



Do Direto da Redação - Publicado em 02/02/2011

Mair Pena Neto*

Qualquer cidadão brasileiro que se informe pelos tradicionais meios de comunicação, principalmente a televisão, tem opinião formada, e contrária, naturalmente, a Hugo Chávez, Mahmoud Ahmadinejad e Fidel Castro. Eles fazem parte do eixo do mal que os Estados Unidos difundiram aos quatro cantos, contando com a docilidade da imprensa que lhe serve de porta-voz.

Evo Morales também está nesse grupo, assim como estava Nestor Kirchner até que sua morte levou uma multidão de argentinos às ruas, mostrando que o povo tinha entendido e apoiado integralmente sua política, que recuperou a Argentina do desastre neoliberal que a levou ao fundo do poço.

Lula seria outro a integrar o grupo dos vilões. Nesse caso, nem foi preciso orientação norte-americana. Os meios brasileiros tentaram destruí-lo durante oito anos, mas não conseguiram. Mantiveram-se num combate sem tréguas a um líder que o povo consagrava e que deixou o governo com o mais alto índice de popularidade da história. Até em sua saída, Lula poderia recorrer ao bordão que criou de que nunca na história desse país um governante foi tão popular apesar de toda a oposição midiática.

Mas quem governa aqui, a gente pode olhar e formar opinião com mais gabarito. Mais difícil é analisar os governantes e regimes estrangeiros com a pobre cobertura internacional da imprensa brasileira. Os mesmos que conhecem e condenam Chávez e Evo jamais ou pouco tinham ouvido falar de Hosni Mubarak, o ditador egípcio há 30 anos no poder com base num regime brutal e corrupto. Alguns poderiam dizer que o Egito fica mais longe que a Venezuela e a Bolívia e por isso não chega muita informação por aqui. Mas o Irã também está muito distante e todo mundo tem o que dizer sobre Ahmadinejad.

O pouco conhecimento sobre a ditadura de Mubarak se deve ao fato de o Egito não estar na pauta de condenações dos Estados Unidos. Ao contrário, é um aliado confiável, que recebe US$ 1,3 bilhão de ajuda militar norte-americana por ano, quantidade só inferior à destinada a Israel. Os Estados Unidos funcionam assim: aos inimigos, a condenação permanente. Aos aliados, olhos fechados. O Irã é brutal porque condena pessoas ao apedrejamento. A Arábia Saudita, que tem formas semelhantes de condenação, não merece uma linha de condenação.

O infeliz nessa história é que a grande imprensa brasileira repete o pensamento do Departamento de Estado. Os noticários estão cheios de matérias sobre Irã, Venezuela e outros “mal vistos” e pouco se sabe do que acontece nos outros cantos do mundo. Quando explode uma revolta como a do Egito, as pessoas têm dificuldade de entender o processo. E a grande imprensa não se esforça muito em informar. Não é dito claramente que Mubarak está há 30 anos no poder com apoio e financiamento dos EUA, pois garante petróleo e gás a Israel e uma certa estabilidade do Estado judeu, além de ser um contraponto aos regimes islâmicos, que causam pânico aos Estados Unidos.

A cobertura é indigente e se perde em atos de vandalismo, como os que atingiram museus do Egito, como se questões colaterais tivessem mais relevância que o fato em si. Estamos testemunhando a história à frente dos nossos olhos. O Egito, assim como a Tunísia, está em convulsão e prestes a originar uma transformação radical em todo o Oriente Médio, e as oportunidades oferecidas aos brasileiros de compreenderem todo o processo é reduzida por uma cobertura sem dimensão histórica e com viés norte-americano.

Na TV Globo, a emissora de maior audiência do país, as informações, inicialmente, eram passadas via correspondentes nos EUA. Ora, a informação que o jornalista tem sobre os acontecimentos lá é a mesma que temos aqui. Ele não tem acesso a fontes primárias e apenas reproduz o que recebe de agências de notícias ou do governo americano. Seria legítimo ouvir o que tem a dizer sobre o que pensa o governo dos EUA e como pretende agir. Mas ter toda a história contada a partir de Washington é o fim da picada.

Entende-se que esse arremedo foi necessário enquanto um correspondente não chegava ao Cairo, mas a prática não foi interrompida mesmo após isso acontecer. A imprensa tradicional ainda tem grande importância no Brasil, embora já não dite mais o comportamento político como no passado. Nessa explosão egípcia, a imprensa como um todo ficou a reboque das redes sociais. Talvez fosse melhor ficar de olho nelas e sua capacidade de fazer história ao invés de reproduzir a cartilha norte-americana e seu discurso alienante.

Mair Pena Neto* Jornalista carioca. Trabalhou em O Globo, Jornal do Brasil, Agência Estado e Agência Reuters. No JB foi editor de política e repórter especial de economia.
.