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01/03/2011
EUA movimentam forças militares para cercar a Líbia
Sexta frota singra o Mar Mediterrâneo
Do
Vermelho - 28 de Fevereiro de 2011 - 19h46
Horas depois de a Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, ter afirmado que uma intervenção militar na Líbia é uma opção considerada por seu país, as Forças Armadas dos Estados Unidos começaram a ser reposicionadas nos arredores do país africano.
O porta-voz do Departamento de Defesa, coronel Dave Lapan, disse que a equipe de planejamento do Pentágono trabalha com várias opções e planos de contingência e, como parte desses, estava reposicionando suas forças navais e aéreas.
O porta-voz Lapan não negou que os EUA estão considerando intervir militarmente na Líbia. Os EUA contam com força militar poderosa no Mar Mediterrâneo e têm dois porta-aviões mais ao sul, na área do golfo Pérsico.
"Nós temos planejadores trabalhando e vários planos de contenção e eu acho que é seguro dizer que como parte disso estamos reposicionando nossas forças para sermos capazes de dar esta flexibilidade assim que as decisões forem tomadas", disse.
Congelamento de bensO presidente americano, Barack Obama, assinou uma ordem executiva para congelar todos os ativos de Muamar Kadafi, sua família e membros de seu regime, algo que não foi feito em relação aos regimes de países árabes que também estão sacudidos por revoltas populares, como o Iêmen e o Barein.
Durante uma reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, a secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, admitiu que a opção de declarar uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia "está sobre a mesa", entre outras medidas.
"A zona de exclusão aérea é uma opção que estamos considerando atualmente. Todas as opções estão sobre a mesa", disse em entrevista coletiva.
A secretária de Estado alegou que a zona de exclusão aérea é uma das opções consideradas para "pressionar o regime" de Kadafi e que há "um número de ações potenciais" que poderiam ser aplicadas nos próximos dias, "especialmente do lado europeu". Além da Itália, a Austrália já manifestou apoio à aplicação da zona de exclusão aérea.
Outra medida discutida no encontro de Genebra foi a possibilidade de um calote nos pagamentos à Líbia durante 60 dias. A opção foi proposta pela Alemanha e, apesar de ter mais apoios que a da "exclusão aérea", não obteve consenso para ser adotada a curto prazo.
"Está na hora de Kadafi sair”, trovejou Hillary. "Queremos que a violência acabe. Se Kadafi saísse e a violência acabasse, seria um bom passo, mas não devemos esquecer que ele deve pagar por seus atos", afirmou a chefe da diplomacia americana.
Hillary não pronunciou uma palavra sobre a repressão violenta que a monarquia de Barein tem cometido contra os manifestantes na capital do país, Manama, e na revolta popular do Egito o regime americano só mostrou um débil apoio à iniciativa popular depois da certeza de que o regime Mubarak era caso perdido.
No Barein, o exército Real disparou, com munição real ou usando armamento antiaéreo, contra manifestantes que protestavam com flores. Helicópteros Bell, de fabricação americana, sobrevoaram, perseguiram e assassinaram pessoas. Mesmos crimes que são atribuídos a Kadafi na repressão às manifestações na Líbia. No entanto, nenhuma voz de protesto ou a favor da condenação do regime bareinita foi levantada nos Estados Unidos ou nos seus aliados.
O Barein é um satélite importante dos Estados Unidos no Oriente Médio por abrigar a 5.ª Frota da Marinha americana, que vigia a região do Golfo Pérsico ao Mar Vermelho e leste da África. A frota americana inclui porta-aviões e destróieres, além de embarcações menores de assalto. Cerca de 4.500 americanos, civis e militares, moram na base de Juffairare, na periferia da capital Manama.
Critérios diferentesOs líderes revolucionários latino-americanos, Fidel Castro e Hugo Chávez, já tinham advertido para os critérios diferentes utilizados pelo imperialismo norte-americano e seus aliados da União Europeia relativamente aos diferentes cenários do que se convencionou chamar de Revolta Árabe.
A brutalidade da ação imperialista para com a Líbia é tamanha, a ofensiva é tão forte que parece muito provável a queda do regime de Kadafi.
A esta altura a situação da Líbia é muito complexa e nenhuma solução parece satisfatória a quem se preocupa pela paz no mundo e por uma saída política para os conflitos. A tal ponto que o secretário-geral da ONU, Ban ki-moon despachou nesta segunda-feira com o presidente dos Estados Unidos na Casa Branca, examinando conjuntamente as “opções” que madame Clinton diz não descartar. É bem o sinal da decadência das instituições multilaterais, inteiramente instrumentalizadas pelo imperialismo.
É algo sobre o que as forças progressistas e amantes da paz teriam que refletir profundamente para não cair no conto do multilateralismo retórico que apenas serve de biombo para o unilateralismo e a política de força.
As possíveis saídas para a situação da Líbia são dramáticas. A permanência de Kadafi no poder será combustível ao fogo da guerra civil. Sua resistência à base de atitudes de desespero, poderá dar o pretexto à invasão das tropas norte-americanas, da Otan ou dos capacetes azuis. A ameaça de que tal intervenção se concretize é hoje o maior fator de pressão do imperialismo sobre Kadafi.
Rebelião pré-ordenadaA evolução dos acontecimentos na Líbia nas duas últimas semanas mostrou que muito ao contrário do que se passou na Tunísia e no Egito, onde houve uma explosão popular espontânea, ali ocorreu uma espécie de rebelião pré-ordenada, combinada com uma estrepitosa cisão do governo e das forças armadas apoiadas por forças reacionárias internas e pelas potências externas.
O grupo dirigente, chefiado pelo coronel Kadafi, outrora um líder nacionalista e anticolonialista, degenerou no poder, transformou-se numa espécie de autocracia familiar ou oligárquica e ultimamente se perdeu em atitudes erráticas, que culminaram no estabelecimento de relações ambíguas com as potências imperialistas.
Num ambiente de dificuldades para a imensa maioria do povo, de concentração de riqueza, corrupção, divisões tribais e em meio à montagem de um cenário para uma sucessão dinástica que desagradou as forças armadas, convergiram diferentes tipos de descontentamentos que tiveram a oportunidade de explodir a partir dos acontecimentos nos demais países do norte da África, principalmente Tunísia e Egito.
Os acontecimentos na Líbia são emblemáticos de como agem o imperialismo e a sua mídia. Desde os primeiros dias, não eram apenas manifestações pacíficas e democráticas, conduzidas por jovens, intelectuais e políticos democráticos, como no Egito e na Tunísia.
Na verdade, logo no início da rebelião na Líbia, surgiram focos de um conflito armado, uma guerra civil, com tanques e armas pesadas dos dois lados. Os Estados Unidos e a Europa, que posam de democráticos, e a sua mídia da “liberdade de expressão” deram voz, força e o status de “oposição” aos remanescentes do poder tribal, da monarquia retrógrada derrubada há mais de quatro décadas e aos representantes do que há de mais obscurantista não só no Magreb mas também no Mashrek, como são designados o Ocidente e o Oriente no mundo árabe.
Disputa entre potências?Certamente, estas são apenas as primeiras escaramuças de uma história sem fim previsível. Seu leitmotiv e sua “moral” é o petróleo cada vez mais escasso. Pela mesma razão as potências imperialistas, com os EUA à frente, ameaçam o regime dos aiatolás no Irã, desde que o fantoche pró-americano, o xá Reza Pahlevi, foi destronado há 32 anos pela revolução popular. No Iraque já vão na segunda guerra de agressão e lá os imperialistas se encontram empantanados e desmoralizados.
É preciso estudar a fundo as razões por que os Estados Unidos e seus aliados europeus se pronunciam com tamanha virulência e estão prontos para intervir militarmente. A Líbia é grande fornecedora de petróleo também para a China.
Nos últimos dias, 30 mil chineses que trabalhavam em diferentes atividades foram evacuados do país. É um numero surpreendentemente revelador da intensa atividade econômica chinesa na Líbia. O mesmo se passa em quase toda a África, que pode estar se tornando no novo alvo de uma disputa entre uma potência declinante e outra emergente.
Não é à toa que os Estados Unidos estão instalando o Comando Africano, apelidado de Africom, um dispositivo militar múltiplo envolvendo bases militares e instalação de equipamentos bélicos. Pode ter o mesmo sentido a preocupação dos think tanks ligados ao Pentágono com a disputa pela hegemonia militar no Oceano Índico, que banha precisamente o lado oriental da África.
José Reinaldo Carvalho e Humberto Alencar, com informações das agências
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