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terça-feira, 14 de setembro de 2010

Contraponto 3288 - "A América Latina não é mais um quintal dos Estados Unidos"

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14/09/2010

A América Latina não é mais um quintal dos Estados Unidos

Vermelho - 13/09/2010

Talvez a mudança mais efetiva e significativa do governo Lula em relação à orientação neoliberal anterior esteja se verificando no campo da política externa, cujas repercussões para a economia nacional são amplas e, infelizmente, escassamente compreendidas e valorizadas.

Por Umberto Martins

A nova orientação teve início no primeiro governo Lula (2003-2006), com a indicação de Celso Amorim para ministro do Exterior e a rejeição da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) que os Estados Unidos queriam impor a toque de caixa, mas que acabou derrotada e foi solenemente sepultada em dezembro de 2005 durante a cúpula do Mercosul em Mar Del Plata, na Argentina.

Servilismo

"O projeto da Alca que os americanos promoviam teria consolidado a região como quintal americano", alertou o chanceler em discurso proferido sábado (11) num seminário em Genebra. A direita brasileira, adepta do Consenso de Washington e da submissão ao imperialismo, nunca se conformou com a mudança e até hoje critica a diplomacia brasileira, que agora pratica e enfatiza a independência e a soberania.

Pelo desejo dos neoliberais, o Itamaraty deveria prosseguir na rota trilhada pelo tucano FHC, cujo ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, chegou a tirar os sapatos para revista em aeroportos norte-americanos. Através dos seus gestos, transpareceu a tibieza e subserviência da política externa brasileira à época.

A direita insiste na tese de que o Brasil deve privilegiar entendimentos e acordos comerciais com as grandes potências capitalistas (Estados Unidos, União Europeia e o Japão), já que eles reuniriam os maiores mercados do mundo. A opção do Itamaraty tem sido outra: priorizar as relações Sul-Sul, com destaque para o Mercosul, a América Latina e uma parceria estratégica com a China.

Deslocamento do poder industrial

A vida mostra que Amorim tem razão ao enaltecer a rejeição da Alca e o novo arranjo regional que vem sendo desenhado com a nova política externa adotada pelo Brasil e outros países latino-americanos. Não é apenas uma questão de orgulho nacional. Os ganhos em termos econômicos e políticos são grandes e incontestáveis.

Aparentemente, a política externa pouco ou nada tem a ver com o bom desempenho da economia. Mas as aparências enganam. A essência dos fatos, conforme ensina a filosofia, costuma divergir, às vezes radicalmente, da aparência. É o que sucede neste caso. A política externa tem uma importância estratégica para a economia.

A atual diplomacia brasileira tem o mérito de estar em linha com as grandes tendências em desenvolvimento na economia mundial, traduzidas no rápido e progressivo deslocamento da dinâmica industrial e do poder econômico mundial do Ocidente para o Oriente e, em especial, dos EUA para a China.

Crise de hegemonia

O que se nota é o relativo declínio das potências capitalistas tradicionais (EUA, UE e Japão) contrastando com a vertiginosa ascensão da China e, em menor escala, de países considerados nem sempre com propriedade como “emergentes” (Índia, Brasil, Coréia do Sul, Rússia e África do Sul, entre outros). Disto resulta uma crise de hegemonia dentro da atual ordem imperialista e de suas instituições (FMI, Banco Mundial, Conselho de Segurança da ONU, padrão dólar).

A crise capitalista iniciada no final de 2007 nos EUA, e ainda não contornada nas maiores economias do chamado Ocidente, aprofunda a tendência do deslocamento do poder econômico mundial em direção ao Oriente. No Brasil e na América Latina os reflexos e indicadores deste movimento são evidentes e foram citados pelo chanceler.

Oito anos atrás, quando Lula tomou posse pela primeira vez, os Estados Unidos absorviam 26% das exportações brasileiras. Hoje, compram apenas 10% do que o país vende. Em 2009, foram ultrapassados pela China (nossa maior parceira comercial) e neste ano devem perder o segundo lugar para a Argentina.

Vejam o México!

A progressiva queda do peso relativo do mercado estadunidense no comércio exterior brasileiro não se deve apenas nem principalmente às mudanças operadas na política externa. Reflete o processo histórico de declínio da liderança econômica dos Estados Unidos no mundo, determinado pelas baixas taxas de crescimento e o crescente parasitismo.

A virtude da política externa brasileira consiste em respaldar este movimento. O contrário poderia ocorrer se a Alca tivesse vingado, em franca contradição com as tendências objetivas em curso na economia mundial.

Miremos o exemplo do México, adepto da Alca do Norte (Nafta, sigla em inglês do Tratado Norte-americano de Livre Comércio) e altamente dependente do mercado estadunidense, destino de 80% de suas exportações. O PIB mexicano desabou 6,5% em 2009 após o colapso da maior economia (e do maior mercado) do mundo. Com a Alca nosso destino provavelmente não seria muito diferente.

O Brasil sofreu bem menos com a crise, não demorou a se recuperar e, apesar do ligeiro recuo do PIB (-0,2%) conseguiu fechar o ano passado com um saldo positivo em contratações, renda do trabalho e consumo.

Um dos fatores que explicam o desempenho relativamente positivo da economia nacional, em associação com o fortalecimento do mercado doméstico, foi (sem sombra de dúvidas) a diversificação do destino das nossas exportações, que nos tornou bem menos dependentes dos Estados Unidos e Europa.

A recuperação e o crescimento da China, puxando a demanda e os preços das commodities, contribuíram de modo invulgar para a recuperação do nosso comércio exterior, assim como o avanço da Argentina.

Futuro

O desenvolvimento desigual com essas características, declínio americano e avanço chinês, deve continuar dando o tom da evolução da economia mundial pelos próximos anos. O peso relativo do mercado consumidor norte-americano, inflado pelo parasitismo e as dívidas, caiu muito com a crise e vai continuar declinando. A sina da União Europeia não parece melhor.

Celso Amorim avalia que as opções comerciais tiveram um papel central na nova realidade que está sendo desenhada no Brasil e na América Latina. Uma das provas da mudança, em sua opinião, é o fato de que a Argentina poderá fechar 2010 superando os Estados Unidos e consolidando a posição de segundo destino das exportações brasileiras. Atrás apenas da China, cuja relevância já não se mede apenas pelo comércio exterior.

A próspera nação asiática também se transformou em centro provedor de capitais para exportação e em 2010 já vai liderar o ranking dos Investimentos Externos Diretos no Brasil (IED), aplicando cerca de 20 bilhões de dólares. Também neste plano a dependência do Brasil em relação aos Estados Unidos e à Europa parece estar ficando para trás. E os tucanos, viciados na subserviência, ainda lamentam e criticam a política externa comandada por Celso Amorim.
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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Contraponto 3221 - "O Brasil visto da América Latina e a América Latina vista do Brasil"

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06/09/2010

O Brasil visto da América Latina e a América Latina vista do Brasil

Blog do Emir - Segunda-Feira, 06 de Setembro de 2010

Emir Sader*

Para que estivessem participando de importantes processos de integração, o Brasil e os seus vizinhos no continente tiveram que superar muitos preconceitos, muitos clichês, alguns inventados aqui mesmo, outros induzidos desde o Norte, para dificultar a unidade do Sul. É um avanço histórico de grandes dimensões que Brasil e Argentina se sintam parceiros indispensáveis, quase complementares, quando a política norteamericana sempre foi a de explorar as rivalidades e incentivar as diferenças.

Com razão, durante a ditadura militar, o movimento popular de outros países do continente temia o Brasil como país “subimperialista”, quando nosso país desempenhava o papel de aliado estratégico dos EUA na região. No momento mais agudo das negociações das dívidas externas dos nossos países, os credores não aceitavam negociar com mais de um país ao mesmo tempo, e os governos da Argentina, do México e do Brasil, se deixavam manipular, com concessões a um país quando um outro decidia suspender o pagamento da dívida.

O neoliberalismo – de que o nosso continente foi a maior vítima, com a maior quantidade de governos e sob as formas mais radicais no mundo – aprofundou as divisões e a subordinação dos países do continente a políticas de mercado e aos EUA. Este quase conseguiu impor sua Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), evitada com o triunfo de Lula e de uma política externa diferente no Brasil, que deveria conduzir a conclusão do pacto, mas terminou por abortá-lo.

Assim, a América Latina passou da região mais subordinada aos EUA, na última década do século passado, à única região do mundo com projetos de integração relativamente autônomos em relação aos EUA, a única região do mundo com governos que pretendem superar o modelo neoliberal.

Porém, as visões direrenciadas, muitas vezes mistificadas do Brasil nos outros países do continente e desses outros países entre nós, sobrevivem, e muitas vezes dificultam os processos de compreensão mútua e de integração.

Visto do Brasil, a América Latina – ou os outros países de um continente ao qual pertencemos – aparece como algo que “fica perto”. Como se, saindo do Brasil, “chegaríamos na América Latina”. Como a ocupação territorial do país foi feita conforme o modelo primário exportador que o colonialismo impôs ao país, ela se fazia basicamente nos corredores de exportação, voltados para o litoral, na direção oposta das fronteiras com os países latinoamericanos.

Enquanto que a Europa e os Estados Unidos estavam na mira dos portos, feitos para que o país olhasse para fora e, especialmente, para o alto. O exterior era sobretudo isso – a Europa e os EUA. Como se não pertencêssemos à América Latina.

O ensino se encarregava de difundir como a colonização portuguesa nos havia impresso um selo diferente, uma identidade distante daquela dos de colonização espanhola, como se o idioma fosse suficiente para determinar essas diferenciações.

Nossa história foi muito similar, fomos colonizados e se usou mão de obra escrava para isso, trazida pelos europeus. Quando as potências ibéricas se enfraqueceram, nossa dependência foi transferida para a Inglaterra, em todos os países do continente. Modelos primário exportadores – agrícolas ou minerais – moldaram todas as economias do continente e nos inseriram de forma subordinada no sistema capitalista internacional.

O elemento diferenciador de termos sido colonizados pelos portugueses veio do fato de que, enquanto a corôa espanhola resistiu, foi derrotada, se enfraqueceu e facilitou o impressionante ciclo de revoluções de independência – de cujo início se está comemorando o bicentenário este ano -, a coroa portuguesa fugiu para o Brasil, sem resistir. Com isso, para os outros países do continente se aceleraram os processos de independência, para nós, ao contrário, significou o fortalecimento dos vínculos coloniais.

De tal forma que, enquanto eles passaram da colônia para repúblicas e terminaram com a escravidão – com as exceções de Cuba e de Porto Rico -, nós passamos a império vinculado familiarmente à corôa portuguesa e nos tornarmos o país que mais tardou para terminar com a escravidão, consolidando antes disso o poder do latifúndio no campo. Fatores que terminaram o nosso atraso histórico relativo em relação a outros países do continente, até o início do século XX, mas não definiram um destino diferenciado deles.

Nosso destino comum seguiu, da colônia e da escravidao, passando pelos modelos primario exportadores, até o século passado e este, nos processos de industrializacao. Nossa visão, no entanto, continuou fechada sobre nós mesmos. Só mesmo quando a crise da dívida, dos anos 80, nos atingiu a todos, levando os governantes da época a negociar, praticamente nas mesmas condições, empréstimos do FMI, é que passamos a tomar consciência do nosso destino comum.

Ainda assim, só quando, no governo atual, passamos a privilegiar os processos de integração regional e não os Tratados de Livre Comércio com os EUA, que essa consciência comecou realmente a se incorporar à consciência nacional brasileira. A ampliação do Mercosul, a expansão do comércio com a Argentina, com a Venezuela, com a Bolívia, foram consolidando lacos inexistentes ou sem importancia antes. A construção da Unasul, do Conselho Sulamericano de Defesa, do Banco do Sul, com participação ativa do Brasil foi confirmando a importância da identidade e da integração com os outros países da região.

Opera-se assim uma mudanca importante na percepção que se tem da América Latina e do Brasil como país latinoamericano. A aproximação e o intercâmbio com governantes como Hugo Chavez, da Venezela, Evo Morales, da Bolívia, Rafael Correa, do Equador, os Kirchner, da Argentina, Fernando Lugo, do Paraguai, Mauricio Funes, de El Salvador, permitiram um conhecimento mútuo maior e a definição de interesses comuns, assim como a superação de conflitos que surgiram, em alguns casos.

Da mesma forma, a imagem do Brasil tambem foi mudando nos outros países do continente. A imagem projetada pelo governo Lula não deixa de assustar, pela dimensão territorial do país, pela força da sua economia, pela forte expansão das empresas estatais e privadas brasileiras. A Petrobras sofre acusações de não respeitar reservas indígenas no Equador, mas são principalmente empresas privadas, de construção, que nao cumprem contratos ou não respeitam legislações locais, as que mais trazem problemas para a imagem brasileira em outros países da região.

Porém, mais importante é a projeção internacional do Brasil como potência regional, com peso nas grandes decisões mundiais, com uma economia com capacidade de resistência aos efeitos da crise internacional, mas também com atitudes solidárias com seus vizinhos, como os casos da Bolívia e do Paraguai.

É difícil separar a figura de Lula dessa nova imagem projetada do Brasil na região. Depois da ditadura militar, dos governos Sarney e FHC, que não davam maior importância à região – principalmente este, que priorizou as alianças subordinadas e subalternas aos EUA -, a nova imagem – pró integração, solidária, ativa, voltada para as alianças com o Sul do mundo – está indissociavelmente ligada ao conjunto da política externa brasileira e à presença de Lula no marco internacional.

O ciclo atual de eleições - com destaque especial para as brasileiras e as argentinas, dado que o Uruguai e a Bolivia já optaram por aprofundar os processos atuais de integração – determinará se essa tendência à aproximação, ao maior conhecimento mútuo, à integração, seguirá adiante ou se se trata de um parênteses no tradicional processo de fragmentação e de desconhecimento mútuo a que a dominação colonial e imperial os submeteu.

*Emir Sader
. Siciólogo e cientista político
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domingo, 8 de agosto de 2010

Contraponto 2968 - "José Dirceu: Soberania e beligerância"

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08/08/2010

José Dirceu: Soberania e beligerância

Portal Vermelho - 7 de Agosto de 2010 - 20h46

Nas últimas semanas, a América Latina viveu um momento delicado: a retomada de um conflito diplomático entre Colômbia e Venezuela, causado pelas acusações feitas pelo presidente Álvaro Uribe contra seu homólogo venezuelano, Hugo Chávez, é uma demonstração da delicada correlação de forças que têm se equilibrado no continente nesta década e seu complexo jogo de interesses.

Por José Dirceu*

O contexto escolhido por Uribe para anunciar supostas evidências —que, ao menos por enquanto, não se sustentam— de que Chávez estaria abrigando guerrilheiros das Farc e do ELN em seu território é emblemático. Dias antes, seu sucessor, Juan Manuel Santos, indicou que iniciaria um processo de reaproximação com o país vizinho: um abandono do processo de tensionamento permanente que Uribe manteve ao longo de seus mandatos, com o apoio incondicional do governo dos EUA.

Santos, filho das elites econômicas colombianas tradicionais, segue o raciocínio da economia. O rompimento das relações com a Venezuela despencou a balança comercial da Colômbia, reduziu o lucro das empresas e elevou a taxa de desemprego. Já Uribe não abre mão da militância política que o levou a ser o braço direito da hegemonia política de Washington na América do Sul. Tenta forçar o presidente eleito a seguir o mesmo caminho, ou ao menos retardar o desmonte de anos de hostilidade institucional ao governo Chávez.

Linha semelhante tem adotado o candidato tucano à Presidência da República, José Serra, que, ainda em campanha, já criou desconforto ao acusar o presidente da Bolívia, Evo Morales, de ser leniente com o tráfico de cocaína e agora aproveitou o surto beligerante de Uribe para tentar atingir o PT e a candidata Dilma Rousseff. Serra e Uribe parecem compartilhar de uma diplomacia alinhada com os EUA acima de qualquer compromisso com a América Latina, suas instituições e seus povos.

Diante desse quadro, não poderia ter sido melhor a decisão dos países integrantes da Unasul, liderados por Brasil e Argentina, de retirar as negociações de paz do âmbito da OEA —onde os norte-americanos impõem as regras do jogo— para negociar, de acordo com a autodeterminação dos Estados sul-americanos, um plano que seja capaz de encerrar os conflitos internos que assolam a Colômbia há mais de 60 anos.

O diálogo e a independência são os grandes diferenciais de uma boa diplomacia. A Colômbia aponta o dedo contra a Venezuela e exige a formação de uma comissão internacional (que envolveria até países de fora da América Latina) para averiguar a existência de acampamentos da guerrilha que seriam protegidos por Hugo Chávez, um processo invasivo e que poderia influenciar as eleições pelas quais passará a Venezuela em setembro.

Mas a proposta que se revela mais positiva, e está sob análise da Unasul, é a de adotar, em solo colombiano e com o empenho do governo, uma nova política de pacificação, que passe por negociar com as forças hoje instaladas no interior da Colômbia. Trata-se de uma proposta que muda o paradigma e afasta a constante sombra da presença militar norte-americana na região —é necessário admitir, afinal, o fracasso do Plano Colômbia.

A questão das bases militares dos EUA na Colômbia consta também da proposta de diálogo e paz que as Farcs apresentaram ao novo presidente colombiano. Pela proposta, o movimento depõe as armas e abre-se ao diálogo com o governo em torno de cinco pontos-chave: as bases norte-americanas, os direitos humanos, a posse da terra, o regime político e o modelo econômico. É um sinal claro de que a estratégia de Uribe e seu grupo não terá sucesso.
Será necessário acompanhar de perto os desdobramentos do diálogo no âmbito da Unasul e trabalhar para que se alcance esse consenso, pelo bem da paz e da segurança na região. O recado a Uribe e aos EUA deve ser claro: na América do Sul, não há espaços para uma diplomacia beligerante, nem violação dos princípios de autodeterminação e soberania.

*José Dirceu é advogado e ex-ministro da Casa Civil
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sábado, 26 de dezembro de 2009

Contraponta 1049 - "A década da América Latina"


26/12/2009

"A década da América Latina"
Carta Maior - 26/12/2009

Emir Sader*

A década de 1990 foi das piores que a América Latina já viveu. A crise da dívida – com suas conseqüências: FMI, cartas de intenção, ajustes fiscais, etc. – e as ditaduras militares abriram o caminho para que se impusessem governos neoliberais em praticamente todo o continente. Passamos a ser a região do mundo com a maior quantidade de governos neoliberais e com suas modalidades mais radicais.

A capacidade de reação da América Latina se revelou na sua capacidade de reverter radicalmente esse quadro: passamos a ser a região que concentra aos governos eleitos pela rejeição do neoliberalismo, que abriga processos de integração regional independentemente dos EUA, que promove formas inovadoras de integração fora da lógica mercantil.


Lideres latinoamericanos como Lula, Hugo Chavez, Evo Morales, Rafael Correa, entre outros, se projetaram internacionalmente, por sua capacidade de encarnar as necessidades dos seus povos. A Bolívia, o Equador e a Venezuela se somaram a Cuba, com os países que - conforme a Unesco- , terminaram com o analfabetismo.
(Grifo do GontrapontoPIG).

Os países que optaram pela integração regional e não por Tratados de Livre Comércio, expandiram suas economias, distribuíram renda, avançaram nos direitos sociais da sua população, extenderam notavelmente o mercado interno de consumo popular, diversificaram seu comércio exterior, aumentaram significativamente o comércio entre eles.

Na década anterior, a América Latina havia sido reduzida à intranscendência. Governantes subalternos – Menem, Fujimori, FHC, Carlos Andrés Perez, Carlos Salinas de Gortari – tinham aplicado mecanicamente o mesmo modelo neoliberal, enfraquecido o Estado, a soberania, as economias nacionais. Os governos dos países que assumiram os programas neoliberais não incomodavam ninguém, havia reduzido nossos Estados a subseqüentes perdedores da globalização, que a aplaudiam, às custas da deteriorização ainda maior da situação dos povos dos nossos países.

A primeira década do novo século apresenta uma nova América Latina, com a maior quantidade de governos progressistas que o continente jamais teve. Com processos de integração regional fortalecidos – do Mercosul à Alba, do Banco do Sul à Unasul, do Conselho Sulamericano de Segurança ao Parlamento do Mercosul, entre outras iniciativas. Desenvolveu-se a Operação Milagre, que já permitiu recuperar a visão a mais de 2 milhões de pessoas, que de outra maneira não teriam possibilidade de recuperar a vista. Formaram-se novas gerações de médicos pobres na melhor medicina social do mundo – a cubana – nas Escolas Latinoamericanas de Medicina.

As crises econômicas da década anterior, típicas do neoliberalismo, que debilitaram a capacidade de defesa dos Estados nacionais diante do capital especulativo, que promoveu, entre tantas outras crises, as do México de 1994, do Brasil de 1999 e da Argentina de 2001-02, devastaram as economias desses países. O Brasil de FHC deixou um país em recessão prolongada e profunda para Lula, a quem coube superar a crise com políticas de desenvolvimento econômico.

Na década que termina, os países latinoamericanos que participam dos processos de integração regional – com destaque para o Brasil, a Bolívia, o Uruguai, o Equador – superaram a crise, desatada pelos países centrais do capitalismo, que ainda estão em recessão, que deverá se prolongar ainda por um bom tempo. Revelou a capacidade desses países de diversificar seu comércio exterior, de intensificar o comercio intraregional e de seguir expandindo o mercado interno de consumo popular.

A América Latina mostra hoje ao mundo a cara – imposta pela predominância de governos progressistas – de um continente em expansão econômica, afirmando sua soberania – em questões econômicas, políticas e de segurança regional -, melhorando a situação social do povo, consolidando políticas internacionais que intervêm na decisão dos grandes temas mundiais. Foi, sem dúvida, esta primeira década do novo século, a década da América Latina, que se projeta para a segunda década como um dos exemplos de luta na superação do neoliberalismo e de construção de sociedades mais justas e solidárias.

Emir Sader*, sociólogo e cientista político

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terça-feira, 27 de outubro de 2009

Contraponto 554 - "A América-Latina está se libertando dos EUA"


27/10/2009

Costa-Gavras: "A América-Latina está se libertando dos EUA"

Portal Vermelho - 26 de Outubro de 2009 - 15h06

O realizador grego-francês Costa-Gavras, que denunciou em célebres filmes como "Estado de Sítio (1972)" e "Desaparecido" (1982) a mão invisível dos Estados Unidos na política latino-americana, confessa agora sua alegria pelo fato de "a América Latina estar, enfim, se libertando dos Estados Unidos". Em entrevista à imprensa espanhola, ele diz que tem admiração especial pelo presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.
"Na minha geração, vimos como os EUA controlavam tanto ditaduras como democracias na América Latina. O primeiro que teve a valentia de enfrentá-lo foi Fidel Castro e Cuba pagou e está pagando muito caro por isso", diz, em uma entrevista à imprensa madrilenha o diretor.

"Outros encontraram outras maneiras de fazer isso. E, em mim, o que mais admiração desperta é Lula da Silva. Há países que, ao contrário, parece que nunca sairão desta situação, como o México", assinalou.

Agora, o diretor, que oferecera uma refrescante análise da ditadura de Augusto Pinochet no Chile e se aproximara da realidade dos guerrilheiros tupamaros no Uruguai, retorna para os problemas europeus no Éden à l'Ouest, estrelado pelo ator italiano Riccardo Scamarcio. Na América Latina, de acordo com ele, já criaram a sua própria voz. "Sem dúvida, Argentina, Brasil e Peru estão oferecendo um dos melhores cinemas sociais do momento", disse ele, que deu o Urso de Ouro para Tropa de Elite, DE José Padilha, quando presidiu o júri do Festival de Berlim em 2007.

Apesar de seu otimismo sobre a política latino-americana, Costa-Gavras mostra decepção com a dormência social no mundo em geral. "A sociedade tem ido de mal a pior. Antes, ao menos havia esperança ", explica ele que, talvez por este sentimento de desilusão, tenha decidido imprimir um tom de fábula mágica a seu novo filme.

"Tudo mudou radicalmente e eu também envelheci muito", disse, com mais firmeza que melancolia. "Nos sessenta e setenta podíamos ter posições claras. Havia dois grandes blocos e escolher um deles, filosoficamente, marcada já o caminho", coloca. "Hoje, se fala de duas ideias muito básicas, como a liberdade e a democracia, como se elas pudessem resolver todos os problemas. Mas a democracia se banalizou absolutamente. O mundo está dirigido pelas grandes empresas", assegura ele.

À procura de uma nova linguagem para os novos tempos, Eden à l'Ouest aborda a migração de uma perspectiva diferente. "Eu queria mostrar não o imigrante como um portador de drama e tragédia, mas como alguém que traz luz para os povos desse mundo supostamente mais rico", explica ele. Assim, Elias, o protagonista, se mascara no magnetismo sexual do ator italiano Riccardo Scamarcio que, desde que desembarca nas ilhas gregas até chegar a Paris, atua como um catalisador para os problemas emocionais que emergem no bem-estar.

"Há tanta solidão de um lado como do outro", diz o diretor. E garante que, em Eden à l'Ouest, decidiu se concentrar mais em pessoas comuns que no poder. No entanto, "ninguém como indivíduo pode dar solução ao problema da migração", sentencia. "O máximo que podemos fazer é, como acontece no filme, dar-lhes um casaco, almoço ou na cama. A verdadeira responsabilidade cabe aos governos." Costa-Gavras, que, a exemplo de cineastas como Roman Polanski, desenvolveu um tipo de cinema itinerante, admite que a sua decisão de escolher a nacionalidade de um filme depende apenas da história.

"Eu faço o filme no país em que me deixem fazer o que eu quero e com meus meios. Se não, eu não faço ", disse o cineasta que, para Éden à l'Ouest, contou com dinheiro da França, Itália e Grécia. O próximo alvo de sua denúncia ainda é indefinido. "Infelizmente, ainda há muitas histórias a serem contadas. Eu só tenho que ver o que posso contar melhor".

Fonte: Cuba Debate
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