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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Contraponto 6347 - "O enigma Argentina"

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26/09/2011
O enigma Argentina



Do Blog do Emir - 26/09/2011

Emir Sader
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Nem a proximidade, nem as viagens frequentes ou as similitudes fazem com que a compreensão da Argentina avance no Brasil. O tema Argentina e, direta ou indiretamente, o das comparações Argentina-Brasil, foi sempre um tema monopolizado pela direita, de lá e de cá. Os tucanos, parentes dos radicais argentinos, se associam a eles no antiperonismo lá e no anti-lulismo aqui. E não entendem nenhum dos dois.

O clichê se repete sempre: o peronismo, o populismo argentino, representou a passagem do país vizinho para sua fase decadente, da qual não saíram mais. Implicitamente ou não, se estende essa visão para o getulismo. Quanto mais nos distanciemos deles, melhor estaremos. A direita daqui – particularmente Serra na campanha de 2002 – acenou sempre com o perigo de nos tornar-nos uma Argentina, com todos os contornos negativos que a expressão importa.

Cristina Kirchner acabou de ter um grande triunfo nas prévias eleitorais, permitindo que todos prognostiquem que se reelegerá em outubro. Nenhum meio de comunicação brasileiro, depois de terem pintado a Argentina atual e os governos dos Kirchner com as piores cores, publicou algum artigo para tentar explicar por que os argentinos vão reeleger Cristina. Seja para dizer que eles são uns tangueiros masoquistas, degenerados, que gostam de sofrer ou talvez repensar se suas análises não estão equivocadas – sobre a Argentina e o Brasil.

Os dois países tiveram trajetórias similares, a Argentina se insutrializando antes, mais voltada para o mercado interno, com um movimento sindical mais sólido. O golpe correspondente ao nosso de 1964 – em 1966 – fracassou lá e nossas histórias tiveram temporalidades mais diferenciadas a partir daquele momento. Sem que isso alterasse as similaridades. Tanto assim que vivemos ditaduras similares, crise da dívida similar e governos neoliberais similares.

As ditaduras dos dois países se orientaram pela mesma Doutrina de Seguranca Nacional. A crise da dívida atingiu da mesma forma os dois países. Menem se diferenciava de FHC não pelos planos de governo, mas porque FHC tomava vinhos franceses, enquanto Menem comia pizza com champanhe na Casa Rosada.

De forma similar, os governos de reação ao fracasso do neoliberalismo têm características similares: prioridade das políticas sociais e de extensão do mercado interno de consumo, ao invés dos ajustes fiscais; prioridade das políticas de integração regional ao invés dos Tratados de Livre Comércio com os EUA; papel ativo do Estado na condução da economia e na garantia dos direitos sociais ao invés do Estado mínimo e da centralidade do mercado.

No entanto, a direita daqui usa a Argentina como espantalho, enquanto a de lá elogia a Lula contra Cristina, numa prestidigitação típica da direita. Como não é possível estar contra um governante de tanto sucesso dentro e fora do Brasil, como Lula, tratam de diferenciá-los, de forma totalmente artificial. FHC, com sua consciência de classe afinada, escreveu para o Clarin – o jornal dos otavinhos de lá – que estavam equivocados os que diferenciam os Kirchner e Lula, que os dois são iguais e igualmente nefastos, melando o jogo da direita de lá.

Nunca as relações entre os dois países foram tão boas, para confirmar a similaridade dos dois governos. Ambos pertencem ao mesmo grupo de governos progressistas na América do Sul, defendem posições similares no plano internacional, tem políticas parecidas no plano interno.

A mesma incapacidade da direita brasileira para entender o governo dos Kirchner é a que tem para entender o governo de Lula e o de Dilma, o que aumenta ainda mais a similaridade entre eles.

*Emir Sader. Sociólogo e cientista político

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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Contraponto 5771 - "Laurindo Lalo Leal Filho: a Ley de Médios já vale na Argentina"

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.13/07/2011

Laurindo Lalo Leal Filho: a Ley de Médios já vale na Argentina

Do Vermelho - 13 de Julho de 2011 - 11h06

Passou desapercebido por aqui. Não fosse a menção feita pelo jornalista Eric Nepomuceno, na revista Carta Capital, poucos ficariam sabendo que a Ley de Médios argentina está sendo implantada, apesar da oposição feroz dos grandes grupos de comunicação locais.

Por Laurindo Lalo Leal Filho, na CartaCapital

Na noite de 21 de junho, a presidenta Cristina Kirchner apareceu em rede nacional de televisão para fazer um anúncio capaz de tirar o sono dos controladores monopolistas da radiodifusão. O governo abria, naquela data, uma licitação para a concessão de 220 novas licenças de serviço de audiovisual no país.

Como determina a lei metade dessas concessões será destinada a emissoras privadas e a outra metade dividida entre os governos estaduais, o federal e as organizações sem fins lucrativos. Fórmula encontrada para romper com oligopólio existente hoje na comunicação argentina.

Claro que a mídia comercial brasileira esconde esses avanços e quando fala da Ley de Médios argentina é para atacá-la, chegando habitualmente a tachá-la de censura, quando trata-se exatamente do oposto. Seu papel é o de permitir o acesso aos meios de comunicação de um número muito maior de atores sociais, hoje sem voz.

Mas aos que se opõem à lei interessa a omissão e a desinformação. Para isso usam uma estratégia eficiente: apropriam-se de um símbolo facilmente compreensível, como é a censura, e com ele carimbam a lei, interditando o debate de forma liminar.

A legislação argentina mereceria no Brasil estudos e debates mais sérios e aprofundados. As criticas feitas por aqui são superficiais, ecoando apenas o temor dos controladores da mídia nativa com o possível contágio da experiência vizinha.

Não é levado em conta o formidável trabalho de pesquisa realizado para se chegar ao texto final. Seus 166 artigos não caíram do céu. São resultado de um levantamento minucioso daquilo que existe de mais avançado no mundo, em termos de legislação para área das comunicações.

Dos meios comerciais não se pode esperar nada, além das críticas habituais. Os meios públicos pouco se dedicam ao tema e a internet o trata de forma esporádica. Mesmo as redes sociais, com conteúdos mais críticos, não tem como aprofundar a discussão e acabam, em determinados momentos, dialogando com os grandes meios nos mesmos níveis por eles impostos.

Resta como alternativa a Universidade, teoricamente menos sujeita às imposições externas. Mas parece que, no geral, ela não despertou ou não se interessou pelo assunto. Falo, obviamente, dos setores universitários ainda não cooptados pela grande mídia, propiciadora de cursos e eventos destinados ao conformismo e a alienação.

Fico a pensar na riqueza de um debate não só da Ley de Médios argentina, mas das experiências de democratização das comunicações que vêm sendo articuladas na Venezuela, Bolívia, Equador, Paraguai e Uruguai, por exemplo.

Ao invés de infindáveis e insossas discussões sobre “teorias da recepção”, tão ao gosto dos acadêmicos alinhados com “status quo” da comunicação, teríamos o pulsar da vida real das nossas sociedades.

A Universidade – pública ou privada – repousa sob um tripé formado pelo ensino, a pesquisa e a extensão. Um tema como o aqui proposto atenderia com desenvoltura esses três objetivos.

Colocaria o aluno em contato com a disputa que se trava no continente em torno do papel social da comunicação, deixando mais claro o cenário onde se dará, no futuro, sua atuação profissional.

Propiciaria uma ampliação no campo das pesquisas, necessitadas cada vez mais de interdisciplinaridade. O estudo da comunicação só ganha concretude quando dialoga com o Direito e as Ciências Sociais em geral.

E finalmente, a extensão se daria com a formulação de projetos e propostas capazes de contribuir para o debate político que se trava na sociedade em torno das novas leis para a comunicação.

A fundamentação existente na Ley dos Médios argentinos tem grande contribuição acadêmica e poderia servir como referência para a Universidade brasileira.
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quarta-feira, 11 de maio de 2011

Contraponto 5341 - "Justiça (argentina) prende assassinos de Estado"

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11/05/2011
Justiça (argentina) prende assassinos de Estado



Do Tijolaço - 11/05/2011

Brizola Neto

Ao contrário da brasileira, a Justiça argentina não está fingindo que assassinato com poder de Estado é “algo para see esquecer”. Hoje, mandou prender quatro membros das forças nacionais de segurança e um civil por seus vínculos com os “voos da morte”, crimes cometidos na época da ditadura naquele país, em que os militares arremessavam opositores políticos de aviões em pleno voo.

Foram presos três pilotos que teriam conduzido o voo, do qual, em 14 de dezembro de 1977, foram arremessados os corpos de pessoas sequestradas na Igreja da Santa Cruz, durante uma reunião entre opositores do regime militar e freiras. Os órgãos repressivos surpreenderam uma reunião e os enviaram da prisão para os voos da morte. Entre as estas pessoas estavam as freiras francesas Leonnie Duquet e Alice Domon e as fundadoras das Mães da Praça de Maio.

Publicamos, aí em cima, um video da TV Pública argentina, onde se conta esta história macabra.
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terça-feira, 10 de maio de 2011

Contraponto 5334 - "O favoritismo de Cristina na Argentina"

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10/05/2011
O favoritismo de Cristina na Argentina


Do Blog do Miro - segunda-feira, 9 de maio de 2011

Por João Peres, na Rede Brasil Atual:

O favoritismo alcançado pela presidenta Cristina Kirchner nas eleições presidenciais argentinas tem provocado a desistência de alguns dos principais concorrentes. A última saída da corrida é também a mais importante até o momento. No sábado, o chefe de governo da cidade de Buenos Aires, Maurício Macri, anunciou sua decisão de concorrer à reeleição local.

"Estou convencido de que o melhor lugar onde posso dar hoje a contribuição para essa Argentina que todos queremos é a cidade de Buenos Aires", disse Macri, que pela segunda vez declina de participar das eleições presidenciais. No ato de lançamento de sua campanha para as eleições de 10 de julho na capital, no entanto, o ex-presidente do Boca Juniors manteve sua linha de discurso, sempre com foco no cenário nacional.

O recuo de Macri era considerado uma possibilidade cada vez mais forte nas últimas semanas e se trata simplesmente de não trocar o mais ou menos certo pelo incerto. As pesquisas para as eleições da cidade de Buenos Aires indicam que ele tem 27% das intenções de voto, doze pontos à frente do possível candidato governista, o ministro Amado Boudou. No cenário nacional, o chefe de governo aparece sempre dividindo uma duvidosa segunda colocação com Ricardo Alfonsín, filho do ex-presidente Raul Alfonsín e candidato da União Cívica Radical (UCR).

Nenhum deles passa de 15% dos votos, o que chega a representar no máximo um terço do total obtido por Cristina Kirchner. Como o percentual de indecisos oscila entre apenas oito e doze por cento, a fotografia de momento deixa em dúvida apenas se a presidenta garantirá a reeleição no primeiro ou no segundo turno. No caso de Macri, as denúncias de abuso de autoridade e um escândalo envolvendo escutas ilegais para espionar integrantes do alto escalão federal minaram a boa imagem do milionário empresário.

Ainda que disputas eleitorais sejam muito dinâmicas, o momento é favorável ao governismo e a sua coalizão, a Frente para a Vitória. O fim de alguns problemas internos do país, o crescimento econômico e as posturas firmes de Cristina angariaram muita simpatia, numa trajetória de elevação que se consolidou devido à postura da política após a morte do marido, o ex-presidente Néstor Kirchner.

Na última semana, o deputado Fernando “Pino” Solanas, à esquerda do atual governo, também desistiu de disputar as eleições presidenciais. A exemplo de Macri, o documentarista encontra cenário mais favorável na disputa portenha, ocupando a terceira posição, sempre em um viés de crescimento eleição após eleição.

Com isso, o único adversário razoavelmente forte neste momento para Cristina é Ricardo Alfonsín, mas pesam contra ele a divisão do próprio partido e a fama de que a UCR não consegue concluir seus mandatos – os dois últimos radicais a ocuparem a Casa Rosada foram exatamente Raul Alfonsín e Fernando de la Rúa, o presidente do default de 2001-02, ambos com governos abreviados. Além disso, o capital político do pai já não é tão forte quanto a herança de Néstor Kirchner.

Eduardo Duhalde, dissidente do Partido Justicialista de Cristina, quer lutar para ser uma terceira força na disputa. No domingo (8), fez declarações tentando se aproximar de Macri – e do eleitorado do chefe de governo de Buenos Aires. Embora deixe suas posições em aberto, o ex-presidente considera que a aproximação com o PRO, partido do empresário, é natural.

Em entrevista à Rádio Mitre, Duhalde indicou que a desistência de Macri fez parte de um cálculo pelo qual corria muito risco com a postulação à presidência, podendo perder o controle de sua legenda. “Pensou que, se perdesse, se acabavam seu partido e sua carreira política”, ponderou o pré-candidato, traçando um quadro que faz lembrar as consequências das eleições brasileiras.
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terça-feira, 1 de março de 2011

Contraponto 4862 - "Lula em vídeo argentino: mãe protege o mais fraco. Ele também"

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01/03/2011


Lula em vídeo argentino: mãe protege o mais fraco. Ele também


    Do Conversa Afiada - Publicado em 28/02/2011


O Conversa Afiada recomenda assistir a um documentário – muito bem feito – sobre Lula.

O documentário da TV Pública argentina sobre Lula está em http://www.youtube.com/watch?v=SnpIuZ5ISlo : “El ciclo ‘Presidentes de Latinoamérica debutó en la Televisión Pública de Argentina (http://www.tvpublica.com.ar/tvpublica/) de la mano de Luiz Inacio “Lula” Da Silva, primer mandatario de la República Federativa del Brasil.”

É um longo depoimento do Nunca Dantes sobre ele mesmo e seu Governo.

Diz ele: o melhor exemplo de governança você não aprende em livro nenhum.

Aprende com a mãe.

Ela gosta de todos os filhos, mas protege o mais debilitado.

Se precisa dar um pedaço a mais de carne para o mais debilitado, ela dá.

E ainda querem elogiar a Dilma para falar mal dele.

Engraçado !


Paulo Henrique Amorim


Clique aqui para assistir ao vídeo.

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domingo, 30 de janeiro de 2011

Contraponto 4568 - "Brasil e Argentina têm responsabilidade para que a América Latina amplie presença e ação no cenário internacional"

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30/01/2011


Brasil e Argentina têm responsabilidade para que a América Latina amplie presença e ação no cenário internacional

Do Blog do Planalto - Domingo, 30 de janeiro de 2011 às 6:37


A presidenta Dilma Rousseff durante entrevista a jornalistas de três periódicos da Argentina. Fotos: Roberto Stuckert Filho/PR

A importância de reforçar a parceria entre Brasil e Argentina e, deste modo, sinalizar aos demais países da América Latina que é possível ter mais presença e ação no cenário internacional levou a presidenta Dilma Rousseff a decidir que a primeira viagem internacional fosse para a Argentina. Essa explicação foi colocada em entrevista aos jornalistas dos três importantes jornais daquele país:La Nacion, Clarín, Página 12. Além disso, a presidenta Dilma assegurou que terá uma “relação extremamente próxima” com a presidenta da Argentina, Cristina Kirchner:

“O Brasil e a Argentina podem fazer isso, e podem fazê-lo de forma mais efetiva quanto mais próximas nossas economias se articulam e se desenvolvam e criem laços em que ambos os povos ganhem com essa aproximação, em matéria de desenvolvimento econômico, de desenvolvimento tecnológico, de melhoria das condições de vida do povo brasileiro e argentino.”

A seguir os principais trechos da entrevista concedida pela presidenta Dilma Rousseff aos jornais argentinos La Nacion, Clarín e Página 12.


A importância da mulher na quebra de preconceitos

“Olha, eu acho uma coisa a ser comemorada, porque eu acho que os dois maiores países aqui, do Cone Sul, estão dando uma demonstração que as suas sociedades evoluíram no sentido de superarem o tradicional preconceito que existia contra a mulher. Veja que são sociedades que têm essa evolução no Sul, no Sul do mundo. E, para mim, é algo bastante significativo que também aqui nós tenhamos esse exemplo, que foi a eleição de um índio, na Bolívia, e de um metalúrgico antes mim aqui, no Brasil. Então, eu acredito que a América Latina, ela está dando um exemplo para o mundo de que certos preconceitos, certos bloqueios econômicos e sociais estão sendo superados. Eu acho que representa uma maior democratização das nossas sociedades e dos nossos países. E acredito que a presença da mulher aqui vai significar também a possibilidade de que em outros países da América Latina, como nós já tivemos, no Chile, a presidenta Bachelet, nós tenhamos também outros países em que a mulher seja eleita.”

Relação Brasil e Argentina

“Eu pretendo ter uma relação extremamente próxima com a presidenta Kirchner. Eu pretendo ter essa relação, primeiro, porque o Brasil e a Argentina, eu acho que são os países que têm responsabilidade, perante o conjunto da América Latina, de fazer com que a nossa região seja cada vez uma região com presença e ação no cenário internacional. O Brasil e a Argentina podem fazer isso, e podem fazê-lo de forma mais efetiva quanto mais próximas nossas economias se articulam e se desenvolvam e criem laços em que ambos os povos ganhem com essa aproximação, em matéria de desenvolvimento econômico, de desenvolvimento tecnológico, de melhoria das condições de vida do povo brasileiro e argentino.”

A primeira viagem internacional

“Por isso, o primeiro país que eu vou visitar é a Argentina. Porque eu acho que é o país irmão do Brasil. Não estou diminuindo nenhum outro país, como o Uruguai, Paraguai, a Colômbia, Venezuela, o Peru. Mas eu quero dizer que é algo que eu acho até que é intuitivo, do ponto de vista político, para os outros países… É de todo importante que o Brasil e a Argentina estejam juntos. É algo, eu acho, extremamente amigável também para os outros países. Não é uma relação de hegemonia que o Brasil e a Argentina estão tendo em relação ao resto da América Latina. Não. É porque temos um tamanho e um desenvolvimento econômico que nós podemos liderar.”

A experiência pessoal em exercer a Presidência da República

“A responsabilidade é bastante maior, ou seja, sobre os meus ombros pesa a responsabilidade de dirigir um país da dimensão do Brasil, com os desafios que o Brasil tem. Eu venho de uma experiência de governo muito bem sucedida. Mas eu tenho clareza de que muito foi feito. Eu participei do outro governo de forma muito próxima do Presidente. Na verdade, eu vivia aqui em cima, mudei para o andar de baixo. Ao chegar no andar aqui, de baixo, você encara uma responsabilidade muito maior, porque a decisão, em última instância, está na sua mão.”

“O Brasil é um país que muito realizou, mas tem grandes desafios pela frente, e são desafios enormes porque os números no Brasil são sempre maiores, aqui, do ponto do conjunto da América Latina. Nós temos aqui, no Brasil, uma série de, eu diria, assim, para ti, de desafios colossais. Exemplo: nós queremos erradicar a miséria no Brasil. Miséria, no Brasil, se mede… Hoje nós temos ainda algo como em torno de uns 15 milhões de miseráveis no Brasil, nós temos de enfrentar esse problema. E não podemos deixar que o nível de vida dos demais, que ascenderam às classes médias… porque houve uma revolução nesses últimos oito anos, nós conseguimos tirar da pobreza e de [fazer] chegar à classe média algo como 37, 38 milhões de brasileiros, se você contar até os dados não completamente fechados, de 2010.”

“Temos de continuar esse processo de elevação do nível de vida da população brasileira, portanto, temos de manter o nível, também, de crescimento econômico, para garantir emprego para esse… para todos os brasileiros que têm condições de trabalhar. Não é só o programa de transferência de renda, como o Bolsa Família, mas é a geração de milhões de empregos. Sem isso, um país como o Brasil não consegue fazer face aos seus desafios.”

“E nós temos um desafio educacional também. Nós temos de conseguir combinar não só uma melhoria radical na nossa educação, da qualidade da nossa educação, para as crianças e adolescentes, mas nós temos um grande desafio na profissionalização, porque hoje o Brasil tem um problema de quase pleno emprego.”

Os desafios brasileiros

“No governo a gente sempre corre contra o tempo, não é? Eu tenho corrido contra o tempo, contra quinhentos anos de abandono da população brasileira. A gente corre contra o tempo quando eu falo em reduzir a pobreza no Brasil. Agora, no caso específico que você levantou, nos dois específicos, primeiro, nas enchentes, eu acho que no Brasil nós temos de caminhar e nós temos condições tecnológicas para isso. Nós temos condições de recursos humanos para isso, temos recursos financeiros para isso. Nós temos de caminhar para um sistema que não é que acabe com as enchentes, você vai ter sempre acidentes climáticos, mas que acabe e que elimine e que reduza ao mínimo o número de mortes. Então, desde um sistema de alerta de enchentes, passando portanto… de prevenção, por todo um investimento em infraestrutura, que é a drenagem para não ter… para quando os rios encherem você não ter alagamento de residências, de empresas ou, se tiver, ter um nível de segurança não deixando as pessoas morarem na beira dos rios e correrem risco de vida. A mesma coisa para a encosta de rio. No Brasil, você entende porque isso aconteceu. Depois da crise da dívida, em 1982, nós tivemos um período muito grande sem grandes investimentos em infraestrutura e em projetos sociais. Por exemplo: nós não tivemos grandes planos habitacionais no Brasil. Então, a população não tinha acesso à moradia…

A imagem do país para o mundo

“Eu tenho certeza que será, uma ótima imagem. É uma imagem de um país que vem de um processo, eu acho assim, muito perverso, de ser um dos países mais desiguais do mundo, mudando esse perfil progressivamente, se transformando numa economia das… numa grande economia, uma grande economia emergente. E, ao mesmo tempo, um país que tem maturidade para resolver seus problemas.”

O cumprimento dos contratos

“Mas eu vou te dizer uma coisa: eu acho que cada país tem os seus problemas e tem as suas condições históricas e as suas explicações. No Brasil, nós tivemos um processo. Esse processo, ele levou anos amadurecendo. Obviamente, você tem conhecimento que os países mais estáveis do mundo como a Inglaterra, o Reino Unido… o Reino Unido quando acha que um contrato está desequilibrado, econômica e financeiramente, para o consumidor, chama uma audiência pública e muda os termos do contrato. Fizeram isso duas vezes no setor elétrico. Então, depende, cada país tem um processo de construção da institucionalidade, diferente. A maturidade de alguns sistemas pode levar a que eles alterem as condições do contrato. Por que eles fizeram isso, se você pegar os contratos de energia elétrica do Reino Unido? Porque eles achavam que o ganho obtido pelos grandes produtores de energia era excessivo, que não era esse ganho de energia, de… ou seja, não era aquela lucratividade que o sistema comportava, então, naquele momento, eles tinham de diferir. O que eles tinham de fazer? Eles tinham de mudar as condições em que o contrato dizia que seriam passados para o setor dos consumidores os ganhos obtidos de produtividade. Eles inventaram, inclusive, na época, um fator chamado fator X, que pelo qual eles transferiam os ganhos de produtividade para o consumidor.”

A desvalorização monetária

“Acho que o Brasil e a Argentina estão sofrendo – e todos os países emergentes, isso é público e notório – estão sofrendo as consequências da política de desvalorização praticada pelos países em questão, pelos dois grandes países do mundo. Acho que nossa posição no G-20 vai ter que ser cada vez mais uma posição de reação a esse fato, a essa política de desvalorização, que sempre levou a situações muito problemáticas no mundo, a chamada desvalorização competitiva. Eu desvalorizo a minha moeda para competir com você. Essa política levou a várias crises econômicas, aliás, a várias disputas políticas, disputas econômicas. E ela não é boa nem para o Brasil, nem para a Argentina, nem para nenhum país emergente. Nós achamos que os Estados Unidos, em especial, que detém a moeda que é reserva de valor, tem de levar em consideração esse fato. Nós temos, hoje, 280 milhões… 88 milhões de dólares em reservas, em dólar. Então, para nós, também, é uma questão muito importante que não haja uma perda de valor. A perda de valor da moeda que é reserva de valor é uma contradição. Achamos, também, que todos os países têm de… não podem aceitar políticas de dumping, mecanismos de competição inadequados, não baseados nas práticas mais transparentes, e que os países têm de reagir a esse fato. Agora, também sabemos que o protecionismo, no mundo, não leva a boa coisa. Instituir o protecionismo, você… as perdas não são restritas àquele do qual você está se defendendo, elas se espalham pelo sistema, é isso que eu quero dizer.”

A agenda da Presidenta

“Olha, o foco da minha agenda é o seguinte: é o compromisso que o governo brasileiro mais uma vez assume, com o governo argentino, de uma política conjunta e estratégica de desenvolvimento da região. A gente, no caso da região, é uma posição o seguinte: o desenvolvimento do Brasil, ele é um desenvolvimento que tem de beneficiar o conjunto da região. Dou um exemplo: nós vamos ter uma política muito forte para gerar a política de fornecedores na área do pré-sal. Nós temos essa política, a gente chama “política de conteúdo nacional”. Nós cogitamos de uma política de conteúdo regional, conjunta, com a Argentina. Nós cogitamos de uma agenda em que a Argentina e o Brasil, do ponto de vista de serem países com grandes recursos alimentícios, com grandes recursos, eu diria, energéticos, possam aumentar a agregação de valor e a geração de emprego na região. Nós queremos uma parceria na área de tecnologia e de inovação, com a Argentina. Nós queremos também uma parceria no uso da tecnologia nuclear para fins pacíficos.”

Visita do presidente Barack Obama

“Eu acho que a relação do Brasil com os Estados Unidos, ela é uma relação histórica. Nós temos uma relação – acho que os demais países da América Latina também têm – histórica com os Estados Unidos. Essa relação, na medida em que os países foram se desenvolvendo, elas foram mudando. Hoje, por exemplo, fantasticamente, os Estados Unidos são superavitários na relação comercial com o Brasil. Obviamente, isso era inconcebível, até pouco tempo atrás. Por quê? É importantíssimo olhar os Estados Unidos como um grande parceiro comercial dos países da América Latina. Para o Brasil, os Estados Unidos foram – e sempre serão – um parceiro muito importante. Então, nós, a cada vez… a cada período, nós temos de melhorar cada vez mais, e mudar o patamar da relação. Tivemos uma experiência muito boa nos últimos anos, tivemos diferenças de opinião, agora, o que importa é perceber que essa é uma parceria que tem um horizonte de desenvolvimento muito grande. Então, nós consideramos que, a cada ano, nós vamos ter de virar as páginas do ano anterior. Um dos assuntos que a senhora também destacou muito é a sua política de Direitos Humanos. Eu queria saber como vai se traduzir isso na sua política externa. Você pode por em contexto como vai ser tratado… a senhora falou já do caso do Irã… com o respeito dos direitos humanos no Irã.”

Direitos humanos

“Olha, nós, pelo menos eu acho, em alguns momentos, eu até tive uma divergência pequena com o Itamaraty. Eu não vou negociar Direitos Humanos, ou seja, eu não vou fazer concessões nessa área. Agora, não acho que os Direitos Humanos sejam… o problema dos Direitos Humanos possam ser olhados como restritos a um país ou uma região. Essa é uma falácia. Direitos Humanos hoje no mundo é algo que nós temos de olhar no nosso país e em todos os países, não dá para só ver a trava no olho do vizinho porque, no caso dos países desenvolvidos, nós já tivemos episódios terríveis, eu acho que tem problema de Direitos Humanos. Aliás, eu e o mundo. Em Abu Ghraib; acho que teve problemas de Direitos Humanos, e ainda tem, em Guantánamo; agora, eu também considero que apedrejar uma mulher não é uma coisa adequada. Então, não vou, de maneira alguma, achar que não ser… que ter uma posição firme em relação a Direitos Humanos simplesmente é apontar com o dedo um país e falar: “Aquele ali é o país que não respeita”. É bom que cada um de nós olhemos, como a Bíblia diz, para a trava no seu próprio olho.

A situação de Cuba

“Acho que Cuba teve, com a libertação dos prisioneiros, deu um avanço, deu um passo na frente, nessa questão de Direitos Humanos, porque ela deu uma… fez um esforço e tem uma melhoria. E acho que ela deve continuar fazendo. No processo, inclusive, de… eu acho que de construção da saída de Cuba, pelo menos porque você vê o governo cubano dizendo que vai fazer, que é uma melhoria nas condições econômicas, democráticas e políticas do país. Agora, eu respeito também o tempo deles, respeito. Muitas vezes, a gente tem de entender o seguinte: que a política é feita em uma determinada temporalidade. Eu prefiro ali, em Cuba, eu prefiro dizer o seguinte: acho que há um processo de transformação, e acho que todos os países devem incentivar esse processo de transformação. E devemos protestar contra todas… Se houver alguma falha dos Direitos Humanos de Cuba, eu não vejo nenhum problema em falar: “Olha, está errado ali”, e tal; “Tem isso lá”. Qual é o problema? Podem fazer aqui no Brasil também. Nós não estamos dizendo que nós somos, aqui, um país que não tem suas dívidas com os Direitos Humanos. Nós temos.”

A Venezuela no Mercosul

“É importante a Venezuela entrar no Mercosul, e acredito que, para o nosso bloco, é muito bom que haja vários países, além dos que originariamente estavam no Mercosul, entrem no Mercosul, porque muda, eu diria, muda o patamar do Mercosul. Você veja que a Venezuela é um grande produtor de petróleo e gás. Ela tem muito a ganhar entrando no Mercosul, e nós temos muito a ganhar com a presença da Venezuela no Mercosul. Então, eu vejo com excelentes olhos a entrada da Venezuela, a participação da Venezuela. No caso específico da forma de governança dentro da Unasul, eu acho que está em um processo de negociação. Sempre que for possível se fazer rodízio, eu acho o rodízio um método muito bom, por quê? Porque nós estamos em uma reunião em que todos são iguais. É a tal da “távola-redonda”, não tem ninguém na ponta. Então, o rodízio é o mecanismo pelo qual nós vamos garantir que todos tenham a sua hora e a sua vez na direção. E a gente tem de respeitar a ida de cada país, porque ali é uma negociação entre países soberanos, Estados soberanos que querem juntar esforços no sentido de criar uma relação política, econômica e institucional que permita que a gente dê um salto para as nossas economias e a nossa sociedade. Nada mais justo que… cada um tenha a sua vez. Eu acho que isso é um princípio democrático, cada um… E um princípio democrático essencial entre países soberanos. Então, eu sou a favor disso, rodízio, tipo “távola-redonda”, ninguém é mais importante que ninguém; cada país, um voto.”

A surpresa positiva no primeiro mês de mandato

“Eu posso te falar uma coisa, eu fiz uma brincadeira. Mas eu não tenho muitas surpresas aqui. Eu vivi no centro do governo nos últimos seis anos. Então, a minha grande surpresa positiva, eu vou te dizer: foi muito bonita a minha posse, muito emocionante. Nesse último primeiro mês, que começou no dia 1º de janeiro e que termina agora no dia 31, ele abre com uma cerimônia ao mesmo tempo muito bonita e triste, porque eu estava subindo, aqui a gente chama, a rampa, e o presidente Lula estava descendo. Então, ao mesmo tempo que era bonita porque eu estava chegando, era triste porque eu participei diariamente com o presidente aqui no governo dele. Então, teve isso – foi muito bonito e muito triste. Agora, eu queria te dizer o seguinte: sempre é muito bom quando o teu povo te reconhece na rua, você entende? E o povo brasileiro é um povo muito afetivo, não é? E então, gritam; você está passando de janela aberta, gritam, te chamam. E é aquela intimidade, entendeu? É como se eu conhecesse cada um deles pessoalmente. Então, isso é muito bom. Eu ainda não tive uma triste, viu? Vou ter. Talvez eu tenha tido sim uma triste, bem triste, te digo qual foi: foi olhar o… você não imagina o que era a cidade de Nova Friburgo. Sabe? Foi um momento muito triste, porque você via pessoas que estavam perdendo os seus parentes, o desespero nos olhos das pessoas. E, ao mesmo tempo, para mim é um compromisso que nós temos de impedir que isso ocorra outra vez.

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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Contraponto 4102 - Inveja dos argentinos

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30/11/2010
Inveja dos argentinos

Do Blog Cidadania - 30/11/2010

Eduardo Guimarães

Imagine poder discutir o semi monopólio da Globo com o motorista de taxi, com o porteiro do prédio, com a faxineira ou mesmo com um colega de trabalho. Ou ouvir até de empresários que realmente não é aceitável que um único grupo empresarial detenha metade da audiência da televisão aberta e o segundo jornal e a segunda revista semanal de maior tiragem.

De domingo – quando cheguei a Buenos Aires – até agora, não ouvi uma só pessoa responder que a “Ley de Medios” é um despropósito. A sociedade argentina está convencida de que é preciso democratizar a comunicação. E o que é melhor: as pessoas sabem o que é democratizar a comunicação.

Claro que esse pode ser um fenômeno dos centros urbanos. Contudo, tente, em São Paulo, no Rio, em Belo Horizonte, em Curitiba, em Porto Alegre, em Salvador ou em Recife, entre outros, discutir o oligopólio das comunicações. A quase totalidade das pessoas não lhe dará atenção por mais do que alguns segundos antes de mudar de assunto ou de inventar uma desculpa para interromper a conversa.

Note-se que não me refiro aos politizados – sejam de direita ou de esquerda, que, no Brasil, são raros. Refiro-me a essa maioria que pode conversar por horas sobre futebol ou sobre novelas, mas que não tem paciência de gastar cinco minutos com política.

O Brasil é uma ilha de alienação em meio a uma América Latina significativamente politizada. Venho batendo nesta tecla há muito tempo devido à minha atividade profissional, que me obriga a viajar pela região.

O que estou vendo na Argentina é ainda mais interessante do que vi em países como a Venezuela, por exemplo – país em que o mais humilde cidadão é capaz de discutir a constituição do país e a política partidária.

A grande diferença do Brasil continua sendo a nossa histórica bonomia em relação ao jogo do poder e a nossa aversão a conflitos de qualquer tipo, mesmo quando o conflito é inevitável e necessário.

Ciente da natureza de seu povo, Lula desperdiçou os últimos oito anos no que diz respeito à democratização da comunicação. Apenas no fim de seu segundo mandato é que ousou convocar uma conferência para discutir o assunto. Mas acabou relativizando sua importância quando a mídia começou com o mesmo trololó sobre “censura” que o grupo Clarín, aqui na Argentina, recita para as paredes.

O discurso do PIG argentino sobre supostos ímpetos censores do governo é exatamente o mesmo que o do PIG tupiniquim. Mas neste país é um discurso já quase envergonhado e que está morrendo a cada dia.

O grupo Clarín, a bem da verdade, tem um monopólio ainda maior do que o da Globo – alguma coisa perto de 80% do bolo da comunicação. Mas terá que se desfazer desse império. Será pago condignamente pelo que vender, mas não poderá manter o controle sobre tantas mídias e muito menos conseguirá vender seus meios de comunicação para testas-de-ferro.

Os dois governos Kirchner conseguiram explicar perfeitamente à sociedade os malefícios da concentração de meios de comunicação. A sociedade quer a diversidade de opiniões e de opções. É irreversível.

Enquanto esse sonho dourado dos democratas se materializa por aqui, no Brasil estamos completamente alheios ao que está acontecendo neste país. Deveríamos estar discutindo intensamente o processo em curso na Argentina. Ao menos na blogosfera. Mas a discussão ainda é insipiente. Não estamos avançando nesse debate.

Diga, leitor, uma só proposta concreta para acabar com o oligopólio nas comunicações no Brasil. Nem um órgão para normatizar as comunicações conseguimos discutir nacionalmente. Globo, Folha, Estadão e Veja conseguiram interditar o debate porque o governo teme meramente tocar no assunto.

E o pior é que temos condições muito melhores para propor essa discussão. Não temos os problemas que têm os argentinos na economia, por exemplo, e o apoio popular ao governo brasileiro é muito maior do que ao governo argentino.

Aliás, nada que seja polêmico nós conseguimos discutir. Os crimes da ditadura, por exemplo. Os criminosos do regime militar argentino estão sendo julgados e até presos. Enquanto isso, os criminosos que torturaram e assassinaram pouco mais do que crianças durante a nossa ditadura zombam de suas vítimas e ainda se dão ao desfrute de fazer ataques a elas.

Os argentinos estão nos goleando sem parar no que diz respeito à democratização real de seu país. Que inveja.

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Da sua natureza [brasileira]

De Luis Fernando Veríssimo

Sorte nossa que as árvores não gemam e os animais não falem. Imagine se cada vez que se aproximasse uma motosserra as árvores começassem a gritar “Ai, ai, ai!” e aos bois não faltassem argumentos razoáveis para não querer entrar no matadouro.

Imagine porcos parlamentando em causa própria, galinhas bem articuladas reivindicando sua participação na renda dos ovos e gritando slogans contra o hábito bárbaro de comê-las, pássaros engaiolados fazendo discursos inflados pela liberdade.

Os únicos bichos que falam são os papagaios, mas até hoje não se tem notícia de um que defendesse os direitos dos outros. O papagaio tem voz, mas não tem consciência de classe.

A vida humana seria difícil se não pudéssemos colher uma beterraba sem ouvir as lamentações da sua família e insultos do resto da horta. Não deixaríamos de comer, claro. Nem beterrabas, nem bois ou galinhas, apesar dos seus protestos.

Mas o remorso, e uma correta noção da prepotência inerente à condição da espécie dominante, faria parte da nossa dieta. Teríamos uma idéia mais exata da nossa crueldade indispensável, sem a qual não viveríamos.

Sorte nossa que os vegetais e os animais não têm nem uma linguagem, quanto mais um discurso organizado. Não os comeríamos com a mesma empáfia se tivessem. O único consolo deles é que também padecemos da falta de comunicação: ainda não encontramos um jeito de negociar com os germes, convencer os vírus a nos pouparem com retórica e dar remorso em epidemias.

Eu às vezes fico pensando como seria se os brasileiros falassem. Se protestassem contra o que lhes fazem, se fizessem discursos indignados em todas as filas de matadouros, se cobrassem com veemência uma participação em tudo o que produzem para enriquecer os outros, reagissem a todas as mentiras que lhes dizem, reclamassem tudo que lhes foi negado e sonegado e se negassem a continuar sendo devorados, rotineiramente, em silêncio.

Não é da sua natureza, eu sei, só estou especulando. Ainda seriam dominados por quem domina a linguagem e, além de tudo, sabe que fala mais alto o que nem boca tem, o dinheiro. Mas pelo menos não os comeriam com a mesma empáfia.
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segunda-feira, 31 de maio de 2010

Contraponto 2366 - "Brasil vira modelo para a Argentina"

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31/05/2010

Brasil vira modelo para a Argentina

Blog do Favre -30/05/2010 - 14:51h

País deixou de olhar a Europa e os EUA como exemplo e passou a admirar o vizinho

Ariel Palacios
– O Estado de S.Paulo

Há 100 anos a Argentina se empenhava em imitar a Europa. Empresários, políticos e formadores de opinião sustentavam que o estilo de administração governamental e empresarial a seguir era o europeu.

A diplomacia local tentava adular o governo britânico com a esperança de entrar para o Commonwealth (comunidade britânica) e ter um pedaço permanente desse mercado. Nos anos 30, o chanceler Julio Roca provocou polêmica ao afirmar que a Argentina era “uma das joias da coroa britânica”.

Essa ideia de estar ligada à Europa por uma espécie de cordão umbilical comercial e cultural persistiu ao longo de nove décadas e intercalava-se com admirações pelos Estados Unidos.

O Brasil, durante o século 20, foi encarado inicialmente com desprezo e depois como rival econômico e político. Mas a crise de 2001-2002 alterou os modelos argentinos.

O país deixou de olhar para o Velho Continente e os EUA como exemplos. O Brasil deixou de ser visto como rival e começou a ser avaliado como líder regional e o novo modelo a seguir.

Muitos argentinos indicam que já existe uma relação de dependência com o Brasil. Um dos primeiros a trazer a imagem a público foi o empresário Franco Macri – símbolo do capitalismo local nos anos 90 – que, em 1995, afirmou: “Em breve, a Argentina se transformará no Estado número 27 do Brasil.” Há um mês, Macri repetiu o conceito, mas como fato consumado: “A Argentina é uma província do Brasil.”

Nos últimos meses, o peso crescente do Brasil no cenário mundial, junto com a expansão das empresas brasileiras na Argentina, fez com que o modelo agora seja o brasileiro. Jornais, revistas e programas de TV em Buenos Aires dedicam grande espaço ao “sucesso” do Brasil.

O analista Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos Nueva Mayoría, ressaltou ao Estado como o cenário entre os dois países deu um giro de 180 graus em um século: “Em 1910, o PIB argentino era o dobro do brasileiro. Mas em 2010 o PIB argentino é a quinta parte do brasileiro”.

Série de crises. As desventuras argentinas acentuaram-se a partir de 1975, quando começou uma série de seis pesadas crises econômicas, acompanhadas de turbulências políticas que implicaram a passagem de 16 presidentes (o Brasil teve sete presidentes nesse período). Além de fuga de divisas, a Argentina sofreu um êxodo de profissionais que minou a capacidade técnica do país.

No entanto, apesar das crises, o país consegue manter elevado IDH (índice de desenvolvimento da humano, que mede a qualidade de vida da população). No índice elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a Argentina ocupa o posto número 49 entre 180 países, o segundo lugar na América Latina, atrás do Chile (no ranking mundial, o Brasil está no 75.º lugar). Mas, quando o índice começou a ser elaborado, há 20 anos, a Argentina estava no 38.º lugar nesse ranking.

Sem estratégias. O ex-vice-ministro da Economia Orlando Ferreres disse ao Estado que, ao contrário do Brasil, a Argentina “careceu de estratégias de longo prazo”. Segundo o economista, por esse motivo o país vive um cenário no qual até a carne – símbolo nacional – possui uma presença cada vez maior do Brasil: “Frigoríficos argentinos são comprados por empresas brasileiras, com respaldo do BNDES, organismo que invejamos, sem similar na Argentina.”

Ceferino Reato, autor da primeira biografia de Lula escrita fora do Brasil – Lula, a Esquerda no Divã -, disse que os argentinos admiram do Brasil “a pujança dos empresários, a estabilidade econômica, o bom ambiente para negócios. Na política, admiramos o estilo negociador e conciliador das elites brasileiras.”

Os líderes da oposição na Argentina elogiam o Brasil para, por tabela, criticar o governo da presidente Cristina Kirchner. Mas esse fenômeno também é usado na contramão pela presidente Cristina, que há uma semana afirmou ter “melhor relacionamento com os empresários brasileiros que investem na Argentina do que com os próprios industriais argentinos”.

No discurso de lançamento de campanha, em 2007, Cristina Kirchner citou uma única empresa – a Embraer – como modelo a ser imitado.

Produtos brasileiros. Os produtos “made in Brazil” já fazem parte do cotidiano dos argentinos e resistem a qualquer tentativa de boicote. Ao longo da década, em várias ocasiões, sindicatos e associações empresariais tentaram deflagrar campanhas contra produtos brasileiros. Todas fracassaram.

Um portenho pode acordar de manhã, lavar o rosto e secá-lo com uma toalha da Coteminas, produzida na Província de Santiago del Estero.

Depois, poderá vestir um jeans (70% do denim argentino está em mãos de empresas brasileiras) e colocar nos pés um calçado produzido pela indústria brasileira Paquetá em Chivilcoy. Na sequência, ao sair de casa em seu automóvel, abasteceria o tanque em um posto de gasolina da Petrobrás.

Na hora do almoço, em restaurante construído com cimento da Loma Negra (comprada pela Camargo Correa), poderia saborear um bife de um dos vários frigoríficos brasileiros – entre eles o Friboi e Marfrig – que nos últimos anos adquiriram empresas na Argentina. Na hora de pagar, poderá fazê-lo com seu cartão de débito do banco Itaú.
Postado por Luis Favre.
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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Contraponto 908 - Argentina segue os passos do Brasil

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08/12/2009

A integração Argentina-Brasil

Nassif - 07/12/2009 - 11:34
Por Eduardo Willians

Nassif,

A Argentina anda meio fora da pauta dos assuntos nacionais (o nosso crescimento econômico mudou as coisas não é mesmo?).

Na página do Clarín há uma coluna interessante sobre o que talvez esteja sendo discutido na Argentina hoje em relação ao Brasil. O subtítulo diz em tradução livre:

“O novo rol que ocupa o país vizinho na economia mundial obriga ao nosso [país] definir que tipo de integração irá buscar para tirar proveito do crescimento do sócio mais velho do Mercosul”.

Dentre outras coisas a coluna fala sobre as perspectivas do Brasil crescer 5% em 2010 e sobre a Copa e as Olimpíadas que farão haver um processo forte de investimento em infraestrutura. Em outro ponto afirma:

“Nosso país deve oferecer acompanhar o Brasil em seus posicionamentos a nível internacional*, consolidar uma posição comum que pode ajudar a abrir mercados.”

Vale a pena ser lido. O endereço é:

http://www.ieco.clarin.com/economia/Argentina-Recetas-Brasil-pierda-tren_0_80400042.html
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sábado, 10 de outubro de 2009

Contraponto 456 - Argentina: lei da radiodifusão


10/10/2009

Cristina Kirchner mexeu no vespeiro

Tijolaço - outubro 10th, 2009 às 10:05

Manifestantes festejam nova lei na Argentina

O Senado argentino aprovou hoje de madrugada, por 44 a 22 votos, a nova lei de meios de comunicação do país, respeitando, na íntegra, o texto do projeto do governo da presidente Cristina Kirchner que tinha gerado fortes críticas da oposição. O texto já tinha sido aprovado, também sem modificações, na Câmara dos Deputados.

Embora, do lado de fora do Senado, o clima fosse de manifestações alegres, pedindo democracia nas comunicações, vem aí uma dura batalha para o governo argentino.

A nova lei amplia a regulação dos meios de comunicação audiovisuais por parte do Estado. Determina, por exemplo, que uma mesma empresa não possa possuir canais de TV aberta e a cabo e reduz de 24 para dez o limite das concessões de rádio e TV em mãos de um mesmo proprietário. Cria uma entidade de supervisão das comunicações, com a presença da sociedade civil e do governo.

A perspectiva de aprovação da lei já tem valido uma intensa campanha de oposição dos grandes meios de comunicação argentinos, sobretudo do grupo Clarín, o maior do país. Ele terá de escolher entre o canal 13 e a emissora de TV a cabo, TN (Todo Notícias). Nos últimos dias, a TN colocou mensagens no ar, dizendo que “pode desaparecer”. O rádio também terá canais para empresas, governo e entidade sociais não comerciais.

A oposição a Cristina Kirchner já planeja ir ao Judiciário.

Aqui no Brasil, em dezembro, haverá a I Conferência Brasileira de Comunicação, que deve lançar as bases para a discussão de uma nova Lei Geral de Comunicação. Mesmo que ninguém espere dela uma mudança tão produnda como fez a Argentina, as empresas de comunicação ameaçam boicotá-la. Comunicação, para muitos, não é uma atividade social, mas apenas empresarial.

Quem quiser saber mais sobre a lei argentina, pode acessar aqui o artigo do Professor Venício Lima, no Observatório da Imprensa.
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