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quinta-feira, 16 de junho de 2011

Contraponto 5568 - "Brasil vai ajudar a implementar o Bolsa Família no Irã"

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16/07/2011

Brasil vai ajudar a implementar o Bolsa Família no Irã

Do Amigos do Brasil - Quarta-feira 15, junho 2011


O Brasil vai ajudar o Irã a implementar o Bolsa Família, programas equivalentes ao Brasil sem Miséria e programas de capacitação de trabalhadores. Em Genebra, os ministros dos dois países se reuniram, nesta terça-feira, 14, para acertar os detalhes da iniciativa, justamente em um momento em que o Irã começa a sentir o maior impacto do embargo econômico e comercial que lhe é imposto pela ONU.

Em Teerã, diplomatas confirmaram ao jornal O Estado de São Paulo que um dos temores do regime é de que crise social alimente ainda mais a tensão e pressione por uma queda do atual regime. Na Tunísia e Egito, governos que se mantinham no poder há décadas só foram derrubados quando a situação social de milhões de pessoas sem trabalho ficou insustentável. Os iranianos querem evitar a repetição desse cenário. Abdolreza Sheikholeslami, ministro do Trabalho do Irã, indicou que seu governo quer criar 2,3 milhões de postos de trabalho no País até 2012. Para isso, quer a ajuda dos programas sociais brasileiros e de treinamento.

Na terça-feira, 14, o governo brasileiro insistia que via com naturalidade a cooperação com Teerã. “Nós falamos com todos os países e vamos cooperar com quem nos peça cooperação, incluindo o Irã”, disse Carlos Lupi, ministro do Trabalho do Brasil, após a reunião de mais de uma hora com a delegação iraniana. Lupi evitou dar detalhes de como seria a adoção dos projetos. Mas indicou que o governo brasileiro ajudará o regime de Mahmoud Ahmadinejad a montar uma espécie de rede social. Lupi confirmou que o pedido veio de Teerã.

A diplomacia de Dilma Rousseff havia dado sinais de que adotaria uma nova postura em relação a ditaduras, como a do Irã. Na ONU, votou contra Teerã em relação aos direitos humanos e teceu críticas às violações de direitos humanos. Mas as ações do governo mostram que esse posicionamento não significa um rompimento com Teerã. Há uma semana, o Palácio do Planalto se recusou a receber a prêmio Nobel da Paz, a ativista iraniana Shirin Ebadi. Na terça-feira, fechou com Teerã o início dos trabalhos para exportar seus programas sociais ao país.

Diante de um bloqueio comercial e de uma economia cada vez mais fragilizada, o Irã soma hoje quase 15% de desemprego. Entre os jovens, a taxa de desemprego seria de quase 30%. Desde 2008, o Fundo Monetário Internacional vem alertando para uma ” fuga de cérebros ” do país. Parte seria por conta da repressão, mas parte também por conta da falta de postos de trabalho para aqueles que deixam as universidades. Segundo o FMI, cerca de 180 mil iranianos tem deixado o país a cada ano em busca de uma vida melhor no exterior. Lupi deixou a reunião com o iraniano com presentes: uma bolsa de estilo persa, pistaches e uma caixa com outro agrado de Teerã.

Por Helena
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sábado, 29 de janeiro de 2011

Contraponto 4565 - "Brasil descobre o Egito"

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29/01/2011
Brasil descobre o Egito

Do Blog Cidadania - 29/01/2011

Eduardo Guimarães

De repente, não mais do que de repente, os brasileiros descobriram um país chamado Egito, suas contradições e o sofrimento do seu povo, imposto por um regime ditatorial a que está submetido desde 1981, há exatos 30 anos, por obra e graça do ditador Mohamed Hosni Mubarak, quem, durante esse tempo todo, só disputou eleições consigo mesmo.

Apesar de ser um dos berços da civilização humana, porém, até há pouco nada sabíamos sobre o país além de que tem pirâmides, esfinges e do que nos informou Hollywood no decorrer da vida com seus filmes bobalhões sobre múmias egípcias que ressuscitam para nos aterrorizar ou com aquelas versões pasteurizadas sobre a saga de Cleopatra, a Rainha do Nilo.

Somos mantidos na ignorância pela mídia ideológica que controla as comunicações e até a própria cultura, no Brasil. Por isso, temos conhecimentos seletivos e limitados sobre a geopolítica mundial.

Sobre um país como Irã, no entanto, onde as eleições, ainda que pouco transparentes, pelo menos têm candidatos de oposição, supostamente sabemos muito, mas o que sabemos são informações filtradas que nos dão só o lado oposicionista da história por lá.

Só poderia ser assim mesmo, porque o Egito, à diferença do Irã, é uma daquelas ditaduras “do bem” que os Estados Unidos e a mídia “brasileira” poupam de críticas porque se submetem aos interesses geopolíticos, comerciais e estratégico-militares dos americanos.

Então, de repente, com a verdadeira avalanche de imagens que se abateu sobre o mundo dando conta da repressão que o ditador egípcio desencadeou sobre um povo aparentemente disposto a não aceitar mais viver sob seu regime de força, a mídia serviçal dos EUA teve que expor uma de suas ditaduras de estimação, contra a qual não costuma dizer um A.

Os choques entre população egípcia e as forças de repressão da ditadura, portanto, estão sendo de um grande didatismo para a humanidade, ao deixarem claras as hipocrisias americana e midiática, que mantêm regimes contrários aos EUA sob fogo cerrado enquanto silenciam sobre os regimes simpáticos à potência decadente do Norte por mais criminosos que sejam.

O Brasil nunca conheceu o Egito para além da versão hollywoodiana de sua realidade e de sua história, mas a tecnologia, porém, vai mudando isso. Se após tanto tempo finalmente os brasileiros descobriram que há ditaduras criticáveis e acima de críticas no Oriente Médio, foi graças à internet, que permitiu aos egípcios reprimidos contarem ao mundo a versão deles.

Não esperem editoriais furiosos contra o Egito, porém. Nem aqui, nem nos EUA. Em breve, assim que o ditador Mubarak conseguir enquadrar a população por meio dos bilhões de dólares em armas que os americanos despejam anualmente naquele país, aquela ditadura voltará para debaixo do manto de silêncio midiático.
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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Contraponto 2914 - "EUA anunciam que têm plano de ataque ao Irã"

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02/08/2010
EUA anunciam que têm plano de ataque ao Irã

Portal Vermelho - 02/08/2010

As tensões entre os Estados Unidos e o Irã voltaram a emergir ontem, depois que o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas americanas, almirante Mike Mullen, afirmou que seu país tem um plano pronto para atacar o Irã. "A opção militar tem estado sobre a mesa e segue sobre a mesa", afirmou Mullen, o militar de maior hierarquia no país, no programa "Meet the Press", da TV NBC. "É uma das opções que o presidente (Barack Obama) tem."

Ele ressaltou, no entanto, que uma ação militar seria provavelmente uma má ideia e que está extremamente preocupado com as consequências que uma ofensiva como essa pode ter. "De novo, espero que nós não cheguemos a esse ponto, mas é uma opção importante e que é muito bem entendida (pelo Irã)", declarou o oficial.

Os EUA dizem promover política de mão dupla em relação ao país persa - que defende a via diplomática - mas não prescinde das pressões, como no caso da aprovação de novas sanções contra Teerã, há dois meses, no Conselho de Segurança da ONU.

Mullen alertou, no entanto, que o eventual ataque ao Irã teria consequências imprevisíveis para a estabilidade de todo o Oriente Médio e poderia ter um efeito em cascata. Questionado sobre se o que o preocupa mais são as consequências de uma guerra ou a possibilidade de um Irã nuclear, o militar se disse "extremamente preocupado com as duas" possibilidades. Mullen não entrou em detalhe sobre o suposto plano.

As ameaças dos EUA ocorrem no momento em que o Exército norte-americano se prepara para ativar um escudo antimíssil no sul da Europa como parte dos esforços para impedir o programa nuclear iraniano. Embora o Irã, que é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear, assegure que enriquece urânio apenas para fins pacíficos, os Estados Únicos - mesma potência responsável pelo ataque nuclear a Hiroshima e Nagasaki - afirma que o objetivo da nação é desenvolver armas.

Reação

As declarações do chefe das Forças Armadas americanas foram rebatidas ainda ontem por líderes iranianos, que prometeram "resposta esmagadora" a um ataque. O número dois da Guarda Revolucionária, Yadollah Javani, disse que a segurança do golfo Pérsico, de grande importância para o comércio de petróleo, estará ameaçada "no caso de os americanos cometerem o menor deslize".

"Segurança no Golfo Pérsico para todos ou para ninguém. O Golfo é uma região estratégica. Se a segurança nessa região ficar comprometida, eles sofrerão também, e nossa resposta será dura. O Irã dará uma resposta esmagadora aos inimigos", disse, de acordo com a agência semioficial iraniana Irna.

Os EUA e Israel já declararam no passado que a opção de atacar o Irã deve ser mantida sobre a mesa, mas evitavam dizer se havia um plano pronto para isso. Ontem, o embaixador iraniano na ONU alertou que Teerã atacaria Tel Aviv se Israel se atravesse a agredir o Irã. "Se o regime sionista cometer a menor das agressões contra o solo iraniano, vamos deixar Tel Aviv em chamas", ameaçou Mohammad Khazai.

Cara a cara com Obama

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, disse nesta segunda-feira (2) que está disposto a manter um diálogo "cara a cara" com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para tratar de "questões mundiais". Em discurso transmitido pela televisão estatal iraniana, Ahmadinejad deu a entender que gostaria de encontrar Obama em Nova York, nos EUA, durante a Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), prevista para setembro.

"Tenho que viajar em setembro a Nova York para participar na Assembleia Geral das Nações Unidas. Estou disposto a sentar com Obama, cara a cara, de homem para homem, para falar livremente sobre questões mundiais, diante dos meios de comunicação, para encontrar uma melhor solução", colocou.

Brasil

Já o ministro brasileiro do Exterior, Celso Amorim, disse estar "muito otimista" sobre a possibilidade de o Irã e as potências nucleares reatarem negociações em breve. Em entrevista ao jornal argentino "Clarín", o chanceler afirmou que, "se houver negociações", o Irã pode suspender o enriquecimento de urânio a 20% -nível próprio apenas para fins medicinais.

Para manter a hegemonia, a força

A existência do plano para atacar o Irã é uma demonstração cabal de que o imperialismo estadunidense continua apostando na ação militar, desfazendo as ilusões quanto a uma suposta tendência pacifista e democrática da atual administração.

Os Estados Unidos não abrem mão da hegemonia mundial nem da primazia militar. Isto representa um foco permanente de tensões e conflitos na conjuntura mundial.

As reafirmações recentes de autoridades norte-americanas da política de “guerra ao terrorismo” formulada durante o governo Bush (2001-2008) e a escalada dos preparativos de um ataque contra o Irã trazem a discussão sobre o perigo de guerra na atual conjuntura do terreno das elucubrações para o da política concreta, exigindo resposta das forças progressistas e amantes da paz em todo o mundo.

Com agências
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domingo, 25 de julho de 2010

Contraponto 2845 - "Brasil, Turquia e Irã retomam negociações sobre programa nuclear"

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25/07/2010


Brasil, Turquia e Irã retomam negociações sobre programa nuclear

Irã
Renata Giraldi
Repórter da Agência Brasil

Um mês e meio depois que o Conselho de Segurança das Nações Unidas impôs uma série de sanções ao Irã, o Brasil e a Turquia voltam a discutir sobre o programa nuclear iraniano. Os ministros das Relações Exteriores iraniano, brasileiro e turco têm um almoço marcado para domingo (25), em Istambul, na Turquia. Antes, os ministros brasileiro Celso Amorim e o turco, Ahmet Davutoglu, têm uma reunião separada.
Diplomatas brasileiros que acompanham o assunto afirmaram à Agência Brasil que o almoço entre os representantes dos três países é uma resposta a um pedido do ministro das Relações Exteriores do Irã, Manuchehr Mottaki. Ao final do encontro, os chanceleres deverão conceder uma entrevista coletiva.

A conversa ocorre no momento em que o Irã é alvo de uma série de medidas restritivas impostas não só pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, como também pelos Estados Unidos, pelo Canadá e também pela União Europeia. As restrições atingem diretamente as áreas comercial e militar do Irã. A iniciativa é uma punição ao governo iraniano por suspeitar que há produção de armas atômicas.

Em 17 de maio, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e o iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, além do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, fecharam um acordo para tentar encerrar o impasse em torno do programa nuclear. Pelo acordo, o Irã envia 1,2 tonelada de urânio enriquecido a 3,5% para a Turquia. Em troca, no prazo de até um ano, receberá 120 quilos do produto enriquecido a 20%.

Porém, a maior parte da comunidade internacional rejeitou o acordo optando pela adoção de sanções ao Irã. Uma das justificativas é que no mesmo momento em que se negociava o acordo o Irã avisou que enriqueceria o urânio a 90%, o que teoricamente poderia ser aplicado na fabricação de armamentos.

No entanto, o governo Ahmadinejad nega todas as suspeitas. O presidente e assessores informam que o programa nuclear iraniano tem fins pacíficos. Há planos para a utilização de fabricação de medicamentos e geração de energia. Mas os Estados Unidos e parte da comunidade internacional não confiam nestas informações.

Com isso, em 9 de junho, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas com o apoio da maioria dos integrantes aprovou as sanções ao Irã. Apenas o Brasil e a Turquia votaram contrariamente às medidas. O Líbano se absteve. O governo brasileiro lamentou a decisão informando que as restrições não colaboram para a construção do diálogo e só incentivam a tensão no cenário internacional.
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domingo, 4 de julho de 2010

Contraponto 2656 - "Brasil e Irã: os nossos motivos"


04/07/2010
Brasil e Irã: os nossos motivos
Do Nassif

Enviado por luisnassif, sab, 03/07/2010 - 19:00
Tomás Rosa Bueno
Por Tomás Rosa Bueno

Apesar do que não se cansam de repetir os adeptos da diplomacia descalça, não há nada sequer remotamente parecido a antiamericanismo na posição brasileira sobre o Irã: os nossos motivos, ao contrário dos do trio de intrometidos (EUA, França, Reino Unido), são claros e transparentes, declarados abertamente diversas vezes.

Somos a favor do desenvolvimento pacífico da energia nuclear. Não acreditamos que haja provas de que o Irã tenha um programa nuclear militar secreto. Defendendo o Irã, estamos defendendo o nosso próprio direito a dominar o ciclo completo da fabricação de combustível nuclear, estamos defendendo o nosso direito a desenvolver a nossa própria tecnologia de enriquecimento, estamos defendendo o nosso direito a construirmos nós mesmos os reatores que vão mover os nossos submarinos nucleares que vão defender a nossa soberania. Nem mais, nem menos. Queremos para o Irã apenas o que queremos para nós mesmo.

Não há nenhuma prova de que o Irã esteja tentando fazer armas nucleares, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, único organismo internacional que tem autoridade para falar do assunto e é relativamente isento, porque dirigido por um conselho de 32 países, difícil de manipular e pressionar.. Não é preciso acreditar no que eu digo, basta ler os relatórios da AIEA, aqui, na página da AIEA sobre o Irã; e o mais recente, aqui, em espanhol.

O que a AIEA faz para deixar felizes o trio de intrometidos e os sócios menores deles, a China e a Rússia, é afirmar, depois de dizer com todas as letras que o programa nuclear iraniano é inteiramente monitorado e vigiado e que não há nenhum indício de “desvio de propósitos”, que não é possível afirmar que não haja um programa secreto. Ora, a mesmíssima coisa pode ser dita sobre o Brasil, sobre a Coreia do Sul, sobre Taiwan, até sobre a Argentina. O Irã é signatário do TNP e, segundo afirmou a AIEA repetidas vezes, cumpre estritamente todas as salvaguardas estabelecidas por esse órgão da ONU.

A AIEA, porém, marotamente, queixa-se de que o Irã se nega a cumprir resoluções do Conselho de Segurança que são ilegais, posto que é um direito do Irã ter um programa de enriquecimento de urânio, e ninguém, nem o Conselho de Segurança, tem o poder legal de impedir que o Irã desenvolva tecnologia nuclear dentro dos limites estabelecidos pelo TNP sem haver provas cabais de que esses limites estejam sendo excedidos. Queixa-se de que o Irã não adere aos Protocolos Adicionais, que são de adesão voluntária – o Brasil, por exemplo, não aderiu e denuncia os PAs como atentatórios à soberania nacional (e o primeiro que se recusou a assiná-los foi o FHC, antes que os diplomatas descalços comecem a ladainha do antiamericansmo, pelos mesmos motivos que o Lula). E pretende que o Irã permita que os inspetores da ONU visitem os locais onde as centrífugas são projetadas e fabricadas, o que não só não é obrigação nem do Irã nem de nenhum outro signatário do TNP como é uma exigência absurda: um país sob ameaça de um ataque militar por duas potências nucleares (uma das quais acaba de reformar as suas posturas nucleares para incluir a possibilidade de um ataque nuclear contra um país não nuclear -- uma óbvia violação dos princípios do TNP) não pode revelar os locais onde é fabricado o equipamento que lhe permitirá reconstruir o que for bombardeado, ou esses locais serão os primeiros alvos.

O Irã garante aos inspetores da ONU mais acesso que o Brasil, por exemplo, que, alegando razões de segredo industrial, não permite que eles nem vejam o que acontece dentro das nossas centrífugas: podem ver o que entra por uma ponta elas e o que sai pela outra, mas não o que acontece entre uma ponta e outra; o Brasil, a Coreia do Sul e Taiwan tampouco revelam os locais de produção das centrífugas; e não sei sobre os outros, mas o Brasil, em plena conformidade com as salvaguardas negociadas com a AIEA pelo governo brasileiro por ocasião da nossa adesão ao TNP, em 1997, não permite nenhum acesso ao programa de desenvolvimento dos reatores que serão usados em submarinos, alegando segredo militar – nós temos um programa nuclear militar, o Irã, não.

O governo iraniano chegou inclusive a assinar voluntariamente os termos invasivos dos Protocolos Adicionais do TNP em 2003, permitindo acesso irrestrito e não anunciado de inspetores da ONU a qualquer lugar do país em que pudesse haver, na opinião deles, qualquer coisa relacionada ao desenvolvimento de armas atômicas; mas retirou-se deles quase dois anos depois, ao verificar que escancarar tudo e submeter-se a ter inspetores escarafunchando por toda parte não adiantava nada para diminuir as suspeitas do “Ocidente” – porque, é claro, essas “suspeitas” são e sempre foram infundadas, e por isto resistem a qualquer prova contrária.

Portanto, se apesar de todas as garantias e tentativas de negociação do Irã desde a morte do Khomeini, apesar de o Irã não ter capacidade tecnológica para enriquecer urânio aos níveis necessários para fazer armas atômicas, apesar de o Irã não dominar a tecnologia de reprocessamento e de produção de plutônio, apesar de o programa nuclear iraniano estar sujeito à estrita vigilância da AIEA na forma de inspeções in loco e em câmeras instaladas em todos os locais ligados à produção de UBE a 3,5% e a 20%, apesar de o Irã ter adiado o início do enriquecimento a 20% para que a AIEA pudesse inspecionar as centrífugas e instalar câmeras de vigilância, apesar de todo o material físsil iraniano estar plenamente contabilizado e rastreado, apesar de o Irã, para facilitar as negociações, ter em diversas ocasiões aceitado suspender as atividades de enriquecimento a que tem direito, apesar de o Irã ter acertado com o Brasil e a Turquia uma acordo de exportação da maior parte do seu UBE segundo os exatos termos propostos pelo Grupo de Viena e estar cumprindo a sua parte mesmo tendo sido sujeito a novas sanções, mesmo assim continua sendo oficialmente acusado de ser “pouco transparente” e de ter um programa militar secreto, e extra-oficialmente de estar à beira de fazer uma bomba atômica (ler aqui como se faz para mentir sobre o Irã sem parecer). E, aos poucos, o que era extrapolação da imprensa mais raivosa vai-se transformando na base da próxima rodada de mentiras oficiais.

Ou seja, é evidente que a possibilidade de o Irã estar tentando fazer armas nucleares não passa de uma desculpa, sustentada por mentiras, com motivos inconfessáveis.

Logo, se foi possível mentir descaradamente sobre as “armas de destruição em massa” do Saddam Hussein e depois devastar o Iraque, se é possível mentir despudoradamente sobre o programa nuclear militar do Irã e ameaçar os iranianos com um ataque militar, o que é que garante que a mesma coisa não vai acontecer conosco amanhã? Hoje somos amigos e aliados dos Estados Unidos, e até acabamos de assinar um acordo de cooperação militar com eles; mas quem pode dizer em que estado estarão as nossas relações dentro de dois, dez, vinte anos? Se os EUA, a França e o Reino Unido têm hoje motivos para quererem atacar o Irã, que não se sabe muito bem quais são, quem seria capaz de jurar que não vão encontrar uma penca de motivos semelhantes para querer atacar o Brasil, ou impedir que desenvolvamos esta ou aquela tecnologia, se isto lhes for conveniente?

Se permitirmos que o Irã seja ilegalmente impedido de desenvolver o programa nuclear pacífico a que tem direito, o TNP será letra morta, e poderemos ser submetidos ao mesmo tratamento no futuro. O ataque ilegal contra os direitos do Irã e a preparação de mais uma intervenção militar ilegal contra um país soberano sob pretextos evidentemente falsos precisa ser detido agora, enquanto ainda é possível. O Brasil tem o dever de defender os direitos dos iranianos hoje, sob pena de pôr em risco os nossos próprios direitos no futuro. A nossa condição de potência com influência global a que nos leva o estágio de desenvolvimento em que nos encontramos e a própria continuidade desse desenvolvimento dependem do apoio irrestrito ao direito do povo iraniano de desenvolver um programa nuclear pacífico, sem interferências, ameaças e agressões.

A Rússia e a China têm lá os seus motivos, alguns até compreensíveis mas quase todos venais e nenhum relativo ao programa nuclear, para apoiarem a tentativa de empurrar o Irã contra a parede. Os EUA, a Grã-Bretanha e a França têm uma longuíssima folha corrida de intromissão nos assuntos dos países do Oriente Médio, e não é surpresa nenhuma que queiram agora atacar mais um da lista de países da região que invadiram desde o século XVIII – todos, com exceção do Irã e da Turquia moderna, pós-império otomano. E os outros sete países, entre os quais dois – Bósnia-Herzegovina e Uganda, cujos PIBs equivalem ao orçamento do Bolsa-Família e um – o Togo - com um PIB menor que o orçamento de educação do estado da Bahia, cederam ao formidável poder de pressão e chantagem, dos Estados Unidos e das ex-potências coloniais que mais miséria causaram no Oriente Médio ao longo dos últimos dois séculos. O poder de pressão do trio intrometido foi ensaiado até contra nós e quase teve êxito contra a Turquia às vésperas do acordo BIT – que só saiu por insistência do presidente brasileiro.

Os países que não foram submetidos a essas pressões, a Indonésia, a Índia, os países da Ásia Central, o Paquistão, a Africa do Sul e a maioria dos países africanos que se manifestaram sobre o assunto, Portugal, Noruega (ambos parte da UE, oficialmente pró-sanções), toda a América do Sul com exceção da Colômbia e do Chile, toda a América Central com exceção do Panamá, os 57 países da Organização da Conferência Islâmica e os 116 países do Movimento Não Alinhado, Egito à frente, declararam-se contra a imposição de novas sanções. E todos os países do mundo, inclusive a França e com exceção dos poucos que ficaram quietos a respeito, dos EUA, do Canadá, da Austrália e do Reino Unido, aclamaram o acordo BIT.

O Brasil tem agora a obrigação de estar à altura da confiança e da solidariedade de que foi objeto por parte da comunidade internacional real e ser fiel aos princípios afirmados nas negociações que levaram ao acordo, defendendo por todos os meios o caminho da negociação e do diálogo na solução do impasse iraniano.
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sábado, 12 de junho de 2010

Contraponto 2483 - “Presidente Obama, negocie com o Irã sem precondições!”

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12/06/2010


“Presidente Obama, negocie com o Irã sem precondições!”

Viomundo - 11 de junho de 2010 às 16:53

9/6/2010
por Robert Naiman*, CommonDreams – traduzido por Caia Fittipaldi

“[Em 1951], para evitar que o Irã explorasse com sucesso o próprio petróleo que acabava de ser nacionalizado, os britânicos ordenaram que todos os técnicos [da British Petroleum] retornassem à Grã-Bretanha e moveram campanha de boicote ao Irã, para impedir que o país contratasse técnicos de outros países. Ao mesmo tempo, persuadiram outras empresas de petróleo, inclusive norte-americanas, a não comprar petróleo iraniano; impuseram boicote naval ao Irã, para impedir que navios-petroleiros atracassem para receber petróleo; congelaram todas as contas do Irã em Londres; e suspenderam todas as exportações de artigos de primeira necessidade para o Irã. A história soa familiar, em 2010?”

Até há pouco tempo, parecia que a Turquia teria papel bem claramente definido no Oriente Médio, do ponto de vista da política dos EUA. Os turcos eram os “muçulmanos bons”, integrados à OTAN, sempre houve soldados turcos ao lado de soldados norte-americanos nas guerras dos EUA; e a Turquia mantinha boas relações com Israel.

Nas últimas semanas, contudo, alguns norte-americanos podem ter-se assustado, ao ver o governo da Turquia em papel visivelmente diferente desse. Primeiro, em ação conjunta com o Brasil, a Turquia articulou um acordo de troca de urânio baixo enriquecido por combustível nuclear, pelo qual se superaria o impasse em torno do programa nuclear iraniano e que poderia fazer gorar os planos de EUA e Israel para impor novas sanções ao Irã, mediante a ONU. Por mais que o acordo fosse muito semelhante ao que propusera o presidente Obama – e Brasil e Turquia têm cartas de Obama, estimulando-os a trabalhar para construir o acordo –, parte do governo Obama bombardeou o acordo. Em vez de manifestar gratidão a Turquia e Brasil, o governo Obama montou um show de “sentir-se incomodado”.

Por sua vez, em vez de Brasil e Turquia sentirem-se repreendidos e desmentir-se, os dois países insistiram em que o acordo é bom – como argumento, invocaram as cartas recebidas de Obama – e insistiram em que os EUA melhor fariam se honrassem o acordo.

Simultaneamente – e com resultados muito mais espetaculares, como os fatos logo demonstraram –, a Turquia apoiava indiretamente a organização de um comboio de navios para levar ajuda humanitária a Gaza, como protesto e em aberto desafio ao sítio de Gaza, imposto por Israel e Egito e apoiado pelos EUA, contra população civil palestina. Quando os soldados israelenses atacaram o comboio, matando nove cidadãos turcos, a Turquia ameaçou romper relações diplomáticas com Israel, exigindo que Israel se desculpasse, que aceitasse que uma comissão independente internacional investigasse o ataque; e que levantasse o bloqueio de Gaza. No mesmo movimento, a Turquia criticou duramente a evidência de que o governo Obama não condenaria o ataque israelense, nem apoiaria a investigação independente. No bojo desse claro movimento de confrontação, o Egito anunciou que abriria, por tempo indeterminado, a fronteira com Gaza; e chegou mesmo a declarar que, na prática, “o bloqueio já não existia”.

A nova política externa da Turquia, política de independência, implica alguma ameaça aos EUA? Ou, bem diferente disso, a nova política turca cria uma nova oportunidade para um novo alinhamento que reforme e esvazie os atuais conflitos no Oriente Médio ampliado?

A maioria dos norte-americanos é absolutamente ignorante sobre a Turquia. Por isso, muitos acreditaram quando Liz Cheney declarou que “parece que” a Turquia “está apoiando o Hamás” nos planos “para destruir o Estado de Israel”.

É muito boa hora, portanto, para ouvir o que tem a dizer o ex-correspondente do New York Times e autor consagrado, Stephen Kinzer, cujo novo livro Reset: Iran, Turkey, and America’s Future [“Reiniciar: o futuro de Irã, Turquia e EUA”], foi lançado anteontem.

Kinzer argumenta que o mundo já mudou suficientemente, desde a Guerra Fria, a ponto de, hoje, já ser interessante para os EUA reavaliar completamente os relacionamentos dos EUA no Oriente Médio. Que é hora de desistir de um excessivo apego às políticas correntes dos governos israelense e sauditas. E que é hora de pensar em construir maior cooperação com Turquia e Irã. Isso, claro, considerados os interesses dos EUA.

Para muitos norte-americanos, a ideia de Kinzer, de refazer as bases do relacionamento com Turquia e Irã, talvez soe contra-intuitiva, sobretudo no que tenha a ver com o Irã. Mas o fundamento do argumento de Kinzer é uma visão estratégica de futuro que não é simples extrapolação do presente. Por isso consegue pensar num realinhamento fundamentalmente diferente, como o que Nixon anteviu como possibilidade para novo relacionamento com a China, “baseado em interesses mútuos e respeito”, como lembrou o presidente Obama em discurso ao Parlamento turco em abril de 2009.

Kinzer começa seu raciocínio com uma história de Howard Baskerville, o Rachel Corrie, se quiserem, das relações EUA-Irã. HB foi um jovem norte-americano, cuja vida e morte sugerem a possibilidade de relacionamento diferente entre EUA e Irã, baseado em compreensão nas aspirações nacionais dos iranianos. Baskerville foi professor presbiteriano de Nebraska, que trabalhava na cidade de Tabriz quando as forças do rei, apoiadas por Rússia e Grã-Bretanha – que em 1907 haviam dividido o país em duas esferas de influência – sitiaram Tabriz durante a Revolução Constitucional. Baskerville – como os nove turcos – tentava romper aquele sítio, quando foi morto, em abril de 1909. Hoje, conta Kinzer, Baskerville é dos heróis estrangeiros mais honrados e amados no Irã: há escolas e ruas com seu nome; no Palácio da Constituição, em Tabriz, há um busto dele.

Outro norte-americano no Irã, naquele período, cuja contribuição sugere a possibilidade de relacionamento diferente entre EUA e Irã foi Morgan Shuster, indicado Tesoureiro Geral da Pérsia, pelo Parlamento iraniano, em maio de 1911. Essa indicação visava a resistir contra o controle de britânicos e russos. Shuster dizia que seria fundamental pra o funcionamento efetivo do Estado iraniano que o próprio Estado recolhesse os próprios impostos – inclusive impostos devidos pelos ricos proprietários de terras que viviam sob proteção de britânicos e russos. Britânicos e russos não aceitaram e, em dezembro de 1911, a Rússia exigiu que o Parlamento demitisse Shuster em 24 horas; alegou que nenhuma nomeação seria válida, sem a permissão de russos e britânicos. Quando o Parlamento recusou-se a obedecer, as tropas russas ocuparam Teerã. Afinal, sob pressão militar de russos e britânicos, Shuster foi demitido.

Em fevereiro de 1921, ante a ampliação da resistência iraniana contra o controle britânico, o comandante geral das forças britânicas no Irã, general Edmond Ironside, disse ao Xá Reza que, se encenasse um golpe, os britânicos não se oporiam. Quatro dias depois, o Xá Reza apresentou seu golpe, bem-sucedido. Embora o Xá Reza tenha chegado ao poder com o apoio dos britânicos, mesmo assim tomou várias medidas para limitar a influência britânica; quando tentou manter a neutralidade do Irã, na II Guerra Mundial, os britânicos o obrigaram a renunciar em favor do filho, Xá Mohammad Reza, em setembro de 1941.

Depois da guerra, muitos iranianos esperavam mais democracia e mais independência em relação aos britânicos. Em 1950, Mohammad Mossadegh encarnava, pessoalmente, essas duas bandeiras. Quando os norte-americanos da empresa Aramco de petróleo, fizeram uma partilha, meio a meio, com a Arábia Saudita, dos ganhos com o petróleo, os iranianos exigiram acordo semelhante, da Anglo-Iranian Oil Company, controlada pelos britânicos, hoje conhecida como British Petroleum. Os britânicos negaram-se a aumentar os 16% que pagavam aos iranianos. Em resposta à negativa dos britânicos, que se recusaram a negociar, na primavera de 1951 o parlamento iraniano votou a lei de nacionalização do petróleo e designou Mossadegh primeiro-ministro.

Para evitar que o Irã explorasse com sucesso o próprio petróleo, os britânicos ordenaram que todos os técnicos retornassem à Europa e moveu campanha de boicote ao Irã, para impedir que o país contratasse técnicos de outros países. Ao mesmo tempo, persuadiu outras empresas de petróleo, inclusive norte-americanas, a não comprar petróleo iraniano; impôs boicote naval ao Irã, para impedir que navios-petroleiros atracassem para receber petróleo; congelou todas as contas do Irã em Londres; e suspendeu todas as exportações de artigos de primeira necessidade para o Irã. A história soa familiar?

Todas essas medidas, é claro, implicaram tremendas dificuldades econômicas para o Irã. Cresceram o desemprego e a miséria. Mas o governo iraniano de Mossadegh recusou-se a capitular ante a pressão dos britânicos. Os britânicos tentaram o jogo de “promover a democracia” –, subornando membros do Parlamento iraniano para que apoiassem uma moção de desconfiança contra Mossadegh. O complô foi descoberto, e Mossadegh expulsou todos os ‘diplomatas’ britânicos – inclusive, é claro, os espiões que lá trabalhavam e cuja única missão era derrubar seu governo – e fechou a embaixada britânica. Os britânicos recorreram ao governo Truman dos EUA, mas Truman não tinha qualquer interesse em derrubar governos no Irã e acreditava que o impasse era resultado de excessiva cobiça britânica. O problema foi que, imediatamente depois, o governo Eisenhower comprou, sem dificuldades, a ideia de derrubar Mossadegh.

Como Kermit Roosevelt, agente da CIA, orquestrou o golpe que derrubou Mossadegh? Hoje, seria mais uma ação de “promover a democracia” e muito provavelmente seria ação patrocinada pelo “National Endowment for Democracy”[1]. Roosevelt subornou “jornalistas, colunistas, mullahs e membros do Parlamento”, para uma campanha de ‘desqualificação’ de Mossadegh. Os jornais o chamavam de “ateu, judeu, homossexual e até, de espião britânico”, escreve Kinzer.

Roosevelt contratou gangues de rua para promoverem agitação em Teerã “atirando a esmo, quebrando vidros e gritando slogans como “Amamos Mossadegh e o Comunismo!”. Depois, Roosevelt contratou outra gangue de rua, para atacar a primeira, “para mostrar Mossadegh como governante incapaz de controlar até a vida na própria capital.” Uma multidão de vários milhares, sem saber que agia por inspiração da CIA, marchou sobre a casa de Mossadegh. Unidades militares iniciaram o bombardeio da casa. Morreram centenas de pessoas. Mossadegh foi preso e permaneceu encarcerado por três anos. Depois, foi posto sob prisão perpétua, em casa.

Se a ideia de Truman tivesse vencido, em vez da de Eisenhower, e se os EUA não tivessem derrubado o governo de Mossadegh, é possível que, hoje, Mossadegh fosse conhecido como um George Washington do Irã. O “assassinato do pai de Hamlet” na história de Kinzer está em que, em vez de apoiar um George Washington do Irã, os EUA o derrubaram… porque ele nacionalizara o petróleo iraniano.

A questão central do argumento e do livro de Kinzer não é vingar a morte do pai de Hamlet, mas tentar corrigir o erro. A meta é que, no último ato, não reste aos EUA e ao mundo, só, um palco semeado de cadáveres. Em vez disso, talvez os EUA possam ter um acordo negociado e um novo relacionamento com o Irã.

Para ilustrar o impacto que o golpe contra o governo de Mossadegh teve e ainda tem, nas relações Irã-EUA, Kinzer relata história que ouviu de Bruce Laingen, veterano diplomata norte-americano, que foi refém em 1979, quando estudantes iranianos ocuparam a embaixada dos EUA em Teerã. A ocupação foi motivada, em parte, por os iranianos temerem que naquela embaixada se estivesse articulando, outra vez, outro golpe contra o governo. Um dia, depois de Laingen estar preso como refém há mais de um ano, um dos invasores o visitou em sua cela. Laingen explodiu; pôs-se a gritar que sua prisão, como refém, era imoral, ilegal e “absolutamente errada”. E o sequestrador respondeu-lhe: “O senhor não tem direito de reclamar de nada. Os EUA capturaram nosso país e nos fizeram seus reféns, em 1953.”

Ainda em fevereiro de 1980, em resposta a um repórter que lhe perguntava sobre o golpe que derrubou Mossadegh – e quase um ano antes daquela conversa entre Laingen e seu sequestrador – o então presidente Carter disse: “Sempre essa velha história. São histórias muito antigas. Não acho nem adequado nem útil discutir fatos ocorridos há 30 anos.”

Se for verdade, como tantos gostam de repetir, que “os que esquecem o passado estão condenados a repeti-lo”, corolário óbvio é que os que tenham interesse em repetir o passado tenham interesse também em jamais trazê-la à mesa de discussão. E se se consideram as políticas defendidas, dentre outros, pelo corpo editorial do Washington Post, hoje, em relação ao Irã, é visível que são muito semelhantes às adotadas pelos britânicos e pelos EUA, para o Irã, em 1953: sanções, “promoção da democracia”, derrubar o governo.

No discurso do Cairo, há um ano, o presidente Obama reconheceu o envolvimento dos EUA no golpe de 1953: foi o primeiro presidente a fazê-lo. “Em plena Guerra Fria, os EUA participaram da derrubada de um governo iraniano democraticamente eleito” [2], disse Obama.

Evidentemente, a intervenção dos EUA não terminou no golpe de 1953; durante os 23 anos seguintes, os EUA apoiaram fortemente o regime ditatorial do Xá. Escreve Kinzer: “Com os EUA firmemente a apoiá-lo, o Xá converteu-se em ditador absoluto.” Vários membros do Congresso levantaram questões sobre direitos humanos; e ouviam explicações de que o Xá implantara “mudanças significativas” e que haveria lá “gratificantes tendências” de respeito à diversidade de opinião. Mas, como Kinzer registra, a Anistia Internacional dizia, em 1975 que “nenhum país do mundo tem pior relatório, em matéria de direitos humanos, que o Irã [do Xá].”

Pois o presidente Carter, que dissera que “direitos humanos são a alma de nossa política externa”, disse ao Xá, no final de 1977: “O Irã, sob a grande liderança do Xá, é uma ilha de estabilidade, numa das áreas mais conturbadas do mundo. Isso se deve a Sua Alteza e a sua liderança – e é tributo do respeito, da admiração e do amor que seu povo lhe devota.” Um ano mais tarde, as ruas tremiam aos gritos de “Morte ao Xá dos EUA”. E em janeiro de 1979, o Xá fugiu.

Mas mesmo depois da queda do Xá, a intervenção dos EUA prosseguiu, na avaliação de muitos iranianos. Muitos iranianos acreditam que os EUA tiveram participação ativa na decisão de Saddam Hussein, de invadir o Irã, em 1980. Há certeza absoluta de que os EUA apoiaram vigorosamente o Iraque naquela guerra, num tempo em que “a inteligência dos EUA sabia que os comandantes iraquianos empregavam armas químicas” contra o Irã, segundo matéria de agosto de 2002, do New York Times, onde se lê: “o fato de o Iraque ter usado gás na guerra contra o Irã é repetidamente citado pelo presidente Bush (…) para justificar a necessidade de “mudança de regime” no Iraque”.

Pois, apesar de tudo isso, observa Kinzer, depois dos ataques de 11/9 o Irã colaborou muito ativamente com os EUA na luta contra a al-Qaeda e os Talibã no Afeganistão, inimigos comuns. O Departamento de Estado produziu relatório em que se lê que “há real oportunidade para que os EUA reconstruam suas relações com o Irã”, opinião confirmada pela CIA. Mas de repente, em janeiro de 2002, para estupefação dos iranianos, o presidente Bush incluiu o Irã no seu “eixo do mal”.

Mesmo assim, um ano depois, o Irã propôs conversações amplas com os EUA. O Irã queria que os EUA levantassem as sanções econômicas, que garantissem ao Irã acesso a tecnologia nuclear pacífica, e que combatessem os grupos terroristas anti-iranianos. Em troca, o Irã oferecia transparência total em seu programa nuclear e fim de qualquer tipo de “apoio material” ao Hizbullah, Hamás e Jihad Islâmica, maior cooperação com os EUA contra al-Qaeda e reconheceria Israel se voltasse às fronteiras de 1967. Mas o governo Bush ignorou a proposta.

É importante observar que o presidente do Irã mudou, depois de 2003, tempo dessa proposta; mas o Supremo Líder – árbitro final de todas as questões de política externa e segurança – ainda é o mesmo. Isso sugere que negociação semelhante ainda pode ser possível. De fato, a recente e bem-sucedida negociação com Brasil e Turquia, para troca de combustível nuclear, e que seguiu linhas previamente aprovadas pelo governo Obama, também sugere que há reais possibilidades de construir-se acordo significativo entre EUA e Irã – desde que o governo Obama decida trabalhar nessa direção.

E a Turquia está em posição única para atuar como ponte, não só como ponte entre os EUA e o Irã, mas também entre Israel e os países árabes, e potencialmente entre os EUA e os Talibãs. Nos últimos vários anos, a Turquia persegue uma política estrangeira de trabalhar para melhorar relações com vizinhos, e tentar ajudar os vizinhos a melhorar as relações mútuas. A Turquia mediou conversações entre Israel e Síria.

A Turquia ajudou a persuadir os sunitas iraquianos a participar no processo político do Iraque pós-Saddam. Apesar do conflito recente com Israel, a Turquia ainda é, de longe, o país muçulmano que mantém o melhor relacionamento com Israel, incluindo forte relacionamento entre os militares dos dois países. “Nenhuma outra nação é respeitada, como a Turquia, pelo Hamás, pelo Hizbullah e pelos Talibãs, ao mesmo tempo em que mantém também bons laços com os governos de Israel, Líbano e Afeganistão”, escreve Kinzer.

A Turquia escapou da órbita dos EUA… Mas, mesmo assim, o novo papel da Turquia é excelente oportunidade também para os EUA. Como país muçulmano que conhece intimamente a Região, a Turquia pode ir a lugares, engajar parceiros e acertar acordos que são inacessíveis para os EUA. O que a Turquia fez para separar-se dos EUA – recusar passagem por seu território, de soldados norte-americanos a caminho de invadir o Iraque, por exemplo; ou denunciar as ações de Israel em Gaza – só fez aumentar sua reputação em outros países muçulmanos; o que aumenta a capacidade da Turquia para influenciá-los.

Alguns norte-americanos poderosos parecem supor que negociar, reconciliar-se e talvez construir uma parceria com o Irã seria uma forma de rendição. Foi o que disse Henry Kissinger, quando perguntado se os EUA deveriam negociar com os adversários muçulmanos: “Eles querem nos humilhar”, disse ele. “Temos de humilhá-los.”

Mas o objetivo da diplomacia é fazer avançar interesses, não castigar uns ou outros, argumenta Kinzer. Nenhum dos principais objetivos dos EUA no Oriente Médio, inclusive estabilizar o Iraque, chegar a um acordo de paz entre israelenses e palestinos e marginalizar a Al-Qaeda, é viável sem a cooperação do Irã. Um Irã isolado é risco grande demais. Um Irã integrado pode ser poder estabilizador, garantia de segurança, motor de desenvolvimento econômico.

Kinzer lista algumas das potenciais vantagens de um novo relacionamento entre EUA e Irã, dentre os quais:

* O Irã, mais do que qualquer outro país, pode ser garantia de paz no Iraque.

* O Irã pode ajudar a estabilizar o Afeganistão.

* O Irã pode ajudar a moderar e a construir acordos com grupos como o Hamás e o Hizbullah.

* Uma aliança entre EUA e Irã pode enfraquecer a Al-Qaeda, inimigo comum.

* Melhores relações abrirão novas oportunidades de cooperação econômica.

Os presidentes dos EUA têm rejeitado qualquer concessão ao Irã, porque implicaria reconhecer o Irã como poder importante, com interesses legítimos de segurança. Mas, diz Kinzer, o Irã já é poder regional importante. Isso não mudará, façam os EUA o que fizerem. Política inteligente terá de reconhecer esse fato, exatamente como a política de Nixon reconheceu o poder regional da China.

Quando EUA e China assinaram o Shanghai Communiqué de 1972, a China tinha atitudes e comportamentos que eram, pelo menos, tão ofensivos aos EUA quanto qualquer das atitudes e comportamentos do Irã hoje. A China fornecia armas à guerrilha anti-EUA no Vietnã. Nixon não impôs qualquer exigência de “bom comportamento” como condição para negociar. Primeiro, cuidou do acordo; as mudanças de comportamento vieram como consequência.

Durante a campanha presidencial, o senador Obama chegou a articular algumas dessas ideias: não imponha, como precondição para negociar, exatamente o que você tenta obter. Mas, recentemente, o governo Obama parece ter revertido à política do governo Bush, que parece insistir em que o Irã suspenda o enriquecimento de urânio antes de EUA e Irã terem construído, sequer, alguma pauta de temas a serem discutidos.

A presença da Turquia, nesse cenário, pode mudar a tendência de todo o jogo. Nas últimas semanas, fomos, de uma situação em que o sítio de Gaza não era assunto que mobilizasse os EUA, para outra situação em que os EUA já declararam que o sítio de Gaza não pode continuar. Entre uma posição e outra houve vários movimentos; em todos eles a Turquia desempenhou papel indispensável. Se a Turquia tiver meios para desempenhar papel similar na disputa entre os EUA e o Irã em torno do programa nuclear iraniano, o mundo certamente se converterá em algo fundamentalmente diferente – e melhor.

Notas de tradução

*Esse artigo é parte de uma campanha de cidadãos nos EUA, organizada pelo blog pacifista “Just Foreign Policy”, sob o mote “Escreva ao presidente Obama e diga: Presidente, não tenha medo de negociar sem precondições com o Irã”. Detalhes da campanha e uma carta-modelo a ser enviada ao presidente Obama, são encontrados em “Democracy in".

Robert Naiman é diretor de Política, de Just Foreign Policy

[1] A National Endowment for Democracy (NED) é organização sem finalidades de lucro, fundada em 1983, para promover a democracia em países amigos dos EUA, oferecendo fundos, alocados anualmente pelo Congresso dos EUA. Embora administrada como organização privada, vive de recursos inteiramente públicos. Além do programa de distribuição de fundos, a NED também mantém um jornal (Journal of Democracy), o Movimento Mundial pela Democracia, o Fórum Internacional de Estudos Democráticos, o Programa Reagan-Fascell de Bolsas de Estudo, uma rede de institutos de pesquisa e o Centro de Apoio à Mídia Internacional. A NED tem sido acusada de interferir em governos estrangeiros e de criar condições para operações ilegais da CIA no exterior. Para saber mais, leia em National Endowment Democracy (Wikipedia);
[2] Em português leia:Discurso de Barack Obama no Cairo em junho de 2009

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Reset: Stephen Kinzer’s Vision of a New U.S. Relationship with Turkey and Iran
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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Contraponto 2341 - "Brasil rejeita versão de que Obama orientou o acordo com o Irã"

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28/05/2010

Brasil rejeita versão de que Obama orientou o acordo com o Irã

Vermelho - 28 de Maio de 2010 - 11h33

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu nesta quinta-feira (27) com rigidez às insinuações de que ele e o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyiq Erdogan, foram orientados pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para negociar o acordo de paz com o Irã.



Lula afirmou que eles não receberam “procuração” alguma para buscar o acordo. “Não temos procuração nem queremos ter procuração para tratar da questão nuclear”, disse o presidente, durante a primeira visita de Erdogan ao Brasil.

O presidente confirmou que ele e Erdogan receberam uma carta de Obama, semanas antes de ser fechado o acordo nuclear no Irã. Na correspondência, Obama faz apenas uma série de sugestões sobre um eventual acordo.

Segundo Lula, é necessário estar com “a cabeça aberta” para haver um acordo e chegar a um consenso. “Com truculência a gente não resolve nem os problemas da casa da gente e entre a família. Nós demos um sinal e espero que a agência tenha sabedoria de entender o momento político e o gesto do Irã e a posição do Brasil”.

Em seguida, o presidente sinalizou que a reação das grandes potências à proposta ocorreu porque não esperavam que o Brasil e a Turquia fechassem um acordo. “Nós fizemos o que eles estão tentando há muitos anos e não conseguiram. As pessoas precisam aprender que a política do século 21 precisa ter mais transparência e diálogo”.

Lula afirmou ainda que é preciso que as pessoas decidam pelo diálogo ou pelo confronto. “Agora é preciso que as pessoas digam claramente se querem construir a possibilidade de paz ou se querem construir a possibilidade de conflito”.

O presidente evitou comentar sobre as eventuais sanções, propostas pelos Estados Unidos. Segundo ele, a expectativa é que os membros permanentes do conselho e a Agência Internacional de Energia Atômica analisem a proposta e evitem as punições. “Vamos aguardar o que a agência e os países têm a dizer”.

Os comentários na imprensa que tentam atribuir a Obama os conselhos do acordo com Irã são apenas tentativas inúteis de diminuir o papel do Brasil e do presidente Lula nas negociações. Isto fica claro com as declarações feitas ontem (27) pela secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton: “Os EUA e o Brasil têm sérias divergências sobre o programa nuclear iraniano”.

De fato. Enquanto o Brasil enxerga a energia nuclear como uma importante ferramenta para o desenvolvimento da paz – através da medicina – os EUA insistem em enxergá-la como uma arma de guerra.

A opinião pública acompanha atenta os desdobramentos desse episódio e tem a expectativa de que o Brasil continue atuando para evitar as sanções contra o Irã.

Da Redação, com Agência Brasil
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Contraponto 2335 - "Lula volta a defender acordo sobre programa nuclear do Irã"

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28/05/2010


Lula volta a defender acordo sobre programa nuclear do Irã

Vermelho - 27 de Maio de 2010 - 19h23

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta quinta (27), no Palácio do Itamaraty, em Brasília, que a Declaração de Teerã, documento que sela o acordo nuclear entre Brasil, Turquia e Irã, é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada. Na presença do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan, que visita o país, Lula afirmou que o acordo não resolve todos os problemas de uma única vez, mas estabelece as condições para o diálogo como o caminho mais eficiente.
Os dois presidentes esperam que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) aceite o acordo intermediado por eles em Teerã. "Não queremos que o Irã desenvolva armas nucleares, mas muito menos que outros países o façam e eles (Irã) dizem que querem energia para fins pacíficos", afirmou o primeiro-ministro turco, que criticou os países que ainda falam em sanções contra o Irã.

Lula afirmou que é preciso superar divergências e construir a confiança em torno de um objetivo exclusivamente pacífico do programa nuclear iraniano. “Acreditamos que é a flexibilidade, não o dogmatismo, que aproxima os povos. É o engajamento construtivo, não o isolamento e a punição que nos leva ao entendimento. É esse o espírito que norteou nossa atuação na negociação com o Irã”, lembrou o presidente.

Ao destacar a atuação dos dois países em questões importantes no cenário mundial, Lula disse que Brasil e Turquia querem superar dogmas e temores que empobrecem o convívio entre as nações, reduzem os espaços de cooperação e conduzem o mundo a riscos inaceitáveis.

“Por isso também defendemos um mundo desnuclearizado e em paz. Recusamos o mito de que a região está fadada ao conflito, de que seus filhos estão condenados a uma rotina de ódio e sofrimento que alimenta a irracionalidade da guerra.”

Ele citou que os dois países são exemplos de convivência pacífica e harmoniosa, ambos possuem relações tanto com Israel quanto com o mundo árabe. “Somos, também, parceiros na construção de uma ordem internacional multipolar. Estamos em posição privilegiada para fazer ouvir a voz dos países emergentes e contribuir para assim encontrarem respostas concretas aos desafios contemporâneos”, disse.

Reforma da ONU

O presidente brasileiro revelou também que os dois países irão defender no G-20 de Toronto (Canadá) a reforma das Nações Unidas e das instituições financeiras de Bretton Woods. Esses organismos, na opinião de Lula, requerem reformas para deixarem de ser “uma sombra distorcida de um passado há muito superado.”

“Advertimos que não se deve abandonar os compromissos com mudanças profundas ao primeiro sinal de recuperação da economia mundial. Agora que a estabilidade voltou reafirmamos a urgência de corrigir os desequilíbrios, discriminações e injustiças que levaram à crise. Estas são as mensagens que levaremos juntos ao G-20 de Toronto”, disse.

A diplomacia brasileira trabalha para que o país conquiste uma cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. No ano passado, o governo buscou a unidade do chamado G4 (Alemanha, África do Sul, Brasília e Índia) em defesa da ampliação do Conselho.

De Brasília,
Iram Alfaia
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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Contraponto 2326 - Beto Almeida e e Irã

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27/05/2010


Beto Almeida: Alguns recados do Irã: a paz invadiu o meu coração

Pátria Latina - 27/05/2010

Publicada no Correio de Caros Amigos

Beto Almeida*


Após o anúncio do acordo construído entre Brasil, Irã e Turquia para evitar que a nação persa sofra novas sanções ou que tenha que renunciar ao seu direito de desenvolver a tecnologia nuclear para fins pacíficos, já se nota em certos segmentos políticos e midiáticos brasileiros uma tentativa de desmerecer a importância da iniciativa do Presidente Lula que conseguiu apoio também da Rússia e da China.

Por isso mesmo vale colocar em realce - como já tem feito a imprensa internacional - os desdobramentos políticos que o Acordo Nuclear Brasil-Irã-Turquia poderá promover.

A viagem de Lula à Teerã foi cercada de imenso ceticismo, silencioso ou declarado, como o da Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton que disse que o presidente brasileiro iria ter que enfrentar uma montanha de problemas, desacreditando do êxito de sua empreitada. É como se não soubesse que Lula, desde que nasceu, enfrentou os mais montanhosos e espinhosos problemas que seres humanos pobres, nascidos no Nordeste, foram obrigados a enfrentar, a começar por vencer a pena de morte a céu aberto que executava crianças nordestinas pela fome dia-a-dia, fenômeno político denunciado com franqueza e precisão por outro nordestino mundialmente respeitado, Josué de Castro. Na mesma linha, o chanceler francês - que não acredita que o fim da tarde é lilás - chegou a afirmar de modo deselegante e desrespeitoso, que Lula seria embromado pelos iranianos, sendo obrigado a corrigir-se e a desculpar-se por orientação do presidente Sarkozy, este talvez mais pragmático e interessado na bilionária venda dos aviões Rafale para o Brasil.

O Acordo é uma lição para muita gente. Não seria petulante afirmar que o episódio constitui grande recado para o presidente dos EUA, Barack Obama. Afinal, não deveria ser dele, Prêmio Nobel da Paz, a iniciativa principal de promover o diálogo, insistir em saídas pacíficas, apostar em soluções cooperativas, ao invés de falar precipitadamente na lógica das sanções que, obviamente, são muito interessantes para as encomendas da indústria bélica? Talvez por ser prisioneiro do Complexo-Militar-Industrial, denunciado por um ex-presidente dos EUA, Obama ainda não demonstrou claramente estar o Prêmio nas mãos mais adequadas....

O acordo firmado entre Lula, Ahmadinejad e o chanceler turco Ebergan manda recados também para o Conselho de Segurança da ONU, que, antes mesmo de explorar as possibilidades de uma saída pelo diálogo e que não implicasse no veto aos países que - como o Irã e o Brasil, entre outros - estão desenvolvendo tecnologias nucleares para finalidades pacíficas, deu péssimo exemplo de intolerância e prepotência ao mundo. O Conselho só tem falado em sanções, em ameaças, sem sequer referir-se ao fato que a via das sanções aplicadas por ele até hoje tem resultado, fundamentalmente, em castigos militares de gigantescos sofrimentos, perdas de vidas, destruição e rigorosamente nenhuma solução, como se observa no Afeganistão e no Iraque.

Embora o impacto internacional positivo seja inegável, o Acordo traz ingredientes novos para o debate político brasileiro já que o candidato oposicionista, José Serra, manifestou-se de maneira negativa à viagem de Lula ao Irã, afirmando que nem iria lá, nem convidaria o presidente iraniano a vir ao Brasil. Se o objetivo é buscar soluções negociadas, por meio de conversações complexas e delicadas, como podem Obama, o chanceler francês, o Conselho da ONU e José Serra não privilegiarem o diálogo direto com a parte envolvida, o Irã, para se alcançar a paz? Sintonia entre tucanos e falcões....

Para a mídia sobram muitas lições, sobretudo para grande parte da mídia brasileira que, desde o anúncio da viagem de mandatário brasileiro à antiga Pérsia encontrou inúmeras qualificações negativas e pessimistas para a iniciativa, algumas de escassa qualificação, como aquelas que davam a entender que o “ Lula não se enxerga”, ou que “isto é apenas uma bravata”. Ou , então, que seria pretensioso acreditar que o Brasil poderia ter alguma importância na solução de um problema de tão grande porte e tão distante. Uma por uma estas conceituações midiáticas, provavelmente eivadas de uma certa dose de preconceito, foram, pouco a pouco, desmanchando-se no ar. Agora, até mesmo os mais pessimistas admitem que o Acordo reveste-se de importância altamente relevante e que é uma vitória de Lula e da política externa brasileira independente e soberana. O mundo inteiro está discutindo o gesto brasileiro e rejeitá-lo será altamente desgastante para eles, sobretudo para o Prêmio Nobel da Paz.

O curioso é que esta mesma mídia reconhece e destaca o protagonismo de outro brasileiro, Oswaldo Aranha, quando das gestões feitas para a criação de Israel, há décadas. Mas, agora, quando Lula insiste em ter voz ativa, convocando ou até mesmo desafiando as grandes potências a empenharem-se na via pacífica seja para o Irã, para o Iraque, como também , por desdobramento, para a Questão Palestina, nenhum reconhecimento. O difícil mesmo é acreditar que tanto o Prêmio Nobel da Paz, como os demais dirigentes dos países ricos, tenham coragem em apostar em caminhos que contrariem a indústria bélica. Coragem, que Lula, em sua dialética de retirante, tem demonstrado ter de sobra.

*Beto Almeida, membro da Junta Diretiva da Telesur
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quarta-feira, 26 de maio de 2010

Contraponto 2313 - "Até ex-diretor da CIA vê sucesso de Lula no Irã"

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26/05/2010

Até ex-diretor da CIA vê sucesso de Lula no Irã

Graham Fuller, ex-vice-presidente do Conselho de inteligência da CIA

Tijolaço - terça-feira, 25 maio, 2010 às 19:34

Brizola Neto


Enquanto os nossos “sabichões” não cansam de destilar seu despeito e rogar praga para o acordo obtido pelo Brasil no Irã, a parte do mundo que pensa acha exatemento o contrário. Hoje, o sr. Graham Fuller, ex-vice-presidente do Conselho de inteligência da CIA publica um artigo no Estadão dizendo que muito mais importantes que a eventual aprovação de sanções ao Irã na ONU “mais importante do que isso é a sutil mudança nas relações internacionais introduzida pelos gestos de Brasil e Turquia”.

Fuller afirma que “duas potências de médias proporções acabam de desafiar a tutela de Washington na definição da estratégia nuclear em relação ao Irã e seguiram uma iniciativa própria para persuadir o país a aceitar um acordo. Além de inteiramente independente, a iniciativa avançou mesmo diante dos alertas consideravelmente grosseiros feitos pelos americanos, que pediam aos países o abandono das tentativas de negociação – apesar de seus termos serem muito semelhantes aos da proposta feita ao Irã pelos EUA no ano passado. Para piorar, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, ousaram obter sucesso em suas negociações com o Irã, enquanto Washington previa publicamente seu fracasso certo (e tão esperado).”

Ele não faz fé alguma na adesão de China e Rússia ao projeto americano de aprovar as sanções: s”erá que realmente acreditamos que Hillary tenha conquistado o apoio de Rússia e China? Assim como a Teerã não faltaram incentivos para aceitar uma proposta feita por “iguais”, Rússia e China também encontram motivos de sobra para aprovar esta iniciativa de Brasil e Turquia. É verdade que os termos do acordo não são sem importância, mas, para esses países, é muito mais relevante a lenta e inexorável decadência da capacidade americana de ditar os termos da política internacional e de satisfazer seus próprios objetivos. É exatamente essa a meta principal da estratégia russa e chinesa na política externa. No fim, esses países não permitirão que a abordagem de linha dura dos EUA prevaleça sobre a iniciativa brasileira e turca no Conselho de Segurança da ONU, mesmo que sejam necessários alguns ajustes do acordo obtido por Brasil e Turquia.”

Vale a pena ler o artigo, na íntegra.

Este sujeito não foi, repito, vice do Conselho de inteligência da CIA por ser obtuso ou fanático. Foi porque é um analista extremamente considerado sobre o mundo islâmico. Aliás, se a CIA fosse composta por cérebros como os dos nossos “grandes comentaristas”, não representaria perigo algum.
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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Contraponto 2269 - "Lula na ofensiva pelo diálogo com o Irã"

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21/05/2010

Lula na ofensiva pelo diálogo com o Irã

Amigos do Presidente - por Zé Augusto -sexta-feira, 21 de maio de 2010

O presidente Lula intensificou os esforços para impedir sanções contra o o Irã e buscar o apoio da comunidade internacional para o acordo de troca de combustível acertado segunda-feira por Brasil e Turquia com o Irã.

Em discurso no encerramento da Marcha dos Prefeitos quinta-feira, Lula voltou a defender o diálogo e criticou os países que insistem em medidas punitivas:

– Há quantos anos vocês ouvem essa briga entre Estados Unidos e Irã? Eles queriam colocar o Irã na mesa para negociar, para que assumisse compromisso com a agência nuclear. Fomos ao Irã e conseguimos, depois de 18 horas de reunião e duas viagens do Celso Amorim, aquilo que o Conselho de Segurança queria que fosse feito há seis meses... É muito engraçado porque algumas pessoas não gostaram. Tem gente que não sabe fazer política se não tiver um inimigo, e sou daqueles que só sei fazer política construindo amigos.

Lula e o primeiro-ministro turco Recep Erdogan reforçarão sua posição em favor do diálogo na próxima semana, durante uma visita de Erdogan ao Brasil, onde participa quinta-feira do 3º Fórum Mundial da Aliança de Civilizações, no Rio de Janeiro. O programa nuclear iraniano deve predominar nas discussões, segundo diplomatas.

– A verdade nua e crua é a seguinte: o Irã, que era vendido como se fosse o demônio e que não queria negociar, resolveu sentar na mesa de negociação. Eu quero ver se os outros vão cumprir aquilo que pediam ao Irã – desafiou o presidente.

Lula voltou a atacar as críticas recebidas no Brasil de que o país não teria motivos para entrar nas discussões sobre o Irã e comparou o seu jeito de fazer política com o de outros países:

– Nós demos uma contribuição ao multilateralismo que deveria ser levada em conta. Esse é o jeito de o Brasil fazer as coisas – disse.

Rússia sinaliza apoio ao acordo Irã-Turquia mediado pelo Brasil

O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, disse que seu governo pretende abrir espaço ao diálogo antes da adoção de eventuais sanções econômicas contra o Irã.

– Queremos ver o Irã honrar claramente seus compromissos e enviar o mais rapidamente possível um manifesto oficial por escrito à AIEA, de modo que um procedimento de troca de combustível possa ser homologado pela Agência – disse Lavrov, em visita a Roma. Leia mais aqui.
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segunda-feira, 19 de abril de 2010

Contraponto 1963 - "Nem tanto Irã e bem mais Brasil"

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19/04/2010
Nem tanto Irã e bem mais Brasil

O Brasil não pode aceitar a imposição de “visitas”, “inspeções” ou controles externos em processos científicos, tecnológicos e de desenvolvimento das nações. Aceitação de tais medidas acabaria por voltar-se contra nós mesmos.

Francisco Carlos Teixeira*

Nos últimos dias as relações entre Brasil e o Irã tornaram-se o centro de um amplo debate na mídia brasileira, muitas vezes emulando a imprensa norte-americana. O centra da discussão é o pretenso apoio do Brasil ao programa nuclear iraniano. É aí que começam as dificuldades. A crítica centra-se em dois pontos fundamentais: de um lado o “apoio” brasileiro ao Irã e, de outro, o conseqüente isolamento internacional brasileiro daí decorrente. Cabe examinar as duas assertivas.

O Brasil perante o programa nuclear iraniano
Fontes da Inteligência norte-americana afirmaram, na última semana, que o Irã estaria desenvolvendo capacidade de enriquecimento de combustível fóssil capaz de dotar o país, em cinco anos, com armas nucleares. Em face de tal possibilidade, seria fundamental a votação, urgente, por parte do Conselho de Segurança da ONU de novas sanções contra o Irã. O governo brasileiro contra-argumentou o seguinte: 1. a atual capacidade iraniana é compatível com todas as afirmações de Teerã no sentindo de que seu programa possui fins pacíficos e volta-se para a produção de energia elétrica e de meios para uso civil, tais como medicina e agricultura ( conservação de alimentos ); 2. Não há qualquer evidência incontestável de desenvolvimento de um programa nuclear para fins militares no Irã; 3. As fontes – norte-americanas – que denunciam o programa nuclear do Irã são as mesmas fontes (a Inteligência dos EUA) que afirmaram, com absoluta certeza, que o Iraque possuía armas de destruição em massa capazes der lançar um ataque ao Ocidente em 45 minutos, justificando o ataque aquele país em 2003.

De posse deste diagnóstico os Estados Unidos desfecharam um ataque militar contra Bagdad que custou, até o momento, mais de 100 mil mortos e uma total desestabilização no Oriente Médio.

A “metodologia” utilizada pelos EUA no caso do Iraque entre 2002 e 2003 assemelha-se, assustadoramente, ao atual procedimento do Presidente Obama. Através de relatórios inconclusos da AIEA, somando-se a análises totalmente hipotéticas da CIA ( “... caso o Irã prossiga no atual ritmo de enriquecimento de material físsil, poderá em cinco anos... “) surge uma “certeza”no caráter belicoso do programa iraniano. Daí se intensificam as sanções impostas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. Com a esperada reação negativa – orgulhosa e muitas vezes provocativas de Teerã – dar-se-iam as condições de um ataque preventivo por parte dos EUA ou, mesmo, por parte de Israel, ante a “passividade”da ONU e a “desobediência” de Teerã.

Estaríamos perante o caminho da maior crise bélica do novo século.
É em face de tais dúvidas que o governo brasileiro insiste na necessidade de prosseguir nas negociações com Irã, evitando a passagem rápida para o uso de sanções.

O Brasil e a ONU na crise iraniana
A posição brasileira – no atual momento o país é membro rotativo, sem direito à veto, no Conselho de Segurança da ONU – a partir das dúvidas acima expostas evoluiu em direção a dois pontos fundamentais: 1. A experiência recente em relações internacionais comprovaria que a utilização de sanções econômicas contra países, visando objetivos políticos, não gera, de forma alguma, os efeitos esperados, bem ao contrário. Assim, nos últimos 30 anos, Cuba, África do Sul ( do apartheid ), Somália, Coréia do Norte, entre outros, foram alvos de sanções econômicas, inclusive decretadas pelos EUA ( como no caso, injusto, de Cuba ) sem atingir seus objetivos. As sanções, ao contrário do esperado, geram em verdade uma punição coletiva para a população e uma aglutinação de forças em torno do poder central, fortalecendo as posições “nacionais” em face da pressão externa. Assim, não só as sanções seriam inúteis, como ainda contraproducentes; 2. O Conselho de Segurança da ONU arrisca-se, mais uma vez, a tornar-se instrumento da política de uma grande potência, desmoralizando-se num procedimento arriscado e sem bases materiais que justifiquem uma posição extrema porte da comunidade internacional.

O risco, mais uma vez, reside em que a ONU acabe seguindo, como fato consumado, as exigências da política interna dos EUA, quando o Presidente Obama, em virtude do seu público interno e de parte de popularidade, e em face da aproximação das eleições de meio de mandato, queira mostrar-se como um governante capaz de defender o país e recorrer ao “hard Power”americano.

É neste sentido que Brasília exige, mais uma vez, a “democratização” dos organismos internacionais e desconcentração de poder em escala mundial.

Um caminho alternativo
Para o Brasil ainda existe espaço, e tempo, suficientes para o prosseguimento de negociações. No caso da Coréia do Norte – que efetivamente já fez testes nucleares – os EUA aceitaram participar diretamente, das chamadas negociações de Beijing ( envolvendo as duas Coréias, Rússia, Japão ). Parece um total contrasenso de Washington aceitar negociações diretas com um país que concretamente desafiou a AIEA e a comunidade internacional explodindo artefatos nucleares e negar-se a negociar com o Irã ( que “poderá “ fazê-lo em cinco anos... ). Assim, o endurecimento da política externa americana em relação ao Irã assemelha-se, cada vez mais, a busca de meios para viabilizar uma mudança de regime em Teerã, nos mesmos termos ( catastróficos ) do que foi feito no Iraque.

O Brasil espera que o tema possa ser discutido ainda mais intensamente, incluindo aí a visita de Lula ao Irã em maio próximo, quando esperar-se-á uma declaração definitiva e clara de Teerã.

Aceitando o fato de que ainda há espaço para negociações, o Brasil apóia a proposta feita pela AIEA, endossada pela Rússia, pela qual o urânio iraniano seria enriquecimento no exterior – talvez na própria Rússia – e reenviado para o país, existindo um efetivo controle sobre o uso do material físsil. Em principio Teerã aceitou a sugestão. O problema aqui reside na garantia de retorno do material enriquecido – na última vez que o Irã fez isso o material foi embargado na França – e no prazo estipulado para o processo. Assim, este seria um caminho plausível para a resolução da crise, feitas as garantias necessárias.

Além disso, o Irã exige, tal qual Cuba, a suspensão das sanções decretadas por Washington contra o país desde a Revolução Islâmica de 1979 e, em especial, de quando da tomada de reféns americanos em Teerã. Ou seja, existe, por detrás da crise, um passivo EUA/Irã que envenena, desde muito, as relações bilaterais, independente da capacidade nuclear desenvolvida no Irã.

O Brasil isolado?
De forma muito afoita, seguindo muito, muitíssimo em verdade, de perto a mídia norte-americana, muitos críticos do governo brasileiro, afirmaram o isolamento “internacional” do Brasil. Este não é o fato. Na verdade as relações Brasil/EUA nunca foram tão boas e firmes. Nos últimos dias o Brasil assinou dois tratados estratégicos com Washington, um voltado para o combate ao narcotráfico e outro de cooperação militar. Da mesma forma, em visita ao Oriente Médio, o presidente Lula assinou o primeiro tratado de livre comércio do Brasil com Israel, evidenciando as ótimas relações com Tel Aviv ( para além dos achaques de mal humor do ministro do exterior daquele país, o mesmo que ofendeu o vice-presidente dos EUA, Joe Biden ).

A questão central em relação ao Irã hoje reside, de um lado, em uma postura firme da defesa direito dos países desenvolverem para fins pacíficos a energia atômica – como EUA ou a Europa o fazem – e, de outro, moderar, através de aconselhamentos e negociações, posturas irresponsáveis de Teerã, quando, por exemplo recusa, de forma absurda, a reconhecer a catástrofe do Holocausto.

O Brasil não pode aceitar a imposição de “visitas”, “inspeções” ou controles externos em processos científicos, tecnológicos e de desenvolvimento das nações. Aceitação de tais medidas acabaria por voltar-se contra nós mesmos. Aceitando as imposições contra as usinas iranianas, corremos o risco de nos obrigarmos a abrir nossas próprias instalações.

*Francisco Carlos Teixeira é professor Titular de História Moderna e Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Contraponto 1925 - "Lula está errado sobre o Irã?"


15/04/2010
Lula está errado sobre o Irã?


Carta Maior - 15/04/2010

Com viagem prevista para Teerã em maio, o mandatário brasileiro voltou a se pronunciar contra novas sanções aos iranianos. Essa postura não é ditada apenas pela agenda comercial, importante na estratégia de diversificação de mercados. Tem a ver, fundamentalmente, com uma razão de Estado. A adoção de punições adicionais ao Irã, em uma escalada que a agressão militar como horizonte, significaria reforço à jurisprudência que considera a autodeterminação dos Estados nacionais um direito subordinado a hipotéticos e indivisíveis interesses mundiais, geralmente auto-representados pela principal potência militar. O artigo é de Breno Altman.

Breno Altman*

Não são poucas as matérias, na imprensa nacional e internacional, que tratam de apontar para suposto isolamento do governo brasileiro na discussão sobre sanções contra o país dirigido por Mahmud Ahmadinejad.

Mesmo setores progressistas torcem o nariz com a insistência do presidente Lula em defender uma saída negociada com os iranianos. Afinal, não se pode afirmar que o regime dos aiatolás corresponda aos paradigmas democráticos, humanistas e laicos que fazem parte dos valores de esquerda.

Mas a questão da qual não se pode fugir é a que propósitos servem os recentes movimentos de pressão contra o Irã, cuja vilanização já se assemelha aquela que precedeu a invasão do Iraque. Novamente uma nação que se opõe à hegemonia imperialista é acusada de estar desenvolvendo armas de destruição em massa. Outra vez começam a rufar os tambores de guerra.

O principal patrocinador da escalada contra a gestão Ahmadinejad são os Estados Unidos. Claro que os discursos de Obama e Hillary são recheados de alusões à liberdade. Não é novidade: o apoio aos golpes militares na América Latina e a guerra contra o Vietnã, para citar dois exemplos, também foram levados a cabo em nome da defesa do “mundo livre”.

Tampouco há surpresa nas razões efetivas que condicionam a política da Casa Branca. Foram-se os dias da destemperança bélica de Bush, mas sob a fala aveludada e cosmopolita de Barack Obama continuam vivos os mesmos pressupostos geopolíticos. Como diz a sabedoria popular: o lobo troca o pelo, mas não perde o viço.

O primeiro dos grandes motivos estratégicos é a velha disputa pelo controle das fontes de energia, na qual o Oriente Médio continua como principal teatro de operações. A desestabilização do Irã e sua eventual transição para a esfera de influência norte-americana, como se passou com o Iraque, significariam formidável aporte aos recursos petrolíferos sob tutela da grande potência.

Mais do que bloquear o acesso de Teerã à produção de energia nuclear, o que importa para Washington é asfixiar um governo hostil a seus interesses, seguindo a lógica político-militar que preside suas atitudes desde 2001. Os Estados Unidos, até então, delegavam sua presença naquele canto do mundo à máquina guerreira de Israel e às alianças com administrações árabes que lhes eram afáveis. Nos últimos dez anos, no entanto, trocaram essa política pela intervenção direta.

Essa nova orientação, contudo, não é o mesmo que abandonar ao léu os velhos amigos. Derrotar o regime islâmico da antiga Pérsia significaria sensível mudança no equilíbrio regional de forças. O Estado sionista deixaria de ter qualquer contendor militar à altura. As frações mais radicalizadas da resistência palestina perderiam seu principal aliado. Os governos árabes pró-americanos teriam maior tranqüilidade com o possível arrefecimento das correntes islâmicas internas. Pois aí está a segunda razão para a ofensiva contra Ahmadinejad.

A terceira, mas não menos relevante, tem alcance mundial. Diz respeito à ordem nuclear forjada após o final da União Soviética. Mais do que hegemonia econômica e cultural, o colapso do sistema socialista criou a chance de uma inédita supremacia militar para os Estados Unidos, cujo epicentro é o controle sobre o arsenal atômico e seus processos de fabricação.

O cerco contra o Irã é concomitante aos esforços da Casa Branca para rever o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP). Esse documento, datado de 1968, estabelece o monopólio das armas nucleares nas mãos de cinco países: EUA, Rússia, França, China e Grã-Bretanha. Os demais signatários renunciam ao desenvolvimento da energia atômica para fins militares. Entre essas assinaturas não estão as de Paquistão, Índia e Israel.

Os limites atualmente prescritos pelo TNP, porém, são insatisfatórios para os Estados Unidos e eventualmente outras nações, pois não coíbem o desenvolvimento completo da tecnologia nuclear ou a comercialização de urânio enriquecido pelos países que estão fora do clube da bomba. Esse desconforto levou à convocação da Cúpula sobre Segurança Nuclear, reunida em Washington dias 12 e 13 de abril.

Sua preparação foi marcada por dois eventos vendidos como “históricos” pela mídia. Um deles foi o novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Start, em inglês), firmado no dia 8 de abril entre Rússia e EUA, pelo qual cada uma das potências reduziria para 1550, até o ano de 2017, suas ogivas nucleares operacionais. O acordo, no entanto, não estabelece cortes ou limites para milhares de bombas armazenadas, atendendo exigência da indústria militar norte-americana e seu lobby parlamentar. Não apenas é tímida a redução do arsenal nuclear, como permanece intacto seu processo de renovação e substituição.

O outro acontecimento, no dia 6 de abril, foi a divulgação, pelo governo norte-americano, de sua nova política de defesa nuclear. Apesar do alarde de que os Estados Unidos não reagiriam com ataques atômicos a agressões com armas convencionais, químicas ou biológicas, ou contra países que não possuem arsenal nuclear, ficou estampado no pronunciamento que seriam abertas exceções contra nações que não fossem signatárias do TNP ou que supostamente o estivessem violando.

Ambos movimentos foram calculados para criar um clima positivo na reunião de cúpula, embalando-a com promessas e gestos pacifistas. De quebra, a Casa Branca conseguiu a boa vontade da Rússia na questão iraniana, em troca do compromisso de manter desnuclearizados os países de seu entorno. O mesmo aceno é feito a China quanto à sua zona de influência, além de outras compensações econômicas.

São passos que têm como um de seus principais propósitos a conquista de adesões ao protocolo de revisão do TNP, que amplia os poderes da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). A agência passaria a controlar o comércio mundial de urânio enriquecido, mesmo para fins pacíficos, além de ter o direito de visitas intrusivas, sem negociação prévia, a países suspeitos. O monopólio atômico, na prática, seria estendido também ao uso não-militar da energia nuclear, que estaria submetido a um sistema internacional de licenças e controles.

E o que tem o Brasil a ver com tudo isso?
O presidente Lula declarou que o país não será signatário desse protocolo, por considerar uma violação à soberania nacional e um obstáculo ao desenvolvimento do país. Também reafirmou sua convicção contra o caráter discriminatório do TNP, que em nome da paz preserva o desequilíbrio militar entre as nações.

Com viagem prevista para Teerã em maio, o mandatário brasileiro voltou a se pronunciar contra novas sanções aos iranianos. Essa postura não é ditada apenas pela agenda comercial, importante na estratégia de diversificação de mercados. Tem a ver, fundamentalmente, com uma razão de Estado.

A adoção de punições adicionais ao Irã, em uma escalada que a agressão militar como horizonte, significaria reforço à jurisprudência que considera a autodeterminação dos Estados nacionais um direito subordinado a hipotéticos e indivisíveis interesses mundiais, geralmente auto-representados pela principal potência militar. Por dentro ou por fora das instituições internacionais, a depender de suas possibilidades e conveniências.

Afinal, o Irã não está envolvido em nenhum conflito armado com seus vizinhos ou buscando sobrepujar, pela força, direitos de outros povos. Ao contrário de Israel, país nuclear clandestino, cuja política belicista e de opressão contra os palestinos desrespeita seguidos acordos e resoluções internacionais.

Não é preciso, de fato, muito tutano para calcular o alcance dessa concepção favorável à intervenção preventiva. A quais ameaças estaria submetido o Brasil, digamos, no caso de eventual escassez de água no hemisfério norte tornar esse bem um objeto de desejo e necessidade dos tais “interesses mundiais”? Ou que destino estaria reservado a América Latina se, por exemplo, viesse a constituir um bloco militar autônomo?

A posição do presidente Lula, sobre o Irã, pode até ser minoritária, mas expressa a resistência dos que defendem, contra a institucionalidade de um império, uma ordem mundial baseada na união soberana e igualitária de nações livres.


*Breno Altman é jornalista e diretor editorial do sítio Opera Mundi (www.operamundi.com.br)
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sábado, 27 de fevereiro de 2010

Contraponto 1496 - Estados Unidos tentam pressionar o Brasil para punir o Irã

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27/02/2010


Estados Unidos tentam pressionar o Brasil para punir o Irã



Do Vermelho - 26 de Fevereiro de 2010 - 13h01

O governo dos Estados Unidos montou uma sequência de visitas ao Brasil para pressionar o governo a acompanhá-lo na sua inadmissível política de sanções contra o Irã. Nesta sexta-feira (26) chega ao Brasil o subsecretário de Estado para Assuntos Políticos dos Estados Unidos, William Burns. Essa visita é preparatória da visita da secretária de Estado, Hillary Clinton, que estará np Brasil na próxima quarta-feira (3).

O governo de Barack Obama quer reunir aliados para punir o Irã por seu programa nuclear. Como o Brasil ocupa, atualmente, uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, o apoio do País é considerado importante para sustentar a posição dos EUA de que o Irã seja penalizado por seu programa de enriquecimento de urânio.

O Brasil é um dos dez membros rotativos do Conselho e há algum tempo tem se manifestado contra a imposição de sanções contra o país islâmico. Durante viagem a Cancún, no México, Lula defendeu a relação do Brasil com o Irã, afirmando que o objetivo é não encurralar e isolar o país.

"Nós queremos construir a possibilidade de ter a paz no mundo", disse. "Se queremos paz no mundo, não podemos deixar ninguém isolado."

O governo brasileiro defende o direito dos iranianos de desenvolver um programa nuclear próprio, desde que seja para fins pacíficos. Lula é favorável que a ONU busque o diálogo com o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad.

Os Estados Unidos e alguns de seus aliados são contrários a iniciativa de Ahmadinejah de incluir no programa nuclear do país a produção de urânio enriquecido a um nível de 20%. Eles acusam o país de querer produzir armas nucleares. E admitem que quer impor sanções ao Irã, para isolá-lo e impedir que eles desenvolvam o seu programa nuclear.

Os iranianos garantem que o projeto tem finalidades pacíficas e está de acordo com as normas do Tratado de Não Proliferação Nuclear, do qual é signatário.

Responsável por consultas entre o P5+1 - o grupo formado pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Rússia, China, Reino Unido e França) mais a Alemanha para lidar com a questão nuclear iraniana -, Burns vai dar início ao processo de pressão que os Estados Unidos pretende fazer ao Brasil.Burns estará em Brasília cinco dias antes da chegada de Hillary. Hoje ele se encontra com a sub-secretária de Assuntos Políticos do Itamaraty, Vera Machado, e com o ministro Celso Amorim.

Hillary Clinton inicia turnê pela América Latina no domingo (28). Além do Brasil, ela visitará o Uruguai, o Chile, a Costa Rica e a Guatemala. As viagens de Hillary e Burns pela América Latina antecedem a visita de Obama à região, que deverá ocorrer em meados do segundo semestre deste ano.

Da sucursal de Brasília
Com agências
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