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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Contraponto 6558 - "Santayana e Kadafi: chega de sangue"

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21/10/2011
Santayana e Kadafi: chega de sangue

Do Conversa Afiada - Publicado em 21/10/2011




O Conversa Afiada republica texto de Mauro Santayana, extraído do JB:

Chega de sangue

por Mauro Santayana


Diante da imagem de Kadafi trucidado, e dos aplausos de Mrs. Clinton e de dirigentes franceses, ao ver o homem seminu e ensangüentado, recorro a um testemunho indireto de Henri Beyle – o grande Stendhal, autor de Le Rouge e le Noir – de um episódio de seu tempo. Beyle foi oficial de cavalaria e secretariou Napoleão por algum tempo. Em 1816, em Milão, Beyle ficou conhecendo dois viajantes ingleses, o poeta Lord Byron e o jovem deputado whig John Hobhouse. Coube a Hobhouse relatar o encontro, no qual Beyle impressionou a todos os circunstantes, narrando fatos da vida de Napoleão. São vários, mas o que nos interessa ocorreu logo depois da volta do general a Paris, em seguida à derrota em Moscou. Durante uma reunião do Conselho de Estado, da qual Beyle foi o relator, descobriu-se que Talleyrand havia escrito três cartas a Luís de Bourbon, que restauraria, dois anos mais tarde, o trono. As cartas, que se iniciavam com o reconhecimento de vassalagem, no uso do pronome “Sire”, revelavam que o bispo já conspirava contra o Imperador. Os membros do Conselho decidiram que Talleyrand devia ser castigado com rigor – ou seja, condenado à morte. Só um homem, e com a autoridade de “arquichanceler” do Império, Cambacérès, se opôs, com voz firme: Comment? toujours de sang? Napoleão, que estava deprimido com as cenas de seus soldados mortos no campo de batalha, ficou em silêncio.

O sangue que se verteu no século passado devia ter bastado, mas não bastou. Iniciamos este novo milênio com muito sangue e a promessa de novas carnificinas. O cinismo dos que exultam agora com a morte de Kadafi, ao que tudo indica linchado pelos seus inimigos, após a captura, dá engulhos aos homens justos. Os que levaram a ONU a aprovar os bombardeios brutais da OTAN contra a população líbia haviam sido, até pouco tempo antes, parceiros do coronel na exploração de seu petróleo, indiferentes a que houvesse ou não liberdade naquele país. Mas Kadafi não era apenas o ditador megalômano, que vivia no luxo de seus palácios e que promovia festas suntuosas para o jet-set internacional. Ele fizera radical redistribuição de renda em seu país, mediante uma política social exemplar, com a criação de universidades gratuitas, a construção de hospitais modernos e com a assistência à saúde universal e gratuita. Quanto à repressão, ele não foi muito diferente da Arábia Saudita e de outros governos da região, e foi muito menos obscurantista para com as mulheres do que os sauditas.

Apesar das cenas horripilantes de Sirte, que fazem lembrar as de Saddam Hussein aprisionado e, mais tarde, enforcado, além das usuais que chegam da África, há sinais de que os homens começam a sentir nojo de tanto sangue. É alentador, apesar de tudo, que o governo de Israel tenha aceitado acordo com os palestinos, para a troca de prisioneiros. É também alentador que os bascos hajam renunciado à luta armada e preferido o combate político em busca de sua independência. E é bom ver as multidões reunidas, em paz, em todos os paises do mundo, contra os ladrões do sistema financeiro internacional – não obstante a violência, de iniciativa de agentes provocadores, como ocorreu em Roma,e a costumeira brutalidade policial, na Grécia, na Grã Bretanha e nos Estados Unidos.

Há, sem dúvida, os que sentem a volúpia do cheiro de sangue, associado à voracidade do saqueio. A reação atual dos povos provavelmente interrompa essa ânsia predadora dessas elites européias e norte-americanas – exasperadas pela maior crise econômica dos últimos oitenta anos e ávidas de garantir-se o suprimento de energia de que necessitam e a preços aviltados. (Grifo do ContrapontoPig)

É preciso estancar a sangueira. O fato de que sempre tenha havido guerras não significa que devemos aceitá-las entre as nações e entre facções políticas internas. Como mostra a História, o recurso às armas tem sido iniciativa dos mais fortes, e diante dele só cabe a resistência, com todos os sacrifícios.

No fundo das disputas há sempre os grandes interesses econômicos, que se nutrem do trabalho semi-escravo dos povos periféricos, como se nutriram grandes firmas alemãs, ao usar judeus, eslavos e comunistas, como escravos, em aliança com Hitler.

A frase é um lugar comum, mas só o óbvio é portador da razão: os que trabalham e sofrem só querem a paz, para que usufruam da vida com seus amigos, seus vizinhos, suas famílias.

O odor do sangue é semelhante ao odor do dinheiro, e excita os assassinos para que trucidem e se rejubilem com a morte – como se rejubilaram ontem, diante do corpo humilhado de Kadafi, a Secretária de Estado dos Estados Unidos e os arrogantes franceses. Há três dias, em Trípoli, a senhora Clinton disse a estudantes líbios, que esperava que Kadafi fosse logo capturado ou morto. Nem Condoleeza Rice, nem Madeleine Albright seriam capazes de tamanho desprezo pelos direitos de qualquer homem a um julgamento justo. Esse direito lhe foi negado pelas hordas excitadas por Washington e Paris, com a cumplicidade das Nações Unidas – e garantidas pelas armas da OTAN.

Não que Kadafi tenha sido santo: era um homem insano, e tão insano que acreditou, realmente, que os americanos, italianos e franceses, quando o lisonjeavam, estavam sendo sinceros.
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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Contraponto 6542 - " Juliana Medeiros:'Gaddafi estava certo' "

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19/10/2011
Juliana Medeiros:"Gaddafi estava certo"

Do Viomundo - 19 de outubro de 2011 às 17:12

No dia 12 de outubro, publicamos o artigo de Juliana Medeiros, que quase todos dias fala (por Skype) com a Líbia. É o relato pessoal de uma guerra estúpida.

O leitor Alberto postou o seguinte comentário:

Hoje, Juliana Medeiros postou a resposta a esse leitor do leitor. Segue na íntegra.

por Juliana Medeiros, no Substantivo Comum

Falo quase todos os dias (pelo Skype) com a Líbia. Amigos em Trípoli, Sirte, Bani Walid, Sebha, Misrata.. também muitos refugiados em Túnis, no país vizinho.

Dentre os vários comentários que o post Líbia – Um relato pessoal gerou depois de publicado no site Viomundo, um em especial (do Alberto) me obrigou a responder, já que com ele responderia a vários questionamentos de pessoas diferentes, gente que já me fez as mesmas perguntas. Publiquei lá, mas reproduzo aqui a minha resposta.

Me sinto na obrigação de responder a alguns questionamentos:

1 – Sim, a maior parte do armamento foi oferecido pela OTAN e pelos “aliados”. Há dezenas de fotografias com as imagens das coletas dos armamentos que eram jogados por pára-quedas ou chegavam de navio. Aliás, quando estávamos na Tunísia, o porto de Túnis tinha acabado de interceptar um navio que vinha do Qatar carregado de armamentos a serem entregues em Benghazi. As autoridades portuárias que entrevistamos disseram que vários passaram antes, mas com o bombardeio das fronteiras, decidiram não mais permitir esse “apoio” à guerra contra o país vizinho.

Mas, veja, se parte disso era mesmo arsenal militar do governo, que tal se alguns de nós (do movimento “contra a corrupção” por exemplo), ao invés de nos limitar à passeatas, invadíssemos os quartéis e arsenais militares brasileiros e avançássemos contra o Congresso Nacional e órgãos públicos, além de civis, atirando em tudo e todos.. qualquer reação dos militares brasileiros seria considerada “massacre de civis”?

Aliás, o governo brasileiro deveria reagir ou admitir que esse grupo representa “legitimamente” uma “maioria” opositora, chamá-los de “Conselho de Transição” e, quem sabe, posteriormente, Dilma abriria mão de seu cargo voluntariamente em respeito aos “manifestantes”.. foi exatamente isso que aconteceu na Líbia. É que é mais fácil imaginar no quintal dos outros, não no nosso.

2 – A cova coletiva da prisão de Abuh Salim (assim como várias outras denúncias) é notícia falsa, sim. Foi desmentida em vários canais, exceto nos que já conhecemos. Era uma cova com OSSOS DE CAMELOS… procure, está disponível na internet.

3 – Até o momento, as acusações contra Gaddafi de contratação de “mercenários” não encontrou provas. Os negros imigrantes que trabalhavam nas construtoras estão sendo dizimados com essa alegação (de que seriam mercenários pagos por ele), fato já denunciado pela Anistia Internacional algumas vezes. Por outro lado, já há registros, fotografias, provas documentais, da participação de mercenários blackwaters e de várias outras origens, ao lado dos “rebeldes”. Em jornais como o Guardian e o Independent já foram publicadas até entrevistas com alguns deles, muitos incorporados às forças especiais britânicas para entrar por terra e se misturar aos “rebeldes” pela semelhança física (a cara de muçulmano).

Aliás, foi exatamente assim que ocorreu o “milagre da multiplicação” dos pouquíssimos rebeldes para os muitos que vimos depois. Eram estrangeiros, está no meu texto acima e já foi confirmado pelos porta-vozes rebeldes: “tivemos ajuda por terra de soldados aliados vestidos como civis e misturados a nós”.

4 – A Al Jazeera inventou sim inúmeras cenas. A principal delas, também já demonstrada em reportagens e ADMITIDA pelo Abdul Jalil, porta-voz rebelde, foi o cenário montado no Qatar para “simular” a invasão de Trípoli. Eu colocava no twitter, enquanto víamos aquelas cenas, que os colegas que estavam no hotel em Trípoli JAMAIS viram aquela multidão na Praça Verde e ninguém acreditava. Isso JAMAIS existiu, aquela festa, aquela multidão comemorando. Eles estão desde aquele dia, fazendo o mesmo que fazem ainda agora, entrando e “fatiando” o ambiente e atirando e conquistando bairros aos poucos. Quando várias TVs (como a RT da Russia) começaram a mostrar as falhas entre a verdadeira Praça Verde e a que usaram para simular isso, Jalil deu uma coletiva e admitiu que houve um “equívoco” e que a cena jamais existiu, apenas que estavam começando a ocupação de Trípoli. Isso mostra o apoio midiático dado pela Al Jazeera na conquista não só da capital, mas de mentes e corações dos cidadãos líbios, que estavam sendo convencidos desta invasão e mentirosa “adesão em massa”.

5 – As tribos líbias, várias, sempre viveram em conflito entre elas, independente do Gaddafi (inclusive a dele). É uma história bem mais complexa, impossível de simplificar aqui sem falar em toda a história de formação do país. Mas uma coisa é certa: ele foi o único a mantê-las por anos convivendo pacificamente. E sim, foi a tribo de Benghazi e uma das que havia em Misrata a iniciarem os conflitos (ataques que eles mesmos fizeram a órgãos públicos e residencias de partidarios de Gaddafi). Sem ajuda estrangeira, jamais teria passado disso. Teriam sido reprimidos, como seriam se fosse em qualquer país.

6 – O argumento de guerra civil é real, desde o início em função do que foi dito. As tribos iniciaram esse conflito e os cidadãos estavam se atacando. A acusação de que Gaddafi bombardeou áreas civis e que por isso era necessário a zona de exclusão aérea foi DESMENTIDA pela Anistia Internacional, infelizmente, meses depois de iniciada a guerra. Ele bombardeou os arsenais no deserto para evitar que fossem saqueados. E tentou sim, com força militar, impedir que os próprios cidadãos se matassem.

A Líbia podia estar necessitando de uma transição, mas quando os conflitos iniciaram, o governo Gaddafi propôs isso de inúmeras maneiras. Sugeriram a realização de plebiscito para perguntar à população que regime gostariam de ter, se gostariam de ter eleições, sugeriram que uma nova organização de governo fosse feita com membros do anterior e do CNT, enfim, muitas propostas.

A única coisa que ele não abriu mão e jamais fará, é que apenas pegasse o banquinho e saísse para a ocupação que acontece agora. Ele identificou a movimentação da Al Qaeda nas fronteiras, das tropas estrangeiras após a zona de exclusão aérea, dos porta-aviões parados em frente ao litoral líbio e a cada avanço desse tipo, ele também endurecia sua posição de não se entregar. Aliás, de não entregar a Líbia de bandeja para Cameron, Sarkozy, Obama e cia. E agora vemos que ele estava certo. Arrasaram a Líbia, destruíram grande parte do país, estão brigando entre eles e entre as empresas que querem explorar o petróleo líbio, estão cometendo uma série de violações com nosso silêncio. Queriam apenas se apropriar da Líbia, não era um movimento de “liberdade”, era um movimento de “traição” ao país, iniciado por poucos cidadão líbios, apoiados inicialmente por jihadistas. Gaddafi estava certo.

Leia também:

Antonio Lassance: O feitiço virou-se contra o feiticeiro

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Contraponto 6484 - "Juliana Medeiros : "Falo quase todos os dias (por Skype) com a Líbia"

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13/10/2011


Juliana Medeiros : Falo quase todos os dias (por Skype) com a Líbia

Do Viomundo - 12 de outubro de 2011 às 13:12

Líbia – Um relato pessoal

por Juliana Medeiros, no blog Substantivo Comum, sugestão Conceição Oliveira (Maria Fro)

Falo quase todos os dias (pelo Skype) com a Líbia. Amigos em Trípoli, Sirte, Bani Walid, Sebha, Misrata.. também muitos refugiados em Túnis, no país vizinho. Gente que conhecia há alguns anos, mas a maioria conhecia há pouco, quando os conflitos começaram. Uma rede que se formou, de solidariedade e respeito mútuos, entre líbios e pessoas comuns (muitos jornalistas, como eu) que verdadeiramente queriam saber notícias sobre o que acontecia na Líbia e que iam encontrando pessoas, parentes, amigos, alguém que conhecia alguém.

O motivo? Não há até o momento notícias confiáveis nas grandes redes, a maioria de nós não confia nelas. Nós por força do óbvio, os líbios, por pura indignação (com as mentiras constantes). É fácil entender. Não é possível para qualquer rede de televisão em países que estão bombardeando a Líbia fazer uma cobertura minimamente imparcial. Dentre os outros, a maioria esmagadora, inclusive o Brasil, em função do custo de manter um correspondente ininterrupto, apenas repetem o que dizem as mesmas agências de notícias dos países envolvidos com a ação militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN.

Há uma grande rede de notícias do mundo árabe, Al Jazeera, que até esse momento, vinha sendo o fiel da balança, o grande “intérprete” do mundo árabe (e em alguns casos, do contexto islâmico) para o mundo ocidental. Até que o país “alvo” fosse um inimigo do príncipe do Qatar, dono da rede Al Jazeera e… membro da OTAN! Restam apenas duas com coberturas feitas in loco: a RT, da Rússia, e a TeleSur, latinoamericana. As duas, dando um show de cobertura desde o início dos conflitos na Líbia, mas silenciadas por seus tamanhos diminutos, em relação à outras redes, ou mesmo pela acusação de “cúmplices” de Gaddafi (ou seja, não está do lado de Obama, Sarkozy ou Cameron, está contra). Nessa guerra midiática onde a maioria serve a interesses políticos e econômicos, um pouco de inglês e o acesso à internet, permitem a comunicação direta com as fontes, sem intermediários.

Um desses amigos é esse na foto acima. Mohanned Magam, em foto tirada na cobertura do Hotel que sediava a imprensa, em Tripoli, com a praça em frente tomada pelo povo e suas bandeiras verdes. Um estudante de ciência política da Universidade de Trípoli, que pegou em armas para defender sua cidade e morreu, não vítima de um combate direto com os ditos “rebeldes”, mas por via aérea, atingido por um míssel da OTAN, que matou também vários amigos que estavam próximos a ele.

Depois de passar meses conversando com esse garoto, de 23 anos, um líder estudantil, empolgado com a esperança, aliás, com a certeza na vitória de seu país, contra o que ele chamou de “conspiração”, ou uma “tentativa de manchar a imagem” da vida que tinham por lá, foi inevitável uma crise de lágrimas quando soube de sua morte. Meu irmão mais novo tem a idade dele e sua única preocupação é tocar bateria em sua banda de rock.

Demorei a acreditar que era verdade. Tive que perguntar, no Facebook, a vários de seus amigos e obter uma confirmação de um que falou com sua mãe, por telefone, semanas depois. Olho para essa foto e penso em como estamos vivendo em um mundo estúpido…

É inacreditável que homens como Obama ou Sarkozy durmam tranquilos em seus travesseiros com tantas mortes sob sua responsabilidade. É inacreditável que o planeta inteiro ainda aceite os mesmos argumentos usados na guerra do Iraque e assista pela TV, impassível, ao genocídio que acontece na Líbia há meses. ( Os grifos em verde negritado são do ContrapontoPIG)

Bush configurou-se em Obama, personagens diferentes, para países diferentes, mas uma mesma história de morte e apropriação de recursos que alimentam sistemas financeiros falidos e retroalimentam a indústria bélica – eterna salvadora do modelo capitalista – agora com a nossa audiência globalizada, em horário nobre. Há muitos níveis de omissão e conivência com o que acontece agora na Líbia. Como sempre, precisamos que ataquem nosso quintal para sermos capazes de nos importar.

E lendo o que escrevi acima, vejo o quanto é difícil usar uma linguagem “jornalística” ou “racional” para descrever tudo isso. Mas aceitei esse desafio de um amigo “do exílio”, de tentar pelo menos blogar os relatos que recebo, talvez como forma de acompanharmos mais de “perto” as transformações, agora inevitáveis, a que o povo líbio está submetido, e que definitivamente NÃO estamos assistindo pela TV. Aliás, parte da minha indignação, de cidadãos líbios e de profissionais de imprensa independentes, tem sido a observação da atitude submissa e conivente de colegas que em nome da preservação de seus empregos, incorporaram o discurso geral. Mas isso caberia em um livro, talvez. Um case e tanto.

Por outro lado, percebo o quanto é surreal que a informação neste mundo globalizado nos permita vermos um filme em nosso sofá, sabendo que alguém do outro lado, passa a noite em claro em meio a bombas de verdade. E, sim, eu sei que Gaza já vive isso há décadas, hostilizada quase que diariamente por soldados das forças especiais israelenses. Mas a Líbia não vivia uma guerra, não vivia uma ameaça mínima que fosse, o povo sequer contava com uma, viviam no país reconhecido pela ONU em 2007 como o maior IDH de seu continente, reconhecido como “um dos maiores combatentes do terrorismo”, um lugar sem impostos, aluguéis, com TODO o aparelho de estado público e gratuito, com água abundante no meio do deserto do Sahara, de maioria islâmica (sem embates religiosos, como acontece em outros países do mundo árabe) e bem, creio que já é possível perceber que essa história de “povo querendo ser salvo de um ditador sanguinário” já demonstrou ser uma das maiores furadas da história contemporânea. Um engodo, que grande parte do mundo comprou e que resultou em um país arrasado e agora alvo de uma disputa de butim. Jihadistas, membros da Al Qaeda (irônicamente alçados à “parceiros” dos países da coalizão), mercenários, líbios opositores, tropas britânicas e do Qatar e, claro, Sarkozy e Obama que já sabem qual será sua cota na partilha.

Hoje falei com a viúva inconsolável de um dos amigos mortos na Líbia. Um bem humorado professor universitário, orientador de mestrados na área de pesquisas em biologia – que há poucos meses me dizia pelo Skype que tentava ajudar seu governo a combater uma ainda improvável invasão estrangeira, enquanto preparava provas para seus alunos, imaginando como a maioria dos líbios, que tudo não passaria de negociações diplomáticas. Médico veterinário e biólogo, passou cerca de oito anos se especializando no Brasil, na USP e na UnB, entre os anos 80 e 90. Amava o Brasil e aqui fez amigos, como eu e muitos outros. Eu sequer sabia o que dizer para ela, me limitei a ouvir seu desabafo.

De Trípoli, ela informou que nada voltou ao normal. Pelo contrário, o caos está por todos os lados. Não há previsão de retorno às aulas, não há comida, remédios, sobra medo..

O “novo governo” que se anuncia pelos meios de comunicação num embate midiático constante com membros do governo Gaddafi (e o próprio) – que também não deixam de ocupar espaços na mídia local e do mundo árabe – mantém controle de alguns bairros com neuróticos sentinelas que atiram em tudo que vêem auxiliados por bombardeios constantes da OTAN que “abrem” caminho para as milícias, numa ação coordenada inédita na história humana. Há também muita tensão com corajosos soldados do exército líbio que teimam em seguir na resistência mesmo sem as ordens de seus comandantes.

Minha amiga sequer sai de casa há meses. Sem o marido, tenta proteger os dois filhos, ainda menores de 14 anos. Não há esperança, apenas apreensão. Quando ele ainda estava vivo, depois de iniciada a invasão estrangeira de fato, sua família se limitou a permanecer por semanas totalmente incomunicável, em silêncio, em seu apartamento, esperando que não fossem atingidos pela artilharia antiaérea dos “rebeldes” que miravam aleatoriamente nos prédios residenciais de Trípoli.

Depois de sua morte e de passar alguns dias tentando sepultar o companheiro, numa capital mergulhada em guerra civil, só lhe restou manter-se no apartamento escondida com seus filhos e apenas esperar que novos ventos tragam a tranquilidade necessária para realizar as cerimônias islâmicas de despedida do seu ente querido ou simplesmente, tocar a vida em frente.

Soldados do CNT (o autoproclamado “Conselho Nacional de Transição”) que rondam Tripoli, em sua maioria, não são líbios mas mercenários contratados pela OTAN, Qatarianos e soldados das forças especiais britânicas. Existe uma dificuldade na comunicação piorada com a tensão constante. Grande parte dos milicianos, segundo ela, apesar de falarem árabe, não são nativos (como se fossem os portugueses de Portugal, para nós) por isso muitas discussões acabam em morte. É uma fórmula trágica fácil de imaginar. Eles mantem guarda nas ruas, para evitar que algum cidadão se “indisponha” com o “novo” regime que estão implantando. Qualquer resistência termina em bate-boca e agressões que chegam à morte com facilidade num país em guerra e sem qualquer policiamento ou estrutura de segurança em funcionamento.

Ela relatou ainda que milicianos do CNT tentam identificar ex-funcionários do governo anterior para interrogatórios e execuções sumárias. Tudo isso, com o silêncio das “Nações Unidas”. Aliás, com a garantia de assento no Conselho de Segurança da ONU para os assassinos!

Nesse momento a maioria da população deseja apenas que a guerra acabe logo, seja com quem for. Não aguentam mais a pressão. Querem suas vidas de volta. Ao mesmo tempo, parte da população silenciada durante o dia, impedida de hastear suas bandeiras, forma redes de denúncia na internet (a maioria em língua árabe) e grupos de resistência noturna para sabotar as milícias do CNT.

Que povo é esse que resiste há meses à tão “esperada salvação”? É impressionante o discurso construído para legitimar o genocídio das forças estrangeiras sobre a Líbia! O único resultado visível da “ação humanitária” da OTAN nesse país africano, são corpos espalhados pelas ruas, hospitais em colapso e um medo incessante. Uma GUERRA incessante… como podemos acreditar numa “liberdade” há tanto tempo sonhada com as imagens espalhadas na internet de violência, desespero, tragédia, diariamente?

Há alguns anos acompanhava a guerra no Líbano pela TV, com um amigo libanês que falava da sua impotência em ver tudo de longe sem poder fazer nada. Agora entendo o que é isso.

Uma única decisão mudaria o curso dessa história: cessar o investimento na morte. Somália, Etiópia, Haiti, poderiam ser alimentados por anos com o que estão investindo para destruir a Libya! Mas esse, aqui no mundo real, não é o objetivo dos senhores da guerra.

Quando estive na Tunísia, fronteira com a Líbia, falei pela última vez com Mohhaned pelo Skype, avisando que pretendíamos chegar logo a Trípoli e que poderíamos conversar pessoalmente. A OTAN tinha iniciado o bombardeio dos postos de fronteira, o início ao cerco, mas nós não tínhamos ainda a dimensão do que estava por vir. Quando comentei que era chato aquele “atraso”, ele me respondeu com um smile ao final, “don´t worry, you will pass the border soon”. Tenho certeza agora de que nós atravessamos, cada um à sua maneira, essa fronteira.


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Pitaco do ContrapontoPIG.

O pior é que já estão "preparando" o próximo "inimigo": o Irã.

Quando será a vez da Venezuela; a vez dos donos do pré-sal e de outros?.

Os mostros estão feridos mas gostam da óleo e de guerra...

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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Contraponto 6315 - "A visita dos conquistadores"

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22/09/2011
A visita dos conquistadores


Do Blog do Mauro Santayana
- 21/09/2011

Por Mauro Santayana

Com a arrogância de conquistadores em território ocupado, que lembra a visita de Hitler à França, em 23 de junho de 1940, Cameron e Sarkozy estiveram esta semana na Líbia. Há alguns meses, eles, com a cumplicidade de Obama e a genuflexão da ONU, lideraram a OTAN nos ataques aéreos ao país. Kadafi é tudo o que dizem dele. Megalômano, teria ordenado o atentado contra um avião de passageiros, que explodiu sobre Lockerbie, na Escócia, e matou 270 pessoas, em 1988, além de governar o seu povo com mão pesada. Kadafi não é inocente. Mas é um erro não admitir que ele usou dos recursos naturais do país, por ele nacionalizados, a fim de dar relativo bem-estar a seus compatriotas. Não só assegurou a assistência gratuita à saúde, em qualquer caso, como garantiu a educação de todos, incluída a universidade.

Aceitar esse fato é importante, a fim de pesar as conseqüências históricas da intervenção militar estrangeira, ainda em curso. É quase certo que Kadafi não disporá de tempo, nem de espaço para uma resistência duradoura e efetiva. É sem embargo prudente considerar que o vasto território líbio, que se estende pelo amplo deserto ao sul, foi apenas tocado, em seu litoral, pela supremacia dos meios bélicos estrangeiros. Se Kadafi se encontra sob a proteção de chefes tribais, encontra-lo nos areais do Saara será mais difícil do que localizar uma agulha no palheiro. Ele, que é ainda relativamente moço, terá condições – se contar com essa proteção política atávica – de iniciar operações de guerrilha contra os seus sucessores, com resultados imprevisíveis.

Nesse momento, e apenas nesse momento, Sarkozy e Cameron se sentem vitoriosos. Posam de condôminos dos Estados Unidos na aspiração imperial, e crêem que podem, em pouco tempo, liderar nova repartição colonial da África, como a ocorrida em Berlim, em 1884/85. Naquele tempo, a China estava de joelhos, a Rússia mergulhada no desatino dos Romanov, e os Estados Unidos mal iniciavam o seu projeto de expansão mundial. Com isso, Sarkozy e Cameron acreditam também injetar um pouco de oxigênio em seus países, que passam por crise econômica, política e financeira grave, em decorrência da subordinação de seus governos aos interesses dos grandes bancos europeus. Mas, como nos belos versos de Cazuza, o tempo não pára, e o futuro costuma repetir o passado.

Os dois líderes, com seu sorriso, que tudo indica ser provisório, estão felizes. Lideraram uma coalizão que tinha como propósito salvar vidas inocentes no confronto entre rebeldes e o governo – e fizeram, com sua intromissão nos assuntos internos de um país até então soberano, mais de vinte mil mortos. Para defender os direitos humanos, eliminaram os titulares de tais direitos que anunciavam garantir. Se não se tivessem envolvido no conflito, provavelmente não haveriam tantos mortos, mas não poderiam, agora, reivindicar a repartição do petróleo líbio - antes que possam repartir também o fosfato e outros minerais. Daí sua equivocada alegria.

O artigo 2º da Carta das Nações Unidas, estabelece que as relações entre os países devem obedecer aos princípios da igualdade de direitos e de respeito à autodeterminação dos povos. O bom senso, mais do que até mesmo os compromissos éticos – se os houvesse nas relações internacionais – recomendaria a não intervenção nos assuntos internos das comunidades políticas soberanas, qualquer que fosse o pretexto. Isso não ocorre. A não intervenção é uma retórica da hipocrisia, que tem sido violada sempre que é de interesse das nações mais bem armadas. Não há só hipocrisia, mas sobra o cinismo, como no caso líbio: para “proteger” os presumidos direitos humanos violados, as armas dos interventores mataram milhares de inocentes – e ainda mantêm o discurso que, com os resultados sabidos, passa a ser abjeto.

É da elementar compreensão da Realpolitik que uma rebelião armada contra qualquer governo seja reprimida pelo poder constituído. O governo de Kadafi era legitimado pelo consentimento dos líbios. Se eles se rebelaram contra esse poder, e se Kadafi reagiu com suas forças armadas, o conflito deveria ter sido resolvido sem qualquer intervenção externa. Provavelmente o descontentamento contra Kadafi e o seu desgaste pela longa permanência no governo absolutista, levassem os rebeldes à vitória, que seria legítima. E esses rebeldes, sem qualquer intervenção externa, reorganizariam, como bem entendessem, sua sociedade política. No momento em que sua aparente vitória se deve a forças externas, ela é frágil e pode ser provisória.

Cameron e Sarkozy, de acordo com alguns observadores, estiveram na Líbia a fim de contrapor-se à presença e provável influência de Erdogan no país. Ninguém sabe, exatamente, o que os membros do instável Comitê Nacional de Transição pensam dos problemas regionais (neles, o conflito entre Israel e a Palestina, a situação da Síria e do Irã, a alentadora dúvida da Arábia Saudita e os interesses estratégicos da Rússia e da China no Mediterrâneo), mas é natural que ouçam o premier turco, que representa um país com forte presença islâmica. Há a possibilidade de que o novo governo líbio, constituído de rebeldes, não venha a ser mero delegado dos estrangeiros, e assuma postura independente. Para isso contam com a simpatia das novas potências mundiais, como a Rússia – que pediu à ONU o fim da intervenção aérea no país - e a China.

Mais uma vez, na História, a paz do mundo depende do Mediterrâneo, esse lago que une os três maiores continentes do planeta.
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domingo, 4 de setembro de 2011

Contraponto 6164 - "Vem aí um protetorado colonial da OTAN"

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04/09/2011

Vem aí um protetorado colonial da OTAN

Do Direto da Redação - Publicado em 04/09/2011

Mário Augusto Jakobskind
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A Líbia segue na ordem do dia. Em Paris, emissários de 60 países, inclusive o Brasil, se reuniram para discutir o futuro da Líbia e, sobretudo a questão da reconstrução. Trocando em miúdos, o que aconteceu por lá foi o próprio “quero o meu”. Ou seja, a quem caberá ficar com as riquezas da região e que empresas ficarão encarregadas de reconstruir a terra arrasada pelos mais de 60 mil bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Países como o Brasil, a Rússia e a China, que defendiam a realização dos trabalhos na Organização das Nações Unidas foram lá para tentar garantir que os contratos anteriores com o governo de Muammar Khadafi continuarão em vigor.

Parte do dinheiro nas contas congeladas de Khadafi será utilizado para exatamente fechar contratos com os governos que lideraram a ofensiva da OTAN. Ou seja, quem destruiu a Líbia vai lucrar com a reconstrução, exatamente como aconteceu no Iraque. E se alguém ainda acredita que os destruidores e vencedores vão estabelecer uma democracia é realmente ingênuo e se deixa enganar facilmente pela lábia de Nicolas Sarkozy, David Cameron, Silvio Berlusconi, Barack Obama e dirigentes de países árabes que apoiaram os bombardeios aéreos da OTAN.

Em vez de democracia, o que será instalado na Líbia, consolidando-se a tomada do poder à força será, como afirmou o economista José Luis Fiori, o ”primeiro protetorado colonial da OTAN na África”. Um abaixo assinado subscrito por 140 intelectuais africanos já havia feito um alerta nesse sentido pouco antes do início do cerco por terra de Trípoli a 15 de agosto. A mídia de mercado segue cobrindo a guerra, não propriamente cobrindo, mas de fato encobrindo fatos que desabonariam a ação militar da OTAN. As baterias midiáticas estão voltadas contra o “bandido” Khadafi e só, a OTAN fica acima de qualquer suspeita.

Resta saber até que ponto a própria ação colonial da OTAN tem relação com a grave crise financeira que atravessam países europeus, por acaso também os mesmos que participaram das incursões ao território líbio. Quem conhece algo da história tem claro que a África está sendo objeto de um retrocesso tamanho, como se o mundo retornasse a séculos passados, quando prevalecia à lei das canhoneiras e depois as potências da época se reuniam para dividir o terreno conquistado firmando tratados e mais tratados.

Enquanto isso, por estas bandas, mais precisamente no Estado do Pará, aconteceu um fato que envergonha o Brasil e coloca a Justiça num patamar ainda mais baixo do que já era considerado. O fazendeiro Marlon Lopes Pidde, que chefiou uma chacina na Fazenda Princesa, no município de Marabá, em setembro de 1985, onde seis trabalhadores rurais foram torturados e posteriormente assassinados, foi colocado em liberdade na semana passada, por um habeas corpus do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
O assassino foi preso, preventivamente pela Polícia Federal no final de 2006, isso depois de passar 20 anos foragido escondendo-se com nome falso na cidade de São Paulo.

A polícia do Pará nunca se esforçou para prender Marlon, que antes de fugir residia em Goiânia. Ele na ocasião tinha prisão preventiva decretada.

Como lembra a Comissão Pastoral da Terra (CPT) Marlon chefiava os assassinos que sequestraram, amarram e torturaram as vítimas depois de sequestrá-las em suas casas. Baleados e mortos, os corpos dos seis trabalhadores foram presos uns aos outros e amarrados a pedras no fundo de um rio.

A Justiça paraense retardou o quanto pôde a decisão de dar andamento ao processo, não só nos 22 anos que o mesmo passou nas gavetas do fórum da Comarca de Marabá, bem como durante quatro anos em que ficou emperrado no Tribunal de Justiça para o julgamento de um simples recurso. O assassino está solto. A Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) foi informada sobre o fato protagonizado pelo Tribunal de Justiça do Pará que envergonha o Brasil.

Aqui no Rio de Janeiro, se houvesse justiça e maior mobilização popular, o governador Sérgio Cabral e o secretário de Transportes Júlio Lopes estariam respondendo processo pela tragédia ocorrida com um bondinho de Santa Tereza que provocou cinco mortes e 50 feridos. Uma tragédia que a Associação de Moradores de Santa Tereza já havia advertido de que poderia acontecer, em função do total sucateamento do importante meio de transporte do bairro e do turismo carioca.

Julio Lopes, como um bom covarde que demonstrou ser, culpou o condutor do bondinho pelo acontecimento trágico. Lopes disse isso porque o funcionário morreu no acidente e não poderia responder a mentira do secretário. O acidente de responsabilidade do governo do Estado precisa ser analisado com rigor e por fontes idôneas. É necessário também investigar as relações dos proprietários de ônibus com a Fetransporte, porque este setor empresarial manda e desmanda no organismo. Há denúncias segundo as quais o sucateamento dos bondinhos se deve a uma política deliberada do Estado para que os ônibus se tornem o único meio de transporte em Santa Tereza.

Aí vem este secretário de Transportes, que precisa também ser investigado com rigor, dizer que o culpado foi o motorneiro. É sempre a mesma coisa, para a elite o culpado é sempre o mordomo, ou seja, quem está em baixo na hierarquia. Lopes seguiu o expediente e conta de antemão com a absolvição por qualquer tipo de acusação.

Assim caminha o governo do Estado do Rio de Janeiro sob o governo de Sérgio Cabral e seus Lopes. Tragédias acontecem e tudo fica por isso mesmo em matéria de punição dos responsáveis ou mesmo a apuração rigorosa dos fatos. Alguém tem dúvida que por aí tem truta?

*Mário Augusto Jakobskind. É correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE
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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Contraponto 6131 - "Sete pontos acerca da Líbia"

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.31/08/2011
Sete pontos acerca da Líbia


Do Blog do Miro - 31/08/2011

Por Domenico Losurdo, no sítio português Resistir:


Doravante mesmo os cegos podem ver e compreender o que está a acontecer na Líbia:

1. O que se passa é uma guerra promovida e desencadeada pela NATO. Esta verdade acaba por se revelar até mesmo nos órgãos de "informação" burgueses. No La Stampa de 25 de Agosto, Lucia Annunziata escreve: é uma guerra "inteiramente externa, ou seja, feita pelas forças da NATO"; foi "o sistema ocidental que promoveu a guerra contra Kadafi". Uma peça do International Herald Tribune de 24 de Agosto mostra-nos "rebeldes" que se regozijam, mas eles estão comodamente instalados num avião que traz o emblema da NATO.

2. Trata-se de uma guerra preparada desde há muito tempo. O Sunday Mirror de 20 de Março revelou que "três semanas" antes da resolução da ONU já estavam em acção na Líbia "centenas" de soldados britânicos, enquadrados num dos corpos militares mais refinados e mais temidos do mundo (SAS). Revelações ou admissões análogas podem ser lidas no International Herald Tribune de 31 de Março, a propósito da presença de "pequenos grupos da CIA" e de uma "ampla força ocidental a actuar na sombra", sempre "antes do desencadeamento das hostilidades a 19 de Março".

3. Esta guerra nada tem a ver com a protecção dos direitos humanos. No artigo já citado, Lucia Annunziata observa com angústia: "A NATO que alcançou a vitória não é a mesma entidade que lançou a guerra". Nesse intervalo de tempo, o Ocidente enfraqueceu-se gravemente com a crise económica; conseguirá ele manter o controle de um continente que, cada vez mais frequentemente, percebe o apelo das "nações não ocidentais" e em particular da China? Igualmente, este mesmo diário que apresenta o artigo de Annunziata, La Stampa, em 26 de Agosto publica uma manchete a toda a largura da página: "Nova Líbia, desafio Itália-França". Para aqueles que ainda não tivessem compreendido de que tipo de desafio se trata, o editorial de Paolo Paroni (Duelo finalmente de negócios) esclarece: depois do início da operação bélica, caracterizada pelo frenético activismo de Sarkozy, "compreendeu-se subitamente que a guerra contra o coronel ia transformar-se num conflito de outro tipo: guerra económica, com um novo adversário: a Itália obviamente".

4. Desejada por motivos abjectos, a guerra é conduzida de modo criminoso. Limito-me apenas a alguns pormenores tomados de um diário acima de qualquer suspeita. O International Herald Tribune de 26 de Agosto, num artigo de K. Fahim e R. Gladstone, relata: "Num acampamento no centro de Tripoli foram encontrados os corpos crivados de balas de mais de 30 combatente pró Kadafi. Pelo menos dois deles estavam atados com algemas de plástico e isto permite pensar que sofreram uma execução. Dentre estes mortos, cinco foram encontrados num hospital de campo; um estava numa ambulância, estendido numa maca e amarrado por um cinturão e tendo ainda uma transfusão intravenosa no braço".

5. Bárbara como todas as guerras coloniais, a guerra actual contra a Líbia demonstra como o imperialismo se torna cada vez mais bárbaro. No passado, foram inumeráveis as tentativas da CIA de assassinar Fidel Castro, mas estas tentativas eram efectuadas em segredo, com um sentimento de que se não é por vergonha é pelo menos de temer possíveis reacções da opinião pública internacional. Hoje, em contrapartida, assassinar Kadafi ou outros chefes de Estado não apreciados no Ocidente é um direito abertamente proclamado. O Corriere della Sera de 26 de Agosto de 2011 titula triunfalmente: "Caça a Kadafi e seus filhos, casa por casa". Enquanto escrevo, os Tornado britânicos, aproveitando também a colaboração e informações fornecidas pela França, são utilizados para bombardear Syrte e exterminar toda a família de Kadafi.

6. Não menos bárbara que a guerra foi a campanha de desinformação. Sem o menor sentimento de pudor, a NATO martelou sistematicamente a mentira segundo a qual suas operações guerreiras não visavam senão a protecção dos civis! E a imprensa, a "livre" imprensa ocidental? Ela, em certo momento, publicou com ostentação a "notícia" segundo a qual Kadafi enchia seus soldados de viagra de modo a que eles pudessem mais facilmente cometer violações em massa. Como esta "notícia" caiu rapidamente no ridículo, surge então uma outra "nova" segundo a qual os soldados líbios atiram sobre as crianças. Nenhuma prova é fornecida, não se encontra nenhuma referência a datas e lugares determinados, nenhuma remessa a tal ou tal fonte: o importante é criminalizar o inimigo a liquidar.

7. Mussolini no seu tempo apresentava a agressão fascista contra a Etiópia como uma campanha para libertar este país da chaga da escravidão; hoje a NATO apresenta a sua agressão contra a Líbia como uma campanha para a difusão da democracia. No seu tempo Mussolini não cessava de trovejar contra o imperador etíope Hailé Sélassié chamando-o "Negus dos negreiros"; hoje a NATO exprime seu desprezo por Kadafi chamando-o "ditador". Assim como a natureza belicista do imperialismo não muda, também as suas técnicas de manipulação revelam elementos significativos de continuidade.

Para clarificar quem hoje realmente exerce a ditadura a nível planetário, ao invés de citar Marx ou Lénine quero citar Emmanuel Kant. Num texto de 1798 (O conflito das faculdades), ele escreve: "O que é um monarca absoluto? Aquele que, quando comanda: 'a guerra deve fazer-se', a guerra seguia-se efectivamente". Argumentando deste modo, Kant tomava como alvo em particular a Inglaterra do seu tempo, sem se deixar enganar pela forma "liberal" daquele país. É uma lição de que devemos tirar proveito: os "monarcas absolutos" da nossa época, os tiranos e ditadores planetários da nossa época têm assento em Washington, em Bruxelas e nas mais importantes capitais ocidentais.
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domingo, 28 de agosto de 2011

Contraponto 6105 - "A nova velha Libia"

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28/08/2011
A nova velha Libia

Do Direto da Redação - Publicado em 28/08/2011

Mário Augusto Jakobskind*

Uma semana depois de a delegação brasileira integrada por parlamentares, jornalistas e ativistas sociais ser impedida de ingressar na Líbia em função da intensificação dos bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a TV Globo ingressou em Trípoli para “informar“ aos telespectadores os acontecimentos. O informar fica entre aspas, porque muito mais do que informar o esquema global desembarcou na capital líbia para apresentar um entretenimento e com texto provavelmente encomendado pela OTAN do que outra coisa. Aliás, se for consultado o WikLeaks pode-se saber quem são exatamente certos colunistas e âncoras da Globo. Wiliam Waack que o diga.

O repórter da Globo em Trípoli culpava o “ditador” Khadafi por tudo de mal que estava acontecendo e bradava que o povo comemorava a definição em favor dos opositores do regime que chegava ao fim. Da mesma forma que ocorreu com as imagens dos opositores ao longo dos últimos seis meses, os que chegaram a Trípoli não reuniam o povo nas comemorações, apesar dos textos dizerem o contrário.

Sobre as consequências dos bombardeios da OTAN, nada.

O líder líbio, segundo as agências de notícias, estava sendo procurado em tudo que é canto do país. E isso com a ajuda da OTAN, que colocou a inteligência no encalço do “bandido”. Empresários líbios, parte deles recém chegados da Tunísia, dos Estados Unidos e até da Europa, ofereciam 1,7milhão de dólares pela captura de Khadafi vivo ou morto.

A TV Globo, e de um modo geral toda a mídia de mercado tupiniquim, silenciou não apenas sobre as consequências dos bombardeios, como também em apresentar aos leitores, telespectadores e ouvintes quem é quem na OTAN. Andeers Fogh Rasmussen, atual secretário geral da entidade, por exemplo, foi Primeiro-Ministro da Dinamarca de 2001 a 2009, liderando uma coalizão com a ala direita do Partido Conservador Popular. Como se não bastasse, Rasmussen trabalhou intensamente com o Partido Popular Dinamarquês, de extrema direita, agremiação política irmã do Partido Progressista da Noruega, onde militava Anders Behring Breivik, o terrorista neonazista que além de disseminar ódio contra estrangeiros recentemente assassinou dezenas de pessoas em atentados.

Esta é a Otan, a verdadeira definidora da queda do regime de Khadafi e que se propõe a estabelecer a democracia na Líbia. Há testemunhas de jornalistas, não das Organizações Globo, claro, que para abrir caminho dos opositores a OTAN bombardeou indiscriminadamente tudo que via a sua frente em Trípoli.

Segundo o jornalista Thierry Meyssan, colaborador do Global Research, no sábado, 20 de agosto, um barco da OTAN atracou ao lado de Trípoli, entregando armas pesadas e desembarcando jihadistas da Al Qaeda, enquadrados por oficiais da Aliança. Meyssan revelou ainda que helicópteros e aviões da OTAN bombardeavam para todos os lados e pessoas eram metralhadas nas ruas para abrir caminho aos opositores.

O Tribunal Penal Internacional de Haia pretende julgar Khadafi por “crimes contra a humanidade”, naturalmente se ele for capturado vivo. Já o vice-presidente sul africano, Kgalerna Morlanthe cogita apoiar proposta de grupos progressistas no sentido de processar a OTAN no mesmo Tribunal sob o argumento que a Organização teria desrespeitado os direitos humanos na Líbia.

O Conselho Nacional de Transição, órgão político dos opositores de Khadafi, na palavra do chefe Mustafá Abdeljalil admite que em seis meses de combate, teriam morrido mais de 20 mil pessoas. Não houve referências aos bombardeios da OTAN.

Os acontecimentos na Líbia remetem a 1 de novembro de 1911, quando foi utilizada a aviação da Itália para bombardear posições turcas em Ain Zara, a leste de Trípoli. Quatro bombas de 1,5 quilos foram lançadas então. Em 2011, muito, mas muito mais do que isso, possantes jatos, da França, do Reino Unido e dos Estados Unidos, com o apoio de muitos países da Europa e mesmo árabes, arrasaram a Líbia e foram os principais responsáveis pelo avanço até Trípoli dos opositores de Khadafi.

O dirigente deposto errou de cabo a rabo ao fazer inúmeras concessões ao capital financeiro e aos senhores da guerra, imaginando que cairia nas graças do Ocidente. Em um primeiro momento, segundo revelam documentos da Wikleaks, o governo líbio passou a ser considerado exemplar em termos de combate ao terrorismo.

Bastou Khadafi querer adotar medidas que contrariavam interesses econômicos poderosos na área do petróleo, mesmo com as concessões feitas, apareceram os rebeldes que tomaram Benghazi.

A entrada em cena da OTAN teve como pretexto a defesa da população líbia da “ação criminosa” de Khadafi. Mas quando o mesmo Khadafi abriu para o Ocidente a partir de 2003, recebendo com tapete vermelho Madame Condoleezza Rice e Tony Blair, as “atrocidades de Khadafi” hoje reveladas eram simplesmente ignoradas.

Pelo atrevimento de Khadafi em formar com demais países africanos um bloco econômico com moeda própria, o governo dos Estados Unidos decidiu agir. Como não poderia fazer o serviço sozinho em função do desgaste no Iraque e Afeganistão convenceu os aliados David Cameron, do Reino Unido, e Nicolas Sarkozy a agir. Dois aliados do gênero cachorrinho e a docilidade da ONU complementaram o serviço.

Esta guerra civil, em suma, ainda está para ser contada. Um item importante será conhecer com maiores detalhes o papel da mídia, que mais do que mídia passou a ser a própria guerra que está resultando em uma “nova Líbia”. A Al Jazeera. do Catar teve participação intensa no esquema.

Ah, sim, e a família real que controla a Arábia Saudita a ferro e fogo, tudo bem? Podem ficar a vontade em matéria de atrocidades porque são aliados dos Estados Unidos. Mulher sendo presa porque é proibida de dirigir, deixa para lá, afinal a família real é aliada e para os aliados tudo. Para os que ousam, OTAN neles com a chancela da ONU.


Mário Augusto Jakobskind
. É correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE

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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Contraponto 6073 - "A dúvida sobre os rebeldes líbios"

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24/08/2011

A dúvida sobre os rebeldes líbios



A grande pergunta que segue aberta é como os insurgentes líbios poderão converter sua vitória no terreno de uma paz estável e aceita por todos. O Conselho Nacional de Transição (CNT), em Benghazi, já reconhecido por tantos estados nacionais como sendo o governo legítimo da Líbia, é de duvidosa legitimidade e de duvidosa autoridade. Os próprios insurgentes admitem que sem a guerra aérea feita a seu favor pela OTAN – com 7459 ataques aéreos sobre os partidários de Kadafi – estariam mortos ou fugindo.

Patrick Cockburn - The Independent - Página/12

A guerra civil na Líbia durou mais do que o esperado, mas a queda de Trípoli chegou antes do previsto. Como em Cabul em 2001 e em Bagdá em 2003, não havia uma postura de defender até o fim o regime derrotado, cujos partidários pareciam ter derretido, ao verem que a derrota era inevitável. Se por um lado está claro que o coronel Muanmar Khadafi perdeu poder, por outro não se sabe quem o ganhou. Os rebeldes estavam unidos contra um inimigo comum, mas não muito mais do que isso. O Conselho Nacional de Transição (CNT), em Benghazi, já reconhecido por tantos estados nacionais como sendo o governo legítimo da Líbia, é de duvidosa legitimidade e de duvidosa autoridade.

Mas há outro problema para terminar a guerra. Os próprios insurgentes admitem que sem a guerra aérea feita a seu favor pela OTAN – com 7459 ataques aéreos sobre os partidários de Kadafi – estariam mortos ou fugindo. A questão, portanto, segue aberta, que é como os rebeldes podem converter pacificamente sua vitória do campo de batalha assistida pelo exterior numa paz estável e aceitável para todos os partidos da Líbia.

Os precedentes no Afeganistão e no Iraque não são alentadores e servem como advertência. As forças anti talibã no Afeganistão tiveram êxito militar graças – como na Líbia – ao apoio aéreo estrangeiro. Depois usaram seu predomínio temporário de forma arrogante e desastrosa para estabelecerem um regime tendencioso contra a comunidade pashtun. No Iraque, os estadunidenses – excessivamente autoconfiantes depois da fácil derrota de Saddam Hussein – dissolveram o exército iraquiano e excluíram os ex-membros do partido da base de Saddam dos seus empregos e do poder, dando-lhes poucas opções que não a de lutarem. A maioria dos iraquianos estava contente em ver o fim de Saddam, mas a luta para substituí-lo quase destruiu o país.

O mesmo ocorrerá na Líbia? Em Trípoli, como na maioria dos outros estados petroleiros, o governo provê grande parte dos empregos e para muitos líbios a queda do antigo regime lhes cairia muito bem. Como pagarão, agora, por estar do lado dos perdedores? O ar se tornou pesado ontem, com as convocações do Conselho de Transição para que seus combatentes evitassem atos de represália. Mas foi apenas no mês passado que o comandante em chefe das forças rebeldes foi assassinado, num ato obscuro e inexplicável de vingança. O gabinete rebelde foi dissolvido e não foi reconstituído, dado o seu fracasso na investigação do assassinato. O Conselho Nacional de Transição estabeleceu pautas para governar o país no período pós Kadafi, que pretendem assegurar que se mantenham a lei e a ordem, alimentar as pessoas e continuar com os serviços públicos.

É muito cedo para saber se se trata de uma ilusão inspirada no olhar estrangeiro ou se terá algum efeito benéfico nos acontecimentos. O governo líbio era uma organização escalafobética, nos melhores momentos, de modo que qualquer falha em sua efetividade pode não ser em princípio notada. Mas muitos dos que celebram nas ruas de Trípoli e saúdam as colunas rebeldes que avançam esperam que suas vidas melhorem e se sentirão frustrados se isso não acontecer.

As potências estrangeiras provavelmente pressionarão para formar uma assembleia de algum tipo para dar ao novo governo alguma legitimidade. Será preciso criar instituições que o coronel Kadafi destruiu em sua maior parte e substituiu por comitês supostamente democráticos que, na realidade, supervisionavam o governo caprichoso de um só homem. Esta não será uma tarefa fácil. Aos opositores de longa data do regime será difícil compartilhar os resultados do que foi pilhado com aqueles que mudaram de lado no último momento.

Alguns grupos obtiveram poder com a própria guerra, como os bereber, das montanhas do sudeste de Trípoli, marginalizados durante muito tempo, que reuniram a milícia mais efetiva no combate. Vão querer que sua contribuição seja reconhecida quando da distribuição de qualquer poder.


A Líbia tem várias vantagens sobre o Afeganistão e o Iraque. Não é um país com uma grande parte de sua população à beira da desnutrição. Não tem a mesma história ensopada de sangue que o Afeganistão e o Iraque. Apesar de toda demonização do coronel Kadafi durante os últimos seis meses, seu governo nunca competiu com a selvageria de Saddam Hussein.

(*) Do The Independent, Especial para o Página/12

Tradução: Katarina Peixoto

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Contraponto 6072 - "Antônio Luiz Costa: Na Líbia, OTAN faz 1 a 0 nos BRICs"

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24/08/2011

Antônio Luiz Costa: Na Líbia, OTAN faz 1 a 0 nos BRICs

Do Viomundo - 23 de agosto de 2011 às 22:01

E o vencedor é…?

Antonio Luiz M. C. Costa*, na CartaCapital

23 de agosto de 2011 às 17:23h

Repete-se há seis meses que “a queda de Kaddafi é iminente”, mas com grande parte de Trípoli nas mãos dos revoltosos, inclusive o complexo de governo, pode-se finalmente acreditar nessa frase sem correr o sério risco de superestimar a competência dos rebeldes. Demonstrado, mais uma vez, na noite de 22 de agosto. Todas as mídias anunciaram a captura de Saif al-Islam, filho e principal porta-voz de Kaddafi, supostamente confirmada pelo Tribunal Penal Internacional, mas ele apareceu num hotel cheio de jornalistas, dirigindo seu próprio carro, para assegurar que controlava a cidade e “escorraçaria as ratazanas”. Muhammad, o filho mais velho também “capturado”, escapou à prisão, segundo os rebeldes. Faz lembrar a frase feita sobre pessoas a quem não se deve dar duas tartarugas para cuidar ao mesmo tempo.

Em todo caso, o regime que dominou a Líbia por 42 anos foi derrotado. Menos pela “primavera árabe”, neste caso pouco mais que pretexto, do que pela intervenção direta dos EUA e seus aliados sob a folha de figueira do mandato da ONU para “proteger os civis” por meio de uma zona de exclusão aérea. Foram decisivos não só os ataques diretos dos aviões e navios da OTAN às tropas e instalações civis e militares de Kaddafi, como também a participação discreta, em terra, de conselheiros e instrutores militares da SAS (Special Air Service, força especial secreta do exército britânico) e de espiões do MI-6 no planejamento das ofensivas militares. Sem isso, a rebelião, ao que tudo indica, teria sido destroçada há meses.

Mas quem venceu? “Os rebeldes” é uma resposta que, além de ingênua, não quer dizer muita coisa. A oposição a Kaddafi é um saco de gatos que inclui monarquistas pró-ocidentais do antigo regime, islamistas originados da Al-Qaeda (como reconhece a própria OTAN), socialistas e empresários, além de muitas figuras importantes do regime teoricamente deposto. Os conflitos internos foram brutais mesmo durante a luta, como mostrou o assassinato do ex-ministro do Interior de Kaddafi e comandante militar rebelde Abdul Fatah Younis em 28 de julho, supostamente por rebeldes islamistas. Deixados a si mesmos, os rebeldes estariam prontos para outra rodada de guerra civil.

A vitória, por enquanto, pertence aos norte-americanos e europeus, que tentarão colher os louros na forma de petróleo. Os rebeldes já deram várias indicações de que os premiarão com contratos e concessões e punirão as estatais da Rússia, China e Brasil, países que se recusaram a apoiá-los e romper com Trípoli. Assim, uma leitura possível é que as velhas potências do Atlântico Norte tenham vencido a primeira batalha de uma nova guerra fria, que as opõe aos BRICS. Se consolidarão essa vitória, só o tempo dirá: o Afeganistão e o Iraque mostraram que uma invasão bem-sucedida é apenas o começo de uma longa dor de cabeça.

*Antonio Luiz M.C.Costa é editor de internacional de CartaCapital e também escreve sobre ciência e ficção científica

PS do Viomundo: Não subestimemos o fato de que, pelo menos no Brasil, a mídia joga no time da OTAN. Quase em uníssono.

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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Contraponto 6068 - Pilhagem na Líbia

. 23/08/2011

New York Times: A 'mão livre' das companhias de petróleo na Líbia

Do Viomundo - 23 de agosto de 2011 às 3:09

The Scramble for Access to Libya’s Oil Wealth Begins

By CLIFFORD KRAUSS, em 22.08.2011, no New York Times

Houston — A luta ainda não acabou em Trípoli, mas a disputa para assegurar acesso à riqueza do petróleo da Líbia já começou.

Antes da rebelião começar, em fevereiro, a Líbia exportava 1,3 milhão de barris de petróleo por dia. Embora isso represente menos de 2% das necessidades globais, apenas um pequeno número de países pode fornecer o equivalente do mesmo tipo de petróleo do qual muitas refinarias do mundo dependem. O retorno da produção líbia ajudaria a derrubar os preços de petróleo na Europa e, indiretamente, os preços da gasolina na costa Leste dos Estados Unidos.

Nações ocidentais — especialmente os países da OTAN, que deram apoio aéreo crucial aos rebeldes — querem ter certeza de que suas companhias ficarão em posição destacada para bombear o petróleo líbio.

O ministro das Relações Exteriores da Itália, Franco Frattini, disse na TV estatal segunda-feira que a companhia petrolífera italiana Eni “terá o papel número um no futuro” no país norte-africano. O sr. Frattini chegou a afirmar que técnicos da Eni já estavam a caminho do leste da Líbia para reiniciar a produção. (A Eni rapidamente desmentiu que tinha mandado pessoal para a região ainda em disputa, que é a maior fonte do petróleo importado pela Itália).

A produção líbia foi praticamente suspensa durante o longo conflito entre as forças rebeldes e as tropas leais ao líder da Líbia, coronel Muammar el-Qaddafi.

A Eni, com a britânica BP, a Total da França, a Repsol YPF da Espanha e a OMV da Áustria, foram todas grandes produtoras na Líbia antes da guerra civil, e estão em posição para ganhar mais assim que o conflito terminar. As companhias americanas Hess, ConocoPhillips e Marathon também fizeram acordos com o regime de Qaddafi, embora os Estados Unidos dependam em menos de 1% das importações da Líbia para seu consumo.

Mas permanece incerto se um governo rebelde honraria os contratos fechados pelo regime de Qaddafi ou que tipo de postura assumiria nas negociações para acordos de produção com as companhias dispostas a investir nos poços existentes ou na exploração de novos.

Mesmo antes de assumir, os rebeldes sugeriram que relembrarão seus amigos e inimigos e negociarão levando isso em conta.

“Não temos problemas com países ocidentais como os italianos, franceses e companhias britânicas”, disse o porta-voz da companhia de petróleo dos rebeldes, Agoco, Abdeljalil Mayouf, segundo a Reuters. “Mas teremos algumas questões políticas com a Rússia, China e Brasil”.

A Rússia, a China e o Brasil não deram apoio a fortes sanções contra o regime de Qaddafi, e em geral apoiaram uma solução negociada para por fim ao conflito. Todos os três países têm grandes companhias de petróleo que tentam negócios na África.

O preço básico do petróleo na Europa caiu moderadamente na segunda-feira, com a especulação de que a produção líbia de petróleo seria rapidamente retomada. Os preços do petróleo Brent inicialmente cairam mais de 3%, mas terminaram o dia basicamente com o mesmo valor em Nova York, U$ 108,42 o barril. O preço básico dos Estados Unidos, que é menos sensível a eventos no Oriente Médio, subiu U$ 2,01, para U$ 84,42.

O coronel Qaddafi provou ser um parceiro problemático para as companhias de petróleo internacionais, frequentemente aumentando impostos e taxas e fazendo outras exigências. Um novo governo com relações próximas com a OTAN poderia ser um parceiro mais fácil para as nações ocidentais. Alguns especialistas dizem que, com a mão mais livre, as companhias de petróleo poderiam encontrar consideravelmente mais petróleo na Líbia do que foram capazes sob as restrições impostas pelo governo Qaddafi.

Analistas de petróleo dizem que é provável que as companhias de petróleo, particularmente a Total e a Eni, compitam ferozmente por contratos para explorar as melhores propriedades, com os respectivos governos fazendo lobby em nome delas. Mas primeiro os rebeldes deverão consolidar seu controle sobre o país.

“Se você não tem um ambiente de segurança estável, quem vai colocar os trabalhadores de volta no país?”, disse Helima Croft, estrategista geopolítica da Barclays Capital.

A guerra civil forçou grandes companhias de petróleo a retirar seu pessoal da Líbia e a produção despencou nos últimos meses para minúsculos 60 mil barris por dia, de acordo com a Agência Internacional de Energia. Isso seria suficiente para atender 20% das necessidades domésticas de petróleo da Líbia. Os rebeldes foram capazes de exportar pequenas quantidades de petróleo que estavam estocadas em portos e venderam o produto a dinheiro nos mercados internacionais através do [emirado do] Qatar.

Especialistas em petróleo alertam que a Líbia poderia levar mais de um ano para fazer os reparos e colocar seus poços em produção total, embora as exportações possam ser retomadas em alguns meses.

Como o petróleo é o recurso econômico mais importante da Líbia, qualquer novo governo seria obrigado a fazer da produção sua mais alta prioridade. Isso significa ter segurança nos maiores campos de petróleo, nos oleodutos, refinarias e portos. O governo também precisaria rapidamente estabelecer relações com as companhias de petróleo estrangeiras, algumas das quais consultaram tanto os rebeldes quanto o coronel Qaddafi durante o conflito, visando garantir suas apostas.

As companhias de petróleo envolvidas na Líbia evitaram comentários a respeito da situação no país ou disseram que pretendem avaliar a evolução da segurança antes de mandar seu pessoal de volta ao país.

“Claramente, estamos monitorando a situação como todos”, disse Jon Pepper, um vice-presidente da Hess. “Obviamente a situação precisa estabilizar antes que as pessoas comecem a pensar em retomar a produção”.

Em anos recentes, a Itália depende da Líbia para mais de 20% de suas importações de petróleo. A França, a Suiça, a Irlanda e a Áustria todas dependiam da Líbia para mais de 15% de suas importações antes do início da guerra civil.

A importância da Líbia para a França foi sublinhada na segunda-feira, quando o presidente Nicolas Sarkozy convidou o chefe do conselho de transição nacional, Mustafa Abdel-Jalil, para consultas em Paris.

Apesar de os Estados Unidos dependerem muito pouco da Líbia, a redução da quantidade de petróleo de alta qualidade nos mercados mundiais empurrou para cima os preços do petróleo e da gasolina também para os norte-americanos.

Analistas da indústria dizem que a maior parte das empresas de serviço do setor continou a pagar salários a suas equipes líbias durante a guerra, indicando que houve danos relativamente pequenos à maioria das instalações. Isso sugere que a produção poderia ser retomada em questão de semanas.

Mas as exportações dependem em grande escala da rapidez dos reparos a serem feitos nos terminas de exportação de Ras Lanuf, Melitah e Es Sider e do quanto o novo governo será capaz de dar segurança aos campos e oleodutos que ficam em áreas que tradicionalmente apoiavam o antigo regime.

O fechamento às pressas de poços quando a guerra se espraiou, em fevereiro, além da falta de manutenção nos últimos meses, podem significar que os consertos necessários vão levar meses, particularmente nos campos mais antigos.

As experiências de outros países da região oferecem razões para cautela. Analistas dizem que disputas políticas no Irã reduziram a produção do país por décadas e foram necessários oito anos para a produção do Iraque se recuperar depois da invasão liderada pelos Estados Unidos para derrubar Saddam Hussein.

O presidente da Eni, Giuseppe Recchi, disse recentemente a analistas que provavelmente levaria um ano para a Líbia voltar aos níveis normais de exportação. Na segunda-feira, ele negou que sua companhia fosse enviar imediatamente pessoal para a Líbia, mas disse a repórteres que espera que o novo governo líbio respeite os contratos fechados previamente pela companhia.

Elisabetta Povoledo
contributed reporting from Rome.

http://www.nytimes.com/2011/08/23/business/global/the-scramble-for-access-to-libyas-oil-wealth-begins.html?pagewanted=all

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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Contraponto 6066 - "A intervenção dita 'humanitária' na Líbia"

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22/08/2011
A intervenção dita 'humanitária' na Líbia

Do Blog do Miro - 22/08/2011

Por Viktor Dedaj, no sítio português Resistir:


Enviar pirómanos para extinguir um incêndio, queimar a floresta para salvar as árvores, bombardear a população para poupar civis, lançar campanhas de terror em nome do combate contra o terrorismo, promover a democracia apoiando ditadores, monarquias, terroristas e outros gangsters de toda espécie... a lógica dos dirigentes ocidentais é imparável.

Durante este tempo, a organização dos media de massa bombardeia as consciências até obter a sua rendição. E é assim que você acorda um dia com o sentimento de que sempre foi favorável às privatizações. Com a crença de que os Taliban sempre foram nossos inimigos. Que esta Europa é a única que vale a pena. Que você compreende muito bem que não se poderá pagar vossa aposentadoria. E que a NATO é uma espécie de serviço internacional de ambulâncias.

Hoje, 21 de Agosto, a última notícia: "os rebeldes entraram em Tripoli". Depois de semanas de "os rebeldes líbios avançam", "os rebeldes controlam a cidade de...", os "rebeldes anunciam...". É cómico como o actor principal destes acontecimentos, a NATO, consegue tornar-se discreta nos noticiários.

Para ver a dificuldade que estes rebeldes tiveram para avançar num país plano, pouco povoado, onde os seus mestres tinham e têm o domínio total do céu – condições ideais para uma tal campanha – e onde (vantagem suprema) o povo seria "apoiante da sua causa", é evidente e claro que os "rebeldes líbios" jamais representaram grande coisa, chegando até a matarem-se entre si e a eliminar o seu próprio comandante em chefe (e isto nas condições "ideais").

Dito isso, a menos que haja um golpe de teatro, eles "ganharão", cedo ou tarde, isto é certo. E como poderia ser de outra maneira? Quando o bastão redondo da propaganda não entra no buraco quadrado da realidade, a NATO encarrega-se de arredondar os ângulos.

Apostamos que não faltarão nessa altura algumas sombras embrutecidas para chafurdarem nos nossos écrans a gritarem "ganhámos"! E dizer que há alguns meses eles mal sabiam pronunciar o nome do país. Mas a verdade é que a história já provou que eles haviam errado, que eles erram, e a questão do "combate" não mudará isso.

Tripoli resistirá? Quanto tempo? Horas, dias? E subitamente as apostas são abertas e eis-nos projectados na lotaria local. Eles falarão sem dúvida de "partidários de Kadafi" (um certo número) e nunca "dos líbios opostos à intervenção imperialista" (provavelmente mais numerosos). Eles nos mostrarão algumas imagens de multidões em regozijo. Utilizarão eles imagem tomadas outrora em Bagdad? Encontrarão eles finalmente os 6000 líbios assassinados "pelo regime" ou mudarão de assunto, como no caso das armas de destruição maciça?

Portanto, "se irá ganhar". A questão que me intriga é saber quem é o "se" e o que é que terá sido "ganho". É louco como se esquiva sistematicamente esta questão interessante. Eu sei que este "se" não sou eu, nem tão pouco você (qualquer que seja a vossa opinião sobre esta operação da NATO). Sei também que não é a imensa maioria da população líbia que certamente tinha uma outra ideia da Primavera árabe.

Esta manha (21 de Agosto), a imprensa nos explica que uma brigada rebelde de elite está impaciente às portas de Tripoli. Ela nos explica sem pestanejar que alguns dos 600 homens têm a "dupla nacionalidade americana e líbia"... que o seu chefe fala "com uma forte pronúncia irlandesa", um "atirador de elite" que "passou a maior parte da sua vida em Dublim", que está "em contacto permanente com as forças da NATO".

E eu me digo: "aí está, nem um líbio para dirigir a brigada de elite da rebelião?". E também: "se não se trata de mercenários, eles parecem furiosamente". Mas a ideia não perambula no meu espírito pois o lugar já estava ocupado por esta outra ideia recentemente martelada pelos media: é Kadafi que emprega mercenários ("negros e drogados").

Sim, doravante temos a indicação de que "se" ganhou: um líbio puro, como já não há nas tribos. Ele usa Ray Ban, masca chewing-gum, fala com uma forte pronúncia irlandesa e o seu passaporte líbio é provavelmente muito belo, inteiramente novo e ainda deve cheirar a tinta fresca. E tenho o sentimento confuso que se lhe perguntasse "e Bagdad, como era?", ele responderia "no comment".

Então, após meses de bombardeamentos de toda espécie, tenho de me render... à evidência. E dizer que deixei de duvidar desta história de intervenção humanitária.

PS: último minuto, na categoria do "eles ousam tudo". Um porta-voz da NATO declara que a missão da Aliança é proteger a população civil e não tomar partido por um dos dois campos. Orwell, tu é um amador.
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Contraponto 6063 - "Líbia e Síria: PiG não engole a independência do Brasil"

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22/08/2011
Líbia e Síria: PiG não engole
a independência do Brasil

Do Conversa Afiada - Publicado em 22/08/2011

Na primeira página da Folha (*), o colonista (**) Clóvis Rossi assegura que o Brasil ficou do lado errado da História, na Líbia.

No Valor, na pág. A2, ao tratar da Síria, o colonista (**) Sergio Leo responsabiliza a “diplomacia brasileira (por) parte do fracasso da comunidade internacional em lidar com o esfacelamento sangrento de regimes autoritários”.

Rossi queria que o Brasil aprovasse o bombardeio aéreo à Líbia imposto pelos Estados Unidos, com a mão de gato da OTAN.

Leo quer que o Brasil adira ao embargo econômico à Síria, embora o comércio entre o Brasil e a Síria, como ele próprio diz, seja irrelevante.

Navalha



O PiG (***) e seus notáveis colonistas não aceitam aindependência do Brasil.

O Brasil deveria ser colônia de Portugal, da Inglaterra e agora dos Estados Unidos.

Eles gostavam daquela diplomacia da dependência do governo do Farol de Alexandria.

A diplomacia de um Chefe de Estado que recebia um carão do presidente Clinton, na frente de todo mundo e não se dignava a defender o Brasil – ou a si próprio.

Esses colonistas, no fundo, adoraram a política externa da campanha do Padim Pade Cerra: fechar o Mercosul e isolar (ou invadir) a Bolívia e o Irã.

Como se o Celso Amorim fosse a Hillary Clinton.

O Rossi é um veterano repórter do Mundo.

No dia que o Grupo dos Sete dos Estados Unidos foi deposto e, no lugar, entrou o Grupo dos 20 de que o Brasil faz parte, ele não deu importância.

Porque passou a vida inteira a cobrir a irrelevância do Brasil no âmbito do G7 e não percebeu que o G7 é que se tinha tornado irrelevante.

O princípio da “auto-determinação dos povos” faz parte da política externa brasileira desde sempre.

(Fora intervalos de genuflexão, como no regime militar, sob inspiração do jenial Golbery, e nos governos Collor e FHC).

Um dos teóricos mais brilhantes do princípio da auto-determinação dos povos foi o Embaixador Araujo Castro, ultimo chanceler do grande presidente João Goulart.

Como se sabe, o governo constitucional do Presidente Goulart foi deposto numa ação de desrespeito à auto-determinação do povo brasileiro.

Há vários motivos a explicar a queda de Goulart.

Por isso, convém ler o livro do professor Jorge Ferreira, que revisitou Goulart e deu um banho de História no historialista Elio Gaspari.

Conta o professor Ferreira que San Tiago Dantas foi quem revelou a Goulart como se daria a intervenção militar americana, caso ele resistisse.

A informação da San Tiago Dantas veio de Minas, onde os insurretos criaram um Estado independente, que já negociava com o “chanceler” Afonso Arinos o reconhecimento do Governo Johnson, dos Estados Unidos.

Convenhamos, amigo navegante, que fazer uma “Revolução” com a V Frota americana nas costas é mais fácil do que sair na rua de cara lavada, não é isso ?

Ainda mais que, como mostra o professor Ferreira, as pesquisas de opinião pública do momento indicavam forte apoio a Goulart e às reformas de base.

O historialista Gaspari – infatigável defensor dos Estados Unidos e adversário da política externa independente do Brasil -, além de usar vários chapéus, assegura que Jango caiu porque gostava de coristas.

O Brasil é gato escaldado.

Se o Brasil apoiar a invasão do Iraque em busca de armas inexistentes, com que autoridade protestaria, se a V Frota viesse com um canudo chupar o pré-sal no limite das 200 milhas ?

Por essas e outras, esse ansioso blogueiro é a favor da bomba atômica.

Para o Brasil assegurar a auto-determinação do povo brasileiro.



Em tempo: este ansioso blogueiro recomenda a todo brasileiro auto-determinado que leia o excelente artigo com que o Ministro da Defesa (do Brasil) Celso Amorim se despede da Carta Capital.

Clique aqui para ler “Notícias do possível ato final na Líbia”.


Paulo Henrique Amorim


(*) Folha é um jornal que não se deve deixar a avó ler, porque publica palavrões. Além disso, Folha é aquele jornal que entrevista Daniel Dantas DEPOIS de condenado e pergunta o que ele achou da investigação; da “ditabranda”; da ficha falsa da Dilma; que veste FHC com o manto de “bom caráter”, porque, depois de 18 anos, reconheceu um filho; que matou o Tuma e depois o ressuscitou; e que é o que é, porque o dono é o que é; nos anos militares, a Folha emprestava carros de reportagem aos torturadores.

(**) Não tem nada a ver com cólon. São os colonistas do PiG que combateram na milícia para derrubar o presidente Lula e, depois, a presidenta Dilma. E assim se comportarão sempre que um presidente no Brasil, no mundo e na Galáxia tiver origem no trabalho e, não, no capital. O Mino Carta costuma dizer que o Brasil é o único lugar do mundo em que jornalista chama patrão de colega. É esse pessoal aí.

(***)
Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.
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domingo, 21 de agosto de 2011

Contraponto 6054 - "Delegação brasileira barrada na Líbia"

Link.
.21/08/2011
Delegação brasileira barrada na Líbia


Do Direto da Redação Publicado em 21/08/2011

Mário Augusto Jakobskind*

Tunis (Tunisia) - Estas linhas estão sendo elaboradas em Túnis, capital da Tunísia, onde uma delegação brasileira ficou retida por não poder ingressar na Líbia em função dos intensos bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Em Trípoli não dá para chegar de avião, somente por terra e numa estrada a partir da fronteira com a Tunísia. Próximo daquela área houve durante quatro dias na semana que passou (e continuaram) combates entre os chamados rebeldes e as forças leais a Muammmar Khadafi.

Civis foram atingidos e ninguém pôde atravessar a fronteira para ir ao território líbio. Os que tentaram, como o médico líbio Heghan Abudeihna, que chegava do exterior via Tunísia foram atingidos. Integrantes da família do médico foram vitimados, segundo informações procedentes de Trípoli.

A Otan não quer sem saber se seus ataques atingem ou não populações civis, o que o governo líbio garante acontecer e até chamou delegações de várias partes do mundo, não só a brasileira, como dos Estados Unidos, Itália e muitos outros países, para verificar de perto os acontecimentos, como os efeitos dos bombardeios da Otan sobre a população civil.

Lamentavelmente, quando chegava a vez dos brasileiros, a última delegação que faria um relatório a ser apresentado à Organização das Nações Unidas, a ação militar da Otan impediu a entrada, que se fosse acontecer colocaria em risco os nove integrantes, inclusive este jornalista, dois parlamentares, Protógenes Queiroz e Brizola Neto, entre outros. O próprio governo líbio recomendou a não ida, para evitar algum incidente de consequências fatais.

Na verdade, os insurgentes contra Khadafi só conseguem avançar, e mesmo assim por um tempo curto, com a ajuda da Otan. Sem isso, provavelmente a crise já teria terminado com algum tipo de acordo político. Um dos objetivos da presença da delegação brasileira na Líbia era o de também colaborar no sentido de a paz retornar ao país norte africano.

Depois de seis meses de combates e menos um pouco de bombardeios das forças estrangeiras, uma coisa está clara: a crise não se resolverá militarmente, apesar das seguidas declarações de Madame Hillary Clinton falando hipocritamente em democracia.

Uma das propostas que voltou a ser sugerida, inclusive apoiada em nota da delegação brasileira, é a da realização de um plebiscito, sob a supervisão da ONU, para que o povo decida o regime a ser seguido no país. A Otan, entretanto, ainda acredita que ao sufocar a capital líbia com bombardeios diários para dificultar a entrada de víveres e mesmo ajuda humanitária que chega à Líbia atravessando a estrada Djerba (na Tunísia) até Trípoli, conseguirá o objetivo de acabar com o regime atual na Líbia. Ou seja, a estratégia atual é de sufocar Trípoli impedindo a entrada de alimentos e combustíveis. E na guerra da informação, os rebeldes ganham força, o que é negado pelo governo líbio.

Se as forças anti-Khadafi tivessem povo mesmo como apregoam teriam realizado manifestações populares massivas, o que nunca aconteceu até agora. Os constantes ataques aéreos e o cerco atual a Tripoli é mais uma tentativa do Ocidente de acabar com o regime capitaneado por Khadafi. Por estas e muitas outras, países com reservas de petróleo, inclusive o Brasil, que se cuidem, porque a cobiça é cada vez mais intensa. No caso líbio ainda se soma o fator geopolítico do controle da região,

Então, a crise deverá continuar por mais tempo, apesar da mídia de mercado dizer o contrário ao apregoar que os dias do dirigente Khadafi estão contados. Se a estratégia dos bombardeios continuar não dando certo, já não se exclui a possibilidade de uma invasão da Otan ao estilo Iraque.

Mas para tomar essa decisão, os integrantes da Otan terão que pensar duas ou mais vezes, simplesmente pelo fato de o povo em Trípoli estar armado e preparado para responder a uma agressão estrangeira. Hillary Clinton, Obama, Sarkozy, Angela Merkel e mesmo Berlusconi sabem disso e terão de continuar ameaçando e agindo sem produzir resultados, a não ser prejudicando a vida do povo líbio, que quer viver em paz e sem intromissão estrangeira.

Em relação à Tunísia, os eleitores preparam-se para eleger a 23 de outubro próximo uma Assembleia Constituinte. Estão registrados 100 (cem mesmo) partidos. Alguns partidos islâmicos querem que a Tunísia volte ao tempo da sharia, a lei islâmica, que prevê, entre outras coisas, decapitações de mãos para determinados crimes, inclusive o roubo e assim sucessivamente.

O problema é complexo. Ditadores sanguinários e corruptos como Ben Ali, da Tunísia e Hosny Mubarak, do Egito, sempre usaram a força bruta para massacrar o povo com o pretexto de combate às Irmandades Muçulmanas. Os dois mencionados, que foram apeados do poder pelo povo, adotaram políticas econômicas neoliberais para empobrecer parcelas significativas do povo e ainda encher os seus bolsos e de seus familiares.

Em termos turísticos, a Tunísia atrai muitos europeus. É um país privilegiado em termos de belezas naturais e de história. Há quem diga até que a Tunísia é uma espécie de Turquia, mas sem marketing. Ou seja, um país privilegiado pela natureza e bastante badalado em vários quadrantes, inclusive pela classe média brasileira com recursos para viajar. Comparem quando alguém diz que “estou indo para a Turquia” com outro que anuncia a ida para a Tunísia.

É isso aí, poucos sabem que a Tunísia na década de 50, logo após a independência em 1956, o carismático líder Habib Bourguiba instituiu uma espécie de Bolsa Família oferecendo subsídios do Estado para famílias de baixa renda. E quem recebia eram as mulheres, por serem consideradas em melhores condições do que os homens para gerir o subsídio.

Bourguiba, um socialista e herói, que mais tarde fez concessões ao esquema do deus mercado, acabou deposto e então Ben Ali ocupou o comando instituindo uma ditadura policial das mais violentas da região. Bourgiba aboliu o uso do véu pelas mulheres, o que se manteve posteriormente.

Agora, a 23 de outubro, os eleitores terão de escolher entre os 100 (cem mesmo) partidos para constituir uma Assembleia Constituinte, que terá a incumbência de tornar a Tunísia um país com leis na área social, entre outras coisas. Ou seja, depois da revolução que resultou no fim de uma das ditaduras mais cruéis dos últimos tempos no mundo, a Tunísia abre caminho para novos tempos. Se por algum motivo o processo nesse sentido for interrompido, provavelmente o povo voltará a se manifestar nas ruas exigindo reformas verdadeiras.

Mário Augusto Jakobskind. É correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE
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