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sábado, 3 de setembro de 2011

Contraponto 6157 - "E agora, PT?"

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03/09/2011

E agora, PT?


Do Blog do Emir - 03/09/2011/

Emir Sader*

O PT realizou os objetivos a que se propunha quando se fundou como partido: elegeu e reelegeu seu principal dirigente, Lula, como presidente e elegeu sua sucessora. Conseguiu recolher o Brasil numa profunda recessão, com as desigualdades acentuadas na sociedade um Estado reduzido à sua mínima expressão, o perfil internacional reduzido à sua mínima expressão. Chegou ao final do governo Lula com a diminuição sensível das desigualdades, com o desenvolvimento econômico retomado, o Estado recuperando seu papel de indutor do crescimento econômico e se projetando como nunca no plano internacional com uma política externa soberana.


Tudo foi feito no marco de um governo de alianças de centro esquerda, sem poder alterar elementos estruturais herdados, como a hegemonia do capital especulativo, o peso determinante do agronegocio no campo, a ditadura da mídia privada na formação da opinião pública, entre outros.
Como principal partido da esquerda brasileira, qual sua função no período político que se abre?

Como partido de esquerda, sua função essencial é lutar pela hegemonia da esquerda no marco dessas alianças de governo. Mas o que isso significa?

Parece haver um consenso geral no PT em torno de iniciativas importantes, como a diminuição substancial da taxa de juros, a aprovação de uma reforma política que inclua o financiamento público das campanhas e outras iniciativas democratizantes, a aprovação da Comissão da Verdade, a rejeição das reformas do Código Florestal com a anistia para o desmatamento, a aprovação do marco regulatório da mídia. Representa um conjunto importante de posições.

Mas qual o marco estratégico geral pelo qual lutamos? Qual o tipo de sociedade pela qual lutamos? Que tipo de Estado necessitamos para isso?

A característica fundamental do mundo contemporâneo é a hegemonia do modelo neoliberal no marco do capitalismo. Esse modelo transformou profundamente nossas sociedades. A América Latina foi vítima privilegiada desse modelo. Depois de ditaduras militares que quebraram a capacidade de resistência do movimento popular em alguns dos principais países do continente, da crise da dívida que atingiu a todo o continente, vieram os governos neoliberais que se generalizaram praticamente por toda a região.

As transformações regressivas acumuladas incluíram a fragmentação social, em particular do mundo do trabalho; a redução do Estado a suas mínimas proporções; a desproteção dos mercados inernos; a desnacionalização das economias, entre outras. Porém o modelo neoliberal se esgotou de forma mais ou menos rápida. A crise mexicana de 1994, a brasileira de 1999 e a argentina de 2002-03, decretaram sua falência. Foi nesse marco que foram surgindo os governos de reação contra o neoliberalismo, que receberam, no entanto, pesadas heranças.

O neoliberalismo tratou de mercantilizar todas as relações sociais, incluindo o próprio Estado. O objetivo da esquerda hoje é superar o neoliberalismo, gerando as condições de uma sociedade solidaria, integrada, democrática, soberana, uma sociedade pós-neoliberal.

A avaliação do período atual, do momento em que nos encontramos e das tarefas de um partido de esquerda decorrem da avaliação de quanto avancamos na superação do neoliberalismo, das conquistas, que são pontos de apoio para avançar, e dos obstáculos a superar.

Um elemento estratégico do modelo neoliberal é a hegemonia do capital financeiro. Ao promover a desregulamentação, o neoliberalismo favoreceu essa hegemonia, porque liberado de regulamentações, o capital não se dirigiu à produção – o capital não é feito para produzir, mas para acumular, já nos ensinava Marx -, mas à especulação, onde ganha mais, com menos impostos e liquidez praticamente total.

Quebrar essa hegemonia e impor uma dinâmica predominane de crescimento econômico com expansão do mercado interno de consumo popular, com a correspondente distribuição de renda é um objetivo estratégico da luta da esquerda hoje. O capital especulativo não produz bens, nem empregos, é essencialmente um capital parasitário, que vive as custas dos outros setores, fragiliza a soberania do Estado, chantageia a sociedade, induz os piores aspectos da globalização para dentro do país.

Combinar regulamentação da circulação do capital financeiro com taxações e uso de outros mecanismos é a forma de obter esse objetivo, ao lado da indução da expansão produtiva e do crescente fortalecimento das demandas do mercado interno de consumo popular. A obtenção da taxa de juros de 2% ao final do mandato – compromisso da Dilma – será o termômetro para medir o quanto avancamos nessa direção essencial.

O poder do agronegócio no campo, com todas suas consequências negativas em termos de concentração de terras, da sua deterioração, em detrimento da economia familiar, que produz alimentos para o mercado interno e gera empregos é outro dos elementos de um modelo que tem que ser superado. O que significa avançar na democratização do acesso à terra e de apoio à economia familiar em ritmo maior do que a demanda chinesa pela exportação da soja.

O marco regulatório da mídia pode permitir no avanço para a formação democrática – e não a monopólica atualmente existente – da opinião pública, sem a qual nunca haverá uma democracia real no Brasil.

Esses aspectos são alguns dos que representam superar o processo de mercantilização generalizada que o neoliberalismo buscou impor, fortalecendo a esfera dos direitos, aquela que busca estender os direitos da cidadania a todas as esferas da sociedade.

Para isso não precisamos apenas com uma reforma democrática do processo eleitoral. Preciso de um novo tipo de Estado. O Estado que temos foi construído para perpetuar o domínio das minorias, ele tem que ser radicalmente reconstruído, refundado, para dar lugar à construção de um Estado que reflita as novas relações de poder na sociedade, governos que expressam os interesses da maioria da sociedade, em um processo de democratização que tem que se estender a todos os rincões do país, incluído o próprio Estado.

Um partido de esquerda tem que centrar sua luta na superação do neoliberalismo, na construção de um tipo de sociedade não fundado na mercantilização na competição generalizada de todos contra todos, na subordinação aos interesses externos, mas na solidariedade, na fraternidade, na generalização dos direitos a todos, no humanismo.

*Emir Sader. Sociólogo e cientísta político.


quinta-feira, 24 de junho de 2010

Contraponto 2581 - "A pergunta que não quer calar: E agora, José?"

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25/06/2010

A pergunta que não quer calar: E agora, José?

Portal Vermelho 24/06/2010

Quando escreveu a poesia "José", na década de 40, Carlos Drummond de Andrade obviamente nem desconfiava que um dia ela serviria como uma luva para ilustrar a conjuntura política brasileira. Este dia chegou ontem (23), com a divulgação da pesquisa Ibope que mostra o presidenciável da oposição de direita, José Serra (PSDB), em situação periclitante, com cinco pontos de desvantagem sobre Dilma Rousseff (PT), sua principal adversária na corrida presidencial.


JOSÉ

A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?

E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José !

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
José, pra onde ?

Carlos Drummond de Andrade

Em maio, quando consolidou-se a ascensão de Dilma nas pesquisas, a oposição minimizou o fato dizendo que o crescimento da petista deveu-se à exposição dela na propaganda partidária na TV e que o mês seguinte, junho, seria o "mês de Serra" pois o PSDB, o DEM, o PTB e o PPS exibiriam suas propagandas na TV tendo o presidenciável tucano como ator principal.

“Maio é o mês da Dilma. Junho será o nosso mês”, afirmou o presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra, no dia 24 de maio. Na mesma ocasião, Guerra disse que “no momento em que alguém tem uma movimentação intensa nos meios de comunicação, é evidente que vai levar vantagem” e ainda reafirmou que a estratégia de campanha de Serra estava correta e não seria alterada.

Alguns dias depois, no início de junho, uma reunião da cúpula tucana foi convocada pelo ex-presidente FHC para cobrar mudanças nos rumos da campanha. Aécio Neves pediu ao colega paulista que fosse mais agressivo com a adversária petista e os aliados sugeriram que Serra centralizasse menos a campanha, especialmente na escolha das agendas, acelerasse a escolha do vice e desse mais atenção à montagem dos palanques regionais. As recomendações tinham como objetivo garantir que junho seria mesmo o "mês de Serra', como havia previsto Guerra. Mas não foi.

Junho está acabando, os partidos da direita pró-Serra cumpriram o prometido e violaram a lei eleitoral para colocar o tucano como ator principal de seus programas na rádio e na TV. Serra seguiu parte das recomendações dos aliados. Mesmo assim, o dado concreto até agora, trazido pela pesquisa Ibope de ontem (23), mostra que nada adiantou. Dilma continua subindo (está com 40% dos votos, tinha 37% na pesquisa anterior) e Serra continua caindo (está com 35%, tinha 37 antes).

A oposição foi pega de surpresa pelo resultado da pesquisa. Sérgio Guerra chegou a colocar em dúvida os dados do Ibope. Alegou que pesquisa interna do PSDB mostra números mais favoráveis a Serra.

A frustração oposicionista recoloca a questão sobre os acertos e desacertos da estratégia de campanha tucana. Depois de ensaiar elogios ao governo e depois recuar, alterando o tom para um discurso mais agressivo contra Dilma e o PT, restam poucas alternativas a José Serra a não ser construir novas lendas como a de que a campanha mesmo só começa depois da Copa, ou de que nos debates ele irá superar Dilma e reconquistar o eleitorado.

Porém, o Ibope mostra que é cada vez maior o eleitorado que está decidido a votar na candidata que dará continuidade ao governo Lula. E uma parcela dos votos que Serra tem hoje vem justamente de pessoas que ainda não sabem que Dilma é esta candidata. O tucano lidera apenas no Sul e entre os mais ricos.
Até mesmo em São Paulo, reduto eleitoral do tucanato, Serra começa a patinar. Isso sem falar em Minas Gerais --citada na poesia de Drummond-- onde Aécio parece pouco disposto a trabalhar em prol do ex-governador paulista.

Diante deste quadro desanimador, o que Serra poderá fazer para tirar votos de Dilma e recolocá-los em sua cesta? Esta é uma pergunta que a coordenação da campanha tucana está aflita para responder.

O jornal Valor Econômico traz, nesta quinta-feira, matéria na qual questiona se os tucanos estariam dispostos a seguir o exemplo de Alckmin em 2006 e passar a bater mais duro no presidente Lula mesmo sabendo que, hoje, Lula desfruta de uma popularidade muito maior do que tinha há quatro anos.

O jornalista Luiz Gonzalez, marqueteiro de Serra, é contrário a campanhas com ataques a adversário, que considera improdutivas. Serra também, mas o fato é que o tucano vem lentamente elevando o tom das críticas ao presidente. Na convenção de Salvador ele cunhou a frase: "Luis XIV achava que o Estado era ele. Nas democracias e no Brasil, não há lugar para luíses assim".

"Serra procura demonstrar convicção sobre a linha escolhida. Mas a campanha tucana, em junho, esteve permeada de assuntos negativos. A demora na escolha do candidato a vice na chapa do PSDB, por exemplo, indica insegurança e dificuldades internas para a definição do nome. Serra prefere fazer de conta que se trata de uma aflição de jornalistas, mas o fato é que o debate alimenta o noticiário negativo sobre a campanha. A pesquisa também atrapalha as últimas conversas sobre o vice e sobre a montagem dos palanques regionais - Serra entra mais fraco do que estava nas negociações", avalia o Valor, que cita ainda várias outras "derrapadas" do candidato tucano.

O jornal O Estado de S. Paulo também questionou a estratégia atual de Serra. Em editorial, afirmou que “para continuar a ter chances, Serra precisará encontrar um novo discurso e uma nova estratégia de campanha... Fora disso, só lhe restará esperar por um erro da adversária... Se quiser ganhar, Serra vai ter que partir para o ataque”.

Resta saber se o tucano vai seguir o script desenhado pela mídia aliada. Até o momento, parece disposto a não mudar uma vírgula em sua estratégia errática de campanha. Mas é provável que nem ele mesmo tenha certeza do que fazer. Pensando com seus botões, deve estar repetindo a pergunta de Drummond: "E agora, José?"

Da redação,
Cláudio Gonzalez
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