24/11/2010
Mídia quer pautar Dilma
Mair Pena Neto*

Aprovada por quem? Só se for pelos interessados em taxas de juros elevadas que aumentam os seus ganhos. A mídia, que ecoa a voz do mercado, tenta imputar à nova presidente a imagem de que a responsabilidade está em praticar as políticas que interessam aos investidores e não à maioria da população. Neste sentido, os desenvolvimentistas são apresentados como gastadores e os ortodoxos, como prudentes. Defende-se a política do crescimento baixo, incapaz de lidar com as necessidades do país e repudiada pela população nas três últimas eleições presidenciais.
A escolha do futuro presidente do Banco Central virou um prato cheio para o mercado expressar seus interesses via colunas e editoriais da grande imprensa. Todos incensam o atual presidente que se vai e destacam que o fundamental é manter a autonomia do Banco Central. Repetem o modelo que transforma a autoridade monetária em figura tão importante quanto o presidente da República e que coloca a economia à frente da política. O presidente do BC pode ser um técnico e sua soberania tem que estar subordinada aos interesses maiores do país. Sua opinião de técnico sempre será levada em conta, mas jamais pode ser a única e última palavra. Isso não significa interferir nas avaliações do Banco Central a bel prazer, mas discuti-las politicamente, como deve ser feito em relação a qualquer medida que envolva os interesses maiores da nação.
Dilma já garantiu que vai manter o essencial do atual modelo econômico, como o regime de metas de inflação, mas também anunciou que um de seus objetivos é reduzir a taxa real de juros (descontada a inflação) a um patamar em torno de 2% contra os atuais 5,3%. Isso não fere a responsabilidade fiscal, porque não seria alcançado pelo peso da caneta e sim por políticas de crescimento da economia, com redução da meta do superávit primário, o que já começou a ser feito, e da relação dívida/PIB.
O discurso da mídia é alarmista e forçado. Os índices inflacionários são alardeados como doenças gravíssimas e os remédios apregoados para seu tratamento são os mais amargos. Mas nada está fora de controle no país. A inflação estimada pelo próprio mercado para 2011 (5,15%) deverá ser inferior à de 2010 (5,58%), comportando perfeitamente a união de crescimento com inflação sob controle. Usa-se o fato de a inflação ficar acima do centro da meta (4,5%) como um problema grave, quando o regime de metas trabalha justamente com uma banda que permite oscilações de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, sem que a meta seja descumprida.
A inflação registrada agora pelo IPCA-15, similar a outras verificadas ao longo de 2010, é caracterizada por fatores sazonais e os preços tendem a ceder nos próximos meses. O papel do mercado é elevar os juros no mercado futuro e pressionar por ajustes fiscais, rentáveis para as aplicações de seus clientes. O do governo é saber que além do mercado existem vidas, necessitadas de mais investimentos públicos e de maior crescimento para se manterem com dignidade e contribuírem, com seu suor, para o desenvolvimento do país.
*Mair Pena Neto. Jornalista carioca. Trabalhou em O Globo, Jornal do Brasil, Agência Estado e Agência Reuters. No JB foi editor de política e repórter especial de economia.
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