sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Nº 20.966 - "Exclusivo: Como a campanha contra Maria do Rosário e sua filha foi orquestrada por sites direitistas. Por Kiko Nogueira"


24/02/2017

Exclusivo: Como a campanha contra Maria do Rosário e sua filha foi orquestrada por sites direitistas. Por Kiko Nogueira



Maria do Rosário
Maria do Rosário

A deputada Maria do Rosário acionou a Polícia Federal esta semana para investigar o caso da divulgação de fotos de sua filha de 16 anos.
Imagens da garota foram publicadas em inúmeros sites e nas redes sociais. O destaque é um certo Faca na Caveira, hospedado na Austrália, que contém “matérias” sobre, por exemplo, “4 tipos de armas que todo brasileiro deveria ter em casa”.
Rosário tornou-se a nêmesis de todo fascistoide desde que processou Jair Bolsonaro depois da célebre discussão pública em 2014, quando ele disse que ela “não merecia ser estuprada”.
A atual campanha difamatória contra ela e sua menina é orquestrada por uma gangue que se move na web.
O DCM teve acesso a trocas de mensagens entre essas pessoas, em que elas combinam a estratégia para baixar as fotografias, como chegar a certos agentes de disseminação e como “conduzir” o escândalo.
Abaixo, você poderá ver reproduções de algumas dessas conversas.
Os caluniadores se reúnem no site 55chan, conhecido por ser um antro com toda sorte de conteúdo racista, homofóbico, antissemita, militarista e pornográfico.
Constantemente novos tópicos são criados para discussão do ataque. Todos são anônimos e trocam informações sobre protocolos para se proteger de rastreamentos.
Bolsonaro é seu messias. No dia 22, um cidadão escreveu: “Se alguém famoso não falar sobre o assunto, a parada vai esfriar. Vamos levar isso para a boca de famosos!”
Vários memes são distribuídos, assim como as fotos. Determinadas comunidades do Facebook são sugeridas para ser recebedoras dos retratos da “anorexa (sic)” e da “aidética”.
Uma delas é “Marx da Depressão”, alinhada ideologicamente com a turma. Mas eles falam também em enviar para representantes da “Grifinoria” (uma das escolas de magia dos livros de Harry Potter, cujo nome virou coletivo de esquerdistas), como Catraca Livre, Mídia Ninja e Socialista Morena.
Para estes, há uma espécie de manual de instruções. “Precisamos fingir preocupação. Tipo: ‘Olha o que esses fascistas estão fazendo’”, escreve um. “Sejam bons atores”, aconselha outro.
Bolsonaro é citado com frequência, sob a alcunha “Gibeiranaro”.
“Tem que mandar pro Gibeiranaro e para os filhos dele. Aposto como eles estão com o cu coçando para se vingar daquela foto que tiraram da conversa deles”, fala alguém, referindo-se ao flagrante do fotógrafo Lula Marques na eleição para presidente da Câmara.
Usam gírias para coisas e pessoas. A certa altura, um deles propõe acionar o “Cornaldo” e a “Puta Loira” (Reinaldo Azevedo e Joice Hasselmann, respectivamente).
No dia 21, Reinaldo escreveu uma coluna na Veja criticado uma “ação asquerosa da direita xucra”. “Desde que acompanho política, nunca vi nada mais revoltante”, afirma.
Eles são “sonserinistas”, seus adversário “grifinoristas”. Tratam-se como “anões”, corruptela de “anônimos”. “Cancro”, ou “Cancrobook”, é o Facebook.
A postagem de Alexandre Frota é festejada: “VAI, FROTINHA!”.
“Ativem o Meme Moura… só isso já vai render meio milhão de visualizações. Depois ativem o Felipe Neto pra responder o Meme”, ordena um dos membros.
Meme Moura é Nando Moura, metaleiro seguidor de Olavo de Carvalho, a quem compara ao filósofo grego Sócrates, dono de um canal no YouTube.
Coincidentemente, o bolsonarista Nando fez um vídeo sobre o caso, vociferando para que Rosário seja “investigada” (sim, isso mesmo). Sobra, inclusive, para o deputado Jean Wyllys, outro arqui-inimigo.
Em 2010, os usuários do 55chan partiram para cima de uma repórter do Estadão chamada Ana Freitas depois de um artigo. Ana sofreu ameaças e teve seus dados pessoais divulgados online.
Cinco anos depois, voltaram à carga depois de um texto de Ana sobre “machismo e misoginia em espaços na web dedicados à discussão de cultura pop”, publicado no Huffington Post Brasil.
A vida de uma adolescente e, por extensão, de seus familiares está sendo exposta irresponsavelmente, sua intimidade devassada de maneira monstruosa por hordas movidas a um ódio sub humano.
Esse esgoto não está na deep web ou num subterrâneo inexpugnável. O candidato deles apareceu em segundo lugar numa pesquisa de intenção de voto para 2018. Tudo está diante dos seus olhos.
Que a PF faça sua parte.
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Sobre o Autor
Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.