25/03/2019
Receita para destroçar um país
Enquanto Bolsonaro dedica seu tempo a despejar ódio e rancor pelo Twitter, alguns dos seus ministros travam uma feroz disputa para saber quem é o mais bizarro
Da Carta Maior - 21/03/2019

Por Eric Nepomuceno

Os dois também possuem outro ponto em comum, com outra vitória do brasileiro: o peso de seus familiares na administração. Quando comparado ao clã Bolsonaro – o capitão e seus três hidrofóbicos filhos – o clã de Trump se transforma em um exemplo de equilíbrio e serenidade.
Enquanto o capitão dedica seu tempo a despejar ódio e rancor pelo Twitter, alguns dos seus ministros travam uma feroz disputa para saber quem é o mais bizarro. O de Relações Exteriores se define como um guerreiro da luta contra a contaminação marxista que sufoca a humanidade. A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, uma evangélica fundamentalista, diz ter adotado uma menina indígena (hoje uma jovem de 20 anos) apesar de jamais ter realizado os trâmites previstos na lei: se apoderou dela e pronto. O de Educação, um colombiano que ninguém jamais havia ouvido falar, vê a ameaça comunista muito próxima. O do Meio Ambiente apresentou em seu currículo um mestrado em Harvard, sem jamais ter posto o pé em uma classe em tal universidade.
A lista de aberrações traz novidades todos os dias, mas o epicentro dessas sandices vem do guru do clã Bolsonaro, um astrólogo que se apresenta como filósofo e professor, embora não tenha terminado sequer o primeiro grau.
A grande ameaça, em todo caso, não está na parte mais visível do que, por delicadeza, se costuma chamar “governo”: está no que começa a gotear dos integrantes da equipe econômico encabeçada por Paulo Guedes, um especulador do mercado que tem como ponto máximo de sua carreira uma colaboração com um governo que considera paradigmático, o do general Pinochet, no Chile.
Por estes dias essa tropa celebrou o sucesso do primeiro leilão do programa de privatizações, o dos aeroportos brasileiros. O troféu máximo foi entregue à espanhola Aena, que pagou 500 milhões de dólares pelo bloco mais atraente. Detalhe: 51% das ações da Aena pertencem ao Estado. Ou seja, uma estatal espanhola “privatizou” uma estatal brasileira.
Guedes anunciou que “nos próximos anos” entre 40% e 50% dos funcionários públicos se aposentarão, e não serão abertos novos concursos para substituir essas vagas. “Vamos investir na digitalização”, disse. No Brasil, o total de funcionários públicos ativos representa 1,6% da população. Para fundamentalistas do neoliberalismo, como Guedes, essa é uma fonte dos males que padecemos. Talvez se esqueça – ou não saiba – que na Alemanha, essa proporção é de 10,6%, nos Estados Unidos é de 15,3%, na França: 21,4%, na Suécia: 28,6%, e na Noruega é de exatos 30%.
Os bancos públicos vão sendo desmantelados aos poucos. A Caixa Econômica Federal, com mais de um século de vida, venderá os serviços de cartões de crédito e uma de suas enormes fontes de lucro, as loterias. Se dependesse do presidente do Banco do Brasil, o destino da instituição seria a morte súbita. Também o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, daria à empresa – e a todas as estatais – idêntico destino.
Castello Branco sabe que não pode realizar seu sonho numa única jogada. Então, o fará pouco a pouco: começará vendendo a distribuidora BR. Os alvos seguintes serão as refinarias, e há muito sendo “cuidadosamente estudado”. Em outros âmbitos, as universidades federais caminham para a guilhotina. Ou seja: enquanto o país se distrai com aberrações escandalosas, outros escândalos – muito mais devastadores – são tramados nas sombras.
Os mercadores já sabiam: Bolsonaro é a receita perfeita.
*Publicado originalmente em pagina12.com.ar | Tradução de Victor
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