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11/10/2013
O efeito Serra
Convém ao partido de Eduardo Campos e Marina Silva meditar a respeito deste risco
Agência Brasil
Como se deu que ele descambasse para a direita
por Mino Carta
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publicado
11/10/2013 07:13,
última modificação
11/10/2013 11:55

Coisas da vida que a mim não surpreendem.
As preocupações de Marina Silva não têm mais o esmaecido parentesco com aquelas de uma dama inglesa da era vitoriana, nem se fale dos ideais das dondocas nativas. Um notabilíssimo do PT certo dia me disse: “Grande companheira”. Outro que estava presente acrescentou: “Deus me livre se chegasse à Presidência”. E poderia chegar?
As pesquisas exibem as boas cotações de Marina Silva e há algum tempo animam a mídia, certa de que no páreo do pleito presidencial ela atrapalharia bastante a candidatura da presidenta Dilma. Os barões midiáticos, com admirável afinação, fundaram e lideram o verdadeiro partido de oposição, pronto a aprovar uma composição em condições de se arvorar a pedra no caminho de qualquer candidato petista.
Marina Silva não dispunha de documentos em dia para encantar a mídia. Passou por uma experiência ministerial no primeiro governo petista e era tida como esquerdista voltada em excesso para os problemas do meio ambiente. Na qualidade de possível candidata à Presidência, deu a volta por cima na visão dos porta-vozes da casa-grande, concordes em esquecer seu pé na senzala e valorizar suas qualidades morais.
A aliança recém-selada da ex-ministra de Lula com Eduardo Campos tem suas contradições e gera incógnitas, a começar pelo papel que o PSB reservaria a uma solerte advogada da religião evangélica e ardente defensora do equilíbrio ecológico. São assuntos para a reportagem de capa desta edição. De minha parte, limito-me a perguntar aos meus atentos botões: Eduardo Campos sabe avaliar os riscos precipitados nas circunstâncias pelo inevitável apoio que uma chapa Eduardo-Marina, ou vice-versa, receberia de jornalões e quejandos?
Governador de Pernambuco, Campos mostrou bom serviço, reelegeu-se com folga e ganhou dimensão nacional, a ponto de surgir como pretendente à Presidência, embora nas pesquisas consiga por ora porcentagens bastante modestas. A linhagem familiar o beneficia e o entendimento entre socialistas e petistas que vingou até anteontem parecia de todo impecável.
Ouço um murmúrio, aproximo o ouvido. Os botões sussurram um nome inesperado: José Serra, José Serra... Estou perplexo. Eles escalam decibéis, afirmam no tom de Hercule Poirot quando desvenda as razões de um crime e aponta o responsável: “Foi o apoio da mídia que empurrou Serra para a direita”. Sou forçado a concordar. Sublinho, entretanto: apoio buscado ardorosamente por ele próprio e que não lhe foi regateado com a certeza do retorno. Tal havia de ser, concluo, a postura que o agradava ao cabo de uma longa carreira política percorrida em boa parte sobre trilhos diferentes.
Estranhas situações vividas no país da casa-grande e da senzala, onde as ideologias tiveram significado para poucos, pouquíssimos, enquanto valia para os demais a busca do poder pelo poder. Exemplares, no pós-ditadura, os tucanos liderados por Fernando Henrique Cardoso. Para se afastar de Ulysses Guimarães, ele inventou uma nova legenda, a contar, inclusive, com a boa-fé de um ou outro companheiro. Enfim, candidato à Presidência, Antonio Carlos Magalhães apressou-se a avisar com o sorriso na ponta dos lábios: “FHC não é tão de esquerda assim...”
De fato, o príncipe dos sociólogos comandou um governo de direita, com a devida subserviência às vontades americanas e aos ditames neoliberais. Em 2002, às vésperas da campanha eleitoral, ouvi de Serra que ele faria um governo muito mais à esquerda daquele de Lula. Palavras. Como isso se daria? Seria capaz de contrariar os jornalões que o queriam presidente? De confrontar-se com Octavio Frias, o velho, ou com o doutor Roberto?
Aí se amoita o risco para o contubérnio celebrado no PSB de Eduardo Campos e Marina Silva, descambar inexoravelmente para o conservadorismo da casa-grande antes ainda de atingir a meta desejada. E sem chance de chegar lá. É o jogo político inesgotável, herdado do comércio. A regra soletra: do ut des, dou para que você dê.
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