segunda-feira, 29 de maio de 2017

Nº 21.518 - " Desvastação: o 'novo' Brasil dos justiceiros afunda na crise "

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29/05/2017

Desvastação: o “novo” Brasil dos justiceiros afunda na crise


Do Tijolaço · 29/05/2017


estadnaval



Por Fernando Brito


O Estado de S. Paulo publica hoje ótima reportagem de Renée Pereira e Daniel Teixeira que não podia revelar um quadro mais devastador no que era uma dos mais dinâmicos setores da economia brasileira: a indústria naval:


Símbolo de um Brasil que tentou repetir o crescimento dos anos 70, o setor naval entrou em colapso. De um conjunto de 40 estaleiros instalados no País, 12 estão totalmente parados e o restante está operando bem abaixo da capacidade instalada. Sem encomendas, com o caixa debilitado e, em alguns casos, com sócios envolvidos na Operação Lava Jato, cinco desses estaleiros entraram em recuperação judicial ou extrajudicial. Dos tempos de euforia, sobraram uma dívida bilionária para pagar no mercado e quase 50 mil trabalhadores demitidos, segundo dados do Sindicato Nacional da Indústria Naval (Sinaval). 

Entre os estaleiros que ainda estão em operação, uma parte é voltada para a construção de embarcações fluviais, como barcaças, ou de transporte de passageiros, como os catamarãs comuns no Norte do País. A indústria voltada para a construção de plataformas e navios offshore, que nasceu para atender as demandas da Petrobrás, está em contagem regressiva, com os últimos projetos em fase final de construção. Alguns grandes estaleiros têm pouco mais de dois meses de trabalho e depois podem engrossar a lista de estabelecimentos parados.

Eram 50 mil empregos diretos. Some aí os indiretos e você terá, sem exageros, ao menos 200 mil pessoas que perderam o seu ganha-pão graças a este espetacular processo de “moralização” do país.

Embora seja ainda mais evidente que, de “moralizado” não temos nada. Há apenas uma sucessão infinita de denúncias, delações, arapongagens, brigas de poder, abusos, xingamentos e tudo mais que é típico em situações de desordem generalizada.

Conseguiu-se transformar o Brasil onde Diógenes e sua lanterna não achariam um homem honesto a começar porque o próprio Diógenes, em cognição sumária, poderia ser recolhido compulsoriamente por João Dória, por  ter se tornado um mendigo nas ruas de Atenas.

Ou, de Diógenes, sobre ao casal Jorge Roberto Peixoto da Fonseca e sua mulher, Maria Angélica – antes empregados no setor, com de bons salários –  o que fazem hoje (e com dignidade: ele limpa fossas e ela, faxinas)  aquilo que o grego foi surpreendido fazendo: pedir esmolas a uma estátua.

Quando lhe indagaram a razão de fazer isso, o filósofo respondeu: duas: primeiro, ela não me vê; segundo, nada me dará.

Os moralistas brasileiros não merecem um estátua, já são uma como aquela a quem Diógenes pedia piedade.
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