sábado, 6 de maio de 2017

Nº 21.362 - "No que e para quem o golpe deu certo"

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06/05/2017

No que e para quem o golpe deu certo


Brasil 247 - 5 de Maio de 2017




Emir Sader



Há uma lógica nessa loucura, citando Shakespeare, para falar do governo do golpe. De um certo ponto de vista, tudo parece uma loucura. O país foi mergulhado numa depressão econômica profunda, o patrimônio público está sendo rifado a qualquer preço, os direitos da grande maioria da população estão sendo abolidos, o prestígio externo do país nunca foi tão baixo, o governo está assediado por acusações de corrupção para grande parte dos seus membros, o apoio do governo se aproxima rapidamente do zero, a imagem do presidente é a pior possível, suas gafes se sucedem diariamente.


Mas embora muita gente prognostique, semanalmente, a queda do governo, ele sobrevive. E não apenas por inércia, embora esta conte. Porque ele está cumprindo com o programa pelo qual o MT se candidatou a assumir a presidência.

Mas antes mesmo de abordar os retrocessos que estão sendo colocados em prática pelo governo surgido do golpe, está o primeiro objetivo, que uniu toda a direita: tirar o PT do governo. Nisso o golpe deu certo, pelo menos até aqui, enquanto tenta impedir o retorno de Lula ao governo. Mas teve outra vitória política importante também: a criminalização do PT no bojo da campanha pelo golpe, assim como, na mesma operação ideológica, a desqualificação do Estado, como espaço supostamente privilegiado de corrupção – de que a Petrobras seria uma parte importante.

Além dessa mudança no panorama ideológico, estão as medidas de acelerado retrocesso, pelas quais o governo paga o preço caro da impopularidade, mas não deixa de avançar, atendendo às demandas do capital financeiro e da grande mídia. Os retrocessos nos direitos sociais, com o ajuste fiscal reorganizando radicalmente o gasto público, penaliza fortemente quem o governo quer fazer pagar o preço pela crise: os trabalhadores e o conjunto da população pobre. O conjunto de iniciativas antipopulares compõe um pacote que eleva o exploração do trabalho, deixa mais vulneráveis ainda os trabalhadores para as negociações salariais, pressionadas também pelo desemprego recorde.

A retirada da rede de proteção social agudiza fortemente a crise social, com os cenários das nossas cidades de novo povoados por grande quantidade de pessoas e famílias inteiras dormindo e vivendo nas ruas. Com o retorno das crianças vendendo balas nas esquinas. A desigualdade aumenta, assim como a exclusão social e o abandono de camadas cada vez maiores da população.

Por outro lado, o patrimônio público, em particular o da Petrobras, vai sendo liquidado a preços vis para empresas estrangeiras, ao mesmo tempo que se destrói a indústria naval, terminando com o conteúdo local e importando plataformas, ao invés de fabricá-las aqui.

O resultado é catastrófico para a massa da população e para todo o país. Para as condições de vida da população e para o lugar do Brasil no mundo.

Mas a lógica dessa loucura é que há quem ganhe com tudo isso. Aqui dentro, ganham sobretudo os bancos privados – que contam a seu favor também com o enfraquecimento dos bancos públicos. Lá fora, ganham os EUA, com o enfraquecimento da presença autônoma do Brasil no mundo e a passagem a uma política de muito baixo perfil e de subserviência. Se desmontam as políticas de alianças na América Latina e com os Brics, que tanto atemorizam aos EUA.

O golpe deu certo para a direita brasileira, derrotada quatro vezes nas urnas, mas que encontrou a via do golpe para voltar ao governo. Deu certo para os inimigos externos de um Brasil independente e soberano.

Perdem o país, o povo brasileiro, a democracia, o Estado, os direitos dos trabalhadores, a soberania externa. É uma loucura para a grande maioria e uma lógica cruel e seletiva para a ínfima minoria dos mais ricos.


EMIR SADER. Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros.
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