sexta-feira, 17 de junho de 2016

Nº 19.658 - "Surpresa com Temer?"


17/06/2016

Surpresa com Temer?

 

 Brasil 247 - 17/06/2016

LULA MARQUES: <p>16/05/2016- Brasília- DF, Brasil- 16-05-2016- O presidente interino, Michel Temer, durante reunião com organizadores da olímpiada do Rio. Foto Lula Marques/Agência PT</p>

Paulo Moreira Leite

É preciso bater um recorde mundial de hipocrisia para simular surpresa diante da denúncia de que o presidente interino Michel Temer recebeu 1,5 milhão de reais do esquema apurado na Lava Jato para entregar à campanha de Gabriel Chalita em 2012.

Nem o desmentido formal merece mais credibilidade do que qualquer outra resposta padrão nesses tempos, redigida com a linguagem calculista dos advogados. Faz parte do show.

Da mesma forma que, após um rápido intervalo, quando as cortinas se reabrem, o delator Sérgio Machado reaparece para reafirmar o que havia dito.

Para completar, Henrique Eduardo Alves, que virou a casaca de ministro de Dilma para permanecer no mesmo cargo com Temer, pede demissão para evitar novas crises de um governo que mal foi empossado.

Sabemos que o financiamento da política brasileira sempre se fez dessa maneira, numa troca de interesses entre partidos em busca de recursos e empresários atrás de favores do Estado. Levantar recursos para candidatos, como descreve a denuncia contra o vice, na página 41 do depoimento ao Ministério Publico, faz parte das atribuições essenciais da maioria dos lideres políticos do país. Temer é personagem de destaque nessa categoria, não pela liderança popular, que nunca teve, mas pela atuação nos bastidores.

Podemos lembrar que a presença de Temer na lista dos denunciados não é prova de culpa. Está bém. Mas, se o gravador de Sergio Machado falou a verdade sobre Renan Calheiros, sobre Romero Jucá, sobre José Sarney, por que estaria mentindo sobre Michel Temer?

O tratamento hipócrita que será dado a essa denúncia levanta outro temor, igualmente conhecido -- a seletividade das acusações de corrupção.

Nestor Cerveró, o diretor da Petrobras que antecedeu Machado no palco dos grandes delatores, afirmou que nenhuma propina superou um montante equivalente a US$ 100 milhões, numa negociação da Petrobrás na Argentina. Nenhuma outra das dezenas de tratativas grandes, pequenas ou médias, chegou a este montante. Alguém foi investigado? Preso? Delatou? Nada.

Não chega a ser novidade lembrar um detalhe:  estas negociações milionárias ocorreram em 2002, quando Fernando Henrique Cardoso ocupava a presidência. Já na primeira CPI sobre a Lava Jato, em 2014, este caso rondava as investigações. Nunca foi adiante, embora seja um montante considerável para um acerto só.

Basta ler o Diário da Presidência escrito por Fernando Henrique Cardoso para encontrar, na página 793 do volume 1, a descrição detalhada de um esquema de desvios e abusos na Petrobras.O livro informava nomes de quem comandava o que, em nome de quem – e a confissão de que nada se fez. FHC estava no início do governo. A negociata denunciada por Cerveró ocorreu no final.

Em 2016, o fato de uma denúncia de igual teor atingir o vice de uma presidente que enfrenta um golpe de Estado do qual foi um dos arquitetos e maior beneficiário direto  apenas demonstra que a justiça do espetáculo se esgotou e não pode sobreviver, a não ser amparada em atos de exceção.

Não é a primeira vez que isso ocorre com o vice, a rigor.  Temer, hoje, já é um beneficiário da condição de quem recebe um tratamento desigual para uma denúncia igual. Estou falando das acusações de pedaladas fiscais. Se serviram para afastar Dilma da presidencia, deveriam ter impedido que Michel Temer assumisse o cargo. 

O ministro Marco Aurélio Mello já determinou que o Congresso forme uma Comissão para investigar as responsabilidades do vice Temer em decretos que assinou, no valor de alguns bilhões de reais. Até agora, nem a Comissão se formou.

O país não precisa de campeões de moralidade nem de espertalhões que utilizam a máquina pública para proteger amigos e perseguir inimigos. Este é o caminho de uma ditadura policial, que se constrói pela manipulação da Justiça e polícia, mobilizadas para atuar em nome de interesses políticos.

O país precisa de uma Justiça que faça seu trabalho, num ambiente de isenção e serenidade, sem questionar a separação entre os Poderes, compreendendo que seu papel, acima de tudo, consiste em proteger os direitos democráticos do cidadão perante o Estado.

“A hora do espetáculo está acabando. Deve começar a política”, escrevi neste espaço, em 10 de junho. Se é indispensável tentar vislumbrar algum futuro para nosso sistema político, nem que seja como homenagem a filhos e netos, cabe reconhecer que a origem da crise encontra-se na incapacidade da elite brasileira em admitir o resultado das urnas e que o primeiro passo envolve o acerto de contas com o passado recente -- o retorno aos direitos e garantias previstos na Constituição de 1988, a mais progressista de nossa história.

Cabe defender e recuperar um regime de liberdades construído com sacrifícios por uma população que se emancipava de uma ditadura e nem por um minuto deseja retornar a um passado de trevas, impotência e  medo. É preciso separar o que é crime e corrupção daquilo que não passa de notória perseguição política e compreender que a  democracia só será recuperada e restaurada por homens e mulheres que a população reconhece como seus líderes e dirigentes. Mais do que nunca, fora Temer. Não é um grito de rua, muitas vezes um cumprimento que substitui bom dia ou até logo.

O retorno de Dilma nunca foi tão necessário. Como expressão do elo direto com a soberania popular, a saída da crise pode levar a muitas medidas posteriores, mas necessariamente passa por ela.

Alguma dúvida?


Paulo Moreira Leite. Jornalista, escritor, diretor do 247 em Brasília