quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Nº 20.785 - "Premissas de Moro são tão falsas quanto as de JK"

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25/01/2017

Premissas de Moro são tão falsas quanto as de JK


Brasil 247 - 25 de Janeiro de 2017




por ALEX SOLNIK


Alex SolnikFalsas premissas levam a conclusões equivocadas. Começo pela construção de Brasília.

Criou-se a ilusão, há séculos, de que o progresso do Brasil estaria relacionado à transferência da capital para o Planalto Central, o centro do país. Equidistante do Norte, Nordeste, Sul e Sudeste irradiaria o sonho da prosperidade a todos os cantos.

Tal obsessão foi finalmente inserida na constituição brasileira que somente Juscelino Kubitschek decidiu cumprir.

A construção da nova capital foi a pedra angular do seu governo. Em torno da questão os debates tomaram conta do país, formando-se imediatamente dois grupos: os que eram contra e os que eram a favor.

Os que eram contra foram taxados de reacionários e antipatrióticos e os que eram a favor estavam do lado certo. Virou uma guerra entre mocinhos e bandidos.

Embora não houvesse um só exemplo de país que progredira tendo por base uma capital no centro dele, no Brasil essa premissa foi de tal modo exacerbada que não haveria escolha: ou se mudava a capital para o centro ou o país estaria condenado para sempre à submissão e à miséria.

A fim de que a promessa de campanha de JK fosse cumprida, foi promulgada uma lei segundo a qual a nova cidade tinha que ser construída em três anos, por mais absurdo que o prazo parecesse.

O projeto escolhido foi o mais megalomaníaco possível, além disso. Não no que diz respeito ao plano urbanístico, mas ao arquitetônico, elaborado por Oscar Niemeyer que resolveu erguer uma série de palácios de mármore em plena região semiárida, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Mas a suntuosidade era obrigatória para o Brasil mostrar ao mundo a sua grandeza, liderança e prosperidade.

O tempo exíguo somado à megalomania arquitetônica deixou de lado qualquer planejamento mais detalhado (não se podia perder tempo) e o consumo de dinheiro incalculável que o governo não tinha.

Foi necessário mergulhar a nação em dívida externa imensa porque a ordem era gastar o que fosse exigido pelas empreiteiras. Não houve licitações que poderiam atrasar as obras. Dinheiro não era problema na época.

Qualquer cidadão minimamente instruído diria que erguer palácios de mármore num país subdesenvolvido como o nosso era uma temeridade e até uma loucura, mas a premissa era que aquilo não eram gastos, mas investimentos que trariam retorno no futuro.

Gastou-se dinheiro a rodo. Empreiteiras ficaram milionárias. Como não havia contas a prestar até hoje não se sabe quanto custou a bravata. Mas quem se preocupava com isso se ela seria "a capital da esperança", como Adolpho Bloch espertamente vendeu em sua "Manchete" que vendeu 1 milhão de exemplares no dia da inauguração?

Não havia dúvidas: o mundo se curvara ante o Brasil. Nenhum país tinha uma capital tão espetacular. Daquela data em diante nada mais seguraria o Brasil.

O desafio fora cumprido com honras e glórias. Niemeyer foi guindado à condição de maior arquiteto do planeta. A humanidade morria de inveja.

Somente alguns anos depois de pronta verificou-se que o brilhante arquiteto havia se esquecido de incluir em seu projeto habitações para os candangos que chegaram de todo o Brasil para construir a cidade.

Sem outra opção eles tiveram que construir suas casas na periferia, formando em torno da capital da esperança o que se chamou de cidades satélites, verdadeiras favelas que estão lá até hoje, provando que a construção da nova capital não conseguiu levar progresso nem à sua vizinhança.

Quatro anos depois da gloriosa inauguração a capital assistiu à inauguração da ditadura militar sem nenhuma resistência popular, porque lá não havia povo. O povo estava no Rio de Janeiro, a ex-capital abandonada onde em 1968 se travaram os grandes combates entre os tanques e a população. Aliás, a ditadura nem foi instaurada na nova capital, mas no Rio, para onde o tresloucado general Mourão Filho deslocou as suas tropas e entregou a Costa e Silva, que também não estava em Brasília.

O que se vê, 57 anos depois, é que a capital da esperança não trouxe o progresso esperado e prometido.

O Nordeste continua ao Deus dará, com suas secas e demais desventuras em série apesar da certeza de que, num passe de mágica, Brasília transformaria o país na terra do leite e do mel.

O Norte continua miserável e parado no tempo apesar da riqueza da Floresta Amazônica.

O Centro-Oeste enriqueceu latifundiários com intermináveis plantações de soja e criação de gado, mas sua população continua à míngua.

O Rio, então, de Cidade Maravilhosa, capital cultural, social e política, cartão postal do Brasil virou uma Cidade Perigosa, tomada pelas favelas e pela bandidagem, onde ninguém está imune a balas perdidas, arrastões, assaltos e assassinatos.

As grandes empreiteiras que ergueram Brasília, por sua vez, estas sim, prosperaram, ficaram imensamente ricas e assim continuam até hoje, tocando seus negócios da mesma forma com que construíram a nova capital, sem licitações, sem freio, sem limites, dividindo seus despojos faraônicos com políticos inescrupulosos que também enriqueceram.

Brasília nasceu, cresceu e se consolidou como a capital da corrupção.

Somente seis décadas depois, quando a corrupção, a partir de Brasília, foi irradiada a todo o país e se tornou incontrolável começou a ser combatida por um grupo de juízes e procuradores que transformaram a questão no problema número 1 do país, que, assim que resolvido vai nos conduzir à prosperidade, apoiando-se em falsas premissas que vão levar, mais uma vez a conclusões equivocadas.

A primeira falsa premissa é: acaba-se com a corrupção colocando todos os corruptos na cadeia o mais rapidamente possível. (A toque de caixa, tal como foi a construção de Brasília.)

Eu já tinha ouvido essa conversa do controverso delegado da Polícia Federal Protógenes Queiróz que por um breve período foi elevado à categoria de herói nacional, tal como hoje acontece com o juiz Sérgio Moro. "Vamos prender todo os corruptos" prometia ele, já então deputado federal "e a corrupção vai acabar".

Moro adotou, como modelo, a Operação Mãos Limpas da Itália, que passou a ser copiada em todos os sombrios detalhes, dentre os quais delações premiadas, exposição de suspeitos em manchetes de jornais, vazamentos seletivos, condenações prévias e definição de seus envolvidos como "quadrilheiros" e "bandidos".

Tal como na época de JK, a Lava Jato dividiu o país entre mocinhos e bandidos, e a maioria da população comprou essa premissa alegremente, não vendo nenhum problema em expor ao mundo que o Brasil e os brasileiros não eram mais campeões mundiais no futebol, mas na corrupção.

O "combate à corrupção" transformou-se em combate político, encarregando-se a mídia em criminalizar políticos e partidos de que não gostava. Não que tais políticos fossem madres Teresa de Calcutá, mas eles foram taxados de "chefes máximos da quadrilha" e bonecos com suas imagens foram confeccionados num sórdido e tenebroso carnaval fora de época.

A falsa premissa em que Moro se inspirou, com a cumplicidade da maior rede de televisão do país é que a Operação Mãos Limpas investigou as relações de políticos com a Máfia italiana, enquanto no Brasil os envolvidos eram políticos e empresários.

Mas, como a cópia tinha que ser igualzinha ao original, todos os suspeitos, réus e presos viraram bandidos, como se se relacionassem com o PCC e outras quadrilhas que se apoderaram dos presídios em que deveriam cumprir penas.

Essas falsas premissas não só contribuíram para derrubar uma presidente da República honesta, criminalizar a maior estatal do país e afundar uma economia já em frangalhos em meio a uma interminável instabilidade política, que está longe de se esgotar, como levaram a população a acreditar em equivocadas e precitadas conclusões, das quais a mais recente é que o ministro Teori foi assassinado e que Moro pode ser o próximo, já que o juiz Giovanni Falconi, da Mãos Limpas, teve esse fim. Ninguém se dá conta de que Falconi combatia a máfia e, Moro, empresários e políticos que não costumam andar armados até os dentes.

Na década de 1950 o país acreditou, convencido por um presidente sorridente, simpático, brincalhão, confiável, "gente boa" que a prosperidade brotaria da capital monumental erguida no centro do Brasil e não de investimentos em educação e em tecnologia, e no combate à desigualdade social, como fizeram outros países que hoje podem até invejar os monumentos de Brasília assim como invejam as pirâmides egípcias, mas superam o Brasil em todos os quesitos relacionados ao bem estar da população que deveria ser, afinal, o objetivo da política.

Ninguém se lembrou, nos tempos de JK, que Moscou não está no centro da Rússia (então URSS), Pequim não está no centro da China, Paris não está no centro da França, Londres não está no centro da Inglaterra, Berlim não está no centro da Alemanha, nem Washington no centro dos Estados Unidos e nem por isso esses países perderam glória, dinheiro e poder.

Ninguém se lembra, hoje, que os países menos corruptos do mundo, tais como Dinamarca, Suécia, Noruega jamais precisaram de uma Operação Lava Jato para se tornarem exemplos de correção, sobriedade e honestidade. Coincidentemente, são também nações nas quais a diferença entre os mais ricos e os mais pobres é pequena, a criminalidade é inexpressiva e os presídios não são masmorras medievais.

Os brasileiros preferem acreditar que um juiz nada simpático, nada brincalhão, carrancudo, mal- humorado, opaco e que jamais formulou um pensamento que vai ficar para a história vai colocar todos os corruptos na cadeia e transformar o Brasil, agora sim, na terra do leite e do mel.


ALEX SOLNIK. Alex Solnik é jornalista. Já atuou em publicações como Jornal da Tarde, Istoé, Senhor, Careta, Interview e Manchete. É autor de treze livros, dentre os quais "Porque não deu certo", "O Cofre do Adhemar", "A guerra do apagão" e "O domador de sonhos"