terça-feira, 25 de julho de 2017

Nº 21.937 - "Para capturar os votos que podem salvá-lo, Michel Temer está disposto a envenenar ainda mais o Brasil"


25/07/2017

Para capturar os votos que podem salvá-lo, Michel Temer está disposto a envenenar ainda mais o Brasil



Do Viomundo - 24 de julho de 2017 às 10h07
 


por Luiz Carlos Azenha


Michel Temer precisa dos 211 votos da bancada ruralista para evitar abertura de processo contra ele no Congresso.
Eles se organizam através da Frente Parlamentar da Agropecuária.
Com a debandada parcial do PSDB, Temer conta com o apoio do presidente da FPA, Nilson Leitão, tucano de Mato Grosso.
A ofensiva do presidente, que nunca escondeu simpatia pela pauta do agronegócio, já começou.
Nos últimos dez dias, ele enviou projeto ao Congresso para diminuir o tamanho da Reserva do Jamanxim, no Pará, e aprovou parecer determinando que somente terras ocupadas por indígenas até outubro de 1988, data da promulgação da Constituição, podem ser demarcadas.
A adoção da chamada tese do marco temporal foi comemorada por ruralistas que miram outros itens de interesse do grupo no Congresso Nacional.
No balcão atual de negociações com o governo, estão propostas tão ou mais impactantes para a preservação da natureza, segundo especialistas, como a flexibilização de regras para licenciamento ambiental, liberação de agrotóxicos e venda de terras para estrangeiros.
O governo prepara uma medida provisória sobre dívidas bilionárias de produtores ao Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural) sob a pressão de parlamentares ligados ao agronegócio, que pleiteiam anistia de multas, descontos e maior prazo para pagar.
Especificamente sobre agrotóxicos, diz o jornal:
Outro tema que deve avançar a passos largos é o projeto de lei que afrouxa regras de registro e uso de agrotóxicos no país. A ideia é permitir a utilização de defensivos hoje proibidos por serem considerados nocivos à saúde. É discutida também a retirada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no processo de autorização de substâncias, para deixá-lo apenas com a pasta da Agricultura, reduto dos grandes produtores.
Tirar do processo de liberação dos agrotóxicos, a Anvisa, já parcialmente capturada pelo dinheiro grosso, equivale a um liberou geral num país que é o maior consumidor de venenos do mundo, especialmente na produção de soja.
Viomundo já denunciou a alta incidência de doenças respiratórias em Lucas do Rio Verde, Mato Grosso, uma das capitais do agronegócio.
Também tratamos do trabalho de Danielly Palma, que descobriu veneno no leite materno de lactantes do Mato Grosso.
Essa soja é em grande parte exportada para ser transformada em ração animal e subsidiar o consumo europeu e norte-americano de carne. Então isso não significa alimentação para o nosso povo, significa concentração de terra, redução de biodiversidade, contaminação de água, solo e ar e contaminação dos trabalhadores e das famílias que vivem no entorno desses empreendimentos. Além das enormes perdas para os ecossistemas, o cerrado, a caatinga e até mesmo o amazônico, que está sendo invadido pela expansão da fronteira agrícola.
Por trás dos latifundiários brasileiros estão corporações gigantes como a Syngenta, Monsanto, Dupont, Bayer e Dow, fornecedoras de sementes transgênicas e dos venenos utilizados pela monocultura extensiva. Várias destas empresas, além do Banco Itáu e da Globo, integram a Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG).
As políticas que a FPA e ABAG promovem conjuntamente são destruidoras da biodiversidade brasileira.
Como relatam os professores Luiz Carlos Pinheiro Machado e Luiz Carlos Pinheiro Machado Filho, “hoje, 15 espécies respondem por 90% dos alimentos vegetais e quatro culturas — milho, trigo, arroz e soja — respondem por 70% da produção e consumo. Tende-se, pois, a uma perigosa monocultura e, como se sabe, a homogeneidade tende à morte, já que a heterogeneidade é o estado dinâmico, vital”.
O quadro se torna dramático com o altíssimo índice de uso dos venenos. Um uso descontrolado.
Em 2012, das 50 substâncias mais usadas no Brasil 24 estavam banidas nos Estados Unidos, Canadá, Europa e Ásia, segundo a revista Ciência Hoje. A Anvisa, que os latifundiários acusam de ser lenta para aprovar novos venenos, também é lenta para tirá-los do mercado.
Hoje a Ciência se concentra, especialmente nos Estados Unidos, em estudar o impacto dos venenos nas perturbações endócrinas, que estão entre as causas do câncer, diabetes, síndromes metabólicas e infertilidade — descreve o livro Dialética da Agroecologia.
O interesse dos latifundiários em facilitar ainda mais o uso de venenos tem relação com a contínua expansão da fronteira agrícola no Brasil.
Da região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) até as terras futuramente irrigadas nos eixos da transposição do São Francisco, cresce o interesse de investidores estrangeiros, pela proximidade geográfica com o mercado europeu. Os europeus crescentemente descartam a agricultura de terra arrasada que se pratica no Brasil e se voltam para produtos de consumo de alto valor.
Além de maior lucratividade, é o cuidado com a qualidade do solo e das águas.
Enquanto isso, no Brasil, o professor Wanderlei Pignati já advertiu, em entrevista ao Viomundo, sobre a contaminação das bacias hidrográficas pelos venenos:
Existe uma legislação para limitar a poluição e uma legislação paralela para legalizá-la.  Os jornalistas perguntam quanto que é o limite máximo permitido de agrotóxico no litro d’água? A gente já chegou a esse grau de não questionamento, de não se indignar, de acatar isso. Se você pegar a Portaria 518 de 2004, do Ministério da Saúde, que chama-se Portaria da Potabilidade da Água, dá pra ver o que é permitido ter na água hoje. A gente fala muito de coliformes  fecais. Mas e os agrotóxicos são permitidos? E os solventes? E metais pesados? Todos eles são permitidos. O litro de água que você bebe hoje, de acordo com essa portaria, pode ter 13 tipos de metais pesados, 13 tipos de solventes, 22 tipos de agrotóxicos diferentes e 6 tipos de desinfetantes. Hoje, a questão mais importante na contaminação da água não é mais a bactéria, mas toda essa contaminação química.
Dado o quadro descrito acima, facilitar ainda mais o uso dos venenos na lavoura, no país campeão da biodiversidade E da produção de alimentos, é criminoso.
Por isso sustentamos que, para se salvar, Michel Temer está disposto a envenenar ainda mais o Brasil.
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