terça-feira, 25 de julho de 2017

Nº 21.940 - "Luta e glória do militante Marco Aurélio Garcia"


25/07/2017

Luta e glória do militante Marco Aurélio Garcia


Do Brasil 247 - 25 de Julho de 2017

Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21.com.br
.........................Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21.com.br


por Paulo Moreira Leite

Nestes tempos em que a história se assemelha ao relato de um louco, feito de som e fúria, cabereconhecer que Marco Aurélio Garcia (1941-2017) deixou uma herança respeitável para o entendimento do Brasil recente. Dono de uma cultura muito acima da média e de uma reconhecida capacidade de formulação política, Marco Aurélio participou da elaboração de  propostas e conceitos que, após inevitáveis momentos de alta e de baixa, chegaram aos dias de hoje como matéria-prima obrigatória para o debate que o Partido dos Trabalhadores está condenado a realizar em meio à mais grave crise de sua história.

        No início da década de 1990, quando o mundo vivia a perplexidade produzida pela queda do Muro de Berlim, em companhia de outro dirigente do PT, Luiz Dulci, Marco Aurélio ajudou a definir o PT como um partido pós-comunista e pós-social-democrata. Com isso, os dois queriam dizer que se tratava de um partido adversário da truculência do stalinismo e também da acomodação sem remédio ao capitalismo assumida pela maioria dos partidos chamados reformistas.

        Em 1994, na segunda campanha presidencial depois da ditadura militar, Marco Aurélio foi  relator de um projeto de governo Democrático Popular, elaborado a partir de propostas nascidas nas caravanas realizadas nas regiões mais pobres do país. (Antes disso, em 1989, Lula pedira votos com base num programa rudimentar de 13 pontos, que somavam reivindicações justas e propostas bem intencionadas, mas não chegavam a formar um conjunto coerente).

   Militante de várias organizações de esquerda no Brasil, experiência que incluiu o PCB antes do golpe de 1964, e o Partido Operário Comunista, poucos anos depois, Marco Aurélio também  acumulou  uma experiência rara em nosso tempo. Passou mais de uma década como dirigente internacional do MIR, principal organização armada nascida no Chile, de Salvador Allende, da qual se tornou porta-voz na Europa.

   No Brasil, país onde o debate diplomático costuma resumir-se ao circuito fechado de diplomatas de carreira, ele ajudou a desenvolver  uma visão autônoma de atuação diplomática. Foi um adversário resoluto da ALCA, a aliança comercial que pretendia entregar o mercado dos países da América Latina para as exportações norte-americanos. Atuou como um aliado incondicional da integração do Continente. Também lutou pela aproximação entre os países abaixo do Equador, a diplomacia Sul-Sul, tarefa facilitada imensamente pela rede de interlocutores de alto nível que havia construído em sua vida de militante internacional.

     Durante os governos Lula-Dilma, foi um subordinado leal  do  chanceler Celso Amorim na construção dos BRICS e outras iniciativas na direção de uma ordem mundial multipolar. Teve um papel importante na abertura das primeiras negociações de paz entre a guerrilha e o governo da Colombia. Entre 2002 e 2003, quando aliados dos Estados Unidos paralisaram a industria do petróleo da Venezuela numa tentativa dramática para sufocar o governo de Hugo Chávez, num primeiro entre tantos atos de sabotagem que sacudiram o país vizinho de lá para cá,  Marco Aurélio teve participação direta  para encontrar uma saída democrática para crise. Foi um interlocutor permanente das lideranças cubana, atuando num nível um degrau abaixo do patamar de Fidel Castro -- patamar que era reservado ao próprio Lula.

    Marco Aurélio morreu num período de reação em toda linha, o que torna difícil prever o que irá acontecer com a herança que deixou.

    Para ficar no panorama brasileiro, basta recordar o empenho  do governo Temer-Meirelles para apagar todo e qualquer vestígio de direitos sociais e soberania -- num esforço que vai muito além dos  anos Lula.

   Não há dúvida, porém, que Marco Aurélio deixou um exemplo único de luta e resistência, que merece ser recuperado.  

   Recapitulando: o programa Democrático-Popular de que falamos parágrafos acima acabou suspenso com a entrada em vigor da Carta ao Povo Brasileiro, viga mestra da campanha petista de 2002, que promoveu um pacto de sobrevivência com os mercados, numa fase na qual se construía um ambiente de terror contra um eventual governo Lula.

  Marco Aurélio e o chamado mundo Democrático-Popular tiveram uma revanche e ganharam um novo fôlego a partir de 2006. Depois da AP 470 e do escândalo dos aloprados, que explodiu na reta final da eleição Lula x Alckmin, Marco Aurélio foi instalado pelo próprio Lula na presidência do PT, com a tarefa de coordenar projetos para o segundo mandato. Na cabeceira de uma mes que iria contar com a atuação decisiva de Guido Mantega e a presença cada vez mais destaada  da então chefe da Casa Civil Dilma Rousseff, além de outros personagens que iriam se projetar na década seguinte, nasceu um espírito coerente com as ideias de desenvolvimento econômico estimulado pelo Estado e ampliação do mercado interno. Essa nova realidade no plano das ideias de política econômica inspirou a reação do governo brasileiro na crise de 2008-2009, aquela que levou Barack Obama a dizer que Lula era o "O Cara" e a revista Economist a apontar o renascimento do capitalismo de Estado como nova onda ideológica mundial.

  Personagem importante em tempos difíceis e estranhos, há exatamente dez anos Marco Aurélio foi alvo de um ataque covarde,  para tentar atingir sua dignidade apenas porque isso era conveniente para os adversários políticos de Lula e do PT. Jamais recebeu o devido pedido de desculpas.

  Estou falando de um episódio que podemos chamar de "top-top", uma das grandes Escolas Base da política brasileira nos anos Lula-Dilma. Inconformados com a reação e vitória de Lula em 2006, depois de enfrentar o jogo de lama da AP 470, seus adversários no PSDB, na mídia amiga e nos círculos reacionários do empresariado e da alta classe média tentaram utilizar a tragédia de um Airbus da TAM, no Aeroporto de Congonhas, onde morreram 197 pessoas, para abrir a primeira campanha anti-Lula do segundo mandato. Publicado na primeira página da Folha, um  artigo  intitulado "O que ocorreu não foi um acidente, foi um crime", serviu de mote para mobilização de familiares das vítimas e correspondentes estrangeiros. No Rio de Janeiro, uma passeata de protesto puxou uma vaia para Lula. Em São Paulo, centenas de pessoas desfilaram atrás de uma faixa que exibia uma afirmação de classe: “Somos a elite decente.” O pai de uma menina de 14 anos subiu no carro de som para dizer: “Eu sei que minha filha foi assassinada pela incompetência do governo.”

   A ideia era apontar Lula como responsável pela tragédia, ocorrida justamente num aeroporto, aonde eleitores de alta classe média não escondiam irritação e preconceito diante ela  braileiros das camadas inferiores da pirâmide social que pela primeira vez eram  admitidos num ambiente outrora exclusivo dos ricos e bem nascidos. O inferno político se desfez quando uma investigação da aeronáutica demonstrou que o tragédia fora produzida por uma falha mecânica no manete do Airbus, incapaz de frear o avião no momento do pouso. Ficou claro, então, que milhões de brasileiros haviam sido alimentados por uma lorota tenebrosa, de finalidade  política óbvia.

    Naquela situação  no qual uma versão construída sobre a tragédia  ganhara mais importância do que os fatos em si,  Marco Aurélio foi filmado em seu gabinete quando fazia um "top-top" em direção ao monitor do aparelho de TV que exibia o Jornal Nacional. O gesto era uma reação contra uma cobertura que, até então, ajudar a alimentar uma versão falsa, que incriminava o governo. A imagem de Marco Aurélio acabou  transformada num segundo escândalo, especialmente conveniente para encobrir o erro original na linha de apuração.  Políticos adversários do PT se prestaram a dar depoimentos condenando a reação do assessor presidencial. Procurava-se  sugerir que Marco Aurélio não demonstrava a menor solidariedade com as famílias das vítimas -- quando era fácil pereceber que, num momento de raiva e indignação, apenas tivera uma reação de protesto contra um caso notável de mau jornalismo.

 Entrevistado pelo jornalista Fernando Rodrigues, em 2013, Marco Aurélio denunciou que havia sido vítima de uma operação "sórdida". Fez questão de desculpar-se para as famílias, lamentando que a imagem e seu gesto tivessem contribuído para aumentar sua dor numa hora já muito difícil.  Foi uma demonstração de grandeza. Nem a Globo nem qualquer outro veículo de comunicação, responsáveis pela divulgação diária de uma lenda de caráter político sem qualquer apoio nos fatos, tiveram a mesma atitude.

  Vice-presidente da UNE na década de 1960, quando ocupou uma cadeira de vereador em Porto Alegre, sua cidade natal, Marco Aurélio tinha uma admiração assumida por Leon Trotski, o líder revolucionário do Outubro soviético, executado em 1940 por ordem de Josef Stalin. Seu único filho chama-se Leon.

  Mas ele também poderia ser classificado como um militante "desinteressado", o mais alto elogio disponível no vocabulário de Victor Serge (1890-1947), um dos pioneiros na crítica à degradação de dirigentes de lideranças de partidos esquerda século XX, para definir o cidadão capaz de colocar o compromisso com as ideias e valores acima de vantagens e benefícios pessoais.

 Nos dias que se seguiram à morte de Marco Aurélio, um amigo de décadas recordou ao 247  o último encontro de ambos, por acaso, no Teatro Municipal de São Paulo. Já afastados por imensas diferenças políticas, acentuadas pelo desgaste do Partido dos Trabalhadores nos últimos anos, ambos se encontram durante a exibição da sequencia completa das Sinfonias de Beethoven -- que ambos admiravam com fervor.

 Um líder do movimento operário de São Paulo recorda num texto divulgado nas redes sociais que, no final da década de 1970, já de volta ao Brasil, Marco Aurélio ajudou a formar lideranças de metalúrgicas de São Paulo, que organizaram a luta de trabalhadores que preparavam a derrubada da ditadura militar. Os cursos eram ministrados em São Mateus, na extrema Zona Leste da cidade, onde as aulas e debates eram intercalados por partidas de futebol na hora do almoço. "Dos professores, o mais sério e preocupado em interagir com os alunos foi o Marco Aurelio," recorda Sebastião Neto, hoje pesquisador do período. "Nos levava muito a sério. As aulas eram preparadas, a gente percebia. Discutíamos os temas, a grade, os objetivos de formação e ele cumpria. Para ele era uma vida louca, no seu fusquinha. Campinas, São Paulo, Pinheiros, São Matheus. 30 km do centro."

 (O autor agradece a Sebastião Neto, Jorge Matoso, Julio Héctor Marin, Luiz Renato Martins e outros militantes que,  no anonimato, prestaram informações indispensáveis à elaboração deste texto). 


Paulo Moreira Leite . O jornalista e escritor Paulo Moreira Leite é diretor do 247 em Brasília.