sábado, 9 de julho de 2016

Nº 19.825 - " Aderbal ao 247: 'Caiu o chefão, mas seu principal cúmplice é o presidente' "

Nada disso, no entanto, foi bastante para escapar da sanha dos que o rotularam de “marido da Marieta Severo”, de captar milhões na Lei Rouanet e de viver “de uma boquinha do PT”. Mal sabem eles que Aderbal mora num quarto-e-sala. “Nunca fui tão execrado publicamente”, exclama ele, nessa entrevista exclusiva ao 247.

Valendo-se de personagens de uma peça de Bertolt Brecht, chamados “tuis”, cujo lema é “não importa o que você faz, mas o que você diz”, ele afirma que o Brasil, hoje, “é o país dos tuis”. O discurso “tui” está na boca dos golpistas, desde Cunha, que atribuiu a sua renúncia a uma suposta vingança do PT por ter deflagrado o impeachment, até FHC, que, em entrevista à TV Al Jazeera, afirmou que os petistas se queixam do PMDB, mas foram seus aliados. 

“Cunha é um bandido. Mas os bandidos são muitos mais! Os cúmplices dele, o Temer, são bandidos”!, diz Aderbal. “Caiu o chefe, mas o seu principal cúmplice, que faz tudo pra salvá-lo, é o presidente da República. E continua na marginalidade comprando votos para virar de interino permanente”.  

O que achou dessa manobra do Cunha? Dessa renúncia chorosa?

Cara...é complicado dizer, porque é isso que você já disse, é uma manobra. Tudo que acontece a gente sempre fica pensando que consequências pode trazer e, evidentemente, espero que traga consequências positivas a favor da democracia... que desmonte...que mostre que... que evidencia o golpe... que fique cada vez mais claro, que convença mais pessoas que foi golpe, desmonte o discurso da direita... o discurso da imprensa... o discurso dos políticos do PSDB, que ficam querendo se aproveitar, conscientes de que estão participando de um golpe... Num país normal, numa situação normal, num mundo em que a realidade suplantasse as versões eu teria esperanças, mas tenho poucas. Tem uma peça do Brecht, que eu montei, que se chama “Turandot ou o Congresso dos Intelectuais”. Ele cria uns personagens que ele chama de “tuis”. Os “tuis” são os caras encarregados – que seriam “os intelectuais” – em alemão seria “Turandot ou o Congresso das Lavadeiras” ou dos “Lavadeiros” – no sentido que se usa de “lavar dinheiro sujo”. Os “tuis” são encarregados de “lavar” os fatos... os crimes cometidos por bandidos... com opiniões. São encarregados de mascarar os fatos com palavras. São uns intelectuais menores, intelectuais de merda...tem umas cenas num café com os “tuis” exibindo umas placas dizendo “vendem-se opiniões a prazo”...O lema deles é: não importa o que você faz e sim o que você diz. Nós vivemos num país dominado pelos “tuis”. Não importa o que se faz e sim como se diz.  O discurso de ontem do Cunha é baseado nisso.

Como assim?

O Supremo recebeu a denúncia contra o Cunha em dezembro de 2015. Do Janot. Esperou a votação do impeachment, em abril e só depois afastou o Cunha. O Brasil inteiro sabia quem era o Cunha. Todo mundo. No Rio, então... Em toda parte. O crime dele não era uma delação. Por exemplo: o Aécio vive se safando dizendo “não, são delações”... mas no caso do Cunha havia muitas provas. Qual era o fato? Que ele era dono de votos do impeachment, ele que deu esse papel de interino ao Temer, só ele podia levar o impeachment ao êxito. O cara dominava tudo. Se ele tivesse caído antes o desmascaramento dele teria acontecido antes e não haveria impeachment. Então, o Supremo, o Senado, todo mundo, usou o Cunha para fazer o que queria. E só depois foi feito o que tinha que ser feito. E o discurso dele de renúncia foi totalmente “tui”. Ele disse que se ele não tivesse sido o responsável pelo impeachment não seria derrubado, nem cassado. Quando aconteceu o contrário. Se ele não tivesse poder sobre o impeachment ele teria sido cassado muito antes! Como o Delcídio foi. Se ele se mostrasse aquele bandido e não tivesse poder sobre o impeachment ele teria caído antes. Mas ele disse que foi cassado como vingança por ter feito o impeachment! Vingança do governo, da Dilma, do PT. Portanto, das forças progressistas. Exatamente o contrário do que aconteceu.

Só que em vez de Brecht, temos Odebrecht...

Outra coisa: o Cunha é um bandido. Mas não é o único. Talvez seja o maior. Talvez seja o mais descarado. Talvez seja o que mais descaradamente tem sido aceito, apoiado descaradamente pela imprensa, pelos partidos, pelos outros políticos. Mas os bandidos são muitos mais! Os ministros que caíram são bandidos! Os cúmplices dele, o Temer, são bandidos! E o que dizem os “tuis” desde que está aí a Lavajato? Eles dizem que agora a justiça é pra todos. Segundo esse discurso, se a justiça é igual pra todos, a gente podia comparar uma quadrilha de políticos com uma quadrilha de traficantes. Bom, quando é preso o chefe de uma quadrilha de traficantes, prendem os cúmplices, cai todo mundo. Pois bem: na quadrilha de políticos não acontece isso. Quer ver uma prova de que não é igual? Caiu o chefe, mas o seu principal cúmplice, que faz tudo pra salvá-lo é o presidente da República. E continua na marginalidade comprando votos para virar de interino permanente. Ou seja: continua mais ativo do que nunca no tráfico. Não é esse o tráfico dele? É um discurso “tui”. A gente vive num mundo em que a justiça é igual pra todos? Picas! Nessa quadrilha cai o chefão, mas o principal aliado continua no tráfico. Fotografado traficando com Romário. E com outros.

Muda alguma coisa com a renúncia?

O Cunha é um bandido, mas não é o único. Talvez seja o maior. Ele é um símbolo. Como Adhemar de Barros foi... como Maluf foi...como aquele juiz Nicolau foi... Cunha é um símbolo da roubalheira política do Brasil. A roubalheira dele não começou com o PT. Ele está envolvido com contratos de empreiteiras desde sempre, ou seja, esse símbolo mostra que isso existiu desde sempre, muitos antes do PT. Então, dizer, como diz o Ferreira Gullar, como diz o Fernando Henrique, como diz o Bonner, como diz o Jabor que o roubo nunca foi tão grande como com o PT é um discurso “tui”. O que se pretende é derrubar o projeto de um país. Como? Com um discurso “tui”. Quais são fatos que apontam para um aumento de roubo com o PT? Ou do Lula? O sítio? O apartamento no Guarujá? É uma piada!

A renúncia ajuda ou atrapalha o impeachment?

Se valessem os fatos, o impeachment tinha acabado hoje. Aliás, se valessem, tinha acabado no primeiro ministro que caiu. O Romero Jucá, que era o primeiro-ministro do Temer. Podia ter acabado quando caiu o segundo. Podia ter acabado quando caiu o terceiro. Podia ter acabado quando aumentaram o déficit fiscal. Não cai, cara! Os “tuis” têm discurso para tudo. Um dos caras que mais me irritam é Fernando Henrique Cardoso. Ele falou à TV Al Jazeera. Quando o entrevistador disse que esses caras do atual governo são todos bandidos, ele se saiu com essa: não, eles eram aliados do PT, o PT se queixa deles, mas eles eram aliados do PT. Puta que pariu! Esses caras eram muito mais aliados dele, Fernando Henrique. O presidente do Senado, hoje que não está, portanto, em nenhum cargo do governo, e que é um chefe da quadrilha, o Renan no governo dele foi ministro da Justiça! Foi ministro da Justiça do FHC. E esse filho da puta vai na TV falar isso. Eles são aliados! Se o PT roubou porque era aliado desses caras ele roubou muito mais, porque esse cara foi ministro da Justiça dele.  Mas o discurso maior dos “tuis” é o discurso do combate à corrupção. Os “tuis” estão justamente defendendo os corruptos!

E esse Moro, que só anda de preto?

Ele recebeu a visita do ministro da Justiça do governo golpista e no dia seguinte começou uma nova onda de ações para abafar as delações do Sérgio Machado e a fazer ações midiáticas pra compensar essa porrada que mostrou o que é esse governo. Não só é evidente o golpe, como é evidente que os golpistas são uma quadrilha! E eles próprios tratam de queimar o Eduardo Cunha, como se fosse um ladrão... como se o Temer não fosse um cúmplice, total, tão quanto!  É um exército nacional da bandidagem! Esse exército é pior que o de 64, porque pode conseguir o apoio popular que o outro não conseguia. Eduardo Cunha é um puta de um bandido! Mas todo mundo sabe.  Todo mundo informado sabe... você... eu... os Marinho... o Jabor...o Gullar... todo mundo sabe quem era Eduardo Cunha...e os outros? Se não soubessem dos outros, podiam suspeitar. Três ministros caíram. O da Educação foi seguro na última hora. Todos, todos, todos, todos os acordos, todas as patranhas, o cara chamado Romário pra dar pra ele isso e aquilo. Não são só razões jurídicas falsas, absurdos, do golpe, como se vê depois quem são os golpistas... que quadrilha é essa? Tá no jornal! Isso está sendo dito sem palavras. E fica o Supremo Tribunal ali dizendo “não, estão sendo cumpridas as leis”... fica a imprensa dizendo que o ladrão é o Eduardo Cunha, vamos tirar ele.

E o Romero Jucá cantando de galo?
 
Pois é, continua cantando de galo. Cara, é um absurdo o que está havendo! Desde o início. Você viu absurdos como Kassab pedir demissão do governo Dilma, no dia seguinte votar pelo impeachment e no dia seguinte virar ministro do Temer.

É uma gente estúpida...  em todos os níveis, dos políticos à população... a estupidez contamina...

Eu virei o marido da Marieta Severo...tudo bem, eu não sou um cara de televisão, famoso e tal...mas eu tenho uma história no teatro... isso só se dissemina por absoluta falta de cultura. Eu tenho certeza que o Reinaldo Azevedo sabe quem eu sou. Mas ele bota “o marido da Marieta Severo”. E bota que a Marieta Severo, no Faustão, defendeu o governo da Dilma que era pra garantir o meu emprego na TV Brasil.

Você não acha que a Globo tá de marcação com o Temer porque ele colocou um cara da TV Record no ministério?

Eu não tenho TV... eu não vejo TV... Eu não moro com a Marieta...Marieta tem a casa dela e eu moro num apartamentinho aqui meu, que é o meu refúgio... e a gente passa o fim-de-semana juntos...ou eu vou pra casa dela ou a gente viaja, fica junto e tal...ou se encontra, ela vem aqui...mas a gente não mora junto...então, eu vejo televisão quando eu tô lá...e pouco... então eu não acompanho tão detidamente...e eu sinto uma fissura.. eu assino a “Folha”...e sinto, assim... aliás, outro cara é o Cony...a gente falou do Gullar, do Jabor, mas, e o Cony? E o Rui Castro? Puta que pariu! Então, eu vejo umas fissuras e fico querendo entender.

A Globo bateu muito no Temer no episódio em que o Sérgio Machado disse que deu propina a ele... 

Mas quem é o cara da TV Record no ministério?

É o Marcos Pereira, da Indústria e Comércio, presidente do PRB, pastor da Universal e, portanto, empregado do Edir Macedo... 

Essas contradições lá deles são a esperança...e os movimentos de resistência... e essas recepções incríveis a Dilma em todo lugar que ela vai...

Dilma volta ou não volta?

Cara, eu vivo da esperança...não consigo imaginar como será sem ela...da minha parte eu estou lutando pra isso... eu nunca fui tão execrado publicamente...eu estou chocado com isso... cara, eu ganhei todos os prêmios de teatro... eu tenho uma história... eu nunca me envolvi com nenhuma mamata...não tem porque, não me interessa... o meu apartamento é sala-e-quarto...  Eu fui convidado pra TV Brasil pra substituir o Sérgio Brito que ficou doente. Ele morreu. Me convidaram pra continuar. Eu recusei, eles insistiram. Disseram que a Fernanda foi que me indicou. Perguntei se teria liberdade total, até de mudar o cenário. Disseram que sim. Criei o meu programa. Me divirto com isso. Toda semana eu escrevo. No primeiro ano eles me pagaram o que pagavam ao Sérgio. Depois quiseram fazer um esquema de co-produção. No dinheiro que eles pagam pra mim eu pago a equipe. São cinco pessoas contratadas. E os custos do programa. Passagens de avião, hospedagem etc. Estou no quarto ano do programa. E aí dizem que eu peguei uma boquinha no PT! Eu virei um simples dentista que tem uma boquinha no PT! E que quando a Marieta vai no Faustão é pra manter a boquinha no PT do marido dela. E aí eu vejo qual é a estratégia deles. Se conseguem desmontar a minha imagem com base em mentiras, puta que o pariu! É essa a estratégia! Quando o Gaudêncio Torquato escreveu que a Marieta captou sete milhões e eu dois milhões, fui ver quem era esse cara. E eu vi no currículo dele: Instituto Millenium. E é conselheiro do Temer. Ele reconheceu numa nota publicada no Ancelmo Gois que eu não captei nada, mas sim a Marieta. A nota no Ancelmo acaba aí. Mas ele escreveu no blog dele a continuação: “quem quiser que faça as ilações: é que nem o Eduardo Cunha, que a mulher dele é que paga por ele e ele não é o responsável, é o trust”. Puta que pariu! Ele me compara com Eduardo Cunha! “Que a mulher dele que pagou a conta... que é um trust que ele tem...” A empresa da minha mulher é que captou pra mim. Não é foda isso? Por que? Porque eu defendo um pensamento de esquerda, um pensamento progressista, um pensamento anticapitalista. Então, eles não te respondem com a defesa, eles respondem com uma difamação, com uma calúnia. É essa a minha tortura contra esse exército. Essa é a tortura que eu sofro.

Você encenou duas peças de um cara que estudou comigo no primeiro ano de faculdade...Mário Prata.

Meu amigão!

Com 18 anos entramos na Faculdade de Economia.

Economia?

Por engano! Os dois por engano!

(Risos)

Sabe o que a gente fazia? Todos os outros alunos iam estudar, menos nós.

(Risos)

A gente, não; a gente chegava de manhã e jogava ping-pong e ia até à Quitanda (o nome de um barzinho) tomar batida de maracujá.

(Risos) Em vez de salvar o Brasil...

Nós não tínhamos nada que ver com Economia...um dos professores era o Delfim Netto...

O Delfim era professor?

Não sei se na época ainda era... 1968... acho que já estava no governo da ditadura... mas foi professor antes...E tinha um outro amigo nosso, chamado Claudio Pucci, que também tinha entrado por engano. Depois ele trabalhou no Teatro de Arena. Nós três escrevemos uma peça chamada “Kalfiloficus”...

(Risos) Chamada como?

Kalfiloficus! Uma palavra que inventamos. Era um musical. Foi a nossa única atividade na Faculdade de Economia da USP.

Tem que recuperar essa peça, esse musical!

Logo depois teve a Batalha da Rua Maria Antônia, que fazia esquina com a rua da Economia... logo em seguida o Prata escreveu “O cordão umbilical”...

Que foi montada primeiro em São Paulo, por um grupo de São Paulo e que depois eu montei aqui no Rio. Foi uma das minhas primeiras direções. A segunda ou a terceira. E a gente ficou superamigo desde então. Vez por outra a gente se fala. Sei que agora ele está morando em Floripa.

Ele entrou nessa. Fugiu para Florianópolis. Não sei pra quê.

(Risos) Mas é uma grande figura! Fiz outra peça dele...

Besame Mucho?

Besame Mucho.

E depois ele escreveu uma novela na TV Tupi chamada “Dinheiro Vivo”. Que lançou a Maitê Proença.

Ahhhhh...

Foi o primeiro trabalho da Maitê...acho que ele chegou até a namorar com ela...

Eu acho que sim. Um dia desses ele me contou uma história de uma caganeira que ele teve de manhã porque a Maitê ia chegar de noite no apartamento dele em Santa Catarina. E aí ele estava indo de casa pra ilha, pro continente e começou a ter uma caganeira...e foi pra casa de noite e tinha que receber a Maitê...isso agora, há pouco tempo...e escreveu também o “Estúpido Cupido”...

O Prata é um personagem! Além de autor é um personagem. Não é um personagem à procura de um autor, ele é os dois!

(Risos)

E você também montou uma peça inspirada num livro do tio dele...Campos de Carvalho... “O púcaro búlgaro”. Era o nosso ídolo na época...

Walter Campos de Carvalho... tio dele... que a mãe dele não deixava ele ler... uma coisa assim...e o Antônio filho dele fez uma bela entrevista com o Campos de Carvalho...não sei onde está publicado... na época em que eu montei eu tive acesso...

Você conhece toda a obra do Campos de Carvalho?

São quatro romances. Tem o primeiro que eu não conheço. “A lua vem da Ásia”... “A vaca de nariz sutil”...”O púcaro búlgaro”...e “Chuva imóvel”. Esses quatro eu conheço. Mas parece que antes desses ele tinha escrito outro, que por muito tempo não quis publicar...

A gente lia muito o Campos de Carvalho.

Esse cara era demais! Porra! Era um cara maravilhoso! "O púcaro búlgaro” é uma doidice! Sensacional!

Ele era uma mistura de Millor Fernandes com Leon Eliachar.

Leon Eliachar é muito bom! É o cara que diz que nasceu no Egito e morava no Rio então era “cairoca”.

(Risos) Você se lembra como ele morreu?

Não, como foi?

Foi assassinado! Pelo marido da amante dele! Na cama!

Eu não lembrava disso...

A amante era do Paraná e ia visitá-lo no Rio. Um dia o marido pegou os dois em flagrante e atirou no Eliachar. Na cama.

Caralho...

Foi uma puta duma tragédia!

Tragédia que eu me lembrava de humorista era o suicídio do Carlos Estêvão... “o amigo da onça”...

Enfiou a cara no forno!

Que horror! O Leon eu devo ter sabido, mas apaguei...

Foi durante a ditadura. Levou um tiro ainda na cama! Pior que o Getúlio, que deu um tiro no coração...aliás, há controvérsias...a Virginia Lane dizia que a história foi diferente...quando você escreveu e montou a peça do Getúlio chegou a falar com ela?

Eu cheguei a ouvir pessoas próximas... a Celina, mulher do Moreira Franco na época, que era filha da Alzirinha...e do Amaral Peixoto...a Alzirinha foi um personagem importante na peça... e na vida, sem dúvida. E ouvi também um filho do Oswaldo Aranha...que era rapazola, e que foi com o pai, de noite, para a reunião ministerial no começo da madrugada... uma ou duas da manhã...e ele contou uma coisa incrível que quando ele chegou lá tinha uma multidão na frente do palácio, xingando o Getúlio, esculhambando, gritando, “fora”! Foi difícil sair do carro, ele e o pai. Ele foi embora e o pai ficou. Quando de manhã ligaram e ele voltou para pegar o pai ele disse que a mesma multidão que xingou estava chorando. Isso me lembra um pouco essa coisa das pessoas gritando “fora Dilma”, “tchau querida” e agora “volta querida”. Não são as mesmas, mas, enfim, algumas, certamente se dando conta... eu estive me lembrando dessa história aí...do filho do Oswaldo Aranha...

Você acredita na versão da Virginia Lane? Ou é fantasia dela?

Não sei... tudo é possível... é meio difícil considerando as coisas que eu ouvi na época...mas, porra, eu não sou um bom investigador. Eu andei lá pelo palácio, ouvi pessoas e fiquei dois anos fazendo a peça que foi encenada no palácio mesmo, ouvindo gente que depois que assistia vinha dizer coisas...um deles me disse “eu era garçom aqui em frente, e eu vinha trazer café, às vezes, aqui”...Aconteceu uma coisa engraçada. Na minha peça tinha uma coisa que era pura ficção. Na última cena, Claudio Marzo fazia o Getúlio. E eu escrevi uma coisa que era uma espécie de um monólogo do Getúlio no quarto, sozinho, era um monólogo dito por ele em terceira pessoa...ele dizia que olhou pro retrato... porque no quarto tinha um quadro do Getúlio no jipe com o Roosevelt... rindo... e ele dizia assim” do que é que ele estava rindo”?... por que ele falava na terceira pessoa...aí dizia “botou a carta na mesinha de cabeceira, foi até a janela, abriu, entreabriu a janela, olhou para baixo, viu ali umas pessoas, uma multidão embaixo, aí viu que um homem olhou pra cima e reparou nele, viu que ele estava lá. Fechou a janela de repente e voltou, foi até à cama, pegou o revólver e tal”... Aí um dia apareceu um cara pra me dizer que o homem que viu o Getúlio lá de baixo era o tio dele! E a cena é inventada! Não encontrei nenhuma referência a pessoas dentro do palácio. Estava no palácio a Alzirinha que assim que ouviu o tiro foi lá...

Você chegou a conversar com a Virginia Lane?

Não.

Ela contava com tanta convicção aquela versão... que ela estava na cama com Getúlio... alguém entrou no quarto e deu um tiro nele...e ela fugiu pela janela... aquela janela que ele entreabriu...

A versão dela é de testemunha...ela viu.

Exato.

Caraca! Eu não sabia, não.

Ela gravou isso no youtube, deve estar lá até hoje. Ela se jogou da janela para não ser morta também... era primeiro andar?

Não, era o terceiro, o andar mais alto do palácio. O palácio tem basicamente dois andares e tem uma escadinha que leva para o terceiro que é onde ficava o quarto dele. Tem dois andares públicos, digamos e o andar em cima que seria mais privado, onde ficava o escritório, o quarto e tal. O primeiro e o segundo tinham os salões e tudo o mais. O palácio era daquele tempo em que as casas não tinham banheiro, quase. Uma casa enorme tinha um banheiro... dois... o palácio tinha dois banheiros... um lá embaixo e um lá no quarto. O quarto tinha uma portinha, uma janela, uma portinha que dava para um banheiro exclusivo dele. Fora esse banheiro, no palácio inteiro só tinha um banheiro lá no térreo. Uma coisa doida. E era meio alto pra ela cair da janela, entendeu?

Ela se machucou... quebrou a perna... foi socorrida... isso parece muito com a morte do PC Farias...

E agora a morte desse cara aí... no motel...

Morreu envenenado depois de ser acusado de falcatruas na campanha do Eduardo Campos...E o Janot, que dorme com a pistola na cabeceira da cama?

(Risos)

Você soube disso?

Eu li isso. Que ele dorme com a pistola na cabeceira.

Esse país está cada vez mais perigoso!

Esse país tá muito perigoso...onde o procurador da República dorme com a pistola na cabeceira...

E não te dá vontade de escrever uma peça sobre isso tudo?

Cara... eu fico querendo muito... mas...dá muita vontade de levar pro teatro alguma coisa que traduza o que está acontecendo hoje... só que é tão complexo, são tantas as coisas, cada dia, você olha para um lado, se assusta com esse olhar... Então, eu não sei se seria capaz de encontrar essa expressão teatral, dramática, cênica, disso aí. Mas pra mim nesse momento teatro só teria sentido para fazer alguma coisa que falasse disso. Eu fico vendo, angustiado, o momento do teatro brasileiro, que já foi o teatro mais político, com Boal, com Vianinha...

Você se lembra da “Feira Paulista de Opinião”?

Lembro. Tinha também o Lauro César Muniz.

Cada autor escreveu uma peça de um ato sobre a ditadura... foi encenado no Teatro Ruth Escobar... por que você não faz uma coisa parecida? Convoca uns cinco ou seis autores...e cada um deles escreve uma peça de um ato sobre o golpe...

É uma coisa interessante... uma ideia legal...

Já imaginou transformar em humor esse encontro do Temer com o Cunha? O Temer dizendo “qual é mesmo aquele professor de tênis da tua mulher? Minha mulher também quer aprender a jogar”.

(Risos) Você tem que escrever uma dessas peças...

E Cunha pede pro Temer ajuda do Michelzinho para sua filha escrever uma redação sobre “Ordem e Progresso”...e Temer pergunta: “Você está torcendo por qual banda no festival de bandas da Globo”?

(Risos)

Eles combinam de assistir juntos o “Game of thrones”...transformar em comédia a tragédia que está acontecendo...

É terrivelmente cômico! Porque os aspectos cômicos são incomparáveis! Eu vi o Jabor mostrando o lado cômico que ele fica querendo mostrar pra desmoralizar a Dilma, por exemplo. Isso não é nada diante do que acontece agora! Com Temer. E com todos os outros! Por exemplo: um momento incrível é o Temer falando com o jornalista argentino, acreditando que está falando com o Macri!

(Risos)

Isso é sensacional! É uma comédia! O

Essa versão 2016 da “Feira Paulista de Opinião” tem que ser feita na raça, sem Lei Rouanet!

Quando você vê quem são os verdadeiros grandes captadores da Lei Rouanet é a Fundação Roberto Marinho, é o Itaú Cultural, no caso do teatro são as empresas de musicais e que não têm nenhuma vinculação com artistas petistas, muito pelo contrário.

O Claudio Botelho foi vaiado por falar mal da Dilma em cena...

Mas ele ainda é um caso menor. O Calainho, dono da Aventura, que é a maior captadora é um amigo particular, próximo, do Aécio! São esses os maiores captadores! E não adianta você dizer, porque é uma coisa petista! E agora estoura esse primeiro escândalo que não tem nada que ver com ninguém! Os desvios mesmo não são nem para cultura. São os picaretas que apareceram por aí, que usam para casamentos, isso e aquilo. É uma deturpação total!

E tem uma coisa: da mesma forma que os Calainhos não defendem a Lei Rouanet porque Fernando Henrique não diz que também fez pedalada?!

Mas aí é querer demais! É querer que o Aécio diga que... não só isso, porque quando ele começar a dizer isso ele abre a tampa de tudo que rolou antes. “Meu pai fez isso”. “Meu avô fez isso”. Essa história de corrupção é incrível! O próprio Tancredo certamente esteve envolvido com muita trapaça! O Aécio herda do Tancredo... que passa pelo pai do Aécio...pelo tio do Aécio.
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O Sarney veio da Arena... trouxe a corrupção da Arena para o PMDB...onde se juntou com a turma do Quércia...isso foi muito antes do PT.

Tem os que dizem: eu votei no PT e fui traído pelo PT. “Ah, mas dizer que os outros roubam, não justifica roubar”. Eu não estou querendo justificar o PT porque os outros roubaram. A gente está querendo ver no conjunto a história da corrupção.  

E pessoas que lutaram contra a ditadura, como Ferreira Gullar, ajudam a confundir, colocando o PT na vanguarda da corrupção.

Eu não aguento mais! Com todo o respeito pela história do Gullar, pelo passado, pelo poeta eu não aguento mais! Essas são as coisas piores! Como é que o Ferreira Gullar engrossa esse caldo.

A dúvida é se ele ficou idiota ou se já era idiota e a gente não sabia. O Jabor é outro...

Eu sempre que posso me refiro a essa gente como a “direita strogonoff”. Ou “direita mingau” que é a esquerda que envelheceu a virou caduca. Como é que essa gente engrossa esse caldo?! O Fernando Henrique! O Serra! Essas pessoas agora se aliam ao que há de pior. Antes de se aliar com Bolsonaro a Marina se aliou com o PV do filho do Sarney, o Zequinha Sarney que virou ministro de Temer!

E o PPS, então?

É vergonhoso! Roberto Freire... um ex-comunista...

E o Cristóvão Buarque criminalizando o PT na televisão...

Que absurdo!

E o impeachment então? É outra estupidez! Qualquer tribunal internacional acaba com ele em 15 minutos.

Eu não sei se é uma farsa, se é uma comédia de costumes, um teatro de marionetes, o teatro do absurdo e um dia cheguei à conclusão de que era um gênero desconhecido, criado, por um autor espanhol que é o “esperbento”... que é uma deformação da realidade fazendo com que os personagens passem diante daqueles espelhos côncavos ou convexos de parque de diversão... é inacreditável! Você não pode levar a sério! Por isso o mundo todo dá mais crédito a essa versão de que foi um golpe. Porque não pode acreditar, um tribunal internacional não aceitaria isso. Como é que pode isso estar ainda vivo? Os senadores não ouvem. Os senadores dizem: “quem fez pedalada foi você, no governo de Minas, seu Anastasia”. E o Anastasia ali, com cara de bunda. Fazendo “ouvido de mercador”. Ou, atualizando “ouvido de senador”. Não está havendo julgamento, é uma grande cena desse “esperbento” que a gente já sabe qual será o final, a menos que aconteça um milagre.

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