domingo, 9 de outubro de 2016

Nº 20.119 - "Despolitização e retrocesso"

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09/10/2016

Despolitização e retrocesso


 
Jornal O Povo  - 09/10/2016 
 
Valdemar Menezes opiniao@opovo.com.br
 
Resultado de imagem para valdemar menezesO grande número de votos brancos, nulos e abstenções, nestas eleições, expôs o desalento dos brasileiros com o sistema político corrupto. Longe de significar uma renovação, a derrubada da presidente Dilma Rousseff trouxe para a linha de frente do cenário político as forças predadoras e fisiológicas que sempre frearam o desenvolvimento socioeconômico e político do Brasil. A parte delas que se abrigava na antiga base governamental (pois sempre aderem ao governo de plantão) sufocou a administração com demandas insaciáveis de verbas e cargos.  

Ao serem contrariadas, revoltaram-se contra o governo e partiram para o golpe farsesco do impeachment, apoiadas pela plutocracia, por segmentos poderosos da mídia e da alta burocracia do Estado, além de grupos de interesses estrangeiros desejosos de abocanhar o pré-sal. E conseguiram.

ESTRATÉGIA

A estratégia da tomada do poder consistiu em impedir o governo de governar, através de obstruções e pautas-bomba, para jogar propositalmente o Brasil na recessão e, em seguida, cinicamente, responsabilizar Dilma pela paralisia da economia, jogando o povo contra ela. Tudo elaborado pelo consórcio formado pela banca internacional e seus aliados internos para mudar o modelo econômico nacional por outro, de caráter entreguista e controlado pelos mercados – o que dificilmente obteriam pelas urnas. O plano foi apoiado por uma campanha diuturna de denúncias seletivas de corrupção, focando apenas o PT e deixando ilesos corruptos notórios de outros partidos e figuras da oposição.

VACILAÇÃO

O PT supôs que seu governo evitaria um destino semelhante ao de Getúlio Vargas, João Goulart (e do presidente chileno Salvador Allende) se contrariasse o menos possível os donos do Brasil, deixando de pressioná-los com transformações sociais profundas. Ademais, parece ter acreditado na súbita “conversão” das elites econômicas à democracia e do seu acatamento inconteste da Constituição de 1988, apesar de, anteriormente, elas terem rasgado todas as constituições minimamente democráticas, no Brasil, pois nunca respeitaram a soberania popular. Não foi por falta de advertência.

ACOMODAMENTO

Ao invés de se apoiar na mobilização de sua base social popular, o PT apostou apenas no jogo político convencional. O povo foi desmobilizado e, quando o sistema desencadeou o ataque, os cidadãos comuns, compreensivelmente, não tiveram discernimento para entender a trama, pois seus líderes não haviam cuidado de sua formação política. Foram enganados pelo discurso hipócrita da anticorrupção (seletiva). Para piorar, alguns membros do PT aparentemente se deixaram enredar pelas teias do sistema corrupto (digo “aparentemente” porque seus processos e condenações foram feitos de modo tão chocantemente alheios aos padrões do Direito Processual Penal – segundo especialistas - que continuam a ter sua credibilidade contestada por respeitáveis correntes do pensamento jurídico democrático).

ANTIFASCISMO

A ameaça obscurantista (basta ver o Estado de Exceção legitimado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª região - TRF4, na operação Lava Jato) exige que as forças democráticas articulem uma frente ampla, abrangendo todas as correntes antifascistas para não deixar a democracia soçobrar. A falta de união entre socialdemocratas, comunistas e outros segmentos antifascistas – é bom lembrar – foi o que facilitou a ascensão do nazismo, na Alemanha. Os brasileiros não podem correr o risco de cair de novo sob o tacão autoritário, diante da crescente escalada de desrespeito ao ordenamento jurídico democrático. A violência deve ser combatida em todas suas manifestações: desde as agressões policiais execráveis - como as cometidas contra o secretário estadual e ex-senador Inácio Arruda e sua família - até às realizadas por instâncias da República acusadas de atropelo da Constituição e de atuar seletivamente para favorecer o jogo político dos usurpadores do poder.

INGRATIDÃO

A violência policial que assusta Fortaleza e o Ceará, como um todo, tem muito a ver com a ostensiva partidarização de amplos segmentos da PM cearense. Eles parecem esquecidos de que, em 2012, durante a greve da corporação, foram os setores democráticos da sociedade que acorreram para impedir um desfecho sangrento durante o cerco do quartel-general dos grevistas por tropas do Exército. A sociedade civil (personalidades, lideranças políticas, movimentos sociais) articulou-se para impedir o pior.

Destacaram-se nesse empenho personalidades marcantes como o bispo católico dom Edmilson da Cruz, a ex-procuradora-geral de Justiça do Ceará, Socorro França, e o deputado federal Chico Lopes (PCdoB), dentre outros. No entanto, o que fizeram as lideranças políticas e sindicais da PM, desde então? Deram as costas às forças que as socorreram, confraternizam com a extrema direita bolsonariana e contemporizam com a violência gratuita e opressiva da tropa contra o povo e os movimentos sociais.

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