sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Nº 19.818 - "As platitudes oportunistas de Barroso"


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26/08/2016

As platitudes oportunistas de Barroso

 


luis-roberto-barroso

Arpeggio - Coluna política diária

Por Miguel do Rosário, editor-chefe do Cafezinho


O ministro Luis Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), participou de um "fórum pela registrado pela Folha:


liberdade de expressão" promovido pela revista Veja e Google, em que pronunciou as seguintes platitudes, conforme


O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luís Roberto Barroso usou sua participação, num fórum sobre liberdade de expressão em São Paulo, na manhã desta sexta (26), para defender a Operação Lava Jato de "robustas e previsíveis reações" que, "se bem-sucedidas, impedirão a mudança de patamar ético de que o país precisa".
Segundo ele, "essas reações incluem ataque ao Ministério Público, tentativas de reverter a jurisprudência do Supremo que permite a execução de condenações após o segundo grau, articulações para preservar mandatos maculados com mudanças legislativas que façam tudo ficar tão parecido quanto possível com o que sempre foi".
Para o ministro, "o país precisa de uma sociedade mobilizada e de um Judiciário independente, capazes de continuar a promover uma virada histórica na ética pública e na ética privada". Para encerrar, afirmou: "Já nos perdemos pelo caminho outras vezes, precisamos acertar agora".
Antes, Barroso havia defendido a Lava Jato, que citou nominalmente, dizendo "a novidade é que a corrupção tem sido enfrentada nos últimos tempos com investigação séria, cooperação internacional, tecnologia e técnica jurídica".
Acrescentou porém que o necessário respeito à transparência "não legitima vazamentos seletivos, venham da acusação, da defesa ou da polícia".
O divertido Romário, hoje enterrado dentro do corpo de um senador golpista, certa feita cunhou uma frase sobre Pelé que já nasceu célebre: Calado, Pelé é um poeta.

Poderíamos parodiar essa frase e dizer que Barroso, calado, é um grande filósofo político, um emimente jurista e um comentarista genial dos problemas brasileiros!

Calado, Barroso é quase um Hans Kelsen!

Infelizmente, Barroso gosta de falar. De preferência em eventos promovidos pela Veja.

É incrível como funciona a cabeça de um ministro do STF. Aquela capa preta que eles vestem deveria portar o símbolo da Globo. É só vesti-la para que eles se transformem em papagaios furiosos das ideias hegemônicas da grande mídia.

No caso de Barroso, há um elemento ainda mais irritante. É sua pretensão de simular críticas establishment ao mesmo tempo em que repete frases decoradas no manual do establishment.
Vamos comentar as frases do ministro:
O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luís Roberto Barroso usou sua participação, num fórum sobre liberdade de expressão em São Paulo, na manhã desta sexta (26), para defender a Operação Lava Jato de "robustas e previsíveis reações" que, "se bem-sucedidas, impedirão a mudança de patamar ético de que o país precisa".
Segundo ele, "essas reações incluem ataque ao Ministério Público, tentativas de reverter a jurisprudência do Supremo que permite a execução de condenações após o segundo grau, articulações para preservar mandatos maculados com mudanças legislativas que façam tudo ficar tão parecido quanto possível com o que sempre foi".
Mudança no patamar ético de que o país precisa... Claro, isso incluiria derrubar uma presidente sem provas, levando ao poder o ministério mais corrupto e reacionário que o Brasil já testemunhou em sua história.

Além de jurista e analista político, Barroso é também - calado - um moralista magnífico!
"Ataque ao Ministério Público"...

O ministro Barroso talvez tenha esquecido de que, vivendo sob um regime teoricamente democrático, a crítica às instituições não deve ser caracterizada como "ataque" e sim como um saudável e necessário escrutínio social.
No caso do Ministério Público, como ele não passa pelo filtro do sufrágio universal, a única maneira do indivíduo exercer um pouco de influência sobre a sua atividade é através da livre crítica política.

Se tem alguém "atacando" o Ministério Público, excelentíssimo ministro Luis Roberto Barroso, são os próprios procuradores da Lava Jato, que exercem o seu ofício qual fossem justiceiros completamente descompromissados com valores democráticos e garantias individuais.

Afinal, o Ministério Público, como o próprio nome diz, não pertence à corporação. Não pertence aos procuradores e promotores, nem ao Procurador Geral da República. O MP pertence ao povo brasileiro. O povo brasileiro é o proprietário único do Ministério Público e, portanto, pode e deve criticá-lo, para que ele não extrapole de suas funções e não se torne um estamento pró-oligárquico, antipopular, como parece ter se tornado.

Há um sermão belíssimo do padre Antonio Vieira, o Sermão I, da primeira sexta-feira da quaresma, que o excelentíssimo ministro deveria ler antes de sair por aí chamando, genericamente, a crítica democrática de "ataque ao Ministério Público". Nele, Vieira explica, com base nos textos sagrados e em Santo Agostinho, que há um amor que destrói, porque desordenado e cínico, e um ódio que aprimora o mundo, porque visa o aperfeiçoamento. Si males amaveris, tunc odisti; si bene oderis, tunc amasti, dizia Santo Agostinho. Se amas mal, então odeias (ou seja, fazes o mal); se odeias bem, então amas (ou seja, fazes o bem).

Uma crítica democrática, inteligente, ao Ministério Público, tem como consequência o seu aperfeiçoamento, e é feita por quem ama, verdadeiramente, as funções democráticas do MP, a saber, o de defender o cidadão dos arbítrios do Estado e das corporações.

Um elogio vazio ao MP, como o feito por Barroso, não constrói nada, apenas reforça os vícios já graves da instituição. É um amor destrutivo, e, portanto, falso, oportunista.
(...) tentativas de reverter a jurisprudência do Supremo que permite a execução de condenações após o segundo grau, articulações para preservar mandatos maculados com mudanças legislativas que façam tudo ficar tão parecido quanto possível com o que sempre foi.
Barroso parece realmente ter sido picado pelo mosquito do punitivismo, da prisão enquanto valor máximo e prioritário da filosofia penal. Fala-se de "execução" e "condenações após o segundo grau" como se não estivéssemos, em verdade, discutindo aqui a redução do grau de liberdade individual, ou seja, do valor fundamental de uma democracia liberal, que é supostamente o regime político almejado pelos constituintes que escreveram a nossa carta magna.

Mais poder se dá ao Estado para encarcerar o indivíduo, menos instrumentos para o mesmo se defender da perseguição do Estado, eis o caminho para o autoritarismo - o que a Constituição de 1988 tentou explicitamente evitar. A declaração de Barroso, portanto, é uma tentativa oportunista de tirar casquinha desse populismo penal seletivo que tem caracterizado os movimentos do judiciário brasileiro.
Para o ministro, "o país precisa de uma sociedade mobilizada e de um Judiciário independente, capazes de continuar a promover uma virada histórica na ética pública e na ética privada". Para encerrar, afirmou: "Já nos perdemos pelo caminho outras vezes, precisamos acertar agora".
Antes, Barroso havia defendido a Lava Jato, que citou nominalmente, dizendo "a novidade é que a corrupção tem sido enfrentada nos últimos tempos com investigação séria, cooperação internacional, tecnologia e técnica jurídica".
Barroso parece um profeta louco discursando num banquinho de rua. Sociedade mobilizada? Que sociedade? Que mobilização? Não há mobilização mais importante e mais consequente, por exemplo, do que aquela que prepara e antecede um processo eleitoral. Milhões de pessoas se mobilizam para convencer outros eleitores sobre a melhor opção. E o que o judiciário faz para garantir que o governante escolhido não seja derrubado por uma conspiração golpista? Nada. Judiciário independente? Como o judiciário pode ser independente se os juízes frequentam regabofes de partidos, recebem prêmios de corporações midiáticas e são vítimas de assassinatos de reputação a cada vez que não se alinham aos interesses do status quo?

E como assim "continuar a promover uma virada histórica na ética pública e na ética privada"? Que virada é essa que não estou vendo? O que eu vejo é exatamente o contrário: a Lava Jato destruiu empresas estratégicas e levou um monte de corruptos ao poder. Essa é a virada histórica na ética pública?
Quanto à ética privada, recuso-me a acreditar que um ministro do Supremo Tribunal Federal ache que teremos alguma "virada histórica" promovida por um Ministério Público e um Judiciário profundamente corrompidos por preconceitos aristocráticos.

O que melhora a ética privada de um povo, ministro, é proporcionar melhor alimentação, dar mais segurança econômica e, sobretudo, respeitar a vontade soberana das urnas.


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PITACO DO ContrapontoPIG 


Em português claro: o que transparece é que o ministro em questão é um tremendo bunda-mole.


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