quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Nº 19.841 - "Discurso da senadora Regina Sousa"

 

31/08/2016

Discurso da senadora Regina Sousa

 

  • Publicado: Terça, 30 de Agosto de 2016, 20h12
  • Última atualização em Terça, 30 de Agosto de 2016, 20h20

    Publicado: Terça, 30 de Agosto de 2016, 20h12  Última atualização em Terça, 30 de Agosto de 2016, 20h20


SENADORA REGINA SOUSA (PT-PI)



Senhor Presidente, senhoras e senhores parlamentares,


Povo brasileiro!

Quero começar desmontando a história da legitimidade do processo de impeachment da presidenta Dilma Roussef. Dizem que ele está respaldado na Constituição. Senhores, o AI-5 foi editado dentro da legalidade da época. Esse Senado Federal teria coragem de aprovar o AI-5?

O Brasil e o mundo assistem hoje o último capítulo de uma trama bem armada, uma conspiração bem articulada por uma maioria política que se formou pós eleição de 2014. Essa maioria tinha um objetivo: impedir que a presidenta Dilma governasse, aproveitando-se do fato de ela ter sido eleita com uma base parlamentar fragilizada pela divisão de alguns partidos do bloco.

Aqui adotou-se a mesma tática que Carlos Lacerda tramou contra Getúlio Vargas: Dilma não pode ser eleita, se eleita não toma posse, se tomar posse não governa. E foi o que aconteceu.

Para chegar no impeachment, uma rede de atores, foi montada. Cada um no seu papel de respaldar uma acusação frágil para usurpar um mandato legítimo. O enredo foi envolveu os seguintes agentes:

 O TCU, através de um conluio entre o procurador de contas e um auditor;

 O partido que perdeu a eleição e encomendou um parecer jurídico para apontar os atalhos para derrubar o governo legitimamente eleito pelo povo;

 Um grupo de parlamentares chamado G-8 para planejar a conspiração (palavra deles). Até aulas tinham, de um ilustre cidadão chamado Nelson Jobim!

 O presidente da Câmara chantagista, sabotando as medidas do governo, inclusive a LOA e o PLN 5;

 A Polícia Federal – produzindo espetáculos para desgastar o governo;

 A FIESP – patrocinando patos humanos e de plástico – os humanos vão pagar o pato

 Setores do Ministério Público e da Justiça Federal – fazendo uma operação seletiva e com a finalidade de derrubar a presidenta da República, isso foi confessado por um procurador que, em nome da força tarefa, disse que todos se sentiam usados: “éramos lindos até o impeachment se tornar irreversível, agora nos dizem chega”. Disse isso à Folha de São Paulo. Se ele se calou, é porque deve ter sido chamado ao centro da roda e devidamente enquadrado.

 O Ministério Público também, numa clara interferência no Executivo, impediu Dilma de nomear Lula seu ministro. Se o Ministério Público tivesse o zelo de impedir a nomeação do Ministério do presidente interino, não teria dificuldade para barrar 90% deles, dada a ficha corrida de cada um que lá está.

 O vice Michel Temer, que assistia todo o desenrolar dessa suja trama, na primeira fila, a esperar a oportunidade de acenar ao público no final, mesmo que a plateia lhe dê as costas.

 E o ator principal – a Rede Globo, que domina quase todo o mercado da comunicação, manipulando e inflando notícias negativas do governo através de alguns de seus jornalistas, robotizados até no sorriso.

Senhor presidente, senhores senadores, quem não têm argumentos para refutar decretos e subvenções, diz que vai julgar pelo conjunto da obra.

Qual conjunto? Corrupção no governo? Não têm coragem. As delações estão aí envolvendo o próprio presidente interino, seus ministros e gente desta Casa, uns recebendo 3%, outros, 10 milhões e até 23 milhões.

Aí vem o ridículo dessa história: a delação de Leo Pinheiro não vale porque vazou? É pra rir ou pra chorar? Não vale porque precisa proteger os membros do governo e de partidos das suas bases.

Aqui, nesta Casa, existem campeões de denúncias, nenhuma vai pra frente, pois o santo protetor não permite nem investigar.

Vou falar rapidamente do conjunto da obra de Dilma e Lula: estão em julgamento aqui os benefícios ao povo pobre:

 Luz para Todos que tirou 15 milhões de pessoas da escuridão;

 Minha Casa, Minha Vida que deu endereço a 2,6 milhões de famílias;

 O bolsa-família, que beneficiou 48 milhões de pessoas, tirando das cozinhas das madames as meninas que trabalhavam em troca de um prato de comida;

 O PROUNI, que permitiu ao filho do cortador de cana se formar em medicina;

 O PRONATEC, O SAMU, a farmácia popular, o programa das cisternas, o Ciência Sem Fronteiras, o Bolsa Atleta – ambos já cortados;

 Mais Médicos; novas universidades federais, novos institutos federais e tantas outras conquistas que mudaram o perfil social deste País.

Na verdade, a disputa aqui é entre o Bolsa Família e a Bolsa de Valores. É a disputa entre projetos de um país para todos ou um país apenas para os ricos.

Quero ainda desmontar o jargão “Nunca o Brasil viveu uma crise como esta”. Em que País os senhores acusadores moravam de 1997 a 2002?

 Vou reavivar a memória de vocês. Em 1997, o Plano Real começou a fazer água pelas mãos de FHC, que comprou a reeleição. Tem confissão de deputados que participaram daquele conluio!

 Em 2002, no governo do PSDB, o desemprego era o segundo maior do mundo, 11 milhões e 454 mil pessoas estavam desempregadas, quando nossa população era muito menor!

 Em 2002, as nossas reservas internacionais eram de 37 bilhões, hoje, depois de 13 anos de governo do PT, são 370 bilhões;

 Em 2001 teve apagão elétrico – quem não se lembra?

 Tinha um tal de risco país que era o segundo maior do mundo, e nunca teve grau de investime

 Em 2002, a inflação era de 12% e a taxa de juros era de 25,5%;

 Entre 1999 e 2001, o Brasil foi três vezes de joelhos ao FMI para dar conta de fechar as contas;

 A dívida pública foi dobrada no governo do FHC;

 E tem o PROER, HSBC, a “pasta cor de rosa”, “privataria tucana” etc;

É só ir aos jornalões da época, que os senhores hoje utilizam como seus meios preferidos: FOLHA, Estadão, Globo, está tudo lá!

O dia de ontem pode não ter mudado voto, mas a população compreendeu o que se passa no Brasil.

Dilma veio, olhou nos olhos de seus julgadores, e falou com a firmeza dos inocentes. Quem esperava uma Dilma cabisbaixa, triste, abatida, pedindo clemência, viu uma Dilma altiva, firme, segura e esperançosa. Ela não veio pedir clemência, isso pede quem é culpado. Ela veio pedir justiça. Alguns dizem que ela foi repetitiva, mas como não ser, se as perguntas eram as mesmas?

Senhoras senadoras, senhores senadores, alguém já disse que não é fácil pensar, é mais fácil julgar. Pensar exige olhar para si, antes de olhar para o outro. Olhando para dentro de nós é possível descobrir coisas que não queremos ver, nossos erros às vezes transformados em crimes, de tão graves que são. Eu peço a cada um e a cada uma que olhe para si antes de proferir seu voto.

Dispam-se de seus ressentimentos e façam Justiça, ou então que atire a primeira pedra quem não carrega nos ombros nenhuma culpa. Se o resultado for o afastamento da presidenta, este dia vai marcar a história como o dia em que a democracia no Brasil foi golpeada mais uma vez.

Para Dilma e para todos que defendem o seu mandato, dedico parte do poema de Mário Benedetti:

Não te rendas, por favor, não cedas,

Ainda queo frio queime,

Ainda que o medo morda,

Ainda que o sol se esconda,

E o vento se cale,

Ainda existe fogo na tua alma.

Ainda existe vida nos teus sonhos.

Meu voto é não, senhor presidente

.Assista ao vídeo: https://youtu.be/9hbku4enkP0