sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Nº 20.620 - "2016 – A longa duração de um ano de golpes"



30/12/2016


2016 – A longa duração de um ano de golpes



Por Bajonas Teixeira, colunista de política do Cafezinho

O ano de 2016, em seu sentido político marcante, apenas começou em 04 de março, isto é, no dia da condução coercitiva de Lula para depor no aeroporto de Congonhas. Em consequência desse ato do juiz Sérgio Moro, tendo às suas costas a cumplicidade de todo o Judiciário brasileiro (com a única exceção de Marco Aurélio de Mello, que depois se arrependeu amargamente), o país pareceu chegar à beira de uma guerra civil.
O primeiro ato, se esse ano pode ser lido como uma drama, foi a construção do golpe do impeachment, e o segundo, com Temer já na presidência, consistiu na destruição das conquistas sociais que vinham se acumulando, como resultado de lutas dos trabalhadores, desde a CLT de 1943. A tudo isso, a resistência oposta pelos setores populares, pelas forças ditas de esquerda, colidiu com sérios obstáculos.
Quanto ao primeiro ato, e no que diz respeito à luta, que é o que interessa à política, a situação da resistência foi curiosa. Nos blogs e nas redes de esquerda a crítica do golpe foi intensa, sobretudo uma espécie de militância digital, com o uso intensivo dos celulares, e uma frenética inserção nos conteúdos diretamente políticos. Já nas ruas a resistência foi raquítica, deixando uma sensação permanente de frustração. Não quer dizer que tenha sido pequena quando comparada com as manifestações da classe média em favor do impeachment, que, na verdade, não foram também lá grandes coisas. Mas houve uma diferença essencial.
Para os atos da classe média contra o governo Dilma, a mídia, em especial a Globo, produziu a ilusão ou a miragem de gigantescas manifestações de rua. Nisso, foi vital também a cumplicidade de PM que, já em 2015, em São Paulo, havia chegado a um certo confronto com o DataFolha, cujos números divergiram sensivelmente dos da corporação, quanto ao método de contagem dos manifestantes. Onde o DataFolha contava 210 mil, a PM contava 1 milhão, e os organizadores, o dobro ou mais que isso.
As manifestações pró-impeachment se tornavam reais e consistentes, criavam a sensação de vitória para a classe média, justamente pela narrativa que a elas a mídia e a PM emprestavam. Não só essas, mas outras instituições como o Judiciário e o Ministério Público foram vitais para construir o sucesso da ideia de “clamor das ruas em favor do impeachment”.
Por fim, o Congresso deu o aval final à farsa aprovando, com margem muito expressiva, todos os encaminhamentos do impeachment. Mas, aqui também, a cumplicidade do STF foi decisiva, tanto dando o tempo necessário para Eduardo Cunha agir quanto, posteriormente, rejeitando todos os questionamentos relativos à condução do processo na Câmara e no Senado. Por isso, a mídia, o Congresso e o STF foram identificados como agentes decisivos do golpe.
Deve-se observar que as manifestações do dia 13 de março, vistas como o marco divisório, e que teriam levado mais de 3 milhões de pessoas às ruas (números evidentemente inflados), superando as Diretas Já, foram induzidas artificialmente por Sérgio Moro, no evento de 04 de março da condução coercitiva de Lula que, como dissemos, abriu na política o ano de 2016. Do mesmo modo, tanto para sabotar a tomada de posse de Lula no ministério da Casa Civil quanto para neutralizar as manifestações pró-Dilma marcadas para 18 de março, Moro divulgou as conversas de Lula gravadas no dia 16 de março.
Tudo isso, começando em 04 de março, abriu períodos inteiros bastante específicos, que não podemos comentar aqui. Para citar um exemplo, março e abril foram meses de enorme proliferação de manifestos e notas em defesa da democracia e do estado de direito. Foram milhares de documentos que, hoje, estão praticamente esquecidos, como se datassem de outra época. Mas isso se deve à intensidade dos acontecimentos em 2016.
É ainda a longa duração desse ano que também faz com que, para a classe média anti-Lula e PT, enciumada e raivosa contra as políticas sociais, o ano tenha sido uma montanha russa. Na sua parte mais feliz, sentiu-se vitoriosa com o impeachment, e elevou sua arrogância às alturas. Mas sua lua de mel com o poder sofreu uma brusca reviravolta, com as políticas de Temer, da PEC 55 à reforma da Previdência. Nessa classe média, avança agora o sentimento de ter caído numa cilada, embora lhe falte os meios para dar expressão política a essa sensação de logro. O que só aumenta o risco de uma guinada (ainda maior) para o fascismo.
Deixando de lado os EUA e seus interesses geopolíticos, os grandes vitoriosos do ano de 2016 foram, como se torna a cada via mais evidente, a FIESP, com seu pato e seu diretor, que se descobriu dever quase sete bilhões de reais aos cofres públicos, a CNI, a FEBRABAN, o Agronegócio, as Federações de Comércio e a mídia. A grande vitória dessas elites, foi a destruição das bases democráticas que, ainda que de forma mínima e quase cosmética, ameaçavam mudar a cara de um país que, até pouco, era conhecido como o mais desigual do mundo.
Nesse retrocesso, no ano que começou em março e durou apenas dez meses, se desfaz o que parecia ser o fruto positivo da Nova República após três décadas. O país estranho e exótico, um monstro entre as nações, o último grande império a abolir a escravidão, e um país que, hoje, é recordista mundial em violência policial, refez o seu pacto de exclusão social.
No entanto, essas elites vitoriosas correm um sério risco: com o desmonte do sistema político operado pela Lava Jato, os diques que as mantinham seguras podem ser rompidos. Se as massas miseráveis brasileiras suportaram a desgraça com tanta resignação no passado, isso ocorreu antes de experimentarem o gostinho dos ganhos democráticos. Não é impossível que, em algum momento próximo, o conformismo dê lugar à revolta.
A tentativa da Globo, e dessas elites, de ganhar distância de Temer, e colocar um ponto final no seu governo, agora que o trabalho sujo está praticamente pronto, é fruto da percepção daquele risco.

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