sábado, 17 de dezembro de 2016

Nº 20.537 - "2016: o ano do golpe e do seu fracasso"

 

17/12/2016  

 

2016: o ano do golpe e do seu fracasso


 Emir Sader - 17 de Dezembro de 2016


Ueslei Marcelino/Reuters


Emir Sader
 

Foi um ano de sucesso para a direita brasileira. Seu longo projeto de tirar os governos do PT finalmente teve êxito. Terminou assim o mais importante período político da historia brasileira, com o mais extenso projeto de inclusão social em um pais marcado pelas suas profundas desigualdades ao longo de toda sua historia.

Outras tentativas similares haviam fracassado, desde a ameaça de apelar para o impeachment do Lula em 2005, de que recuaram com medo das reações populares; passando pelas eleições, perdidas pela oposição, de 2006, 2010 e 2014, até chegar ao projeto de desestabilização do segundo governo Dilma, que desembocou no golpe que a tirou do governo.

Esse foi, sem duvida, o maior fenômeno político do ano, pelas profundas consequências que trouxe, tanto na ruptura do processo democrático, quanto nas brutais medidas tomadas pelo governo para desmontar o Estado brasileiro, desfazer os direitos os sociais conquistados nesses anos, atacar os direitos dos trabalhadores e terminar com a política externa soberana que o Brasil havia adotado.

Mas, ao mesmo tempo, a rapidez do próprio processo de desmonte colocado em pratica pelo governo golpista permitiu que esse mesmo ano visse o fracasso do golpismo. Em que sentido se pode falar de fracasso, se ele está conseguindo realizar seus maiores objetivos, de que a PEC do teto para os recursos de políticas sociais é um eixo fundamental?

O projeto original do golpe pretendia isolar, desmoralizar, derrotar o governo da Dilma, e impor à esquerda e ao conjunto  do movimento popular uma derrota de proporções estratégicas, da qual a esquerda necessitaria muito tempo para se recompor. As acusações de corrupção, somadas às de uma suposta incompetência, pretendia tirar a esquerda do centro da cena política por muito tempo.

Temer anunciava sua pretensão de reunificar o pais, de recuperar a confiança na economia, de estabelecer um governo de dialogo com todas as forcas, de recuperação do crescimento da economia. Seu governo conseguiu avançar, em pouco tempo, medidas devastadoras para o patrimônio publico, que teve até aqui a Petrobras como sua vitima privilegiada. Valendo-se do enfraquecimento da empresa, pelas acusações de corrupção que a envolvem, buscam vender patrimônio publico, como se essa fosse a saída para recupera-la e como se a crise que a afeta fosse muito mais profunda do que realmente ela é.

Conseguiu avançar no corte drástico, e por muito tempo, de recursos para os programas sociais, enquanto preserva aqueles destinados ao pagamento dos juros da divida. Avança para cortar os direitos de aposentadoria dos trabalhadores, assim como para acentuar os processos de terceirização.

No plano externo, a ação do golpe tem sido devastadora para a imagem soberana da política externa que o Brasil assumiu desde 2003.

Com essas realizações, não se poderia dizer que o golpe deu certo? Que seus objetivos fundamentais estão sendo conseguidos?

Acontece que, antes de tudo, a esquerda, tanto seus partidos, quanto seus movimentos sociais, saíram certamente golpeados pelo fim dos governos surgidos em 2003, porem assimilam esses golpes e retomaram grandes processos de mobilização, recuperando as ruas para a esquerda, enquanto o governo se isola e se sente acossado o tempo todo por essas mobilizações.

O sucesso de um projeto tão profundamente restaurado e expropriador dos direitos da massa da população tem que apelar, cada vez mais, para a repressão, conforme sua agenda é exclusivamente negativa e antipopular. Esse fator isola ainda mais o governo, o expõe a índices ínfimos de popularidade, impede que o seu presidente possa, minimamente, circular pelo pais, além das situações de vexame que tem passado no plano internacional.

Apesar da reiteração das acusações de corrupção contra membros do PT e ao próprio Lula, este não foi afetado por nenhuma comprovação, enquanto elas passaram a chegar diretamente ao núcleo mesmo do governo e ao próprio Michel Temer. A estabilidade do governo e sua própria capacidade de continuidade ficam afetadas pela combinação dessas acusações e seus efeitos sobre ministros do governo, pelo aprofundamento da recessão, sem nenhum horizonte de recuperação econômica, pelo declínio ainda maior do apoio com que conta o governo e pelas iniciativas que visam substitui-lo dentro do próprio golpe.

Nada dos objetivos iniciais do golpe deu certo: nem a desmoralização prolongada da esquerda, nem a queda de popularidade do Lula, nem a reunificação do pais em torno do novo governo, nem a reconquista da confiança na economia, nem um clima de pacificação do pais. O governo avança no seu duro ajuste, mas pagando um preço caro pela natureza antipopular das medidas que toma diariamente. Não pode aparecer, nem sequer para o grande empresariado e pela a velha mídia, como um governo que enfrenta os grandes problemas do pais de forma vitoriosa. Seu desprestigio só aumenta, ninguém no pais confina no Temer. Sua sobrevivência no cargo se deve mais à inércia e às dificuldades de construir uma alternativa, sem ferir profundamente o bloco que se uniu no combate ao PT e a seus governos, mas que se revela incapaz de levar adiante seu projeto político original de forma coesa.

Dessa forma, 2017 se projeta como o quarto ano seguido de profundas instabilidades políticas, acompanhadas da maior crise social que o pais conhece em muito tempo. É difícil imaginar quanto pode durar o governo Temer, por que alternativa ele poderia ser substituído dentro do golpe, mas se pode prever, com certeza que as mobilizações sociais isolarão ainda mais o governo, a reivindicação de eleições direitas crescerá, o pais viverá situações de tensão e incerteza, ao mesmo tempo que o objetivo da perseguição política ao Lula terá alguma forma desenlace, que afetará profundamente o futuro do Brasil. 

 
Emir Sader. Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros...