quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Nº 19.675 - "Otimismo no governo Temer tem dias contados"

 

03/08/2016

 

Otimismo no governo Temer tem dias contados

 

 
 
 
 
Em entrevista no Sala de Visitas com Luis Nassif, analista de mercado prevê aumento da recessão em 2017
 
 
 
Jornal GGN – A política não é para distraídos, menos ainda a economia. O que explica, por exemplo, a resposta do mercado aos últimos acontecimentos do cenário político brasileiro? O mercado ignorou solenemente os esforços para um ajuste fiscal proposto pela equipe de Nelson Barbosa e da presidente afastada Dilma Rousseff e não reagiu.
 
Agora, mais recentemente, o mesmo mercado manteve um fluxo positivo, mesmo após o governo interino de Michel Temer anunciar a previsão de um déficit orçamentário de R$ 170,5 bilhões, um aumento, diga-se de passagem, R$ 66,7 bilhões superior ao déficit que Dilma havia proposto para o Congresso.
 
Em entrevista para Luis Nassif, no Sala de Visitas, o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, destaca que apesar de aparentemente ilógica, essas manifestações do mercado encontram explicações que não se limitam apenas aos números, indicando a necessidade de evitar a excessiva “matematização” dos processos econômicos.
 
Segundo Perfeito, o “otimismo excessivo” do mercado com o governo interino é muito mais decorrente da atual condição de liquidez do mercado mundial, que gera um efeito maior de riqueza, do que das primeiras ações da equipe de Temer e, ainda, que o mercado brasileiro não vai resistir ao resultado fiscal previsto para os próximos dois anos.
 
“Agora a inflação está caindo em comparação aos últimos 12 meses, mas se não começar a apresentar um resultado fiscal positivo, ou menos a inflação for bem mais ancorada, vai ocorrer a volta da inflação”, avaliou o economista .
 
André lembra também que, no período recente, ocorreu a melhora do nível de confiança de empresários e consumidores, mas essas variáveis não irão se sustentar por muito tempo.
 
“A ociosidade da indústria, medida pela CNI [Confederação Nacional das Indústrias], está em 77%, ou seja, 23% das máquinas estão paradas. O empresário pode estar otimista, mas ele só vai colocar um prego [em outras palavras investir favorecendo na criação de emprego] quando [a ociosidade] estiver em 90%”. Isto é, um nível de ociosidade que dificilmente será alcançado pela economia brasileira nos próximos dois anos.
 
“O otimismo do consumidor está subindo, é verdade, só que o desemprego nunca esteve tão alto e a massa salarial parou de subir”, acrescenta Perfeito. Os últimos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) mostram que a taxa de desemprego ficou em 11,3% no trimestre encerrado em julho, maior nível registrado desde 2012.
 
O cenário, portanto, aponta para a redução do consumo, queda nas vendas, maior ociosidade na produção industrial e, fechado ciclo, desemprego. Outro problema apontado por Perfeito é o que o mercado espera do governo. “O mercado está exigindo algo que o governo não irá conseguir entregar”, se referindo a uma série de medidas, nada populares, para tornar a situação fiscal do país mais saudável, dentre elas a reforma da previdência.
 
O analista aposta que o governo vai se esforçar para aplicar as medidas mais impopulares, mas isso a partir de 2017, passando os jogos Olímpicos e as eleições de outubro.
 
Ainda assim nem tudo o que o mercado espera o Estado brasileiro conseguirá entregar e se conseguir mexer em pontos sensíveis, como a previdência ou legislação trabalhista, apenas a custo de muito embate político.
 
Déficit fiscal  
 
Perfeito fez uma crítica à fixação dos economistas brasileiros de ressuscitar o país a partir de reformas fiscais. “A Rússia tem um déficit brutal, a média dos emergentes também, está aí o Chile que é um exemplo pro mundo com um déficit forte. Então se criou um estado de quase pânico na sociedade brasileira [sobre esse tema]”, destacando em seguida que a recessão enfrentada no Brasil não pode ser creditada somente às últimas decisões econômicas do governo Dilma.
 
“A crise econômica que a gente se meteu agora (...) é muito mais por conta do sucesso do Plano Real que jogou a sociedade para alguns desequilíbrios que a gente não estava acostumada. Isso gerou desconforto em vários seguimentos”.
 
Com a estabilidade da economia a partir do Plano Real o país se viu em condições de sustentar projetos para o crescimento de diversas áreas da economia, o que de fato ocorreu desde então. Mas salto produtivo e social ficou aquém do que poderia ter sido, na visão de Perfeito, porque a tradicional classe média brasileira teve medo de arriscar no crédito privado, preferindo ganhar na especulação da taxa de juros do país ou na compra de títulos públicos. 
 
 
Acompanhe a entrevista na íntegra, no programa Na Sala de Visitas com Luis Nassif.  
 
 

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