terça-feira, 13 de setembro de 2016

Nº 19.928 - " Eduardo Cunha assume ser campeão do impeachment sem mencionar pedaladas uma única vez; Silvio Costa lembra traição de aliados 'que tramaram na Rússia' "


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13/09/2016 

 

Eduardo Cunha assume ser campeão do impeachment sem mencionar pedaladas uma única vez; Silvio Costa lembra traição de aliados “que tramaram na Rússia”


Do Viomundo - 12 de setembro de 2016 às 23h52
 

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Da Redação

Criador das pautas-bombas que paralisaram as medidas econômicas de Dilma Rousseff quando a base parlamentar da petista já se desfazia e “mentor” do impeachment na Câmara, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) teve o mandato cassado na noite da segunda-feira 12 com 450 votos favoráveis e 10 votos contra. Houve 9 abstenções e 44 ausências.

Segundo a Agência Brasil, “os dez deputados que votaram contra a cassação de Cunha foram Carlos Marun (PMDB-MS), Paulo Pereira da Silva (SD-SP), Marco Feliciano (PSC-SP), Carlos Andrade (PHS-RR), Jozi Araújo (PTN-AP), Júlia Marinho (PSC-PA), Wellington (PR-PB), Arthur Lira (PP-AL), João Carlos Bacelar (PR-BA) e Dâmina Pereira (PSL-MG)”.

Já “os nove deputados que se abstiveram foram Laerte Bessa (PR-DF), Rôney Nemer (PP-DF), Alfredo Kaefer (PSL-PR), Nelson Meurer (PP-PR), Alberto Filho (PMDB-MA), André Moura (PSC-SE), Delegado Edson Moreira (PR-MG), Mauro Lopes (PMDB-MG) e Saraiva Felipe (PMDB-MG)”.

Foi um resultado muito diferente da noite do 17 de abril de 2016, quando, sob o comando de Cunha, a Câmara autorizou instauração do processo de impeachment de Dilma por 367 votos a 137 e sete abstenções.

O deputado Silvio Costa (PTdoB-PE) resumiu a noite: “Há alguns meses, Eduardo Cunha estava na Rússia, junto com parlamentares aliados do PSDB, PPS, DEM e PMDB, tramando o impeachment da presidente Dilma. Eu fui o primeiro a enfrentá-lo nesta Casa, neste plenário, quando a grande maioria o apoiava. Agora, vamos votar a sua cassação. Eu contei: só cinco apertaram a sua mão. Todos o abandonaram. Eu espero que o senhor Eduardo Cunha cumpra, depois de perder o mandato, o que prometeu: que iria derrubar dois presidentes e uma centena de deputados. Eu espero que ele comece pelo Michel Temer”.

Cunha estava de gravata amarela no plenário. Foi evitado pela maioria dos colegas. Teve o apoio solitário de Carlos Marun (PMDB-MS). O único outro deputado a falar em defesa dele foi Edson Moreira (PR-MG).

Morreu atirando. Em seu discurso, disse: “Por mais que o PT brigue, grite, chie e chore, esse criminoso Governo do qual vocês fazem parte foi embora. Graças à atividade que foi feita por mim, quando aceitei a abertura do processo de impeachment, e por esta Casa, quando o autorizou, afastando esse Governo corrupto do PT, afastando essa Presidente inidônea, essa Presidente que comandava o Governo de corrupção. Essa é que é a verdade. E esse processo de impeachment é que está gerando tudo isso”.

Assumiu ser o campeão do impeachment:  “Alguém tem dúvida de que se não fosse a minha atuação, teria havido processo de impeachment? Alguém tem dúvida de que se eu não houvesse autorizado, teria havido impeachment? Alguém tem dúvida de que se eu não tivesse conduzido a votação, teria havido impeachment? Alguém tem alguma dúvida disso aqui nesta Casa? Duvido, duvida que a tenham!”.

Escorou-se no antipetismo outra vez ao dizer que “estou pagando o preço de ter o meu mandato casado por ter dado a continuidade do processo de impeachment. Isso é público e notório! E ninguém vai conseguir tirar isso. É o preço que eu estou pagando para o Brasil ficar livre do PT. Essa é a grande verdade que está acontecendo”.

Chorou durante e no final de sua fala, mas em seu discurso não mencionou uma única vez as pedaladas fiscais, que foram o pretexto para derrubar Dilma Rousseff. De acusação à presidenta afastada, falou em financiamento da campanha por dinheiro do petrolão, o que não foi objeto do processo de impeachment.

Afastado preventivamente pelo STF desde maio, Cunha foi cassado por mentir à CPI da Petrobras, quando disse que não tinha contas no Exterior — o que foi provado posteriormente com farta documentação.

Porém, ele fez muito mais que isso. Enquanto exercia a presidência da Câmara, com apoio de muitos que hoje o condenaram, Cunha perseguiu adversários políticos, fez avançar uma agenda regressiva e catalisou as forças que finalmente derrubaram Dilma Rousseff. O PT sustenta que a abertura do processo foi vingança política depois que o partido foi chantageado mas se negou a apoiar Cunha no Conselho de Ética.

Ele foi eleito presidente da Câmara em fevereiro de 2015 com 267 votos, contra 136 de Arlindo Chinaglia (PT-SP), 100 de Júlio Delgado (PSB-MG) e 8 de Chico Alencar (PSOL-RJ). Houve duas abstenções.

Cunha foi o responsável pela guinada à direita do Centrão peemedebista. No exercício do poder, posou exuberante com líderes dos movimentos de rua que faziam campanha pela derrubada de Dilma, dentre os quais o hoje colunista da Folha Kim Kataguiri e o líder do Revoltados Online, Marcello Reis. Na mesma ocasião, recebeu o líder do PSDB Carlos Sampaio e o deputado Jair Bolsonaro. Uma faixa dizia: “O PSDB saúda a Marcha pela Liberdade. Vocês são exemplos de cidadania e esperança para um Brasil livre de corrupção”.

Agora, as atenções se voltam para possível delação premiada do deputado cassado.

“Eduardo Cunha mandou avisar a Michel Temer que, se não for salvo, leva com ele para o fundo do poço 150 deputados federais, um senador e um ministro próximo ao interino”, informou o Estadão em junho de 2016.

No famoso diálogo gravado entre o hoje presidente do PMDB, Romero Jucá, e o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, Cunha e o golpista Michel Temer aparecem várias vezes:
ROMERO JUCÁ – Eu ontem fui muito claro. […] Eu só acho o seguinte: com Dilma não dá, com a situação que está. Não adianta esse projeto de mandar o Lula para cá ser ministro, para tocar um gabinete, isso termina por jogar no chão a expectativa da economia. Porque se o Lula entrar, ele vai falar para a CUT, para o MST, é só quem ouve ele mais, quem dá algum crédito, o resto ninguém dá mais credito a ele para porra nenhuma. Concorda comigo? O Lula vai reunir ali com os setores empresariais?
MACHADO – Agora, ele acordou a militância do PT.
JUCÁ – Sim.
MACHADO – Aquele pessoal que resistiu acordou e vai dar merda.
JUCÁ – Eu acho que…
MACHADO – Tem que ter um impeachment.
JUCÁ – Tem que ter impeachment. Não tem saída.
MACHADO – E quem segurar, segura.
JUCÁ – Foi boa a conversa mas vamos ter outras pela frente.
MACHADO – Acontece o seguinte, objetivamente falando, com o negócio que o Supremo fez [autorizou prisões logo após decisões de segunda instância], vai todo mundo delatar.
JUCÁ – Exatamente, e vai sobrar muito. O Marcelo e a Odebrecht vão fazer.
MACHADO – Odebrecht vai fazer.
JUCÁ – Seletiva, mas vai fazer.
MACHADO – Queiroz [Galvão] não sei se vai fazer ou não. A Camargo [Corrêa] vai fazer ou não. Eu estou muito preocupado porque eu acho que… O Janot [procurador-geral da República] está a fim de pegar vocês. E acha que eu sou o caminho.
[…]
JUCÁ – Você tem que ver com seu advogado como é que a gente pode ajudar. […] Tem que ser política, advogado não encontra [inaudível]. Se é político, como é a política? Tem que resolver essa porra… Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria.
[…]
MACHADO – Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer].
JUCÁ – Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha’. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.
MACHADO – É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.
JUCÁ – Com o Supremo, com tudo.
MACHADO – Com tudo, aí parava tudo.
JUCÁ – É. Delimitava onde está, pronto.
[…]
MACHADO – O Renan [Calheiros] é totalmente ‘voador’. Ele ainda não compreendeu que a saída dele é o Michel e o Eduardo. Na hora que cassar o Eduardo, que ele tem ódio, o próximo alvo, principal, é ele. Então quanto mais vida, sobrevida, tiver o Eduardo, melhor pra ele. Ele não compreendeu isso não.
JUCÁ – Tem que ser um boi de piranha, pegar um cara, e a gente passar e resolver, chegar do outro lado da margem.

Não é apenas o presidente do Senado, Renan Calheiros, que acredita que “Michel é Eduardo Cunha”. O ex-ministro Ciro Gomes disse que ambos são íntimos em vários “negócios” (vídeo abaixo).

Por outro lado, analistas dos bastidores do Congresso dizem que a cassação de Cunha era parte essencial do “acordão nacional” a que Jucá e Machado se referem na conversa reproduzida acima. Cunha pode ser visto, inclusive, como o “boi de piranha” descrito por Jucá, que permitiria a Temer “chegar do outro lado da margem”. Isso, se ele não abrir a boca.



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