quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Nº 19.853 - "Não haverá normalidade com o governo golpista"

Não haverá normalidade com o governo golpista

 

Brasil 247 - 01/09/2016 

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 Emir Sader


Emir SaderDepois de ter atropelado todas as normas legais e constitucionais para dar um golpe; depois de derrubar uma presidente recém reeleita pelo voto popular; depois de começar a implementar o programa perdedor; os golpistas falam de normalidade.

A ditadura militar impôs a sua normalidade pelas baionetas e os tanques, a normalidade da ordem pela força. A que normalidade almejam os golpistas?

Prometem terror: duras medidas de ajuste que os salários dos trabalhadores, que recortam as políticas sociais, que ferem os direitos à aposentadoria, que rifam patrimônio nacional mediante as privatizações. No fim de todo esse doloroso processo, caso consigam colocá-lo em prática, para os que sobrevivessem, viria uma retomada do crescimento econômico.

Um governo que quer aplicar um duro ajuste fiscal numa economia já em recessão há alguns anos só pode aprofundá-la, sem controlar a inflação. Condenará o país, por muito tempo, à estagflação, o pior dos mundos: estagnação com inflação, com aumento exponencial do desemprego e arrocho salarial.

Que normalidade é possível com esse cenário? Tem ilusões o governo de que será saudado por algum setor da população com expectativas positivas ou apenas com o apoio dos setores de classe média que tudo o que queriam era a saída dos governos do PT, mas que não deixarão de ser atingidos pelas medidas impopulares do governo?

Já hoje, mais de 80% da população considera que o pais está num caminho equivocado, quando o cenário já está dado pela medidas do governo golpista, ainda sem todo o alcance do ajuste, por medo de perder votos no Senado. Mas já houve anúncios de cortes radicais no Bolsa Família, no Minha Casa, Minha Vida, por exemplo, que agora se transformarão em realidade.

Quando o ministro da economia diz que a Constituição não cabe no orçamento, ele não pensa ampliar o orçamento, como resultado do crescimento econômico, mas cortar direitos da Constituição que Ulysses Guimaraes chamou de Constituição cidadã, justamente porque afirmava direitos cassados pela ditadura.

Lula, ao contrário dos golpistas, havia incluído os pobres no orçamento, com o crescimento da economia expandindo o orçamento. Meirelles anuncia que o objetivo central do governo é o ajuste fiscal. FHC prometia o controle da inflação em troca do apoio ao ajuste. Este governo não tem nada a oferecer, só almeja o equilíbrio de contas publicas recortadas dos recursos para políticas sociais.

O presidente golpista prometia reunificar o país, mas só aprofundou as divisões, contando com um apoio irrisório da população. Prometeu, isto sim, ganhar a confiança dos empresários, com a qual contou sempre para os planos do golpe, mas estes exigem políticas de sacrifícios mais drásticos ainda da população, o que levará o governo golpista a perpetuar sua impopularidade.

A normalidade que espera os golpistas é a maior crise social que o pais já viveu, em meio a uma prolongada recessão, com mobilizações populares cotidianas na defesa dos interesses do povo, afetados diariamente pelas medidas que o novo governo anuncia. Um governo que vacilará e retrocederá por um lado, será pressionado pela mídia e pelos empresários para endurecer nos cortes e nos sofrimentos da população. Tudo isso em meio a um aumento da repressão, condimento indispensável para um programa antipopular de um governo sem legitimidade.

Não haverá normalidade no pais, enquanto o povo não voltar a eleger o presidente do pais pelo voto direto. Serão os anos mais conturbados da historia do Brasil, incomparáveis com o que vivemos até aqui, porque cotidianamente novos setores da população se darão conta de como seus direitos serão afetados pelas medidas do governo golpista, de como seus salários são recortados e como seus empregos estão em risco.

Um governo sem legitimidade, com um presidente medíocre, que ninguém respeita, com um programa antipopular, só pode tentar sobreviver pela repressão que, por sua vez, acionará a espiral de mais mobilização e mais isolamento do governo. E, como diz a afirmação clássica, se pode fazer tudo com as baionetas, menos sentar-se em cima delas. Porque um governo não pode pretender se sustentar na base da repressão, ainda menos depois que, durante mais de uma década, o povo se deu conta dos direitos que tem, reconhecidos por governos eleitos pelo voto popular.

Não haverá normalidade para o governo golpista, nem no âmbito dos que até aqui o apoiam, menos ainda do lado da grande maioria da população, vítima das suas políticas.