domingo, 11 de setembro de 2016

Nº 19.917 - "Michel Temer e o drama barato de um governo ordinário"



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11/09/2016 

 

Michel Temer e o drama barato de um governo ordinário

 


Brasília - DF, 27/06/2016. Presidente em Exercício Michel Temer durante reunião com ministros do Núcleo de Infraestrutura e Líderes do governo. Foto: Marcos Corrêa/PR
 
(Foto: Marcos Corrêa)

Por Bajonas Teixeira, colunista de política do Cafezinho

O drama barato de um governo ordinário não seria assunto se não nos afetasse diretamente. Mas, desde que estamos submetidos a ele, não podemos deixar sua lama passar em brancas nuvens.

Nenhuma empresa empregaria um membro do governo Temer como office boy para fazer pagamentos e saques em agências bancárias. No entanto, eles estão governando o Brasil. Com destaque em seu ministério, está a sorumbática figura de José Serra que, entre outras muitas façanhas, foi condenado a devolver três bilhões (dinheiro público torrado para salvar bancos em dezembro de 1994) aos cofres públicos, condenação que Gilmar Mendes arquivou em 2008. O MP recorreu e, depois de quase uma década consumida, o STF reabriu agora (março de 2016) o processo.

É curioso pensar que, em contraste com isso, isto é, com esses três bilhões dilapidados, a Justiça brasileira promove uma caçada sanguinária contra Lula por um pedalinho. Pedalinhos e pedaladas, as duas armadas brandidas contra Lula e Dilma. Eis, o retrato de um país de psicopatas.

Serra é um exemplo da servidão voluntária ao grande capital que tomou o poder com o governo Temer. Não se trata, porém, de uma modalidade normal de subserviência mas de uma forma extrema de rebaixamento. São políticos que não vislumbram nenhum futuro (que carreira política um Serra ou um Temer ainda poderiam esperar do futuro?) e que sentem que estão diante da grande oportunidade. É agora ou nunca. Para abrir todas as portas das negociatas, tem que contar com a retaguarda segura, isto é, com as elites do dinheiro e com a mídia satisfeitas.

E como satisfazê-las? Detonando toda a estrutura de garantias do trabalho, implodindo os salários dos aposentados, criando dificuldades para os que poderiam se aposentar, aumentando a duração da jornada de trabalho diária, ‘flexibilizando’ os direitos dos trabalhadores e aumentando o poder arbitrário dos patrões. Claro que, além disso, irão também perseguir os movimentos sociais e detonar as políticas públicas de alcance social.

Feito isso, recebem carta branca para os projetos de saque, de queima de riquezas nacionais, de privatização, venda de terras nacionais a estrangeiros, legalização do jogo, etc. Primeiro, portanto, as elites querem o massacre do mundo do trabalho e, em seguida, liberam a implementação das políticas conduzidas por Moreira Franco, braço direito de Temer, que, segundo a Folha, o próprio FHC dizia que não podia ter cargo que tivesse cofre.

Michel Temer, segundo a revista Época, elevará em breve Moreira Franco à categoria de Ministro de Estado. É preciso dar a ele um status compatível com suas atribuições.

A grande dificuldade desse governo é que ao estender as mãos contra os direitos dos trabalhadores, atrai para si vaias ensurdecedoras como as da abertura das Paraolimpíadas. E aí, sem ter segurança para atropelar as reações (dos sindicatos, dos movimentos sociais, da opinião pública, e até da parte da classe média que começa a levantar suspeitas contra ele),  se vê obrigado a desmentir-se e a valer-se de desculpas esfarrapadas.

Isso acontece porque além de vil, submisso e subserviente, o governo Temer é o mais fraco da história brasileira, não tem consistência interna, apoios efetivos e sólidos, nada que lhe dê a mínima ossatura. E muitos são os sinais, na mídia e entre as lideranças empresariais, de que as próprias elites, que procura adular a todo custo, guardam profundo desprezo por ele.

A ironia da história é que os protestos pró-impeachment, que levou multidões de zumbis a se prosternarem diante do templo da FIESP, deu origem, como não podia deixar de ser, a um governo de mortos vivos. E, a cada dia que passa, mais de mortos do que vivos.

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